Palavra capacete

BICICLETA

 

Cheguei muito orgulhoso, empurrando minha primeira bicicleta, no gabinete do meu avô, que ficava no fundo do seu pátio. Ele saiu à porta para me receber.

– Olha só, Vô! Esta é a minha bicicleta!

– Ora, parabéns, menino! É muito bonita.

– Já que o senhor gostou dela, pode me dizer algumas coisas sobre as partes dela?

– Você vai longe com esse desejo de aprender, meu neto. E, como eu gosto de ensinar, formamos uma bela dupla. Vamos ver então: a própria palavra bicicleta veio do Latim bis, “dois, duas vezes”, mais o Grego kyklos, “redondo”. Isso porque tem duas rodas, já reparou?

– Então o triciclo que o senhor me deu quando eu tinha dois anos se chama assim porque tem três rodas?

– Exatamente. E roda vem do Latim rota, o nome do objeto.

– Esta tem um monte de varetas de metal, como é mesmo o nome delas?

Raios. Veio do Latim radius, “vareta de roda, bastão, raio de luz”.

– Tem algo a ver com os raios-X?

– Sim. Estes receberam o nome porque, ao serem descobertos, sabia-se que se tratava de uma forma de emissão de radiação, como os raios do sol. Mas, como eram ainda algo misterioso, ganharam o “X” como símbolo de uma incógnita.

Veja que ao redor da roda há os pneus, palavra que vem a ser um encurtamento do Francês pneumatique, “pneumático”, ou seja, “cheio de ar”. Deriva do Grego pneuma, “ar, vento, sopro”.

E preste atenção nestes apoios onde você coloca os pés para impulsionar essa geringonça: são os pedais, do Latim pes, “pé”.

– Então onde eu ponho as mãos para guiar esta belezinha se chama manual?

– Quase. O nome é manúbrio, e vem do Latim manus, mão. Aliás, falando em mãos e pés, desde já vou avisando que você precisa andar equipado para evitar acidentes.

Tem que usar capacete, que nos veio do Espanhol capacete, “peça de proteção para a cabeça”, do Latim capaceum, derivada de capere, “conter”.

E também cotoveleira, do Latim cubitus, “cotovelo”. Para não falarmos da joelheira, do Latim genu, “joelho”.

– Chii, vou ter que dizer isso para meus pais…

– Não lhes diga, eu e sua avó vamos lhe dar logo de presente esse material.

– Muito obrigado, Vô! –  e aproveitei para abraçá-lo.

– Não agradeça, é só porque eu não quero ter que cuidar de um neto com fraturas. Mas, voltando à etimologia da bicicleta, ocorre-me contar que o selim, onde a pessoa senta, vem de sela, do Latim sella, de sedes, “assento, lugar para sentar”.

E, para evitar bater contra alguma coisa, existem o freios, do Latim frenum, o nome da peça bucal que se usa nos cavalos para controlar sua direção e velocidade. Mantenha-os sempre em bom estado.

– Não vou esquecer.

– E não se esqueça de olhar sempre aqui, no espelho. Esta vem do Latim speculum, “espelho”, de specere, “olhar”. Olhar para trás é outra forma de evitar acidentes.

Há outro equipamento que é indispensável para andar à noite: são estas coisinhas coloridas aqui, os catadióptricos.

– Hã?

– Sim, eu sei que é muito complicado para uma cabecinha oca que nem a sua, mas essa palavra vem do Grego kata–, aqui querendo dizer “de volta”, mais dioptra, “instrumento óptico” em Latim. São os populares olhos-de-gato. Ou, para simplificar, refletores. E esta palavra, por sua vez, vem do Latim re-, “outra vez, novamente”, mais flexus, “dobrado, fletido”, do verbo flectere, “dobrar”.

Se alguém vai andar à noite de bicicleta, que seja em local sem maiores perigos. Nesse caso, é bom instalar também um farol, cujo nome vem da ilha de Pharos, em Alexandria, Egito.

Esse farol terá uma lâmpada, que vem do Grego lampein, “brilhar”.

– E esta parte da armação aqui, feita de tubos?

– Esse é o quadro, do Latim quadrum, “o que tem quatro lados”, de quattuor, “quatro”.

– Ué, mas este é triangular e não tem pintura dentro!

