Palavra cabeleira

CABELOS

 

Me-ni-nas! Parem com isso, larguem os cabelos umas das outras! Basta eu me virar para o quadro-negro para se formar às minhas costas uma turbamulta de moçoilas se puxando mutuamente os apêndices capilares. E o meninos, que deveriam agir como cavalheiros e apartá-las, ficam só olhando, se divertindo e dando risadas, olha aí!

Nem quero saber por que foi que a presente guerra começou entre vocês; larguem umas das outras, ajeitem-se e vamos ouvir um pouco de Etimologia, que só assim vocês se aquietam.

Para começar, cabelo vem do Latim capillus, “cabelo” mesmo, que deve se relacionar a caput, “cabeça”, que é onde costuma estar o dito cujo.

Existe uma coisa chamada capilé, que pode ser um suco de avenca ou, mais genericamente, um refresco de frutas, ou mesmo um tipo de bebida alcoólica.

Pois esse nome, apesar de ter esse som tão africano, é do Latim: veio do Francês capillaire, “suco feito com a capilária, um tipo de avenca, que deriva de capillum por lembrar uma cabeleira.

Seja como for, Tia Odete recomenda fortemente vocês a não tentarem fazer caldos e sucos de nenhuma planta. Uma assustadora percentagem delas é tóxica e eu não quero ter que comparecer a nenhum enterro.

Não preciso explicar que cabeleira vem de “cabelo”, imagino eu. Sei que vocês são mais inteligentes do que parecem.

Mas esta palavra tem um sinônimo pouco conhecido, coma.

Não ouvi, pode repetir, Valzinha? Sim, o seu vizinho de condomínio está em coma desde que o marido da vizinha que ele visitava todos os dias quando ficava sozinha para fazer massagens nas costas desconfiou do bem-estar que ela apresentava ultimamente, chegou mais cedo em casa e os pegou em plena massagem…

Tá bem, tá bem, mas você se refere a outra palavra, que vem do Grego kôma, “sono profundo”.

E favor não falar mais nessas coisas que estão sempre acontecendo com seus vizinhos. De minha parte acho que os seus pais deveriam se mudar de lá.

Coma, sinônimo de “cabeleira”, vem do Latim coma, do Grego kóme, “cabeleira” mesmo.

Há uma bonita história sobre uma coma. A rainha do Egito, Berenice II, prometeu dedicar à deusa Afrodite o seu cabelo se seu marido, Ptolomeu II, voltasse sem danos de uma batalha.

Tendo ocorrido isso, ela cumpriu o prometido, cortou o  cabelo e o colocou no altar da deusa.

No dia seguinte, o cabelo tinha desaparecido e o astrônomo real apontava o surgimento de uma nova constelação no céu, que até hoje se chama Coma Berenices, “a cabeleira de Berenice”. Não é bonita a história?

Se foi verdade mesmo? Bem, a alternativa é que algum puxa-saco da Corte tenha dado sumiço nos cabelos, falado com o Astrônomo e inventado a história para deixar o casal real contente e com tendências à generosidade. O fato é que a constelação já existia, era a cauda do Leão.

E essa não a única ocorrência dos cabelos na Astronomia. Sabem os cometas, aqueles que quando vão aparecer prometem ser espetaculares e depois acabam sendo umas mixarias mal visíveis? Pois o halo de poeira e vapor que eles soltam e que os torna visíveis se chama coma, na parte situada junto ao núcleo. É como se fosse os cabelos soltos ao vento solar desse corpo celeste.

Não é lindo também?

Quando da conquista romana, uma parte de Gália era chamada Gallia comata, “Gália cabeluda”, pelo hábito de seus habitantes de usarem cabelos longos.

Mas esses apêndices da pele podem ser chamado também de pelos, do Latim pilus, provavelmente derivado de capillus.

Quando uma pessoa não tem lá muito cabelo, ela recorre à peruca. Este nome vem do Italiano parrucca, que se supõe que seja um cruzamento de pelo, “cabelo”, mais zucca, “abóbora”, também servindo para “cabeça”. Mas não assino embaixo, pois há controvérsias.

