QUILO [Edição 98]

 

Cheguei à porta do gabinete de meu avô, no fundo do pátio cheio de vegetação:

– Salve, meu antepassado! Vim ver se o senhor está ainda respirando, nunca se sabe.

O velho esbelto, de olhos claros e barba branca bem cuidada me olhou com desdém:

– Ainda estou e vou me manter assim por muito tempo, para desgraça de certos descendentes que terão que agüentar minha sábia presença mais do que desejariam.

Era sempre assim: nós nos queríamos tanto que éramos livres para nos destratar mutuamente.

– Muito bem, acabei de entregar para a Vó alguns quilos de coisas que ela me pediu para comprar no supermercado e aproveitei par lhe dizer olá.

Ele me olhou com jeito malicioso:

– Conferiu direitinho o peso?

– O senhor está com jeito de ter algo para me ensinar, estou certo?

– Está.

Acomodei-me no banco que eu conhecia tão bem desde a infância e disse:

– Qual é a patranha desta vez?

– Criatura ingrata, vou tentar iluminar sua mente vacilante e você diz isso. Mas o caso é com o quilo mesmo.

Esta palavrinha é simplesmente um encurtamento de quilograma, “mil gramas”, pois kilo em Grego quer dizer “mil”.

– Essa eu já sabia, Vô, não tem nada novo para contar?

– Nesse caso, você já sabe que houve um momento, no fim do século XVIII, em que a Ciência percebeu que havia necessidade premente de padronizar pesos e medidas, pois o comércio já não conseguia mais lidar com as arrobas, pés, léguas onças e outras medidas que variavam de país para país e até mesmo dentro destes. Experiências científicas não podiam ser repetidas em lugares diferentes devido às diferenças entre as unidades, a confusão estava trazendo muitos prejuízos.

– E aí…?

– Fez-se uma Conferência Geral sobre Pesos e Medidas na França, em 1889, isso depois de quase um século de discussão sobre o assunto. Claro que se falou em outras coisas, mas agora vou lidar apenas com a unidade de medida de massa.

Esta foi definida em 1795 como o grama, que é o peso de um centímetro cúbico de água à temperatura de fusão; por consequência, um quilo tem mil gramas.

– Ei, a tal Conferência foi em 1889 mas o peso foi definido muito antes? Como assim?

– A Conferência oficializou para o mundo inteiro a medida. Esta já estava definida bem antes.

Mas não me atrapalhe, senão eu não vou contar que, a partir disso, foi feito o quilograma-padrão em platino-irídio. É um objeto pequeno, de formato que lembra um cilindro, com menos de quatro centímetros em cada dimensão.

– Desse tamanhinho e pesa um quilo?

– Sim; a platina é um metal muito denso. Um cubo de dez centímetros de lado dela pesa 23 quilos.

Bem, a partir dele foram feitos mais uns cem, no mesmo material ou em aço inoxidável, para uso como padrão em outros países. Há seis deles em Paris, para comparação com o primeiro.

O que poucos sabem é que este se encontra num cofre seguríssimo, abaixo do Bureau International de Poids et Mesures, o Escritório Internacional de Pesos e Medidas.

Ele está coberto por três campânulas de vidro; a porta do cofre tem três fechaduras além do mecanismo de segurança. Só duas das chaves se encontram na França; a outra tem que vir do exterior sempre que necessário.

E aqui a coisa se complica ainda mais: periodicamente, um cientista é designado por um país para levar pessoalmente, na bagagem de mão, o padrão local para avaliação no Escritório.

E isso é feito com extremo cuidado. Não vou nem dizer que uma impressão digital já faria diferença. Até a pressão do ar precisa ser levada em conta na hora da aferição.

– Uau, Vô, isso dá um roteiro de filme! Imagine os bandidos roubando o peso do cientista, que casualmente sabe tudo sobre defesa pessoal e armas e tem uma assistente muito bonita e que…

– Não duvido, meu rapaz, que Hollywood qualquer dia nos apresente uma história dessas. Mas guarde sua imaginação e fique sabendo que os pesos regressam aos seus países acompanhados de um número, que representa a diferença que foi encontrada entre eles e o padrão.

A partir daí os instrumentos científicos e industriais serão calibrados para manter a precisão.

– Bárbaro, Vô! Isto é muito interessante!

– Fica mais ainda, pois há mistério envolvido. Recentemente se descobriu que o quilograma-padrão e os derivados dele estão emagrecendo. Seu peso está diminuindo.

– Já sei! Algum bandido conseguiu se desmaterializar, entrou no cofre e destacou uma lasca com a sua faca de Rambo, para vender para algum colecionador malvado e multitrilionário!

– Se você usasse nos estudos essa capacidade teria notas melhores.

O que está ocorrendo é que se detectou uma diferença de pelo menos 60 microgramas, um centésimo do peso de uma formiga.

– Mas isso é tão pouco…

– Pouco para você, seu despreparado, mas enorme para fins científicos e comerciais que abrangem o mundo todo.

– E afinal o que está acontecendo?

– Não se sabe ao certo; alguns teorizam que certa quantidade de gás tenha ficado dentro do material quando da sua confecção e que ela esteja lentamente escapando nestes 125 anos de existência desses padrões.

Outros pensam que possa se tratar de contaminação e absorção do mercúrio usado na limpeza.

–  Bem, e agora vão fazer o que?

– Em 2018 vai haver uma conferência sobre o assunto. Até lá serão estudadas alternativas, com as esferas de Avogadro, que são bolas de silicone de extrema regularidade.

Outra tentativa é a de usar uma balança de Watt, que lida fazendo correlações entre massa, campo magnético e corrente elétrica.

Estas informações eu retirei da revista The Economist de setembro/outubro de 2014. Vamos ter que esperar mais uns poucos anos para ver o que ela nos diz sobre a decisão final.

Agora vá para casa escrever o roteiro do seu grande filme de aventura. E me dê dez por cento dos lucros depois.

 

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