– Certo. Mas alguém achou que havia similaridades e escolheu esse nome, que acabou pegando. No duro, parece-me que chamar de “moldura” seria mais adequado.

– E estas rodas dentadas aqui junto ao pedal?

– São as engrenagens; esta vem do Francês engrener, “encaixar rodas dentadas”, também “colocar grãos para serem moídos”, do Latim granum, “grão’. Veja você as voltas que uma palavra dá em suas alterações ao longo do tempo.

E note que, encaixando nas engrenagens, está a correia, do Latim corrigia, “tira de couro, açoite”.

Mas bem, antes que eu me canse de falar muito e queira lhe aplicar uma correia, vamos sair para comprar aqueles seus equipamentos. Deixe a sua bicicleta aqui, que doravante você só subirá com eles postos.

– Vô… obrigado de novo!

 

Resposta:

BOMBEIROS

 

Que susto! Chego para dar a minha inescapável aula na Escolinha Maternal e vejo fumaça no ar e um carro dos bombeiros parado em frente. Animada, digo, alarmada com a possibilidade de que meus aluninhos me deixem em paz, ouço que eles me chamam, do pátio:

– Tia Odete! Tia Odete! Estamos aqui!

Entro e me reúno a eles, que estão vibrando com a confusão, que foi gerada por um pequeno fogo na casa em frente, a esta hora já debelado.

Levo-os para sala de aula e não perco a oportunidade de os acalmar com a origem das palavras concernentes ao fato.

– Bem, caros aluninhos, sobre o que vão querer aprender hoje?

– Bom-bei-ros! Bom-bei-ros!

– Eu já desconfiava disso, não sei por que. Bem, essa palavra vem de bomba, na acepção de “dispositivo para fazer um líquido fluir”. Os equipamentos contra incêndio antigos eram acionados manualmente e se chamavam bombas, de origem imitativa do ruído que fazem ao funcionar.

Como vocês puderam ver, eles usam um uniforme especial para se protegerem adequadamente contra os riscos que correm. Esse termo vem do Latim unus, “um”, mais forma, “aspecto, formato”. Imaginem só se cada bombeiro ou soldado ou marinheiro usasse o que bem entendesse, que caos seria!

– Quer contar algo, Valesquinha? Uma das suas vizinhas gosta de sair à noite de uniformezinho colegial, saiazinha curta, meias brancas… Ora, ela certamente estuda em algum colégio bem exigente e… Ah, ela tem trinta anos? Bem, talvez os estudos dela sejam de outro tipo e fique quieta agora que eu tenho que falar, por exemplo, sobre o capacete que nossos amigos bombeiros usam. O nome dele vem do Espanhol capacete, “peça de proteção para a cabeça”, do Latim capaceum, derivada de capere, “conter”.

Isso é o que um bom capacete faz, contém a cabeça dentro dele. Pena que não inventaram ainda um que contenha as besteiras de certos alunos dentro de suas cabecinhas ocas. Iam ganhar um dinheirão.

Durante o trabalho, eles usam muitas vezes a mangueira, que vem de “manga”, que vem do Latim manica, “parte da roupa que recobre os braços”, de manus, “mão”.

Eu sei, Aninha, que eles estavam meio apressados para dar esse nome e que uma manga de roupa não serve para espalhar água, mas é assim e pronto, não tenho tempo para suas confusões agora.

Tenho que contar que a mangueira muita vezes é colocada num hidrante, aquele cilindro vermelho que fica nas calçadas e que contém uma válvula para a saída de água. Ele deriva do Grego hydor, “água”, pois é com ela que ele trabalha.

Ali está Lary, hoje com uma estranha cara de bem-comportada, perguntando de onde vem escada. Muito bem, esse é outro material que se usa no combate ao fogo, e vem do Latim scalare, “subir”

Muitas vezes ouvimos falar na Escada Magirus, aquela que faz parte de um caminhão e é telescópica. Esse nome vem da companhia alemã que a fabrica, a qual começou a fazer equipamentos contra incêndio em 1866.

Antes que perguntem, desde já aviso que eu nem era nascida ainda quando ele iniciaram.

Sim, Patty, eles usam uma sirene para pedir aos demais veículos que saiam do caminho quando estão numa emergência. Esta vem do Latim sirena, do Grego seiren, “sereia”, nome de certas ninfas aquáticas que emitiam sons muito doces que enlouqueciam os marinheiros e os levavam à destruição. Talvez as sirenes de agora não sejam tão melodiosas como as de antes, mas certamente são ouvidas à distância também.

