Palavra cofre

GUARDAR COISAS

 

O famoso X-8, o Detetive das Palavras, vai fazer mais um atendimento coletivo. Desta vai explicar as origens de palavras relacionadas a dispositivos de armazenamento.

Como sempre, ele está acomodado de modo ameaçador atrás de sua grande escrivaninha, encarando o grupo de palavras que olha para ele ansiosamente, à espera de sua torrente de sabedoria.

Verdade é que o adjetivo “ameaçador” fica lá por conta dele mesmo. Tudo o que as palavras-clientes veem é um sujeito muito baixinho vestido com uma enorme gabardine e chapéu de feltro desabado atrás da escrivaninha.

Conforme o ângulo de visão, dá para ver que há uma atroz pilha de dicionários sobre o assento da cadeira giratória velha e torta, para disfarçar o fato de o seu dono ser verticalmente prejudicado.

De qualquer modo, ele está começando a falar. Vamos prestar atenção:

– Tenho hoje a honra de receber palavras relacionadas a uma atividade muito antiga da Humanidade. Sem vocês, não teríamos como guardar materiais indispensáveis à nossa sobrevivência.

As palavras se inclinaram para a frente, satisfeitas.

O palestrante continuou:

– Para começar, cito armazém que nos olha com uma visível interrogação na testa. O seu nome vem do Árabe al-mahazan, inicialmente “depósito de armas” e depois “depósito de víveres, entreposto”. Se não me engano, só existe em Português e Espanhol; parece que não apresenta parentes no resto da Europa.

A palavra ficou sem saber se achava bom ser quase única ou se achava ruim ter poucos parentes. Optou por ficar bem quieta.

O detetive se voltou para depósito:

– Já você deriva do Latim depositum, particípio passado de deponere, “deixar de lado, guardar, depositar”, formada por de-, “fora”, mais ponere, “pôr, colocar”. Tanto serve para designar um local onde são guardadas coisas de valor como para indicar uma quantia de dinheiro deixada previamente em pagamento de uma compra de grande valor.

Agora, quanto a paiol, ali no fundo: sua origem é o Catalão pallol, “compartimento do navio para guarda de víveres ou munições”. É interessante comentar que, em Espanhol, usa-se também o nome santabárbara – assim mesmo, tudo junto  –  para o paiol.

Nos grandes navios de guerra a vela havia dois depósitos de munições a bordo. Eles eram revestidos por chumbo e ficavam abaixo da linha d’água, para evitar serem atingidos pelo canhoneio inimigo. Nestes depósitos ficava uma imagem de Santa Bárbara, a padroeira dos artilheiros.

Claro que a distinta clientela quer saber por que ela foi escolhida por tão distinta corporação. Diz a história que ela seria a filha de um rei da Nicomédia. Quando ela quis se converter ao catolicismo, o senhor seu pai, descrito na legenda como uma pessoa de escassa paciência, a fez sofrer torturas indizíveis, que não vou descrever para que as palavras presentes não tenham pesadelos mais tarde.

Pois depois da tortura o rei, que era pessoa respeitadora da lei, a enviou para ser julgada. Condenada, o próprio senhor seu pai a decapitou no cume de uma montanha. Logo depois ele foi atingido por um raio, o que tornou Bárbara posteriormente uma santa que protege as pessoas de raios e explosões, muito invocada na língua espanhola por ocasião de tempestades.

Mas, voltando ao nosso assunto, vejamos a origem de silo. Sua origem é o Espanhol silo, “local preparado para guardar grãos”, do Grego seirós, “cova ou tulha para depositar grão”.

E já que falamos nela, tulha, “celeiro, local para depósito de grãos”, tem origem discutida. Há quem ache que vem do Latim tudicula, “local para prensar azeitonas e guardar o azeite”.

Falando em locais menores, temos aqui cofre. Em Latim, cophinus, era “cesto de vime”, sentido que passou a “caixa reforçada para guarda de bens”.

Outro continente para dinheiro era a arca. Esta vem do Latim arca, “cofre, arca”, derivado de arcere, “guardar, manter sob vigilância”.

Vejo que arsenal ali mostra certa inquietude. E com razão, como é que a gente fala em paiol e não a cita? Ela deriva do Italiano arsenale, do Árabe dar as-sina’ah, “oficina”, literalmente “casa de manufatura”, de dar, “casa”, mais sina’ah, “arte, técnica, artesanato”. O sentido de “lugar de fabricação ou guarda de armas” é de cerca de 1570.

Indo para material menos agressivo, temos aqui despensa. Ela veio do Latim dispendere, “gastar”, pois era ali que se guardavam as coisas necessárias ao funcionamento da casa e com as quais se havia feito gastos.