Esta comparação é boa, pois muitas pessoas não têm conteúdo que valha mais do que o de uma abóbora em seu crânio.

E o cabelo pode ser classificado como liso, do Latim lisius, “sem aspereza, liso”. Pode ser crespo, do Latim crispus, “ondulado, retorcido”. Ou ondulado mesmo, do Latim unda, “onda”, sendo que muito machos naufragaram neste tipo de onda sem água.

Pode ser louro, do Latim laurus, “da cor das folhas secas do loureiro”, castanho, da cor da castanha, que veio do Latim castanea, , o nome do fruto de cor amarronzada e pode ainda ter qualquer cor que se imponha à vontade da dona e exista na farmácia.

E agora, que as meninas perderam apenas uns poucos chumaços das suas comas e terminou a aulinha, vão todos para casa e cuidem bem dos seus cabelos.

Resposta:

Gente Chata

 

Eu estava na sétima série. Tinha ido pedir ajuda com alguns problemas de Matemática ao meu avô em seu gabinete, todo macio de madeiras, livros e couro.

O velho de barba branca curta e olhos claros também era macio. Por dentro, que por fora parecia ser cheio de arestas e resmungos. Eu era o único dos seus netos que percebia o que havia por baixo da superfície e isso nos unia fortemente.

– Bem, por hoje parece que é isso. Acho que você finalmente entendeu o Teorema de Pitágoras. Não se esqueça que, quando a gente encontra um triângulo retângulo pela frente num problema, encontrou algo que pode ser domado.

– Pois é, Vô. Quando o senhor me ensina, parece tudo fácil. Mas meus professores são uns chatos e eu aprendo pouco com eles.

– Às vezes a pessoa que ensina não está seguindo sua verdadeira vocação. Na maior parte, porém, os professores enfrentam tamanha luta pela sobrevivência que não estão em condições de desenvolverem todo o seu potencial didático. E muitas outras vezes encontram alunos desinteressados, não é? Seu olhar penetrante me perfurou. Protestei:

– Eu não sou desses, Vô! Sou quieto e presto atenção. Mas é verdade que muitos dos meus colegas são assim como o senhor disse.

– Ah, então estamos chegando à conclusão de que nem sempre os professores é que são chatos. Já é um avanço. Aliás, já que tocamos nessa palavra…

– …Qual a sua origem, Vô? Acomodei-me sobre a banqueta de couro forrada onde eu ficava para ouvi-lo desde que era pequeno.

– Vem do Latim platus, “plano, sem relevo, sem destaques”. Esta palavra resultou em “chato” em Português, para designar uma pessoa que não tem destaques em sua personalidade ou conduta.

Mas isso só aconteceu em Português. Em Espanhol, por exemplo, um dos sentidos de chato é “de nariz curto e arrebitado, chimbé”.

– Esta palavra “chimbé” eu não conhecia! De onde vem?

– É, está em desuso, pelo menos nos meios urbanos. “Chimbé” ou “chimbeva” vem do Tupi timbé, de tim, “focinho, nariz” e mbé, “achatado”.

Seja como for, nos países do Prata se usa o apelido chato (ou ñato, com a mesma origem) para a pessoa com um nariz assim. É apenas uma referência ao apêndice nasal, não quer dizer que a pessoa seja uma mala sem alça.

– O senhor não sofre disso, né, Vô?

– O meu nariz é simplesmente perfeito – fez o seu melhor ar de dignidade ofendida. Só as pessoas desprovidas de senso artístico e de inteligência é que não lhe dão o devido valor estético. Torça para que o seu fique grande assim um dia.

Falando nisso, houve um lugar e uma época em que, quanto mais achatado um nariz, melhor para o seu dono. Na Rússia existiu, por bastante tempo, o Regimento de Infantaria Pavlovski, chefiado de direito pelo Czarévich, isto é, o primeiro filho do Czar, aquele que se esperava que sucedesse ao pai no trono.