Outro equipamento que eles usam é o machado. Uns dizem que deriva do Francês hache, do  Frâncico hapja; outros, que vem é do Latim marculatus, derivado de marcus, “martelo”.

Quando ocorre um incêndio, que nem hoje, eles são chamados logo. Essa palavra vem do Latim incendium, “fogo, calamidade, conflagração”, formado por in-, “em”, mais candere, ou seja, “colocar fogo em”.

Eles lutam contra o fogo, que vem do Latim focus, “lareira, local de fazer fogo numa casa”.

Atacam as chamas, do Latim flamma, “chama, labareda”, do Indo-Europeu bhleg-, “brilhar, queimar”. E labareda vem do Basco labe, “chamas”.

Depois deste ficam as brasas, aparentemente de uma palavra germânica brasa, “fogo”.

E depois destas ficam as cinzas, do Latim cinis, “material sobrado de um processo de combustão, cinza”.

É quando o bombeiros se dedicam a fazer o rescaldo, a retirada de material ainda quente, do Latim re-, “de novo”, mais caldus, “quente”.

Estão todos inquietos e assanhados demais, loucos para chegar em casa e contar as novidades. Pois bem, podem ir saindo. Mas façam o favor de não tentar nenhum incêndio em casa.

Resposta:

COBERTURA

É noite fechada no bairro de X-8. Ele está em seu escritório, alerta como sempre, sentado à sua escrivaninha e pronto para ajudar alguma palavra que esteja em apuros em relação à sua própria origem. Contanto que ela possa pagar à vista.

Neste preciso momento, sem ninguém para atender, ele está treinando seu disfarce de dorminhoco.

Consiste do seguinte: ele coloca os pés sobre o tampo cuidadosamente empoeirado da escrivaninha e enterra a cabeça mais ainda na gola da gabardine que só tira para tomar banho e dormir.

Ela desaparece, tapada pelo chapéu. Em seguida, ele começa a emitir roncos como se estivesse dormindo, o que enganaria qualquer espião que o estivesse vigiando.

Logo começa o desfile de animais estranhos à sua frente: misturas de jacaré com chimpanzé andando de monociclo, de arara com capivara fazendo malabarismos, de girafa com garrafa, de rato com pato, tudo muito colorido e acompanhado por uma ruidosa banda de minhocas…

É então que ele cai da cadeira e vê que o desfile nunca ocorrera.

– Puxa, isso é que é disfarce bem feito  –  pensa ele, que jamais aceitará ter cometido algum deslize. – Até eu me enganei. Excelente.

Nesse momento batem à porta e ele, com a cara de quem nunca deixou de estar alerta na vida, manda entrar.

Entra a palavra Cobertura, espevitada, gasguita, esganiçada, cabelo em rabinhos de
cavalo dos dois lados, nervosa, adolescente, saltarina.

Para-se na frente dele e não espera que ele pergunte o que ela deseja. Incontinenti despeja sua verborragia:

– Aí, Tio, é o seguinte, eu andei me dando mal na escola porque aquele velharedo não quer que a gente use celular, imagina só como é que a gente vai repassar as últimas fofocas prá colega que senta do outro lado da sala, e também tive uns probleminhas por faltas mas também lá eles querem que a gente vá todos, to-di-nhos os dias, mesmo que a gente tenha ido a uma festa na noite anterior, assim não há quem agüente, não há condições, e estou ameaçada de expulsão se não levar até amanhã um trabalho que me deram sobre Entomologia que é de onde vieram as palavras, imagina só, eu nunca tinha pensado que elas tinham origem, e é um absurdo e tudo mais, mas meus pais me deram uma boa grana para pagar se você me ajudar nesse trabalhinho aí, seja bom, Tio, ajude uma pobre palavrinha estudante que sofre muito, ouvi falar que você é muito legal e…

O detetive ergueu a mão, interrompendo aquela catadupa de conversa:

– Não faço trabalhos de casa. Detesto. Pode sair.

– Mas Tio, olhaqui, não posso ficar sem levar isso para casa, o que é que eu vou fazer com esta grana toda que trouxe… – e tirou do bolso um maço de notas muito atraente.

