Palavra cabelo

PERUCA E COMPANHIA

 

São vinte horas e o Detetive das Palavras, X-8, ouve baterem à porta de seu misterioso escritório escondido num bairro obscuro.

Ele dá um grunhido e entra um conjunto de palavras que tinha marcado hora para descobrir sobre as suas origens. Elas entram, encantadas com o clima antigo do lugar, e se dispõem nos assentos voltados para a enorme escrivaninha onde o grande profissional pontifica.

Com um olhar glacial escondido pela aba do chapéu, ele aguarda uns segundos, para criar tensão (ele se orgulhava em apresentar um serviço completo para a clientela) e as saúda:

– Boa noite, prezadas palavras. Conforme combinado, vocês trabalham com o significado de cabelo e adjacências. Começaremos pela própria, sentada aqui à frente, cheirando a xampu:

Você vem do Latim capillus, “cabelo” mesmo, que deve se relacionar a caput, “cabeça”, que é onde costuma se assentar.

Ali atrás vemos madeixa, que veio do Latim metaxa, “fio de corda em bruto”, do Grego metáxa, “seda bruta”.

Já falaremos de você, mecha: sua origem é o Francês mèche, “tufo de cabelos, pavio”, possivelmente do Latim micca, de mesmo significado.

Sacudindo-se com jeito adolescente, notamos aqui perto a palavrinha franja. Ela vem do Francês frange, “cabelo caído sobre a testa, fios que pendem da borda de um tecido”. E esta foi para lá a partir do Latim fimbria, “franjas de um tecido, borda”, possivelmente de fibra, “fio, fibra”.

Ao seu lado se encontra topete, que para variar veio do Francês toupet, “cabelo levantado no alto da testa”, do Frâncico topp-, “parte alta, ponta”.

Meio encabulada ali vemos chinó, aquela peruca pequena que se usa no alto da cabeça. É mais uma que vem do Francês. Veio de chignon, um derivado de chaîne, “cadeia, corrente”.

Estranho, não? Explico: chaîne veio do Latim catena, “corrente”. As vértebras cervicais podem ser encaradas como uma corrente de ossos, donde a expressão em Francês antigo chaaignon de col –  assim com dois “A” mesmo  –  ou seja, “corrente do pescoço”, que acabou tendo o significado de “laço, coleira, massa de cabelos presa à nuca”. Esta origem é mais complicada e, portanto, mais saborosa.

A palavra estufou de orgulho pela sua ascendência.

– Já a origem de melena, “cabeleira longa, cabelo caído ao redor da cabeça”, é o Espanhol melena, usado para designar uma almofada usada nos animais de tiro para não se machucarem com a canga. A origem anterior dela é desconhecida.

É importante destacar que, neste sentido, essa palavra nada tem a ver com a melena, de uso em Medicina, que é um sinal clínico de sangramento gastrointestinal e que vem do Grego melaina, “escuro, enegrecido”.

E gadelha, também dita guedelha, designando um cabelo comprido e descuidado? Parece vir do Latim viticula, “haste da parreira”, de vitis, “parreira”.

Temos também grenha, com o mesmo significado, do Latim grennio, que nos veio do Celta grenn-, “pelo facial”.

Com ar teatral, à nossa direita, está gaforinha, muitas vezes grafada sem o “H”. Deriva do sobrenome de uma cantora lírica italiana que se apresentou em Portugal no começo do século XIX e fez sucesso com sua cabeleira loura cuidadosamente desalinhada. Seu nome era Isabella Gafforini.

Quando os cabelos estão trabalhados para manter um determinado aspecto, dizemos que neles foi feito um penteado, palavra que vem do Latim pecten, “pente”, que originalmente significava “rastelo, ancinho” e servia para limpar o chão das folhas secas.

Ou se pode sizer que ali se fez um toucado, de origem um pouco diferente. Vem do Celta tauka, “abrigo de pano para a cabeça”, que era muito usado há alguns séculos. O nome toucado passou a um tipo de chapéu feminino e depois passou a designar “adornos para a cabeça” e principalmente “penteado”.

Entrando numa área onde os cabelos já se confundem com a barba, temos as suíças. Estas vieram da época em que o Rei francês Luís XIII contratou mercenários suíços para o servirem, os quais usavam vistosas costeletas que achava que lhes dava um ar mais feroz. Acabaram fazendo moda.

