GRACIOSOS II [Edição 67]

 

Muito bem, crianças, na última aulinha a gente estava debulhando as origens das palavras que se aplicam a certas pessoas metidas a fazer graça com os outros.

Infelizmente essa característica existe em grande quantidade entre meus alunos, com conseqüências bem ruins para minha sanidade mental.

Uma dessas palavras é jovial, “alegre, contente, folgazão”.  Ela tem uma origem interessante: vem do Latim Jovis, outro nome que se usava para Júpiter, o pai dos deuses na mitologia romana.

Acontece que, naquelas épocas, vejam só, se acreditava em Astrologia. E esta dizia que quem nascia sob o signo do planeta Júpiter era alegre e bem-humorado: jovial, portanto.

Uma correção: essa barbaridade não ocorria só naquelas épocas em que a Ciência estava longe de estar no nível atual.

Nos dias de hoje ainda há quem acredite que a posição das estrelas faça diferença para um ser humano.

Um sujeito que faz aprontações para se divertir à custa alheia também pode ser chamado de gozador. A origem deste adjetivo é o Latim gaudere, “satisfação, alegria”.

Temos em pleno uso, se bem que pendendo para o culto,  a palavra gáudio para “alegria” e “regozijo”, com o mesmo sentido e mesma origem.

Quando se exagera numa atividade dessas, pode-se dizer que se chegou às raias do burlesco, que é uma gozação com tintas puxando para o grotesco ou a paródia debochada.

Essa palavra aparentemente veio do Latim burra, “coisa insignificante, bagatela”, mas não há certeza absoluta. O que dá é para dizer que burlar, além de querer dizer “brincadeira, gracejo”, se usa para expressar a noção de “artifício, golpe, embuste”.

Em termos de “piada, facécia” temos o chiste, do Espanhol chiste, “piada”, originalmente “piada suja”, daquelas que o Joãozinho, que está ali muito quieto, gosta de contar para as meninas inocentes no recreio. Deriva de uma onomatopéia  –  palavra que imita algum som  –  chist, usada para chamar uma pessoa.

Quando eu tinha dinheiro para ir a restaurantes, lembro-me que não adiantava dizer chist para os garçons, que eles não ouviam. Agora nem sei como andam as coisas.

Falando em piada, esta viria de “piar”, de “pio”, o som das aves. Seria porque as pessoas riem depois, se tinham graça? Seria uma piada com a posteridade? Não sei dizer e não adianta vocês resmungarem comigo, que pelo que eu ganho para sofrer nas mãos de vocês até que estou ensinando muito!

Muitas vezes quem faz alguma brincadeira à custa dos outros fica sorridente; isto vem do Latim subridere, “sorrir”, feito de sub-, “abaixo”, mais ridere, “rir”. É como uma gradação inferior de rir.

Quem revela alegria e jovialidade pode ser dito também gaiato. Esta vem do Francês arcaico gai, “alegre, agradável”, possivelmente do Frâncico gahi.

E o pândego? Não tem origem certa; há quem diga que vem de uma suposta palavra latina panticare, “encher a barriga”, de pantex, “pança, barriga”, ocasião em que as pessoas podem ficar alegres e expandir o seu contentamento.

E acabar se metendo em brigas homéricas também. Não por causa da comida, mas pelo consumo do álcool. As pessoas às vezes acreditam que, se não houver bebida, não há festa.

Outra palavra para designar uma pessoa divertida é espirituoso, que vem de “espírito” no sentido de “vivacidade mental, boa disposição”. Claro que todos sabem que “espírito” vem do Latim spiritus, “alma, coragem, vigor, respiração”, relacionado a spirare, “respirar”.

Esta informação nada tem a ver com o sobrenatural ou o religioso,  de modo que nada de choradeiras nem pesadelos esta noite.

Um sujeito espirituoso muitas vezes faz gracejos, palavra  derivada de “graça”, do Latim gratia, de que já falei na aula passada.

Quando ele quer incomodar alguém, pode debochar dessa pessoa. Esta palavra deriva do Francês débaucher, de ébaucher, “desbastar troncos para fazer vigas”. A partir daí passou a ser usado para dizer “afastar alguém do seu dever”, que é o significado atual em Francês e em Inglês.

Em nosso idioma o sentido acabou se fixando nas consequências de não se cumprir o dever, pelo lado da libertinagem e devassidão.

Como está na hora de encerrarmos o tempo dedicado ao nosso dever de ensinar a aprender, não quero ser acusada de debochar vocês.

Portanto, agora todos vão para casa bonitinhos e vão ser engraçadinhos com os papais e mamães, que a Tia Odete aqui está muito cansada.

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