Todos os soldados deste regimento tinham os narizes chatos e arrebitados, bem pequenos.

– Por que, Vô? Lutavam melhor assim? Ficavam mais ferozes?

– Não, foi apenas uma questão de vaidade. O que aconteceu foi que o Czar Paulo I, nascido em 1754 e morto em 1801, tinha nascido assim. Logo que puderam, os puxa-sacos da Corte o convenceram de que isso era o cúmulo da perfeição, bem como sinal de elevada inteligência.

Aí o pobre Czar, cujas faculdades mentais não eram das melhores – pelo retrato que vi, ele talvez fosse um caso de sífilis congênita – resolveu providenciar um regimento de guarda feito à sua imagem e semelhança nasal.

Mandou levar todos os homens portadores de nariz curto do império para servir no tal regimento. Eles desfilavam ante o Czar, que os escolhia pessoalmente.

E há mais: como o pobre Paulo achava que espirrar na sua presença lhe trazia azar, ordenou que o regimento inteiro se assoasse cuidadosamente sempre que ia se apresentar à autoridade máxima. Um problema sério é que não lhes eram fornecidos lenços, de modo que o regimento inteiro usava a mão para essa tarefa. Gurf!

O interessante é que o regimento e seus costumes perduraram até o início do século 20, quando os Czares já não tinham narizes curtos.

– Gostei da história, Vô! Mas por que o título dele era Czar? Já ouvi também falar em Tzar. Dá no mesmo?

– Sim. Esta palavra vem do nome de César, que passou a ser adotado como título pelos imperadores romanos a partir de Augusto. O título, em russo, passou a Czar ou Tzar.

– E eu sei de onde foi que veio o nome César! Um amigo do meu pai contou que vem da cirurgia chamada cesariana. Como o futuro imperador nasceu assim, ele recebeu este nome. Que tal? Não estou sabido hoje?

– Lamento dizer, mas não está nada sabido. Só que não é sua culpa. O problema é a etimologia popular, que sempre foi exercida conforme as fantasias dos interessados.

O nome de César vinha de caesaries, que queria dizer Cabeleira. Sei que as estátuas da época o mostram com pouco cabelo, mas provavelmente o nome se referisse a um antepassado seu. E a palavra cesariana vem de caesus, do verbo caedere, “cortar”. Diga isso ao amigo do seu pai; se ele quiser se esclarecer mais, mande-o falar comigo que terei gosto em orientá-lo.

Mas, já que começamos a falar em gente chata, vejamos outros tipos que em geral não nos agradam.

Há pouco falei nos puxa-sacos da Corte. Consta que esta expressão tem origem nas épocas coloniais do Brasil. Quando um oficial era designado para uma cidade e lá chegava com os seus pertences embalados num saco, sempre havia gente disposta a ajudar, de olho na gorjeta que pudesse obter; assim, às vezes havia até briga, com vários puxando o saco ao mesmo tempo.

– Foi assim mesmo?

– É uma possibilidade razoável. Não conheço esta expressão em idiomas aparentados.

Também temos aquelas pessoas que são perniciosas para as outras, seja por serem desagregadoras, demasiado arrogantes, fofoqueiras, invejosas ou coisa parecida. Esta palavra vem do Latim pernicies, “destruição”, de per nex, onde o per quer dizer “total, completamente” e nex vem de necare, “matar”. Um parente desta é nekros, “cadáver”.

– A minha outra avó gosta muito de chamar os outros de nojento. De onde vem isso?

– A palavra nojo vem do Latim inodiare, que vem da expressão in odio habere, “ter em desgosto, ter raiva de”. Seu sentido agora é o de algo repugnante, causador de asco.

Também temos, como um tipo de gente desagradável, os aborrecidos. A palavra vem do Latim abhorrere, “ser incompatível, afastar de si com horror”. É o que dá vontade de fazer com a nossa vizinha, D. Valéria, aquela que, mal enxerga a gente, começa a falar sem parar sobre pessoas e assuntos que nem sabemos o que são.