E costeleta vem de costela, do Latim costa, que queria dizer “costela”, mas também “flanco, lateral”. Elas se situam nos lados do rosto, o que é uma boa explicação.

Para o fim deixamos a origem de peruca, que se apresenta meio desapontada ali. Você vem do Italiano parrucca, que se supõe que seja um cruzamento de pelo, “cabelo”, mais zucca, “abóbora”, também servindo para “cabeça”. Mas há controvérsias sobre a verdadeira origem.

O que quero contar agora se liga mais à História do que à Etimologia, mas não deixa de ser interessante.

Houve uma tremenda epidemia de sífilis na Europa pelo fim do século XVI. Entre tantos males que doença causava (cegueira, demência, paralisias) estavam manchas na pele e perda de cabelo em áreas do couro cabeludo.

Por essa época, a moda masculina eram os cabelos longos. Eles encarnavam o poder e a virilidade. Logo, apresentar-se calvo ou com pouco cabelo não ajudava a imagem de nenhum homem, ainda mais que tantas vezes a causa era uma doença venérea.

Imediatamente as perucas começaram a ser usadas para ocultar essas falhas. E em pouco passaram a ser empoadas com talquinhos perfumados, para ficarem mais agradáveis.

Lá pela segunda metade do século XVI, o rei Luís XIV (sim, o Rei Sol) da França, possivelmente afetado pela doença, passou a usar peruca. Logo depois foi seguido pelo seu primo Carlos II da Inglaterra.

Obviamente, seus cortesãos imitaram suas Altezas Reais, sendo seguidos logo por burgueses e militares.

As perucas também ajudavam com outro problema: como as pessoas precisavam raspar as cabeças para ajustá-las, os piolhos pararam de infestar as cabeças.

Claro que eles se mudaram então para as perucas, mas estas eram limpas pela fervura, coisa que seria mal recebida se fosse feita direto na pessoa. Isso ajudou em muito a higiene pública.

A história das perucas disseminadas pela população começou a fenecer com a Revolução Francesa, já que o uso delas era associado à nobreza. Na Inglaterra, um imposto sobre o talco para elas surgido em 1795 ajudou a desbancá-las. Mesmo assim, ainda hoje lá elas fazem parte da vestimenta profissional na Justiça.

E aqui as deixo, prezadas palavras-clientes, remoendo pensamentos sobre as estranha condutas dos homens e voltando para suas casas com a cultura aumentada.

Resposta:

CABELOS

 

Me-ni-nas! Parem com isso, larguem os cabelos umas das outras! Basta eu me virar para o quadro-negro para se formar às minhas costas uma turbamulta de moçoilas se puxando mutuamente os apêndices capilares. E o meninos, que deveriam agir como cavalheiros e apartá-las, ficam só olhando, se divertindo e dando risadas, olha aí!

Nem quero saber por que foi que a presente guerra começou entre vocês; larguem umas das outras, ajeitem-se e vamos ouvir um pouco de Etimologia, que só assim vocês se aquietam.

Para começar, cabelo vem do Latim capillus, “cabelo” mesmo, que deve se relacionar a caput, “cabeça”, que é onde costuma estar o dito cujo.

Existe uma coisa chamada capilé, que pode ser um suco de avenca ou, mais genericamente, um refresco de frutas, ou mesmo um tipo de bebida alcoólica.

Pois esse nome, apesar de ter esse som tão africano, é do Latim: veio do Francês capillaire, “suco feito com a capilária, um tipo de avenca, que deriva de capillum por lembrar uma cabeleira.

Seja como for, Tia Odete recomenda fortemente vocês a não tentarem fazer caldos e sucos de nenhuma planta. Uma assustadora percentagem delas é tóxica e eu não quero ter que comparecer a nenhum enterro.

Não preciso explicar que cabeleira vem de “cabelo”, imagino eu. Sei que vocês são mais inteligentes do que parecem.

Mas esta palavra tem um sinônimo pouco conhecido, coma.

