Palavra câmara

Arbusto

Palavras: câmara

Salve!
Sofeu, CAMARÁ é de origem indígena?

Resposta:

Sim; é do Tupi KAMBA’RA, o nome de de diversas plantas. De vez em quando a gente descobre uma.

ELEIÇÕES

Nossa Câmara Literária percorre os céus do bairro de X-8. É noite, como sempre por lá. Ruas sujas e desleixadas passam pelas lentes de nosso aparelho, entram em nossas retinas, vão pelo nervo Óptico até… epa, vamos ter que interromper nossa lição de Fisiologia.

Estamos vendo um ajuntamento lá embaixo, o que é isso? Desçamos para investigar.

Trata-se de um terreno baldio onde há alguns caixotes vazios em disposição simétrica, parece que para servir de assento.

Na entrada do terreno, onde estão faltando algumas tábuas na cerca de madeira acinzentada pelo tempo, uma faixa escrita com capricho:

HOJE

GRANDE SESSÃO CULTURAL ETIMOLÓGICA

ELEIÇÕES

(é de grátis, mas aceitamos doações)

 

Uma multidão, tanto de gente como se palavras, está entrando e se acomodando no terreno. Neste bairro as diversões não-violentas são raras, ainda mais se são de graça, como é o caso.

Às 20 horas em ponto, aparece uma figura e se coloca atrás do grande caixote que faz as vezes de tribuna. É um sujeito baixinho, vestido com uma enorme gabardine, com um chapéu que lhe oculta o rosto… é ele, o famoso detetive X-8, aquele que se dedica com afinco à pesquisa das origens das palavras, levado tanto pelo seu amor à Etimologia quanto ao seu interesse por dinheiro.

Ele foi convidado pela Direção da escola local para falar sobre a etimologia de um assunto da maior importância: as eleições.

Ele não precisa se apresentar, todos no bairro sabem quem é ele: o único morador que leu mais de um livro. No seu caso, bem mais.

No momento, ele está sobre um palco precariamente armado à frente do espaço agora tomado por caixotes e cadeiras de plástico, muitas surripiadas de bares de outros bairros.

– Caros concidadãos, caras palavras: vou poupá-los de falas sobre a importância das eleições, do método democrático, da liberdade de escolha, etc., e vou passar direto à origem de palavras correlatas.

E começo já com eleição: vem do Latim electio, “escolha”, de eligere, “escolher, selecionar”, formada por ex-, “fora”, mais legere, que tinha o sentido tanto de “escolher um fruto da planta” como de “ler”.

Numa eleição a gente faz suas escolhas por meio do voto, do Latim votus, “promessa, desejo”, particípio passado de vovere, “prometer, dedicar algo a”.

Os votos são depositados numa urna, do Latim urna, “vaso de argila para líquidos ou grãos”.

Em nosso país se pode votar para vereador, por exemplo. Esta palavra vem do Latim veredus, “cavalo de posta”.

Este animal, usado para o serviço de entrega de correio, acabou dando o seu nome ao caminho que percorria. Havia uma função pública que implicava em cuidar das veredas junto a uma cidade, donde o “vereador”.

Um  sinônimo é o edil, do Latim aedilis, “funcionário encarregado dos prédios e outros serviços públicos numa cidade”, de aedes, “casa, habitação, prédio”.

Também recebe votos o deputado, derivado de deputare, “encarregar, colocar em ofício, considerar como”, formado por de-, “fora”, mais putare, “pensar, considerar, contar”.

E o senador, que fazia parte do senatus, “o mais alto conselho de Estado na antiga Roma”, literalmente “conselho dos mais velhos”, de senex, “idoso, velho”.

As congregações a que essas diversas categorias podem ser as assembleias, do Latim assimulare, “tornar parecido”, de ad, “a”, mais similis, “parecido, semelhante”; depois o sentido mudou para “juntar, reunir”, dado que muitas vezes as reuniões eram compostas de pessoas com ideias semelhantes.

Ou elas se podem chamar câmaras, do Grego kamara e o Latim camera, “quarto com teto abobadado, recurvo”, comum em prédios antigos. Claro que esse pessoal não se reúne num lugar apertado assim, mas a noção de “lugar para reunião” se manteve ao longo dos tempos.

Um corpo deliberativo também pode se chamar de parlamento, que teria vindo do Francês parlement, antigo tribunal de Justiça na França, de parler, “falar”, coisa que muito se faz num local desses.

Em países com sistema bicameral, ou seja, onde há uma câmara e um senado, o conjunto desses órgãos forma o congresso.

Esta palavra vem do Latim congressus, que significava “encontro”, tanto hostil quanto amigável, de congredi, “encontrar-se ou lutar com”, de com-, “junto”, mais gradi, “caminhar”, de gradus, “passo”.

