CABELOS [Edição 64]

 

Me-ni-nas! Parem com isso, larguem os cabelos umas das outras! Basta eu me virar para o quadro-negro para se formar às minhas costas uma turbamulta de moçoilas se puxando mutuamente os apêndices capilares. E o meninos, que deveriam agir como cavalheiros e apartá-las, ficam só olhando, se divertindo e dando risadas, olha aí!

Nem quero saber por que foi que a presente guerra começou entre vocês; larguem umas das outras, ajeitem-se e vamos ouvir um pouco de Etimologia, que só assim vocês se aquietam.

Para começar, cabelo vem do Latim capillus, “cabelo” mesmo, que deve se relacionar a caput, “cabeça”, que é onde costuma estar o dito cujo.

Existe uma coisa chamada capilé, que pode ser um suco de avenca ou, mais genericamente, um refresco de frutas, ou mesmo um tipo de bebida alcoólica.

Pois esse nome, apesar de ter esse som tão africano, é do Latim: veio do Francês capillaire, “suco feito com a capilária, um tipo de avenca, que deriva de capillum por lembrar uma cabeleira.

Seja como for, Tia Odete recomenda fortemente vocês a não tentarem fazer caldos e sucos de nenhuma planta. Uma assustadora percentagem delas é tóxica e eu não quero ter que comparecer a nenhum enterro.

Não preciso explicar que cabeleira vem de “cabelo”, imagino eu. Sei que vocês são mais inteligentes do que parecem.

Mas esta palavra tem um sinônimo pouco conhecido, coma.

Não ouvi, pode repetir, Valzinha? Sim, o seu vizinho de condomínio está em coma desde que o marido da vizinha que ele visitava todos os dias quando ficava sozinha para fazer massagens nas costas desconfiou do bem-estar que ela apresentava ultimamente, chegou mais cedo em casa e os pegou em plena massagem…

Tá bem, tá bem, mas você se refere a outra palavra, que vem do Grego kôma, “sono profundo”.

E favor não falar mais nessas coisas que estão sempre acontecendo com seus vizinhos. De minha parte acho que os seus pais deveriam se mudar de lá.

Coma, sinônimo de “cabeleira”, vem do Latim coma, do Grego kóme, “cabeleira” mesmo.

Há uma bonita história sobre uma coma. A rainha do Egito, Berenice II, prometeu dedicar à deusa Afrodite o seu cabelo se seu marido, Ptolomeu II, voltasse sem danos de uma batalha.

Tendo ocorrido isso, ela cumpriu o prometido, cortou o  cabelo e o colocou no altar da deusa.

No dia seguinte, o cabelo tinha desaparecido e o astrônomo real apontava o surgimento de uma nova constelação no céu, que até hoje se chama Coma Berenices, “a cabeleira de Berenice”. Não é bonita a história?

Se foi verdade mesmo? Bem, a alternativa é que algum puxa-saco da Corte tenha dado sumiço nos cabelos, falado com o Astrônomo e inventado a história para deixar o casal real contente e com tendências à generosidade. O fato é que a constelação já existia, era a cauda do Leão.

E essa não a única ocorrência dos cabelos na Astronomia. Sabem os cometas, aqueles que quando vão aparecer prometem ser espetaculares e depois acabam sendo umas mixarias mal visíveis? Pois o halo de poeira e vapor que eles soltam e que os torna visíveis se chama coma, na parte situada junto ao núcleo. É como se fosse os cabelos soltos ao vento solar desse corpo celeste.

Não é lindo também?

Quando da conquista romana, uma parte de Gália era chamada Gallia comata, “Gália cabeluda”, pelo hábito de seus habitantes de usarem cabelos longos.

Mas esses apêndices da pele podem ser chamado também de pelos, do Latim pilus, provavelmente derivado de capillus.

Quando uma pessoa não tem lá muito cabelo, ela recorre à peruca. Este nome vem do Italiano parrucca, que se supõe que seja um cruzamento de pelo, “cabelo”, mais zucca, “abóbora”, também servindo para “cabeça”. Mas não assino embaixo, pois há controvérsias.

Esta comparação é boa, pois muitas pessoas não têm conteúdo que valha mais do que o de uma abóbora em seu crânio.

E o cabelo pode ser classificado como liso, do Latim lisius, “sem aspereza, liso”. Pode ser crespo, do Latim crispus, “ondulado, retorcido”. Ou ondulado mesmo, do Latim unda, “onda”, sendo que muito machos naufragaram neste tipo de onda sem água.

Pode ser louro, do Latim laurus, “da cor das folhas secas do loureiro”, castanho, da cor da castanha, que veio do Latim castanea, , o nome do fruto de cor amarronzada e pode ainda ter qualquer cor que se imponha à vontade da dona e exista na farmácia.

E agora, que as meninas perderam apenas uns poucos chumaços das suas comas e terminou a aulinha, vão todos para casa e cuidem bem dos seus cabelos.

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