Não ouvi, pode repetir, Valzinha? Sim, o seu vizinho de condomínio está em coma desde que o marido da vizinha que ele visitava todos os dias quando ficava sozinha para fazer massagens nas costas desconfiou do bem-estar que ela apresentava ultimamente, chegou mais cedo em casa e os pegou em plena massagem…

Tá bem, tá bem, mas você se refere a outra palavra, que vem do Grego kôma, “sono profundo”.

E favor não falar mais nessas coisas que estão sempre acontecendo com seus vizinhos. De minha parte acho que os seus pais deveriam se mudar de lá.

Coma, sinônimo de “cabeleira”, vem do Latim coma, do Grego kóme, “cabeleira” mesmo.

Há uma bonita história sobre uma coma. A rainha do Egito, Berenice II, prometeu dedicar à deusa Afrodite o seu cabelo se seu marido, Ptolomeu II, voltasse sem danos de uma batalha.

Tendo ocorrido isso, ela cumpriu o prometido, cortou o  cabelo e o colocou no altar da deusa.

No dia seguinte, o cabelo tinha desaparecido e o astrônomo real apontava o surgimento de uma nova constelação no céu, que até hoje se chama Coma Berenices, “a cabeleira de Berenice”. Não é bonita a história?

Se foi verdade mesmo? Bem, a alternativa é que algum puxa-saco da Corte tenha dado sumiço nos cabelos, falado com o Astrônomo e inventado a história para deixar o casal real contente e com tendências à generosidade. O fato é que a constelação já existia, era a cauda do Leão.

E essa não a única ocorrência dos cabelos na Astronomia. Sabem os cometas, aqueles que quando vão aparecer prometem ser espetaculares e depois acabam sendo umas mixarias mal visíveis? Pois o halo de poeira e vapor que eles soltam e que os torna visíveis se chama coma, na parte situada junto ao núcleo. É como se fosse os cabelos soltos ao vento solar desse corpo celeste.

Não é lindo também?

Quando da conquista romana, uma parte de Gália era chamada Gallia comata, “Gália cabeluda”, pelo hábito de seus habitantes de usarem cabelos longos.

Mas esses apêndices da pele podem ser chamado também de pelos, do Latim pilus, provavelmente derivado de capillus.

Quando uma pessoa não tem lá muito cabelo, ela recorre à peruca. Este nome vem do Italiano parrucca, que se supõe que seja um cruzamento de pelo, “cabelo”, mais zucca, “abóbora”, também servindo para “cabeça”. Mas não assino embaixo, pois há controvérsias.

Esta comparação é boa, pois muitas pessoas não têm conteúdo que valha mais do que o de uma abóbora em seu crânio.

E o cabelo pode ser classificado como liso, do Latim lisius, “sem aspereza, liso”. Pode ser crespo, do Latim crispus, “ondulado, retorcido”. Ou ondulado mesmo, do Latim unda, “onda”, sendo que muito machos naufragaram neste tipo de onda sem água.

Pode ser louro, do Latim laurus, “da cor das folhas secas do loureiro”, castanho, da cor da castanha, que veio do Latim castanea, , o nome do fruto de cor amarronzada e pode ainda ter qualquer cor que se imponha à vontade da dona e exista na farmácia.

E agora, que as meninas perderam apenas uns poucos chumaços das suas comas e terminou a aulinha, vão todos para casa e cuidem bem dos seus cabelos.

Resposta:

Ligação cabelos versus poder.

Palavras: cabelo

Bom dia. Não somente por usar cabelos compridos desde que me entendo por gente e me chamar Cesar, sempre fiquei conjecturando, da ligação talvez tênue entre cabelos longos e poder. Fico pensando nos títulos Caesar, Czar, Kaiser (que presumo ser de mesma origem), e no significado do nome Cesar como \\\\\\\”aquele de cabelos compridos\\\\\\\”, bem como várias lendas existentes como Sansão que vinculam poder aos cabelos. Daí pensei que a resposta talvez estivesse na etimologia da palavra \\\\\\\”cabelos\\\\\\\”. Parabéns pelo sitio, gostei muito, fiquei horas nevegando impressionado com muitas origens/vínculos etimológicos. Grato.

Resposta:

Inicialmente, agradecemos pelo elogio e ficamos contentes por você ter entendido e apreciado nossa intenção ao fazer este site.

Quanto ao que você fala, parece ter existido na história  uma relação psicológica  entre comprimento de cabelos – ou talvez mais entre a permissão de ter cabelos longos – e o exercício de poder.

