Palavra correto

MORIGERADOS

 

Hoje minha salinha de aula está dentro do seu how to write an outline for a book report assombroso normal: um grupo de crianças ferozes, incontroláveis, dando mostras da mais bárbara selvageria. Ah, vocês seriam o orgulho de Átila o Huno, se ele resolvesse abrir um colégio maternal em sua época.

Por que não tentam ser mais morigerados?

Hum, é isso; agora tenho o mote para dar uma aula de etimologia para vocês; paradoxalmente, é a única coisa que os acalma.

Ouçam: essa palavra meio estranha vem do Latim morigerari, “dar atenção, ter bons costumes”, de mores, “costume”, mais gerere, “conduzir-se, lidar com”. Se todos vocês fossem assim, esta professora talvez parasse de ter pesadelos todas as noites.

Seria bom também que fossem contidos em suas manifestações de ferocidade. Esta vem do Latim com-, “junto” mais tenere, “segurar, manter, obter”. O verbo continere queria dizer “segurar firme, conter, rodear”.

Às vezes me parece que só a farta distribuição de camisas-de-força nesta aula conseguiria mantê-los quietos.

Seria maravilhoso se o grupo fosse ajuizado. Esta vem do Latim judicium “ação de julgar, ofício de juiz”, de jus, “lei, regra, direito, adequado, perfeito”. Judicioso tem a mesma origem, não esqueçam.

Mas esperar isso de vocês é tentar tirar vinho de concreto armado.

Bem, então vocês poderiam ser assisados, quem sabe? Esta é bem pouco conhecida, mas é um sinônimo de ajuizado. Vem de siso, “juízo, bom senso, tino”, do Latim sensum, “percepção, sentimento, significado”, de sentire, “perceber, sentir, saber”.

Sisudo, que quer dizer “sério, prudente, sensato”, é outra derivada.

Sim, Zorzinho, o dente do siso tem a ver com o assunto. Trata-se de um molar que tem o mau hábito de nascer tardiamente, entre os 16 e os 25 anos. Como geralmente não há espaço para ele porque as arcadas dentárias a essa altura já estão ocupadas, seu surgimento muitas vezes acarreta dores, deslocamento de outras peças dentárias e até cistos e processos inflamatórios. Frequentemente ghostwriting hausarbeiten necessita de alguma intervenção.

Ele recebeu esse nome porque a idade em que se desenvolve é mais afastada da infância, um momento em que já se espera que o portador tenha maior capacidade comportamental.

Se bem que atualmente me parece que isso mudou muito.

Mas, voltando ao nosso assunto inicial, ser uma pessoa correta é sempre desejável. Ela vem do Latim correctus, de corrigere, “colocar em ordem, adequar, tornar certo”, formada por com, “junto”, mais regere, “guiar em frente, comandar”.

A Valzinha aqui levanta a mão… Sim, minha querida?

Hum, você quer saber se é correto uma das suas vizinhas de condomínio exigir que o marido cuide dos cinco filhos quando ela sai para a noite? Bem, isso não é assunto etimológico, de modo que vamos passar adiante e falar sobre a origem de ponderado. Esta deriva do Latim ponderare, “pesar”; por extensão, “avaliar, pensar sobre”, tal como uma pessoa avalia o peso de um objeto balançando-o na mão.

Uma coisa que vocês aqui decididamente não são é disciplinados. Esta veio do Latim disciplina, “instrução, conhecimento, matéria a ser ensinada”. E esta deriva de discipulus, “aluno, aquele que aprende”, do verbo discere, “aprender”. Mais tarde ela assumiu o significado de “manutenção da ordem, atendimento às regras”.

Ou seja, tecnicamente vocês aqui são meus discípulos, mas tenho sérias dúvidas de que consigam aprender alguma coisa.

Já que eu disse sérias, informo que esta vem do Latim serius, “importante, grave”, provavelmente de uma fonte Indo-Europeia swer-, “pesado”.

E agora vou citar uma que ninguém aqui deve ter ouvido: circunspecto. Deriva do Latim circumspicere, “olhar ao redor”, formada por circum-, “ao redor”, mais specere, “olhar”.   Uma pessoa assim encara de modo ponderado as situações e se porta de acordo.

Por exemplo, eu, ao cruzar pelo pátio da escolinha, olho sempre ao redor para evitar ser atingida por algum projétil que um aluninho meu resolva me atirar como demonstração de carinho.

