Palavra cassino

Jogos

 

Eu era adolescente e fazia tempo que entrava no gabinete do meu avô sem hesitar. Há muito eu tinha percebido como era sólido o nosso laço e me sentia seguro e acolhido ao visitá-lo.

Volta e meia eu passava por lá. abatido por alguma dor familiar ou da adolescência e, mesmo sem que entrássemos no assunto que me pesava, aquele contato me nutria e me dava condições para enfrentar a situação.

Algumas vezes me perguntei se ele saberia ou não o que se passava dentro de mim. Mais tarde descobri que ele sabia exatamente como eu estava e que sutilmente providenciava para lidar, mesmo de forma oculta, com o problema.

Mas desta vez eu estava sem maior peso na alma e queria aprender a jogar xadrez, principalmente para poder manejar aquelas bonitas peças em madeira polida que me fascinavam desde a infância. Olhando para elas, eu disse:

– Vô, quem foi que inventou este jogo tão intelectual? Deve ser bem moderno!

– Esse era um jogo de guerra e tem mais de mil e quatrocentos anos. Surgiu no norte da Índia. Era chamado de chaturanga em Sânscrito, uma palavra que era muitas vezes usada para designar “exército”. Olhe bem para as seis primeiras letras: se o “CH” soasse “K”, o que teríamos?

– Ora, katur.

– E se você trocasse as duas últimas letras, que palavra isso lhe recordaria?

Katru – ué, quatro?

– Isso mesmo! Essa palavra originou o quattuor latino, que virou o nosso quatro. E anga era cada um dos componentes dos exércitos locais: infantaria, cavalaria, carros de combate e elefantes.

Esse jogo imitava as manobras de um exército. As peças que hoje chamamos de peões eram a infantaria, os soldados a pé, mais numerosos, menos potentes e que morriam como moscas.

– E imagino que estes cavalos tão bonitinhos eram a cavalaria, né?

– Impressionante a sua inteligência, meu rapaz. Você certamente receberá um prêmio Nobel antes dos vinte anos se continuar assim. Agora conte-me o resto.

– N-não, Vô, isso eu deixo para você.

– Bem; a torre representa os carros de guerra, pelo poder que eles tinham em combate. E o atual bispo, os elefantes. Seu nome em Espanhol é alfil, do Persa pil, “elefante”, através do Árabe al-fil.

– E de chaturanga passou a xadrez como?

– Na Pérsia esse nome passou a chatrang; os árabes o passaram a chatranj e o levaram para a Península Ibérica, onde ficou ajedrez em Espanhol e xadrez em Português.

Há uma expressão que é tão usada no idioma em geral que muitas pessoas nem sabem que provém do xadrez: é xeque-mate, quando a peça chamada rei está cercada e sem saída alguma. Quando o rei era cercado irremediavelmente, o exército ficava acéfalo e nem era preciso dar cabo dele, pois ele não podia mais expedir ordens. Os persas diziam shah mat, “o rei está morto”, o que originou o nosso xeque-mate.

– E a rainha, que o senhor diz que é tão poderosa no jogo?

– Na origem, esta peça era um conselheiro ou assessor, farz em Persa. Na Europa, foi latinizado em farzia, passou para o Francês como fierce e depois vierge, “virgem”. Provavelmente por influência da religião católica, onde a Virgem tem tanto poder, a peça passou a simbolizar uma rainha com grande mobilidade e capacidade no jogo.

– Puxa, Vô! Quanta coisa num tabuleiro só!

– E ainda há uma história bem interessante. Diz ela que foi um monge que inventou esse jogo, para distrair e aliviar da tristeza um poderoso rei cuja esposa tinha falecido. Quando o rei aprendeu as regras e se tornou um grande apreciador do jogo, chamou o monge e lhe ofereceu uma recompensa: ele podia fazer qualquer preço que o tesouro do rei atenderia.

O monge, achando que o rei estava precisando agora de um pouco de humildade, pediu apenas um simples grão de trigo pela primeira casa do tabuleiro, dois pela segunda, quatro pela terceira, oito pela quarta e assim por diante, dobrando sempre os grãos a cada casa. O conjunto deles seria a sua recompensa.

– Ora, Vô, um saco cheio de trigo dá e sobra para isso! Nem precisa contar. O monge era modesto mesmo.

– É, seu espertinho? Pois foi isso mesmo que o rei pensou. Mas o monge insistiu em receber o número exato de grãos, nem mais nem menos. Aí Sua Majestade chamou seus sábios e displicentemente os mandou fazer os cálculos. Eles pegaram a fórmula para a soma dos termos de uma progressão geométrica de razão 2 e a aplicaram para 64 termos.

– E de que tamanho ficou o saco de grãos?