Há uma palavra estrangeira que é usada sem alteração na escrita e que parece ter vindo para ficar, como consequência da modernização. É container¸ aquela espécie de baú enorme que cruza os mares em navios e as estradas sobre caminhões. Vem do Latim continere, “conter, manter dentro de si”, formado por com, “junto”, mais tenere, “segurar”.

Calma, baú. Vou contar que você vem do Francês bahut, mas que antes disso não tem origem conhecida.

Agora, distintas clientes, despeço-me de todas e lhes desejo uma boa noite.

 

Resposta:

MOEDA

Um dia, lá pelos meus doze anos, eu estava no gabinete de meu avô, olhando-o colocar em ordem umas moedas que ele guardava, entre tantos livros e outros objetos interessantes.

– Quem foi que inventou a moeda, Vô?

Ele se sentou em sua fofa poltrona, com um pano no colo e uma caixa de moedas do lado e começou a falar, enquanto as lustrava. Eu me acomodei no meu banquinho e prestei atenção.

– Quem inventou não se sabe, só que foi há muito tempo. Mas posso lhe dizer que essa palavra vem do Latim monere, “advertir, admoestar, avisar”. E há uma história interessante por trás.

–  Oba, é comigo!

Ele continuou, com um olhar terno:

– Numa das invasões dos bárbaros à Itália, um grupo deles tentou escalar a parte da muralha de Roma junto à qual, pelo lado de dentro, se situava um templo dedicado à deusa Juno. Os gansos consagrados à deusa, que estavam no terraço do templo, deram o alarme e os soldados romanos acorreram e afugentaram o inimigo.

– Gansos, Vô? Não eram cachorros, não?

– Gansos são ótimos vigias. São usados nesse papel há muito tempo. Enfim, o que conta é que, agradecidos, os romanos declararam que aquele templo era dedicado a Juno Moneta, “a Juno que avisa”.

Mais tarde, nesse templo, se estabeleceu um local onde se cunhavam discos metálicos com valor definido, próprios para fazer negócios de compra e venda. Estes receberam um nome derivado da deusa do templo: moneta ou moeda.

– Legal, Vô! E o que é que a “cara ou coroa” tem a ver?

– As moedas têm duas faces; as antigas moedas portuguesas tinham uma coroa, como símbolo do Reino de um lado e a cabeça do soberano reinante do outro, ou cara.

Essas faces se chamam também, respectivamente, reverso e anverso. Estas derivam do Latim reversus, de revertere, “virar para trás”, formada por re-, “para trás”, mais vertere, “virar”;  e de anversus – que vem de anteversus, “aquele que precede, que vem à frente”, de ante, “à frente”, mais versus.

Além disso, elas têm uma borda, que vem do Germânico bord, “lado, extremidade, limite”. Até certa época ela era serrilhada; olhe aqui nesta moeda brasileira mesmo: vê?

– Sim, até fica mais bonito assim.

– Pois não era só para enfeite, não. Na verdade, foi uma invenção genial. Acontece que os espertos, que existiam antes como agora, podiam pegar uma moeda em metal valioso – elas podiam ser de ligas de ouro ou prata – e retirar um pouquinho de metal raspando com uma lima.

– Mas se tirassem demais ia chamar a atenção!

– Certo. Por isso eles tiravam uma quantidade mínima, mas com o tempo conseguiam alguma coisa que valesse a pena juntar. Imagine os funcionários de um banco fazendo isso, por exemplo. Quando as moedas passaram a ter o bordo serrilhado, já não se podia fazer mais isso, pois se uma moeda se apresentava alisada ela não seria aceita por estar fora de padrão.

– Deixe ver as que tenho no bolso. Olhe, umas têm e outras não.

– Como elas já não são feitas em metal precioso, o serrilhado já não é mais necessário. Ele é mantido em muitas moedas mundo afora apenas como tradição.

As moedas são muito menos usadas atualmente, devido ao seu peso e manuseio mais difícil; foram substituídas em grande parte pelas cédulas em papel. Este nome vem do Latim schedula, diminutivo de scheda, “folha de papel”.

Mas os pequenos discos de metal são muito atraentes e além de terem seu valor nominal podem ser importantes para colecionadores.  As pessoas que se dedicam a reunir medalhas, moedas em papel ou metal, estão inseridas na numismática, palavra que deriva do Latim nomisma, do Grego nómisma, “dinheiro, moeda corrente”, de nomizein, “manter em uso”, de nomos, “lei, uso”.

Moedas já foram feitas em diversos tipos de ligas metálicas, com predominância de ouro, prata, cobre, alumínio, aço e outros.

Liga por que? Para as moedas ficarem ligadas ao dono?

– Não, bobo. Essa palavra vem do Latim liga, do verbo ligare, “unir, juntar”. Isso porque dois ou mais metais são unidos para formar um material diferente.

Esse ato se chama cunhagem de uma moeda. Isso porque a imagem era batida contra o metal aquecido da moeda a partir de um cunho, uma peça alongada em metal mais durável, cujo nome vem do Latim cuneus, “cunha”. Esse cunho tinha, em relevo, a imagem invertida do que se queria gravar.