Tanto que os escravos, na antiga Roma, tinham o cabelo raspado e, por isso, eram ditos MUTILI, “mutilados”.

Mas não será na etimologia da palavra “cabelo” que você encontrará a causa, pois  ela deriva do Latim CAPILLUS, que vem de CAPUT, “cabeça”, onde eles costumam se encontrar. 

A causa deve estar em algum outro lugar. E mais, observe que há séculos os que têm poder preferem a comodidade dos cabelos curtos.

E é verdade que os títulos que você cita todos derivam de CAESAR.

FACE

 

 

Uma vez, quando eu estava com uns doze anos, entrei devagar no gabinete do meu avô, aquele lugar forrado em couro e livros que tanto me agradava.  

Cumprimentamo-nos e ele percebeu que eu olhava fixo para o seu rosto:

– O que há, meu rapaz? Só agora viu como eu sou bonito?

– Não exatamente, Vô, é que eu estava procurando as maçãs.

– E esta agora! Que maçãs, seu esquisito?

– As maçãs do seu rosto. Hoje eu li essa expressão e não estou vendo maçã em rosto nenhum.

– Ah, está bem, seu gracioso.  Então sente aí que eu vou explicar que “maçãs do rosto” se referem à saliência que os ossos malares fazem aqui ao lado do nariz, embaixo dos olhos, ó.

– E antigamente se achava que isso parecia com uma maçã? Nem tem casca vermelha…

– Bem, os nomes dados a partes de nossa anatomia às vezes eram meio estranhos mesmo. Ah, e antes que eu me esqueça, malar vem do Latim malum, “maçã”. Mas pelo menos pomo-de-adão faz algum sentido.

– Isso o que é?

– Trata-se desta saliência aqui no meio da garganta, que muitos chamam de gogó.  Dizem que se trata de um pedaço do fruto proibido que ficou entalado na garganta de Adão, ainda no Paraíso.

– E é verdade? E “gogó”, de onde vem?

– Parece que não. É apenas a cartilagem laríngea que, nos homens, é maior e mais notável por ação hormonal. 

“Gogó” viria de goela, que veio do Latim gula, “garganta, esôfago”.

– E os nomes de outras partes do rosto, Vô? Nariz, por exemplo?

– Esse vem do Latim nasus, “nariz”. E o olho vem do Latim oculus, “olho”…

– Essa não! Peguei o senhor! Isso só pode ser a origem da palavra “óculo”! Meu avô se enganou, ah,ah!

– Cale-se, seu espertinho. Olhe os seus erros: primeiro, achar que um intelecto superior como o meu pode se enganar. O que eu disse está certo, e “óculos” vieram também de oculus.

E depois, esta palavra é uma das chamadas pluralia tantum, as que só se usam no plural. Dizer “óculo” para esse artefato com duas lentes é erro grosseiro.

– Mas todo o mundo diz “meu óculo”!

– Pois diz errado e o meu neto não vai falar errado por causa disso. E pronto, vamos continuar lidando com palavras como…

– Já sei, aquilo que fica sobre o olho e lhe dá sombra, a sombrancelha.

– Você hoje está decidido a fazer um festival de besteira, não? Essa etimologia popular é totalmente errada. A verdadeira origem é o Latim supercilia, “sobre os cílios”. E cilium queria dizer “o que serve para esconder ou tapar os olhos”, um derivado de celare, “esconder, cobrir”.

E o olho contém a pupila, que vem do Latim pupilla, diminutivo de pupa, “boneca”.  Isso porque a imagem de uma pessoa pode ser vista refletida no centro do olho de outra em ponto muito pequeno.

– Legal esta, Vô. E a boca?

– É do Latim bucca. Mas note que, inicialmente, esta palavra se referia à bochecha, principalmente quando inflada por um esforço.  Daí, aliás, vem “buzina”…

– Agora sim errou, Vô. Vai me dizer que as bigas romanas tinham buzinas, se nem bateria elas usavam!

– Senhor, por que me deste um descendente com as idéias tão confusas? Não dá para devolver? – disse o velho, levantando dramaticamente os olhos para o céu.