– E os asquerosos, Vô?

– Esses vêm de asco, aparentado com asca, “mau cheiro”. Há quem discorde, mas muitos apontam como origem o Grego éskhara, “crosta de ferida, casca”. Como muitas feridas podem ter aspecto pouco agradável e cheirar mal, acabou surgindo tal palavra para expressar o sentimento de repulsa gerado pela visão delas. Devo acrescentar que a palavra escara, “crosta de ferida” em nosso idioma, evidentemente vem daí.

Em minha opinião, um tipo dos mais desagradáveis é o arrogante. Esta palavra se formou do Latim arrogare, de ad-, “para” e rogare, aqui com o sentido de “exigir”. A origem descreve bem esta distorção da personalidade em que o portador se acha no direito de exigir do mundo um reconhecimento que ele não merece.

Coitados, andam pelo mundo com o nariz erguido, sentindo-se superiores a todos os outros. Nem sabem que o que os motiva é um sentimento inconsciente da sua pequenez mental.

Mais ou menos a mesma coisa é a pessoa presunçosa. Isto é do Latim prae, “antes” e sumptus, particípio passado de sumere, “tomar, pegar”. Uma pessoa presunçosa é a que “toma para si antes dos outros” o que deseja.

Mas que se vai fazer? As pessoas são diferentes entre si.

– No outro dia o Pai andava resmungando sobre uns políticos traidores. É verdade que o nome deles vem de uma antiga tribo romana de comedores de traíras que atacavam os viajantes ao passarem pela sua região?

Eu percebera que meu avô tinha ficado meio irritado com algum arrogante do seu passado, que agora tinha ressurgido entre os seus pensamentos.

Mas, se o velho sabia lidar comigo, eu também tinha aprendido alguns truques. Ele gostava muito quando eu inventava uma besteira surreal dessas, e com isso consegui o que queria: ele riu e as nuvens passaram.

– Continue assim que você ainda vai ser um cronista de sucesso em algum jornal. Agora, a verdade é que traição e tradição são parentes próximos.

Ambas as palavras vêm do Latim traditio, um derivado de tradere, “entregar, passar adiante”. E este verbo se formava por trans-, “além, adiante”, mais dare, “dar, entregar”.

Tradição atende ao significado de “passar algo a alguém”, como costumes, cerimônias, hábitos, características de um grupo.

Traição também, mas aí existe uma conotação de “entregar algo em prejuízo de outrem”, como quem passa informações que possam ser usadas com más conseqüências.

Também temos as pessoas molestas. São pessoas que incomodam, que se tornam como um espinho no pé dos outros. Este adjetivo vem do Latim molestia, “doença”. A gente, ao lado de uma pessoa destas, se sente como se estivesse doente.

Falando em doença, muitas vezes dizemos que tal pessoa é uma morrinha. Geralmente são pessoas molestas, e o seu nome realmente vem de uma doença. É a morrinha, moléstia epidêmica de animais, do Espanhol morriña, “tristeza do gado”. Não há certeza total sobre a origem mais remota, mas se faz a hipótese de que venha de morrer, pois muitas vezes esta é a conseqüência da doença.

– A Mãe ontem andava incomodada porque o encanador estava embromando…

– Sei como é. A pessoa diz que vai fazer tal coisa em tal dia, depois não deu porque aconteceu tal e tal coisa, mas agora vai, e aí faltou material na praça e no outro dia marcado o carro dele não pegou e ele teve que gastar na oficina, aliás, se ela não adiantar algum dinheiro ele vai ter que pegar outro serviço para poder consertar o carro para poder ir lá…

Uma pessoa que faz isso está deixando a outra insegura como se estivesse no escuro, nas brumas, que parece ter sido a origem desta palavra.

Mas muito bem, meu pitagórico aluno. Já falamos mal de uma porção de tipos de gente. Agora vá terminar de estudar em casa, para eu não correr o risco de virar um chato.

Resposta:

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