FRANGO [Edição 114]

 

–  Olá, Vô, como é que um frango faz para brilhar?

Em sua poltrona de couro escuro, o esguio cavalheiro com curta barba branca e olhos claros me olhou com ar de espanto:

–  E esta agora, meu jovem? Espere um pouco que vou chamar o pessoal do Manicômio para o levarem. Mas não se preocupe, em três ou quatro anos você melhora e sai de lá.

–  Nada disso, Vô. É que eu li em algum lugar a expressão fulgura frango e como o senhor uma vez me ensinou que esse verbo quer dizer “brilhar, emitir luz”, vim saber se eles são inflamáveis ou geram energia nuclear ou…

–  Pare, pare antes que eu sofra um infarto. Sente-se aqui que já percebi o seu problema.

Preste atenção: essa frase não é em Português e sim em Latim. Não quer dizer “brilha o frango” mas sim “parto, rompo os raios” e era uma frase muitas vezes escrita em sinos, que eram tocados para afugentar os raios numa tempestade, Aqui, fulgura é o plural para “raio” e frango quer dizer “parto, arrebento, rompo”, do verbo frangere. .

–  E dava certo, Vô?

–  Claro que não, mas nem por isso o pessoal  antigo deixava de badalar seus sinos.

–  Muito bem, mas qual é a origem do tal frango?

–  Não se sabe ao certo. Existe a hipótese de que venha de frangere porque a carne dessa ave era considerada mais macia para comer.

Essa palavra tem origem numa fonte Indo-Europeia bhreg-, “quebrar, partir”. Temos hoje muitas descendentes dela em nosso idioma.

–  Eu frango, tu frangas, ele franga…

– Quieto, animalzinho; esse verbo não existe. Mas, por exemplo, temos fragmento, de fragmentum, “resto, remanescente, pedaço de coisa quebrada”, desse frangere.

–  Parece que mudou bastante até.

–  Espere até saber de naufrágio então.

–  Essa não!

–  Essa sim; veio de nau, “barco, navio”, mais fragus “o que quebra”. Se o seu barco quebrar você vira um náufrago.

E, já que falei em fragmento, podemos falar em fração. Vem do Latim fractio, “aquilo que é partido, quebrado”, de frangere.

Temos também fractal, o nome dado a certas figuras geométricas ou físicas que apresentam as mesmas características em qualquer escala. Foi inventada em 1975 por um matemático francês e cunhada a partir do Latim fractus, “quebrado, desparelho”, de…

–   Frangere!

–  Muito bem, não esperava que você tivesse aprendido alguma coisa.

–  Viu só, não sou propriamente um fracasso… ei, vai me dizer que esta também deriva de nosso frango?

– Ele deriva de uma mistura feita no Italiano das palavras latinas frangere e quassare. E esta é uma alteração de quatere,  “sacudir, chacoalhar, bater”,  por extensão “ameaçar,  quebrar”.

Falando em quebrar, frágil também é da família; vem do Latim fragilitas, “propenso a quebrar, frágil”, relacionado a frangere.

–  Essa também se apresenta bem diferente.

–  Olhe só para saxífraga, uma planta que cresce em rochas. Veio do Latim saxum, “pedra, rocha”, mais fragus. Tem a fama de quebrar pedras.

–  E quebra mesmo?

–  Não. Mas há muito tempo se faz chá de saxífraga, ou “quebra-pedra”, para usar no caso de cálculos renais, ou pedras nos rins, como diz o povo.

Não adianta coisa alguma, mas dá para entender a analogia: se ela nasce nas pedras, é porque as quebra para crescer; se as quebra vou tomar para aliviar minha doença.

–  Melhor ir consultar, né?

–  Verdade. E agora colherei a ocasião para citar a ossífraga, ou águia-marinha, cujo nome vem do Latim ossus, “osso”, mais fragus.

–  Ela quebra ossos mesmo?

–  Quebra. Ela agarra ossos que sobraram do ataque de outros animais, alça vôo com eles e os deixa cair sobre as rochas, partindo-os para depois fazer a sua refeição. É muito grande e chega a pegar animais como filhotes de herbívoros.

–  Que medo…

–  Medo você tem que ter é de não estudar. Isso é mais perigoso do que ser apanhado por uma águia faminta.

Acabo de me lembrar de mais uma: sufrágio. Veio do Latim suffragium, “apoio, voto, direito ao voto”,  de sub-, “sob, debaixo”, mais fragor, “ruído, gritaria (no caso, de aprovação)”, relacionado a frangere.

E infração vem do Latim infractio, “quebra, ruptura, enfraquecimento”, de infringere, “quebrar”, de in-, “em”, mais frangere. Já refração, “mudança de direção de uma onda”, vem de re-, “para trás, de volta”, mais frangere.

Bem, aí está o seu frango, meu rapaz. Agora chega de aprender, vamos nos dedicar um pouco ao descanso.

 

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