Isso mostra que sou uma pessoa criteriosa. Esta vem do Grego kriterion, “padrão, regra para distinguir o verdadeiro do falso”, de krinein, “separar”. Se o grupo aqui tivesse a capacidade de separar suas tendências antissociais dos seus atos, o planeta inteiro se beneficiaria. Mas vá a gente repreender uma dessas figurinhas que os pais abrem um processo daqueles!

Ser equilibrado também é desejável. Ela vem do Latim aequilibrium,  formada de aequi, “igual” e librare, “oscilar”. Ao colocar pesos idênticos em cada prato da balança romana, ela não pendia mais para um lado que para outro: os pesos estavam equilibrados.

Ter um comportamento sóbrio é legal: esta veio do Latim sobrius, “não bêbado, composto”, de se-, de significado negativo, mais ebrius, “bêbado”, de origem desconhecida, possivelmente relacionada com o Indo-Europeu hegwh-, “beber”. Uma pessoa sóbria se comporta adequadamente, sem desviar-se das regras.

Aliás, adequado nos veio do Latim adequare, “tornar igual a”, de ad-, “a”, mais aequare, “igualar”, do aequi de que recém falamos. Tornar-se adaptado aos bons modos é muito bonito.

Enfim, gostaria que todos os presentes aderissem à sensatez, uma outra derivada de sensus.

Podem sair agora…

Não, não tentem passar todos ao mesmo tempo pela porta! Ai!

Céus, chamem o Exército, a Marinha! Que os santos me ajudem!

Bem, é o fim normal de mais um dia comum.

Resposta:

Tia Odete é Homenageada

– Puxa, pessoal, eu realmente não estou acostumada a falar em público, exceto para as crianças da minha aulinha. Como? Não preciso gritar tanto assim? Está certo, desculpem , é o hábito.

Mas que surpresa! Bem que ontem eu vi o pessoal preparando esses cartazes de “Viva a Tia Odete!”, mas não podia imaginar que fosse para mim, apesar de hoje ser o “Dia da Funcionária do Mês”.

E surpresa, não se esqueçam, vem do Francês surprendre, de sur, “sobre”, mais prendre, “pegar, prender”, do Latim prehendere, “agarrar, prender, pegar à força”. Imaginem o que o bandido sente quando está achando que escapou e o mocinho pula de uma árvore em cima dele. Essa é a idéia.

Mas, como eu ia dizendo, apesar da minha falta de experiência com uma audiência adulta, não posso me furtar a dizer uma ou duas palavras para agradecer a esta homenagem tão sincera e tão espontânea de que sou alvo.

E, falando em homenagem, posso dizer desde já que essa palavra provém do Provençal Antigo, onde era omenatge, derivado do Latim hominaticus, de homo, “homem”. Era uma forma de um homem prestar vassalagem a outro nas épocas feudais, mas acabou tendo um sentido geral de “fazer honrarias”.

É claro que eu sei que nossa escolinha está fazendo um daqueles programas de qualidade que são usados para extrair até o bagaço de quem trabalha, fazendo muitos cumprimentos e recusando aumentos.

E todos nós aqui sabemos que, como parte desse programa, cada pessoa daqui já foi nomeada “Funcionária do Mês”, desde o pessoal que varre o pátio até a Diretora que está ali ruborizada e que eu sou a última da lista e que no próximo mês tudo vai recomeçar, mas tudo bem.

Já que eu disse funcionária, não custa lembrar que esta palavra vem do Latim functio, “função”, de fungi, “cumprir, realizar, desempenhar”. Functionarius era quem exercia uma função. Chegou até nós pelo Francês fonctionnaire.

Em todo caso, agradeço comovida esta medalha de plástico dourado numa corrente de alumínio também dourado que estão me entregando.

Engraçado, há uma figura de atleta nela. Ou não havia outra na casa das medalhas ou então estão dizendo que sou uma verdadeira atleta por agüentar essa turma. Prefiro esta hipótese.

Colho a ocasião para contar aos presentes que agradecer vem do Latim gratus, “o que agrada ou que reconhece um agrado”.

E que comover vem do Latim commovere, “mobilizar, mover conjuntamente”, formado de com-, “junto”, mais movere, “mexer, deslocar, mover”. Uma pessoa comovida é alguém que foi retirada do seu estado natural pelo esforço de outros, mesmo que eles não estejam muito desejosos de fazer isso.