– Dum tamanho maior que a Índia inteira, pois o total de grãos dava dezoito quintilhões, quatrocentos e quarenta e seis quatrilhões e muitocentos e mais grãos – uma quantidade completamente fora do alcance de qualquer rei.

Eu sabia que o velho não inventava, de modo que me dei por vencido.

– Está bem, Vô. E o rei, ficou mais humildezinho?

– Não faz diferença, já que a história não é verdadeira. Mas é um bonito exemplo de matemática, não?

– É verdade. E aquele outro jogo com um tabuleiro igual, Vô?

– Ah, que época. Quando eu era menino todos sabiam o que era o jogo de damas. Aliás, todos tinham seu joguinho de damas, de dominó, de varetas, etcétera.

– Agora a gente tem videogames muito mais interessantes e bonitos, ora! Quando é que vou poder lhe ensinar algum, Vô?

– Já que você quer, qualquer dia destes. E vamos ver se eu não viro campeão!

– Combinado, Vô. Mas fiquei curioso com o nome do jogo de damas. Era só para mulheres?

– Nada disso. Acontecia assim: no chatranj, quando o rokh – soldado – chegava na oitava casa, o fim do tabuleiro, virava farz. Esta é a imagem do soldado que, pelos seus méritos militares, avança muito na carreira e acaba promovido a um cargo de muita importância. Em linguagem de xadrez atual, quando o peão chega à oitava casa, vira uma rainha com todos os seus poderes.

– Fazia uma operação de mudança de sexo?

– Fique quieto ou eu lhe bato com o relho! Dessa noção de uma peça virando uma rainha, isto é, uma dama de alta extração, na oitava casa, é que veio o nome francês de jeu de dames, jogo de damas, para o jogo. Nesse jogo também acontece de, quando uma peça chega à extremidade do tabuleiro, virar uma dama com superpoderes.

– E por que eles são chamados jogos de tabuleiro, Vô?

– Porque em Latim tabularium era uma espécie de bandeja sobre a qual se colocavam à venda doces e outras comilanças, um derivado de tabula, “tábua, mesa”. Da semelhança de forma é que se fixou o nome.

– Legal! E dominó eu sei o que é. A gente até usava uns joguinhos parecidos no primário.

– Poucos sabem que jogar isso de verdade implica em cálculos que levam até a ter idéia das peças que o adversário tem na mão. Este jogo já é bem mais moderno, tendo menos de trezentos anos. Provavelmente foi inventado na Itália.

– Já sei de onde vem o nome! É porque o vencedor dominava o outro e…

– Quieto, seu chutador! Etimologia não é assim. Se você continuar desse jeito, seu futuro na área será negro. O que ocorria é que existia um traje religioso que constava de uma capa preta com capuz e que era chamado de domino pelos franceses. Essa palavra vinha do Latim dominus, “senhor”, uma forma respeitosa de chamar os religiosos.

Este nome começou a ser usado para os trajes semelhantes usados em festas de disfarce, com uma pequena máscara cobrindo a parte superior da face. E acabou nomeando o jogo em que se usam peças pretas com marcas brancas que lembram os olhos.

– E o jogo de cartas, Vô?

– Não é um, são numerosos. O nome das peças usadas nele vem do Francês carte, que veio do Latim charta, “escrito, papel, livro”. Mas originalmente esta palavra queria dizer “folha da planta de papiro” e veio do Grego khártes, sendo provavelmente de origem egípcia.

O ato de misturar as cartas para que a distribuição seja ao acaso antes do jogo se chama embaralhar, e parece vir de varalia, “confusão, desordem”, talvez de vara, “vara”, devido ao entrelaçamento das varas numa trama de vime.

Baralho acabou nomeando o conjunto de cartas de jogar.

– Uma conhecida dos meus pais parece que anda viciada em bingo. E este nome, de onde vem?

– Este jogo é mais moderno ainda; é do começo do século passado. Essa palavra vem da imitação do toque de uma campainha, bing! que se fazia quando eram completados os números desejados.

– E os dados? Chamam-se assim porque o dono do jogo os dá de presente?

– Chamam-se assim porque é uma palavra que veio do Oriente através do Árabe dad, “jogo”. Em Roma eram chamados de alea. Esta palavra ficou famosa quando Júlio César atravessou o rio Rubicon com seu exército – o que era proibido – e disse Alea jacta est!, os dados estão lançados“, ou seja, “a jogada foi feita, não há mais volta”.

Há um uso muito importante derivado daí, que é a palavra aleatório, que quer dizer “ao acaso”.

Falando em algo que pode trazer sorte ou azar, estas palavras têm histórias interessantes.