Esta palavra se usa também para designar a criação de uma palavra nova. Pode-se dizer que “a palavra qualidade (qualitas em Latim) foi cunhada por Cícero”.

– É verdade, Vô que aquele seu cofrinho ali está cheio de moedas de ouro?

– Está cheio de contas a pagar, isso sim. E cuide-se, que estou pensando em deixá-las todas para você de herança se não corrigir essas suas tendências a engraçadinho. E já que se falou no cofre, ele vem do Latim cophinus, originalmente “cesto”.

É nele que se guarda o dinheiro, do Latim denarius nummus, “a moeda que contém dez (dez ‘asses’, uma subdivisão)”. Essa moeda logo passou a ser chamada apenas de denarius.

E os cofres grandes mesmo ficam dentro dos bancos. Na Itália banca queria dizer “mesa”, o móvel sobre o qual se faziam os negócios, inicialmente com moedas metálicas.

E por agora já falamos bastante. Volte para casa e vá estudar, que senão você não vai ganhar dinheiro suficiente para viver quando for grande.

 

Resposta:

Continentes

Não, não estaremos falando sobre os cinco continentes, placas tectônicas e assuntos da Terra em geral, não.Aqui se trata de lidar com a origem das palavras usadas para denominar as numerosas invenções feitas pela humanidade para poder guardar e transportar produtos, sejam eles sólidos, líquidos ou gasosos.

CONTINENTE – para começar, obviamente. Vem do Latim continere, “manter unido, abarcar, conservar”, verbo formado por com-, “junto”, mais tenere, “segurar”. “Continente” é o que guarda, que retém, que contém alguma coisa. Daí o nome dado às grandes extensões de terra em que se divide nosso planeta. A palavra “contêiner” é um aportuguesamento do Inglês container, usada para as grandes caixas metálicas de transporte de carga, principalmente por via aquática.

RECIPIENTE – do Latim recipiens, “o que recebe de novo, o que recupera”, do verbo formado por re-, “de novo”, mais capere, “tomar, pegar”.

CAIXA – do Latim capsa, nome dos protetores cilíndricos usados para guardar os rolos de papiro de então, época em que os livros não eram feitos com lombada como agora. Passou a designar um tipo de estabelecimento bancário por analogia com a “caixa” onde era guardado o dinheiro. O mesmo se dá com a parte dos estabelecimentos comerciais onde são feitos pagamentos e recebimentos.

GARRAFA – não há completa certeza, mas parece vir do Árabe garaba, “recipiente para transporte de líquidos”. Desnecessário dizer de onde vem “garrafão”, né?

FRASCO – dizem uns que vem do Latim vasculum, “vaso”. Já outros insistem em que vem do Latim tardio flasco, “pequena garrafa”, de origem germânica. Seja como for, parece que essa palavra gerou “fiasco” em nosso idioma. Esta palavra italiana se referia às tentativas falhadas de fazer garrafas nas indústrias da época, que acabavam destinadas a frascos, não sendo usadas para fins mais nobres.

FRASQUEIRA – é uma espécie de valise usada para levar frascos, geralmente de cosméticos.

TONEL – agora passamos para continentes de maior volume. Este recipiente vem do Latim tunna, “couro”, por extensão “recipiente de couro, odre”.

ODRE – pouco se usa atualmente esta palavra que significa “bolsa de couro para líquidos”. Ela pode também ser usada para designar um bêbado, tanto pelo conteúdo alcoólico como pela dificuldade de se manter em pé sem apoio. Deriva do Francês outre, “odre”, do Latim uter, “bolsa, interior de cavidade, útero”.

BARRIL – incerta origem; sugere-se o Latim barra, de origem gaulesa, já que o recipiente é feito por barras de madeira.

BOTIJA – do Espanhol botella, “garrafa”, do Latim butticula, diminutivo de buttis, “odre, tonel”. Ser apanhado “com a boca na botija” significa ser encontrado em pleno ato proibido, seja bebendo o líquido alheio, seja metendo a mão no que não lhe pertence.

ARQUIVO – é um recipiente para papéis. Ou era, antes da era da Infomática. Seu nome deriva do Latim archivum, que veio do Grego ta arkheia, “registros públicos”, de arkheion, “prefeitura, governo municipal”, de arkhé, “governo”, literalmente “começo, origem”.

ESTOJO – deriva do Latim studiare, “guardar, tomar cuidados”, de studium, , “zelo, cuidado, esforço”.

COFRE – uma caixa-forte, por estranho que pareça, tem seu nome derivado de um cesto. Em Latim, cophinus, era “cesto de vime”, sentido que passou a “caixa reforçada para guarda de bens”. Daí veio também a palavra inglesa coffin, “caixão de defunto”.

Resposta:

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