Olhe aqui, seu peste, bucina era um nome dado a qualquer instrumento de sopro usado para dar sinal à distância. Podia ser de qualquer  material, inclusive de certas conchas grandes, o que deu origem à nossa palavra búzio.

– Ah, tá. E bochecha, também veio de bucca?

– Veio do Italiano boccia, “bola”, em comparação com o formato arredondado delas quando infladas.

E já que estamos perto, lábio veio do Latim labium. E, afastando-nos um pouco do centro da face, temos as orelhas, do Latim auricula, diminutivo de auris, “orelha” propriamente dita.

O queixo vem do…

– Do hábito de se queixar, que a gente faz movendo o queixo para falar, desta vez acertei?

– Mais uma dessas e atiro você pela janela fechada. Você está incontrolável hoje. Não, queixo vem de capseum, “semelhante a uma caixa”, de capsa, “caixa”. E não precisa me dizer que não lembra uma caixa, que eu acho o mesmo.

E “queixa” vem do Latim quassiare, “sacudir, chacoalhar, abanar”.

Subindo, encontramos a testa, que veio do Latim testa, “concha, carapaça, vaso de argila”, pela curvatura.

E subindo mais ainda chegamos aos cabelos, palavra que deriva do Latim capillus, “cabelo”, de caput, “cabeça”.  A qual, no caso do meu neto aqui presente, é oca.

E antes que o dito cujo neto proteste, acrescento que barba é do Latim barba, de mesmo significado.

– E as suíças?

– Parece que estas derivaram da época em que o rei Luís XIII da França contratou mercenários suíços para servir em seu exército. Eles apareceram com vistosos apêndices pilosos na região em frente às orelhas e fizeram sucesso.

E o nome do país vem de Schwyz, o nome de um dos três cantões iniciais da confederação, que provavelmente vem do Germânico suittes, talvez relacionado com suedan, “queimar”, em referência às áreas desmatadas e queimadas para a construção das cidades.

– Quer dizer que essa atividade não é só brasileira, Vô?

– Como se vê, é antiga e destacada a ponto de dar nome a um país.

Para terminar, todas estas palavras pertencem à face, que deriva do Latim facies, “aparência, forma, figura”, provavelmente de facere, “fazer”.

E antes que você incendeie a paciência do seu avô, vá brincar um pouco com o gato, que está esperando por você.

Resposta:

Origem das palavras

Qual a origem das palavras , Mulata ,samba ,sonho ,beleza ,cabelo ,minúcia ,dinheiro ,elegante ,chique ,búzios ,ócios ,palha ,trama ,formusura ?

Resposta:

Larissa, nosso site responde apenas a sete  palavras por dia (número mágico) , devido a certos abusos que andaram ocorrendo com trabalhos escolares.

Amanhã entre de novo nesta pergunta e v. receberá o faltante.

1) Do Espanhol MULATO, “macho jovem da mula”, fazendo uma comparação com o hibridismo do quadrúpede, que é cria de equino  com asinino.

2) Origem controversa.

3)  Latim, SOMNIUM, “sonho”.

4)  Latim, BELLITAS, “estado de ser belo”, de BELLUS, “bonito, bem-apessoado, encantador”, que se relaciona com BONUS, “bom”.

5) Latim, CAPILLUS, “cabelo”, derivado de CAPUT, “cabeça”.

6)  Latim, MINUTUS, particípio passado de MINUERE, “diminuir”, de MINUS, “menor”

7)  Latim, DENARIUS NUMMUS, “a moeda que contém dez (dez ‘asses’, uma subdivisão)”. Essa moeda logo passou a ser chamada apenas de DENARIUS.

8)  Do L. ELEGANS, “de escolha, refinado, de bom gosto”, de ELIGERE, “escolher com cuidado, selecionar”.

9) Do Francês CHIC, “elegante, de estilo”, talvez do Germânico medieval SCHIKKEN, “arrumar, ordenar adequadamente”.

10) No caso do molusco, é o L. BUCINUS, “trombeta”, já  que algumas conchas grandes serviam para esse fim.

11)  Do L. OTIUM, “descanso, lazer, tranquilidade”.

12) Do  L. PALEA, “palha”.

13) Do L. TRAMA, “fio, tecido, trama”.

14) Esta palavra não pertence ao nosso idioma.