O bom coração de X-8 amoleceu com tão comovente argumento.

– Hum… qual é o tema?

– A professora quer que eu dê as minhas origens, que estou louquinha para saber mesmo, e as de objetos que eu nomeio e que se usam na cabeça.

X-8 percebeu que aquilo era barbada. Acima de tudo, claro, teria ocasião de ajudar uma palavrinha mal-orientada a encontrar o caminho do estudo e da cultura e de aumentar seu saldo bancário.

Topou na hora, mas disse que iria falar e a cliente ia anotar tudo, nada de dar por escrito.

Ela aceitou e puxou um caderno cor-de-rosa, uma caneta da mesma cor com tinta idem de sua mochila rosada e se preparou.

O detetive pigarreou e começou:

– Para início, Cobertura deriva do Latim coperire ou cooperire, de com, “junto”, mais operire, “cobrir, tapar”.

Seu nome pode ser usado genericamente para diversos tipos de peças de vestuário usadas para proteger a cabeça.

Por exemplo, chapéu, do Latim cappellus, “chapéu”, de cappa, “proteção em tecido
para a cabeça”, de caput, “cabeça”.

Os militares usam o quépi, que veio do Inglês cap, também do Latim caput.

Já religiosos católicos e israelitas podem usar, em cerimônias, o solidéu, um barrete pequeno que tapa só o alto da cabeça; ele deve seu nome à expressão latina Soli Deo, “somente a Deus”, em alusão ao fato de que o religioso só o deve retirar no sacrário, em respeito ao seu Deus.

Temos também o boné que está tão em voga neste país, e que veio do Francês bonnet, descendendo do Latim medieval, obunnis, “espécie de capa”.

Em lugares mais frios se usa bastante a boina, nome basco derivado de bonnet.

Na hora da formalidade, usa-se, cada vez mais raramente, a cartola. Esta pelo menos tem a vantagem de apresentar uma etimologia diferente. Vem de nosso idioma mesmo, de “quarta”.

– Mas como, “quarta”? O que é que tem que ver? Quarta-feira? Eu tenho uma festa sempre às quartas, como é isso?

– Calma, moça. Já explico: ela vem de “quarta” com o sentido de “barril com a capacidade de um almude”, ou seja, de uns oito litros. Pela semelhança de formato, deu-se inicialmente o nome de quartola a esse chapéu tão esquisito, para não dizer ridículo.

– Almude? É um tipo de almoço?

– Não, é uma medida com quase trinta e dois litros, do Árabe al-mudd. E pare de fazer perguntas ou o preço vai dobrar!

Falando também em chapéus usados em cerimônias, há o chapéu-coco, aquele
que o Carlitos usava. Surpreendentemente, a palavrinha sabia quem era este personagem:

– Aquele chapéu redondo? Tá na cara que vem de “coco”, o fruto do coqueiro, grande coisa! Deve ter sido inventado por macacos.

– Pois não foi. Ele foi feito em 1849 por encomenda para Sir Edward Coke, pois este já não agüentava mais perder cartolas durante as caçadas à raposa. O chapéu mais baixo era mais adequado para cavalgar pelos matos.

– Ahh… que coisa! Mas já está bom, seu Detetive, com isto aqui vou conseguir fazer um trabalho bem bom para satisfazer aquela professora insistente.

– Ei, falta muito mais, há outras palavras ainda por examinar – disse o honesto detetive.

– Quer saber? Já estou aqui estudando há um tempão e fiquei cansada. Ainda vou ter que passar a limpo meus rabiscos para apresentar o trabalho amanhã . Se precisar volto depois para ver o resto. Tchauzinho, seu X-8!

E saiu a gasguita esganiçada e elétrica, fazendo barulho com seus sapatos de plástico cor-de-rosa nas tábuas gastas do corredor do Edifício Éden.

 

Resposta:

ARMADURA

Eu tinha andado lendo uns livros sobre a Idade Média que meu avô me tinha emprestado e fui visitá-lo para tirar umas dúvidas. E também para desfrutar da agradável companhia dele, que por sua vez gostava de me ver.

– Vô, ontem embatuquei lendo um dos seus livros, quando o cavaleiro se aprontou para enfrentar o inimigo e colocou a lança em riste. O que é isso, o bagageiro do cavalo?

O velho riu:

– Não. Os cavalos não tinham bagageiro. Aliás, nem caixa de mudança ou guidom, seu citadino.

