TIA ODETE VAI AOS CORREIOS [Edição 59]

  

 Boa tarde, caro senhor. Por acaso poderia me dizer onde fica a agência dos Correios? Ah, bem aqui em frente, veja só. Na verdade eu já sabia, mas foi a maneira que encontrei para fazer contato e lhe dizer que essa palavra veio do Espanhol correo, que por sua vez veio do Provençal corrieu, “mensageiro”, do Latim currere, “deslocar-se rapidamente, correr”.

Muito obrigado pela informação. Agora vou subir essa alterosa escadaria e entrar… ah, como é que eu me afastaria de tão gentil pessoa sem contar que correspondência, aquilo que é transportado pelos correios, não tem a mesma origem?

Essa palavra deriva do Latim correspondere, que originalmente queria dizer “estar em harmonia, em concordância com”, e era formada por com-, “junto”, mais respondere, “responder”. Foi só no século XVII que ela começou a ter também o sentido de “comunicar-se através de cartas”.

Novamente agradeço sua gentileza e vou subindo… subindo…

Boa tarde, meu senhor! O senhor pode me informar se aqui é a agência dos Correios? É mesmo? Certeza absoluta? Bem que eu desconfiava. Para retribuir a sua polidez, vou colher a ocasião e lhe ensinar que a palavra  carteiro, pessoa fundamental para este serviço, vem de carta, do Latim charta, “folha de papel”, inicialmente “folha de papiro”. 

Em Grego se dizia khartes, “folha de papiro”, provavelmente de origem egípcia.

Pelo ar ligeiramente abobalhado que o senhor apresenta perante estas informações posso ver que um pouco mais de cultura lhe faria bem.

Destarte, vou contar que aquilo que costuma acompanhar uma carta se chama envelope porque o nomezinho veio do Francês enveloppe, derivado do verbo envelopper, “dobrar, recobrir, revestir”, formado por em-, “em”, mais o Francês arcaico voloper, “envolver”, provavelmente de origem celta.

Outra coisa que acompanha uma carta e sem a qual ela não anda é o selo, cuja origem é o Latim sigillum, “pequena figura, figura entalhada, sinal”, diminutivo de signum, “marca, sinal”.

Outrossim, meu senhor, veja que os sinais de trânsito e os selos aqui vendidos têm a mesma origem, não é coisa de louco?

Não vá se confundir e tentar colocar uma placa de trânsito numa de suas cartas. Ah, ah, essa é boa, não é mesmo?

Nossa conversa está muito animada. Mas, por mais que me doa me despedir de tão interessante interlocutor, vou entrar na fila para comprar meu selinho.

Boa tarde, minha senhora, que está colocada logo à minha frente, a senhora também está aqui para postagem de cartas, conforme deduzo das cartas sem selo que a senhora leva na mão.

Eu também, mas não pense que sou uma velhinha antiquada, não. Sou professora, comunico-me muito por computador, mas esta correspondência vai para minha tia Eufrásia, que ainda não entrou na era digital.

Já que ambas vamos postar cartas, não será demais lembrar que essa palavra veio do verbo latino ponere, “colocar, pôr”, que virou depois postum, “local designado a uma pessoa para cumprir um dever”, “estação de muda de cavalos de tração de veículos”, por onde passava também a correspondência.

Vejo que seu olhar, espantado, vagueia ao redor. Pode ser que a senhora esteja procurando alguém para perguntar a origem de outra palavra relacionada, como mensagem. Não precisa procurar, já achou.

Modestamente devo dizer que ensino Etimologia para crianças de Maternal numa escolinha e que os pequenos demônios aprendem um bocado comigo.

Portanto, estou credenciada e apta a lhe dizer que a palavra que eu pensei que a senhora pensou veio do Latim medieval missaticum, de missus, particípio passado de mittere, “enviar, lançar”.

Veja como isso reflete a realidade, pois uma mensagem é sempre enviada para lugares que não podemos alcançar com a voz nem com sinais de bandeiras.

E se a senhora pensou que há aí uma estranha semelhança com a missa, saiba que não é estranha nem coincidência. Esta veio da frase latina dita no finzinho dessa cerimônia religiosa, Ite, missa est, ou seja, “ide, estão enviadas” – no caso, as vossas orações.

Boa tarde, meu caro jovem que se coloca atrás de mim nesta fila! Pela sua idade percebo que você deve ser um dos incluídos digitais desde criancinha. Mas já pensou o que quer dizer e-mail, isso que você envia todos os dias para combinar onde vai encontrar os amigos naquela noite para beberem até cair e ficar com amnésia e dizer que acharam muito bom?

Essa palavrinha foi criada em 1982 e é um encurtamento do Inglês electronic mail, “correio eletrônico”, já que nossa mensagem é transmitida por ares e mares através dessa impalpável via.

Ela transita pelos caminhos da Internet, palavra que você usa, aposto, sem se lembrar que vem de inter, “entre”, mais o Inglês network, usado em relação a computadores desde 1972. Mas não pense que a palavra é nova, não; já em 1560 ela era usada.

Claro que não em relação a computadores, ah, ah, essa é boa, não senhora à minha frente na fila?… Ué, ela passou para aquela outra fila lá adiante, bem maior do que esta, por que será?

Bem, ela deve ter seus motivos.

Mas eu ia lhe dizendo, meu caro jovem, que inicialmente network se usava para designar qualquer entrelaçamento – net, “teia” – de fios ou material semelhante, como, digamos uma rede de canais se apresentaria num mapa.  Depois o significado se estendeu para outras coisas.

Ah, você teve uma súbita vontade de ir ao dentista? É uma pena, meu jovem, pois esta nossa conversa estava ficando muito interessante.

Boa tarde, senhora funcionária! Por favor, gostaria de comprar selos para esta cartinha e aproveitar para lembrar que antigamente, quando a gente tinha pressa, em vez de enviar uma carta usava o telegrama, que era mais caro, mas muito mais rápido, e que assim se chamou a partir de uma palavra inventada em 1852, formada pelo Grego tele-, “longe”, mais gramma, “letra do alfabeto”, da mesma raiz de graphein, “desenhar, escrever”.

Portanto, a gráfica que imprime os folhetos de duvidosa utilidade que são distribuídos nas ruas e o telegrama que seus pais enviavam têm a mesma origem. O que é a Natureza, não?

Obrigada pelo selo, mas preciso pagar! Ah, é cortesia da casa e a senhora está atrasada para o almoço? Bem, muito obrigada então, mas não era necessário…

Puxa, ela almoça recém às quatro da tarde. Deve ser por isso que saiu correndo desse jeito, há de estar com muita fome, coitadinha da moça.

Boa tarde, meu senhor! Pode me informar se esta é a porta de saída desta agência?…

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