Ao Espelho

Um dos primeiros atos do ser humano ao levantar pela manhã, enquanto a névoa do sono ainda não se dissipou, é encarar o espelho. Triste visão.

Os cabelos invariavelmente parecem ter sido pisoteados por uma manada de cabras dançando o frevo; a pele está amassada como papel que embrulhou peixe; os olhos estão empapuçados e sem brilho.

No caso dos homens, há uma barba despontando que os torna parecidos ora com mendigos em extremo grau de miséria, ora com bandidos psicopatas capazes de matar uma família inteira e sair para tomar picolé. No caso das mulheres, muitas vezes parece que elas jamais vão ter mais charme do que um chuchu maduro.

Felizmente, bastam uma pequena refeição, cuidados estéticos e de higiene para mudar em pouco tempo esse quadro tão atroz.

Mas, para isso, temos que dar atenção a diversas características do nosso rosto. Vamos ver a origem dos seus nomes agora.

CABELO – do Latim capillum. Entre os Romanos, só os homens livres o podiam usar longo. O dos escravos eram cortados rente, daí eles serem chamados de mutillum, “aleijados”.

Na Europa se fazia um xarope de avenca (idéia estranha, não? Ainda mais porque algumas devem ser tóxicas). O nome latino desta era capillaria. Em Francês, deu-se o nome capillaire a esse xarope. Daí que, em Português, temos a palavra capilé para dizer “xarope”. Pois é, esta palavra tem todo este jeito africano mas não é.

TESTA – em Latim, testa era originalmente “uma concha que servia de vaso”, e depois “vasilha de argila, tijolo”. Esse nome foi aplicado à região entre sobrancelhas e raiz do cabelo provavelmente devido à forma arredondada. Aliás, em Italiano testa hoje quer dizer “cabeça”. Em Francês se diz tête; o circunflexo sobre o “E” significa que antigamente havia um “S” depois: teste.

Como para verificar a pureza dos metais se usavam vasos de argila especialmente resistentes ao calor, testar passou a significar também “avaliar a qualidade de, examinar”. Assim, os recipientes de argila romanos estão presentes hoje quando testamos um carro ou quando são feito testes com uma nave que vai para os confins do sistema solar.

SOBRANCELHA – do Latim supercilia, “acima dos cílios”. Cilia era “qualquer processo com aspecto de cabelo”, e parece vir de celare, “esconder”. Os ingleses têm a palavra supercilious, significando a pessoa que levanta as sobrancelhas em gesto de desagrado, julgando que tudo que se lhe apresenta está abaixo do que ela merece.

OLHOS – do Latim oculum. Sim, daí veio diretamente o nome dos óculos que precisamos usar quando os nosso braços encurtam. E usamos os óculos, não o óculos!

Por extensão metafórica, oculum passou a significar “broto, rebento de planta”. Ainda hoje se fala nos “olhos” da batata.

Juntando-se o prefixo in-, “dentro, em” se fez o verbo inoculare, “enxertar um broto ou qualquer parte de uma planta numa outra”. No século 18, a palavra inocular foi aplicada à noção de “enxertar antígenos” numa pessoa para evitar que ela contraia uma doença. Esse processo também é conhecido como “vacinação”.

PUPILA – em Latim, puppa significa “criança, menina, boneca”. No masculino, é puppus.

Se uma pessoa chega bem perto de outra e olha com atenção a pupila, ver-se-á refletida em tamanho pequeno, como se estivesse enxergando uma pequena boneca. É por isso que a abertura por onde passam os raios luminosos para atingir a retina, no fundo do olho, se chama pupila. Essa é a razão de ela ser chamada também “a menina dos olhos”.

E é por isso que alguma coisa muito cara a uma pessoa recebe o nome de “menina dos olhos”, (“tal projeto era a menina dos olhos de Fulano”…) significando que lhe é tão preciosa quanto a visão.

O diminutivo de puppus, puppa, era pupillus, pupilla. Era usado também para dizer “órfãos”. Como estes costumavam ser recolhidos a instituições que se dedicavam a instruí-los, o sentido passou a ser o de “pessoa sendo ensinada”, daí os pupilos de hoje, bem como o pupil inglês.