Azar, por exemplo, vem do Árabe as-sahr, “a flor”. Numa das faces dos dados que eles usavam havia uma flor, e o nome dela passou a significar “acaso”. Em Espanhol, este significado se manteve, e azar quer dizer “acaso”. Por exemplo, a frase Daba tiros al azar quer dizer “dava tiros a esmo, ao acaso”.

Em Português, por uma dessas voltas que as palavras dão, passou a significar o acaso desfavorável, a má sorte.

E sorte, sors em Latim, por sua vez queria dizer “o destino de cada um, a porção que cabe a cada um na vida, boa ou má”. Também por essas voltas acabou significando, em Português, o acaso favorável, vantajoso para a pessoa.

Havia uma expressão “tirar sortes” que queria dizer “escolher ao acaso, sortear”.

– E os cassinos, Vô?

– Ah, essas maneiras de tirar dinheiro alheio têm a origem dos seu nome no Latim casa, “cabana, morada pobre, morada rural”. As casas melhores eram por eles chamadas domus. A palavra casa, no entanto, prevaleceu no Português sobre domus.

Como o jogo, em várias épocas, era praticado em lugares pouco chamativos, usou-se o diminutivo casino para tais lugares, o que virou o nosso cassino.

Aliás, jogo tem origem num daqueles deuses antigos: vem de Jove, um dos nomes de Júpiter. Como este tinha um temperamento disposto à alegria – embora às vezes com brincadeiras um tanto brutas – formou-se a partir dele a palavra jovial, “alegre, descontraído”. E a palavra jocus, em Latim, “atividade que causa diversão”.

Os ingleses têm, entre as cartas do baralho, o joker, “o engraçado, o piadista”, representando o Bobo da Corte. Naquelas épocas cruéis, muitas vezes era escolhida para esta função uma pessoa com deformidades físicas. É por esta razão que o nosso coringa é representado por um homenzinho corcunda com roupas estranhas.

– É no cassino que se joga roleta, não é?

– Sim. Esta palavra vem do Latim rotullum, “cilindro, peça para enrolar papiro”. Foi aplicado por causa do rolar da bola até chegar a uma casa numérica.

– Vô, qual desses jogos o senhor recomenda para que eu fique rico?

– Quer moleza, é, seu safado? Meu conselho é: fuja de todos, pois sempre há alguém lucrando por trás, mesmo na hipótese de não haver manipulação no jogo. Fique apenas com o xadrez.

– E como é que eu vou enriquecer com o xadrez?

– Não vai. Mas enriquecer não é só ganhar dinheiro. Se você aprender que mexer uma peça aqui vai ter conseqüências ali e se aprender a calcular as possibilidades antes de cada movimento, sua vida terá menos complicações.

Falando nisso, agora você tem que ir para casa estudar, sabia? Vamos deixar para jogar xadrez e os seus videogames noutro dia. Até à próxima.

Resposta:

Casa

Crianças, muito bem. O materialzinho de aula está guardado, todas as tarefas estão terminadas, mas falta ainda um tempinho para podermos voltar para casa. Para nos distrairmos um pouco, a Tia Odete vai contar umas coisas sobre a origem da palavra casa.

Em Latim, o que nós hoje dizemos casa era chamado domus. Era tão importante ser a pessoa principal num domus, – o dominus, o “Senhor” – que daí derivaram palavras como dominador e domínio, que dão a idéia de alguém com poderes para ser obedecido pelos outros habitantes da morada, como parentes e servos.

O próprio título Dom, usado para os reis da Península Ibérica e os imperadores do Brasil, bem como para certas categorias eclesiásticas, vem de domus. Em Espanhol e Italiano, Don é uma manifestação de respeito.

Sim, Miguelito, já explico por que usamos casa e não um derivado de domus em Português. Em Latim se usava a palavra casa para designar uma choça, uma cabana, uma habitação miserável. Por algum motivo, foi essa a palavra que ficou em uso para designar nossas habitações atuais, já sem a conotação de baixa qualidade.

Daí vem também a palavra cassino, um diminutivo que designava “casa de campo”. Parece que as pessoas preferiam jogar em lugares mais afastados da cidade, donde o nome acabou pegando.

Muito bem, Leonorzinha, esta palavra não se usa apenas para um lugar de jogos de azar. Indica locais de reunião mais respeitáveis, como o “cassino dos oficiais”, a sala das refeições, num quartel. Você está bem informada. Será porque o seu pai é militar?

Outra derivada de domus é doméstico, “referente ao lar”.

Hein? Não, Ledinha, um trabalho doméstico não é feito por uma pessoa domesticada. Há relação, mas é outra.

Domesticar, “tornar caseiro”, também vem de domus, e se refere ao animal que, como espécie ou, às vezes, como indivíduo, teria uma vida selvagem mas que se adaptou à vida junto às pessoas, às vezes na casa delas.