Fiz meu melhor ar atoleimado:

– Aah…

Riste era uma peça que se situava à direita da couraça que defendia o tórax do cavaleiro, uma projeção fixa no metal. Servia para apoiar o cabo da lança quando ele
investia. Vem do Catalão rest, provavelmente ligado ao Francês rester, “descansar, repousar, apoiar”.

Outras partes da armadura eram o peitoral, que servia para…

– … para proteger o peito do herói!  –  disse eu, triunfante.

– Impressionante como você está sabido, meu neto! Não esperava tanto de você  –  disse ele.

Agora, se você já terminou de se meter a engraçadinho, vou lhe contar que essa palavra vem do Latim pectus, “peito”.

– Mas isso não se chama couraça também?

– Sim, este nome é dado à parte da armadura que protege  o tórax. Veio do Latim coriacea vestis, de corium, “couro”, mais vestis, “roupa, veste”. Isso porque inicialmente era feita de couro.

– Eu tenho uma jaqueta de couro, mas acho que ela não seria grande coisa para me defender de uma espada!

– Santa Paciência, é hoje que eu vou infartar. Saiba, meu ignorante neto, que essas peças eram feitas com couro cozido e prensado, o que resultava num material de excelente resistência.

– Ah. E a armadura propriamente dita, vem de onde?

– Do Latim armatura, “armadura” mesmo, de arma, “armas, material bélico em geral”.

– Outro dia eu vi na TV um tanque passando e o texto em Inglês falava em “armored
car”
. Isso não quer dizer “carro com armas”?

– Não, quer dizer “blindado”. Esse armored se refere a placas de defesa, não a armas.

O que me lembra de uma palavra que certamente você não conhece: gargueira.

– Isso é algum remédio para gargarejar depois da batalha?

– Até é; era uma peça que garantia que o soldado ainda teria uma garganta nessa ocasião. Tratava-se de uma peça usada na frente do pescoço para defendê-lo. Vem do Latim gula, “garganta”, derivado de um som imitativo de ruídos feitos sem o uso
das cordas vocais, garg. E você está certo em associar a peça da armadura a gargarejo, pois elas têm a mesma origem.

Esta peça ainda tem uso simbólico em alguns uniformes de gala hoje em dia, como no Exército inglês.

Perto dela, logo acima, ficava o elmo, a proteção para a cabeça inteira, que deriva do Frâncico helm, “elmo, capacete”, do Germânico helmaz.

Falando no capacete, temos que sua origem é discutida. O que parece se aproximar mais da verdade é que venha do Espanhol capacete, “peça de proteção para a cabeça”, do Latim capaceum, derivada de capere, “conter”.

Na Idade Média, houve uma moda de se colocar sobre o capacete figuras as mais estranhas, feitas em couro ou algum outro material. Eram monstros heráldicos, animais, plantas, qualquer coisa servia para aumentar a estatura do cavaleiro e assustar o inimigo. Claro que este também fazia de tudo para assustar, de modo que ficavam elas por elas.

De qualquer modo, eles usavam um tecido protegendo o capacete contra a poeira e a ferrugem. Ele começou a ser feito nas cores principais do escudo do portador. Chamavam-se lambrequins, do Holandês lamperkin, de lamper, “tecido fino”.

Eles fazem parte importante de um escudo de armas quando se estuda Heráldica.

– E o escudo, Vô?

– Vem do Latim scutum, “escudo alongado”. Pensei agora no guante, uma espécie de luva em metal, do Frâncico want-, “punho”.

Note como os germânicos e os francos, que eram um povo germânico, originaram palavras relacionadas a atividades bélicas. Parece que eles gostavam de uma boa confusão.

Eles protegiam as pernas com uma peça chamada greva, que parece vir do Francês grève mas cuja origem se desconhece.

E para as coxas eles faziam defesas chamadas coxotes, do Latim coxa, “coxa”, mas que inicialmente se usou para designar “osso do quadril”.

Pois essa parte da armadura se chamava quijote em Espanhol, há alguns séculos. Foi esse o nome que um cavaleiro senil chamado Alonso Quijano, que vivia num lugar chamado La Mancha, escolheu para si quando resolveu sair mundo afora vingando injustiças e libertando donzelas indefesas.

– Verdade, Vô?