As pessoas eleitas são políticos, que veio do Grego politikos, “cívico”, de polites, “cidadão”, de polis, “cidade”.

As pessoas e palavras seguiam atentamente o que o orador dizia. Ele respirou fundo e abriu os braços, dizendo:

– Para encerrar, uma palavra que é de todos conhecida: corrupção, de corrumpere, “destruir, estragar”, de com-, intensificativo, mais rumpere, “quebrar, partir, arrebentar”. Este substantivo representa tudo o que pode ser feito de mau por poucos para quebrar a esperança e o futuro de muitos. Muito obrigado.

Povo e palavras aplaudiram delirantemente, subiram ao palco improvisado, que cedeu com o peso deles, mas lá se arranjaram para carregar o detetive por uns cinquenta metros, ocasião em que lhe afanaram a carteira, duas canetas e os cartões de visita que ele pretendia distribuir no fim da sua palestra.

 

Resposta:

CÂMERA

 

Um dia perguntei  para meu avô a diferença entre câmera e câmara.  Ele me olhou e foi sentar na sua poltrona de couro; eu pensei “Oba!”, me ajeitei à sua frente e esperei a sua fala pausada:

– Uma palavra do Indo-Europeu, como tantas, deu muitos frutos nas línguas que derivaram dela. Ela é kam-, que significava “dobrar, torcer, arquear, encurvar”. Daí resultaram o Grego kamara e o Latim camera, “quarto com teto abobadado, recurvo”, comum em prédios antigos.

De camera veio camarada, “companheiro de quarto”, um costume em épocas em que os quartos abrigavam várias pessoas ao mesmo tempo, e indicativo de que aquele sujeito era de confiança. Dormir perto de alguém com um punhal afiado e intenções pouco santas em relação à saúde da gente é pouco prudente.

Hoje, chamar de câmara um quarto ou qualquer aposento de uma residência está
correto, mas é de pouco uso. Essa palavra é mais indicada para o recinto onde são feitas reuniões ou atividades deliberativas e mais ainda para o grupo de indivíduos que ali se reúnem, como um conselho, uma junta ou algo desse teor.

Agora, esse nome também pode ser usado para designar o que antes se chamava de “máquina de tirar retrato”.

– E o que é que tem que ver um quarto com uma máquina dessas, Vô?

– Se você contiver essa sua inquietação eu conto, seu impaciente. Ocorre o seguinte: os artistas europeus muitas vezes usavam uma espécie de caixa fechada com uma lente que projetava em seu interior  as imagens de fora, como meio para desenhar com fidelidade antes de pintar por cima. Esse artefato se chamava em Latim camera
obscura,
“quarto escuro”, pois lembrava um aposento escurecido.

– Quer dizer que esses tais artistas famosos ficavam era colando as imagens, é?

– Pois tudo indica que vários se serviam desse auxílio, especialmente para quadros de paisagens rurais e urbanas. Mas eles também recorriam a um sistema um pouco mais complicado, a camera lucida, o “quarto claro”, que usava prismas para projetar a imagem e dispensava a caixa escura.

– E aí? Chamo a tal máquina de retrato de câmera ou de câmara?

– Atualmente se usa mais a palavra que pegamos emprestada do Inglês, camera.
Mas qualquer uma pode ser usada, o que importa é que você tire fotos bonitas.

– Hum… e camelo, Vô? Veio daí também? É por causa da corcova redonda?

– Não, essa vem do Grego kámelos, do Fenício gamal, o nome do bicho. Mas, se você anda atrás de derivados de kam-, mesmo que distantes, posso citar cambaio. Essa palavra que designa “de pernas tortas, estropiado”, veio dessa sua nova conhecida.

O mesmo podemos dizer de cambalhota, que é “descrever curvas girando com o corpo”. E de cambota, “peça em arco, armação arredondada”. E que pode ser usada como sinônimo de cambaio também.

– Ih, Vô, algumas eu não conheço, acho que nem se usam mais!

– Devo reconhecer que não fazem parte do vocabulário da maioria na atualidade
–  deu um suspiro  –  mas também, com essa falta de cultura…

Enfim, devemos fazer o que podemos. E o MEU neto não vai ser inculto, ou vou ter que usar uma vara para ajeitar isso!

Eu sabia perfeitamente que a ameaça era apenas retórica, mas fiz uma cara de aterrorizado. E ele fingiu que acreditou; a gente se gostava muito. Prosseguiu ele:

– Da mesma origem, contamos também com o verbo cambar, que quer dizer
“entortar, caminhar de pernas tortas, fazer com que algo se incline”.

E deste verbo veio o cambão ou cambo, uma vara recurvada na ponta para colher frutas na ponta dos galhos.

Fiz uma cara de inocente:

– Ué, mas as frutas não vêm do supermercado?