E medalha tem uma história até bastante longa. Em Francês é médaille, em Italiano é medaglia, e derivou do Latim metallea moneta, “moeda feita de metal”. Nesse idioma, metallum queria dizer “metal”, e derivou do Grego metallon, “minério, metal” . Só que o sentido original desta palavra era “mina, escavação para buscar material”, derivado de metalleúein, “escavar, minar”, relacionado ao verbo metallan, “procurar, pesquisar”.

Quem diria, um caminho ininterrupto entre os gregos que procuravam materiais úteis e esta coisinha barata que acabam de pendurar no meu pescoço!

Por sua vez, alumínio é da palavra cunhada por Sir Humphrey Davy, que lá pelo fim do século dezoito, descobriu este elemento. Inicialmente ele o chamou de alumium e depois aluminum. Este nome foi mantido pelos americanos, mas os ingleses preferiram aluminium, “que soava mais clássico”, conforme uma publicação de 1812.

O nome foi escolhido por ele devido ao alume, sal mineral usado como adstringente, que em Latim se chamava alumen, “sal amargo”, com a mesma origem do Grego aludoimos, “amargo”.

Mas acho que estou me desviando do meu objetivo, que é agradecer pelas honrarias de hoje.

E a maior honra foi terem trazido a minha turminha de aluninhos que me olham dali do fundo. Vejam só o Zorzinho escrevendo sem parar, a Valzinha falando sem parar, o Joãozinho muito compenetrado com alguma revistinha misteriosa, a Joana Beatriz ouvindo os sussurros do Sidneizinho no seu ouvido, a Ledinha sem saber o que está acontecendo… São uma turma inesquecível. Mal posso esperar que termine este ano.

Sinceramente, não precisavam tê-los trazido! Principalmente se queriam me homenagear de verdade.

Como dizia eu, é uma honra, palavra que vem do Latim honos, “honra, reputação, dignidade”, ser agraciada com este título e este diploma impresso pelo computador em papel A4 barato, vejam só: vou mostrar e vocês vão aplaudir como se fosse algo fabuloso.

Não vou dizer que diploma, “licença, mapa”, originalmente, vem do Grego diploun, “dobrar”, de diplos, “dobro” porque acho que todos já sabem, mas quero lembrar que esta palavra não deve ser confundida com dilema, um termo técnico de Retórica, do Grego dilemma, “dupla proposição”, formado por di-, “dois” e lemma, “premissa, algo aceito como verdade”. A noção correta é “ter que fazer uma escolha entre duas alternativas desagradáveis”.

Antes que alguém me pergunte de onde vem título, respondo que é do Latim titulus, “cabeçalho, inscrição”, de origem obscura. Adquiriu o sentido de “palavra que indica a posição hierárquica de uma pessoa” lá pelo século quinze.

E fabuloso vem de fabula, como se chamava em Latim uma história. Literalmente, quer dizer “o que é contado”, do verbo fari, “falar, contar”, com base Indo-Européia bha-, “falar”.

Os mais velhinhos, como eu, se lembrarão das fábulas que ouvíamos na infância, histórias edificantes passadas entre animais, cuja idéia era nos incutir moral e sentimentos elevados. Pelo que se vê do mundo ao nosso redor, parece que não deu muito certo.

Mas, senhora Diretora, – ei, a senhora sabia que esse seu cargo se chama assim porque em Latim dirigere era “colocar certo, determinar corretamente”, formado por dis, “fora” e regere, “guiar”? E que isso vem do Indo-Europeu reg-, “mover em linha reta”?

Como se supunha que o soberano de um povo fizesse tudo certinho, tudo direitinho – que tempos aqueles, não? – daí veio o Latim rex, “rei”. Em Sânscrito, era rajan, “rei, líder”, que originou rajá e marajá. Essa base também originou em nosso idioma as palavras reto e correto.

Como eu dizia antes de interromper a mim mesma, senhora Diretora, não posso senão expressar meus grandes agradecimentos por esta homenagem tão espontânea, tão sincera, tão pura, tão especial, tão… faltam-me as palavras, exceto para perguntar se já definiram um aumento de salário para nós, pobres seres que aguentam a dureza sem praticamente emitir uma queixa que seja.

Ah, puxa, desculpe, a senhora está atrasada para o dentista e vai ter que sair correndo, eu não sabia! Diga a ele que a senhora merece o prêmio de Paciente do Mês!

Resposta:

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