GLABELA – esta palavra poucos conheciam, confessem! Ela se refere ao espaço entre as sobrancelhas, que na maioria das pessoas não tem pelos. Vem do Latim glaber, “calvo, sem pelos”. Uma pessoa careca é glabra. Temos áreas glabras na pele, como a planta dos pés e a palma das mãos.

ORELHA – uma raiz Indo-Européia aus- indicava “percepção”. Daí se fez, no Latim, auris, que tinha como diminutivo auricula e que, passando por oricla, deu a nossa “orelha”.

Os fones de ouvido são chamados “auriculares” por que são colocados na orelha.

NARIZ – o Indo-Europeu nas e o Sânscrito nás passaram ao Latim nasus, “nariz, olfato, bom gosto”. Havia também um outro sentido neste idioma: o de “sujeito engraçado, espírito gozador”, decerto porque uma pessoa assim muitas vezes enfia o nariz na vida alheia.

Daí derivou naricae, “ventas, narinas”.

MALAR – é o osso transversal logo abaixo de cada olho, “as maçãs do rosto”. Em Latim, o maxilar superior se chama mala. A história de “maçãs do rosto” teve origem, ao que parece, de uma confusão entre esta palavra mala e malum, “maçã, fruto”, já que, por mais que a gente olhe, esta parte do rosto não faz lembrar uma fruta de qualquer espécie.

LÁBIOS – do Latim labrum, que veio do Indo-Europeu leb. Em Inglês, isto resultou em lip. Deste se formou o lipstick, “bastão de lábio”, que em Francês inicialmente era chamado bâton de rouge, “bastão de vermelho” e que virou batom em nossa língua.

QUEIXO – capsa em Latim é “caixa”. Alguém um dia achou a mandíbula semelhante a uma caixa. Era época de dar nomes às coisas, e havia tanto para nomear…

Mas “queixar-se” não vem daí, não. Em Latim, quassiare significa “sacudir, golpear, bater”. Quando a gente está se queixando, dá vontade de fazer tudo isso, não dá?

BOCA – em Latim, diz-se bucca. Veio do Sânscrito mukham, “mucosa”.

Também se podia usar os, mas esta palavra abrangia também “face, expressão”. Ore durissimo era como os romanos diziam “cara de pau”. Daqui derivaram palavras como oral, oração, oratório.

Bocado é o que cabe na boca; daí o seu significado inicial de “pequena porção”, passando depois a significar “grande, volumoso” por oposição.

“Boca” também originou bocal e bocejar, entre outras. Bochecha veio de buccarum, “cavidade das bochechas”.

LÍNGUA – do Latim lingua. Havia entre os romanos uma taxa chamada linguarium, que era uma multa cobrada de quem falava demais. Ah, sabedoria dos antigos que hoje nos faz tanta falta…

Por óbvio, o nome desta parte da face se aplicou aos idiomas em geral, já que as palavras são moduladas em grande parte pela língua.

DENTES – em Latim, dens. A foice de Saturno, que ele às vezes usava para colher humanos, era chamada “O dente de Saturno”.

O profissional que cuida dessa parte de noso corpo é o dentista.

As palavras de cunho erudito relativas a dentes, em nosso idioma, derivaram na maioria do Grego odontós, como odontologia, odontalgia, odontognato, odontoscópio.

ROSTOem Latim, rostrum é “bico, esporão das aves”. Também designava “tribuna” porque estas plataformas para palestras no Foro de Roma foram enfeitadas com as proas dos navios capturados em Antium em 338 AC, as quais tinham um esporão, co
mo cabia a navios de guerra. Em Inglês, rostrum ainda é usado como “tribuna”.

Rostrum primeiramente era aplicada ao nariz, mas como este é a parte mais proeminente da face, acabou sendo usada para a face em si, tomando-se a parte pelo todo.

FACE – como sinônimo de “rosto”. Tem uma base pré-histórica fac-, com o significado de “parecer”, que gerou o Latim facies, originalmente com o sentido de “aspecto, aparência, forma”. Por extensão, passou a significar “rosto”. Originou as palavras fachada, superfície e outras.

Em Medicina, facies composita é uma maneira de descrever o rosto de uma pessoa que não expressa qualquer anormaidade. Facies hipocratica é a expressão usada para o rosto de quem está em estado terminal, pálida, olhos baços, nariz afilado.

Resposta:

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