O cão e o gato, por exemplo, eram selvagens e foram domesticados como espécies. Algumas aves podem ser criadas em cativeiro e acabar se habituando a viver em casa. Há pessoas que acham bonitinho o jacarezinho ou o leãozinho quando pequenos e resolvem criá-los na sua propriedade. Quando os bichos ficam adultos, no entanto, a sua condição selvagem se manifesta inescapavelmente, o que traz muito trabalho para os donos e maus resultados para os pobres bichos.

Outro derivado é domicílio, “local onde se reside, habitação”.

Muitos derivados de domus pertencem à linguagem culta, como domo, “cúpula, estrutura arredondada sobre uma edificação”. Aqui cabe também domificar, “dividir a cúpula celeste em doze partes” – coisa de astrólogos.

Ai, ai. Quando o Robertinho levanta a mão para perguntar, já sei que vai sair algo muito esquisito. Fale, meu filho. Ah, descobriu um nome de pessoa que vem de domus? Qual é?

Bem como eu esperava. Você é um amor de menino, mas eu já disse que seu futuro como etimologista é dos mais duvidosos. Não, Demóstenes não tem essa origem. É Grego e quer dizer “a força do povo”. Agora desligue o seu bicho carpinteiro e fique quietinho um pouco. Pense em estudar Medicina no futuro, é mais simples.

Uma palavra que poucos desconfiarão que descenda de domus é domingo. Este era “o dia do Senhor”, ou dominicus dies, onde obrigatoriamente não se trabalhava. Mas crianças que querem ser boazinhas de verdade deixam de brincar nesse dia e estudam, sim, senhores!

Antigamente, quando uma pessoa espirrava, alguém por perto dizia Dominus tecum!, ou seja, “O Senhor esteja contigo”, pois se pensava que a alma da pessoa corria o risco de sair pelo nariz com o espirro.

Estudos aprofundados demonstraram que isso não pode acontecer. As pessoas educadas tapam o nariz nesse momento para não espalhar eventuais microrganismos por aí, não para segurar a alma.

Bem. Quando saímos daqui do coleginho onde algumas professoras sacrificadas penam devido à desatenção de certas pessoinhas, voltamos para casa pelas ruas.

Esta palavrinha tão curta para coisas tão compridas vem do Latim ruga, “sulco, ruga”. E tem uma relação maior com a realidade do que parece modernamente, quando as ruas são mantidas tão lisas quanto possível.

Na época em que os leões faziam seus lanches nos Circos romanos, as ruas que não tivessem uma pavimentação especialmente sólida eram profundamente sulcadas pelas rodas das carroças. Isto inclusive determinou um padrão de largura para os eixos, pois senão os veiculos teriam que andar com as rodas de um lado num sulco e as do outro lado fora do outro sulco, forçando-os a andarem inclinados. As estradas romanas tinham todas a mesma largura, em qualquer dos países que eles dominavam, por causa disso.

Quando estamos a caminho de casa, não imaginamos que essa palavra, que passou pelo Latim Vulgar como camminus, tenha vindo do Celta kamm, “andar, ir”.

E a estrada? Vem do Latim via strata, “caminho em camadas”. Sternere queria dizer “estender, dispor em camadas”. Daí vêm “estratificar” e “estrado”, que é uma estrutura em geral feita com mais de um nível de material onde uma professora nos dias de hoje tem que ficar para poder controlar seus aluninhos, e tire já a mão da Helozinha, Sidneizinho!

Quando chegamos em casa, se não desmaiarmos de exaustão antes, no caso de certas professoras mais sacrificadas, entramos pela porta. Em Latim, portus significava o local de passagem de um lugar para outro, como entre aposentos.

Se olharmos para fora pela janela, estaremos lidando com algo cujo nome veio do Latim januellam, diminutivo de janua, “pequena porta”. Parece que as janelas foram uma invenção meio tardia nas habitações européias, pois em Inglês são chamadas windows, em Francês fenêtres, em Espanhol ventanas, tudo com origens diferentes.

Já imaginaram, viver num lugar escuro, cuja única abertura nas paredes fosse uma porta? Até certa época, nem chaminé havia para a saída da fumaça gerada pelo fogo para cozinhar. Como? Não senhores, eles não podiam usar fogões elétricos, não, e não era só por serem pobres!

Aliás, já que falamos em parede, ela vem do Latim paries, que também é usado no nome dos parietais, ossos do crânio que formam, por assim dizer, as suas laterais, junto às orelhas. Parietal, como adjetivo, significa “relativo às paredes”, e tem uso culto.

Olhem só, tocou o sinal. Podem sair em fila, bonitinhos, como sempre. Se eu estiver viva amanhã vou contar mais fatos interessantes para vocês.

Resposta:

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