– Não provoque, rapazinho, que até eu sei que você não é tão burro como aparenta. Ainda me lembro de usar um cambão no sítio do meu avô. E não pergunte se o Brasil já tinha sido descoberto.

– Ah, tá, Vô…

– Temos também o termo náutico cambona, que descreve uma mudança repentina no curso de uma embarcação, uma curva pronunciada. E que se aplica também a um carro de bois, já que eles são mantidos juntos por um jugo ou canga. Palavra que, aliás, vem do Celta cambica, que vem de.. de…

Kam! – disse eu, trunfante.

– Impressionante como este meu neto anda sabido ultimamente. E, se os bois estão muito cansados e começam a andar torto, ou seja, cambalear?

Sabendo que ele gostava de preparar armadilhas, hesitei.

– Fique tranqüilo, rapaz, a origem é a mesma.

E quando você vir seus pais usando uma peça de roupa para não saírem da cama com aquele jeito amarfanhado de repolho que a gente costuma ter ao acordar, o chambre, lembre-se dos homens em alguma caverna, há uns dez mil anos…

– O quê, Vô, eles usavam um chambre sobre as peles de urso?

– Nãão, seu desastrado, espere a gente terminar de falar! Eu estava dizendo que, nessa ocasião, você deve se lembrar que o nome dessa peça vem do Francês robe
de chambre
, “roupa de quarto”, sendo que chambre vem de…

– Do Latim camara, do Indo-Europeu kam-!  –  gritei.

– Muito bem, você ainda vai ser um grande etimologista como este seu modesto avô.

Mas por hoje chega. Vamos brincar um pouco com o gato, que já dormiu bastante e precisa de exercício.

Resposta:

Material Automotivo 2

Na última edição, falamos um pouco sobre as origens dos nome de peças de automóveis. Vamos continuar o mesmo assunto desta vez.

FAROL – vem do Latim pharus, “construção elevada na costa para sinalização”, do Grego pharos.

SINALEIRA – do Latim signum, “marca para distinguir, sinal”.

VIDROS – Latim, vitrum, “vidro”, originalmente o nome de uma erva da família da mostarda, de cujas folhas se extraía um pigmento azul.

O vidro antigo era contaminado por impurezas que o deixavam dum azul semelhante ao dos tecidos corados com esta planta.

ALAVANCA – esta palavra vem do Grego phálanx, que queria dizer, além de uma determinada formação militar de infantaria, “rolo de madeira”.

PEDAL – esta vem do Latim PES, “pé”, do Grego POUS, idem. A razão é óbvia, não?

EMBREAGEM – vem do Francês embrayer, “colocar em conexão peças que se encaixam”, de braie, o nome de uma peça que fazia parte do moinho de vento.

ACELERADOR – do verbo latino accelerare, “apressar”, formado por ad-, “a”, mais celerare, derivado de celer, “rápido”.

FREIO – do Latim frenum, o nome da peça bucal que se usa nos cavalos para controlar sua direção e velocidade de passo.

BUZINA – vem do Latim BUCINA, “trombeta”. Na face humana, nas bochechas, existe um par de músculos, os bucinadores, responsáveis pela ação de assoprar um instrumento musical.

PAINEL – vem do Inglês panel, derivado do Francês panel, “almofada de sela, pedaço de pano”, do Latim pannellus, diminutivo de pannus, “trapo, pedaço de tecido”.

Na época anglo-normanda, tinha o significado de “pedaço de pano com uma listagem de jurados”, de onde o seu outro sentido de “grupo de pessoas reunido para discussão ou estudo”.

ASSENTO – do Latim sedere, “estar sentado”.

RADIADOR – Latim, radiator, “aquele que emite raios”, de radius, “raio de luz, vara reta, vara de uma roda”. Esta parte do motor é usada para dissipar calor por irradiação.

CAPOTA – vem de “capote”, uma peça de roupa que recobre outras, do Latim cappa, “capa”, derivado de caput, “cabeça”, pois ela também recobria esta parte do corpo.

ESPELHO RETROVISOR – a primeira palavra vem do Latim speculum, derivado de specere, “olhar”.

A outra se forma por retro, “para trás”, mais um derivado de vedere, também “ver”.

PISTÃO – do Francês piston, “peça cilíndrica encaixada firmemente dentro de um tubo”.

CRUZETA – essa tá na cara, né? Vem de “cruz”, do Latim CRUX, idem.

MANGUEIRA – de “manga”, que vem do Latim manica, “parte da roupa que recobre os braços”, de manus, “mão”.

CÂMARA – vem do Latim camera, do Grego kamara, “aposento com teto curvo”.

CILINDRO – do Latim cylindrus, do Grego kylindros, “rolo”, de kylindrein, “enrolar, envolver”.

Resposta:

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