– Quando você ler “Dom Quixote” vai saber. Até lá, continue interessado.

 

Resposta:

Armas Antigas

Certa vez, quando eu estava com uns doze anos, contei para o meu avô, em seu gabinete confortável e cheio de livros:

– Sabe, Vô, que no outro dia eu tinha lido umas coisas sobre as guerras da Idade Média e comecei a pensar que, se eu vivesse naquela época, poderia ter inventado algumas armas.

– E o que foi que você bolou? – disse o velhote.

– Pois comecei a pensar em alguma coisa que fosse pesada, que tivesse uma ponta… Ia precisar ter uma parte cortante, uma defesa para a mão de quem usa… E acabei inventando a espada!

O velho riu:

– Coisas assim já me aconteceram. Eu poderia ser rico, por exemplo, se outra pessoa não tivesse inventado o serrote muito antes de mim!

Mas, já que você puxou o assunto “armas antigas”, posso lhe contar umas coisas sobre os nomes delas.

Fiquei contente:

– Oba! Comece pela espada, Vô.

– Claro, quando se trata de lidar com armas, eles se interessam; se fosse para aprender Matemática você não estaria assim tão faceiro. Mas vamos lá, que eu também fui desse jeito.

Espada vem do Grego spathé, “peça achatada de madeira usada pelos tecelões, pá do remo”. Como vê, a palavra começou a vida descrevendo objetos menos destrutivos. Devido ao formato, acabou aplicada ao instrumento de guerra.

Mas esse vocábulo grego também originou, por exemplo, espátula, “objeto achatado usado em artes”, espáduas, “costas, dorso de uma pessoa”, o espaldar da cadeira onde a gente apóia as ditas cujas.

Os romanos usavam uma espada curta, o gládio, cujo nome parece vir do Gaulês kladyos, do Indo-Europeu qelad-, “bater, golpear”.

– Daí os gladiadores?

– Isso mesmo. E também o gladíolo, uma flor, devido ao formato das folhas.

– E a lança, Vô?

– Essa vem do Latim lancea, “lança leve de arremesso”, palavra de origem celtibérica. Desse nome derivou o verbo lançar, que no começo se referia apenas ao atirar da lança e depois passou a designar o arremesso de qualquer coisa, desde pedras até desaforos, tomates e ovos podres.

Esta arma tem diversas variantes, cada uma com seu nome. Os romanos usavam a hasta, que corresponde mais à imagem comum da lança, e o pilum, especial para se cravar no escudo do inimigo para o obrigar a largá-lo, deixando-o desprotegido.

Havia também o venábulo, uma lança curta muito usada para a caça, de onde tirou o nome, pois venare em Latim queria dizer “caçar”. E também outra lança curta, o dardo, que veio do Germânico darothuz, “lança”.

– Mas há outras coisas mais curtas que se chamam dardo, não é?

– Sim. Há aqueles que os ingleses atiram num alvo enquanto bebem cerveja morna nos seus pubs. Há os que são usados com tranqüilizantes para sedar animais. Às vezes, quando estamos incomodados, nosso olhos dardejam também, sabia?

Eu sabia. Já tinha visto uma vez aquele fogo gelado nos olhos do velho e não queria ver de novo. Puxei rápido outra pergunta:

– E o arco e a flecha, Vô?

– O arco tem origem meio complicada: veio do Latim arcere, “conter, repelir, afastar, guardar”, que originou também a arca onde antigamente a gente guardava os tesouros, e as arcadas dos prédios clássicos, por exemplo. Aplicou-se a analogia destes objetos curvos ao instrumento de arremesso de flechas.

E estas têm o seu nome originado no Frâncico fliukka, “flecha”, ligado ao verbo germânico fliegen, “voar”.

Elas podem ser chamadas também de setas, do Latim sagitta, “flecha”.

– E o que isso tem com o tal signo do Sagitário?

– Tem que essa constelação representa um centauro atirando com arco e flecha, daí o nome dela.

– Hum. Uma vez vi escrito frecha num dos seus livros antigos. Que erro, hein?

– Nenhum erro. Frecha é uma forma antiga mas ainda é Português correto, embora quase não se use em nosso país.

– E aquela espécie de arco com coronha?

– Ah, a besta, uma arma que lançava projéteis mais curtos que as flechas comuns e com energia bem maior. Havia uma grande discussão entre os seus partidários, que destacavam o grande alcance dela, e os do arco e flecha, que podiam disparar com muito mais velocidade.

Pronuncia-se bésta, preste atenção, com “É” aberto. Não tem nada a ver com besta com “Ê” fechado, que vem de bestia, “animal”.

O nome da arma deriva do Latim balista, uma arma pesada para arremessar dardos. Pode-se dizer também balesta ou balestra.

Mas, voltando às armas de combate próximo, temos o machado, que parece vir do Latim marculatus, derivado de marcus, “martelo”. E o que você me diz da francisca?

– Faz tempo que a gente não sabe da nossa vizinha, desde que ela fugiu com o pastor da igreja dela…

O velho riu muito:

– Peguei! Francisca é o nome do machado de duas lâminas que os godos gostavam muito de usar no pescoço alheio. O nome mais usado é franquisque, mas o outro está certo. Vem da palavra latina franciscus, “Frâncico”, um povo germânico que fazia das suas pela Gália.

– Essa eu não conhecia mesmo. Mas e quanto àquela coisa com uma bola e pontas de ferro…

– A maça. O nome vem do Latim mattea, derivado de matteola, “malho, martelo grande”. Era uma arma extremamente destruidora, mas precisava ser manejada por uma pessoa muito forte. Podia ter as pontas instaladas na extremidade rombuda ou ter uma bola espinhuda presa ao cabo por uma corrente.

– Não parece muito esperto isto da corrente, Vô. Fica mais difícil para usar. Qual era a vantagem?

– A vantagem era que a bola podia ser girada e passar por cima do escudo do desafeto para acertar a cabeça dele por trás. Acha pouco?

– Tá bom, Vô. Antigamente eles eram mais espertos do que eu pensava.

– Não se esqueça disso na hora de avaliar a minha inteligência. Mas você já ouviu falar de um cavaleiro de lança em riste?

– Já li alguma frase assim. Não quer dizer “com a lança levantada”?

– Atualmente quer dizer com qualquer coisa levantada, mas originalmente riste era uma peça da armadura peitoral que servia para apoiar o cabo da lança ao erguê-la para acometer o inimigo. Vem do Catalão rest, que era o nome desta peça.

E já que falamos em capacete, sua origem é discutida. O que parece se aproximar mais da verdade é que venha do Espanhol capacete, “peça de proteção para a cabeça”, do Latim capaceum, derivada de capere, “conter”.

Podemos falar também em armadura. Essa palavra vem do Latim arma, originalmente ligado a “armas de defesa, peças para evitar ferimentos no soldado”.

Ela pode ser chamada às vezes de couraça, do Latim corium, “couro”.

– Não me diga que se faziam armaduras de couro, Vô! Essa não!

– Faziam, com couro grosso fervido e elas serviam muito bem, sendo mais leves que as outras.

Mas quem fala em armadura logo se lembra de escudo, que vem do Latim scutum, “escudo”.

Falei no capacete e me esqueci que, nas armaduras antigas, se falava mais em elmo, do Frâncico helm, do Germânico antigo khelmaz, “cobrir, esconder”.

Logo abaixo da proteção para a cabeça vinha, na armadura de placas, uma peça chamada >gorgueira, para proteger o pescoço, do Latim gurguis, “garganta”.

Isso me lembra que a palavra usada para designar a peça que protegia as coxas é coxote, do Francês cuissot, que vem de cuisse, “coxa”, que era coxa no Latim. Em Catalão, essa peça se chamava cuixot, passando a quijote em Espanhol.

– Ué, Vô, esse não é o nome do…?

– Exatamente: Dom Quixote, “El Caballero de la Triste Figura”, da obra de Cervantes.

– Não entendi essa confusão do nome dele com uma peça de armadura.

– O nome dele na história era Alonso Quijano. Por semelhança com o sobrenome, ele teria escolhido como nome de guerra a palavra que designava essa peça. Em Espanhol da época, escrevia-se Quixote, com “X”, e se pronunciava com o som do nosso “CH”.

– Puxa, Vô, como a gente aprende coisas quando se põe a estudar as origens das palavras!

– É isso mesmo, rapaz. Mas a gente tem que estudar direitinho, para não acabar inventando origens, assim como você estava querendo inventar armas. Da próxima vez a gente fala mais. Até logo.

Resposta:

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