Palavra ditador

TIRANIA

 

Fui visitar meu avô na saída da Faculdade.

Aproveitei para desabafar contra certos professores tiranos que, com sua arbitrariedade, se portavam como verdadeiros ditadores em aula.

O gentil cavalheiro me olhou pensativamente:

– Vejam só, meu caro descendente aqui às voltas com queixas contra a ditadura. Ele pensa que sabe o que é isso… Mas não vamos falar em minhas experiências, vamos aproveitar para lidar com nossa querida Etimologia e aliviar essa sua revolta com algo de útil.

A origem da palavra ditador é o Latim dictare, “dizer repetidamente”, de dicere, “dizer, falar, contar”, de uma fonte Indo-Europeia deik- “indicar”.

– E o que tem “indicar” com “falar”, Vô?

– Quando falamos sobre alguma coisa estamos metaforicamente apontando-a, colocando-a em destaque. Não lhe parece cheio de lógica?

Para os romanos da época da República, no entanto, um ditador não era necessariamente uma pessoa despótica e autoritária. Tratava-se de um cargo exercido por um magistrado por até seis meses, em caso de perigo para as instituições nacionais. Olhe só a sabedoria: eles tinham meio ano para exercer o poder absoluto, depois ele terminava.

– Espertos, eles.

– Já a palavra que você usou, tirania, vem do Latim tyrannus, “senhor, chefe”, do Grego tyrannos, “senhor, chefe, soberano, líder absoluto”, por sua vez com origem em um idioma da Ásia menor.

– Muitos deles agem como déspotas, como dizemos na aula. De onde vem isso?

– Vem do Grego despotés, “chefe, senhor”, originando-se talvez de uma palavra que queria dizer “o senhor da casa”, relacionada às palavras domos, “casa”, e posis, “marido”.

Por um tempo foi um título concedido aos imperadores bizantinos.

– Uma colega minha chama uma professora de generalíssima. Isso existe?

– Sim. Vem do Italiano generalissimo, um grau acima do de general. É título dado aos chefes das forças armadas de um país ou mesmo de um grupo deles em coalizão.

Parece ser de pouco uso atualmente. Obviamente é um aumentativo de general, que veio do Francês capitaine général, “capitão-geral”, “comandante em sentido amplo, com maior abrangência”, do Latim generalis, “relativo a todos, a toda uma classe”, de genus, “grupo, raça”.

– Chamamos alguns professores de totalitários também. Isso vem de total?

– Parabéns! Acertou! Ela vem do Latim totalis, “total”, de totus, “todo, inteiro, completo”, de origem desconhecida…

E resmungou baixinho, entredentes:

– Também, se tamanho marmanjo não percebesse isso…

– O que foi, Vô?

– Nada, não, eu estava só pensado alto. Estava me ocorrendo a palavra absolutista, de semelhante significado. Ela vem do Latim absolutus, particípio passado de absolvere, “libertar, separar”, de ab, “para fora” e solvere, “afrouxar, destravar, soltar, destacar”.

– E se usa porque um malvado é absolutamente bobo?

– Não deturpe. Refere-se a um regime político em que um dirigente tem poder absoluto, irrestrito.

– É um perigo, então.

– Nem fale. Isso já trouxe tremendos males à Humanidade.

Olhe, veio-me à mente outra: arbitrário. Ela vem do Latim arbitrium, “julgamento, escolha”, de arbiter, “pessoa chamada a decidir uma questão, árbitro”, formada por ad, “a”, mais baetere, “vir”. Faz-se assim a ligação entre a pessoa e o seu ato de se deslocar para resolver uma pendenga.

– No caso, o professor não parece estar agindo como juiz.

– É que aqui se está enfatizando o lado da ação que segue o arbítrio, que é a vontade própria do malvado, como você diz.

Uma pessoa assim pode ser prepotente, do Latim praepotens, “muito poderoso”, de prae-, “à frente”, mais potens, “poderoso”, de potere, “poder”. Ou seja, “aquele que coloca o seu poder adiante, que o faz sobressair”.

Muitas vezes estes usam de repressão, que nos veio do Latim reprimere, “empurrar de volta, manter à distância”, de re-, mais primere, “apertar, comprimir”. Quando alguém quer reprimir algo, dá a sensação de estar empurrando aquilo para longe de si.

Essas são coisas de autocratas, do Grego autokratés, “o que governa sozinho”, ou seja, que não delega poderes significativos para outros. Forma-se por auto-, reflexivo, mais kratés, “poder”.

– Parece que eles gostam de oprimir a gente.

– Esta palavra, por sua vez, vem do Latim oppressio, de opprimere, “puxar contra, esmagar”, de ob-, “contra”, mais premere, “empurrar”.

– Assustador, Vô.

– Pois é. Mas preste atenção, caro descendente: você vai ser aluno desses professores pelo resto da vida?

– Credo, Vô! Nada disso! Daqui a menos de seis meses a Cadeira termina e não devo mais ver essa figura.

– Então aprenda algo que é mais importante do que o que eu lhe ensino sobre Etimologia, concedendo que você esteja certo e a culpa da conduta dos mestres seja deles mesmo: quando um mal tem data certa para terminar, a situação não é tão ruim. O problema é quando ele não tem fim à vista.

Saí dali sentindo um alívio muito grande. O velho tinha razão. E essa lição me acompanharia pelo resto da vida.

 

Resposta:

DIZER

 

 Mais uma noite no escritório de um bravo detetive que elucida as origens das palavras. Enquanto o vento espalha lixo pelas ruas e fatos escusos acontecem pelo bairro inteiro, pelo menos uma transação é legítima naquela vizinhança: a troca de informação verdadeira pelo dinheiro da palavra-cliente. Claro que seria mais bonito se o preço que ele cobra não fosse escorchante, mas, enfim, a cliente aceita pagar, problema dela.

Ela está sentada à frente dele, ansiosa por saber de onde veio e que parentes ela tem neste mundo que tanto depende das palavras e tanto as maltrata.

Ele a olha friamente, coisa que não dá para perceber porque seu rosto está tapado pela gola da gabardine levantada  e pelo chapéu de feltro desabado.

Em todo caso, ele produz um silêncio frio, que ajuda a manter o suspense. Então ele começa a falar:

– Então temos aqui Dizer, uma palavra muito usada. Todos dizem que alguém disse alguma coisa, mesmo sem ser verdade. Veja a senhora, seus antepassados vieram do Latim dicere, “dizer, falar, contar”.

E a antepassada desse antepassado foi o Indo-Europeu deik-, “indicar”.

Veja a prezada cliente como é bonita a Etimologia. Observe com que sabedoria as pessoas, há milhares de anos, criavam palavras a partir de conceitos abstratos que se encaixavam com perfeição.

Pois quando dizemos alguma coisa não estamos apontando para um fato, colocando-o em relevo, chamando a atenção para ele?

Tanto é assim que dessa raiz Indo-Europeia veio também o Latim digitus, “dedo”.  E o Grego deiknynai, “provar”.

Destarte, a gíria “dica”, significando “informação” ou “indicação” se apresenta extremamente adequada, já que deriva de “indicar”, que vem de in-, “em”, mais dicare, “proclamar, asseverar”, parente próximo de dicere.

Muitos derivados sua avó deixou nos dias atuais; vejamos:

Ditar, “pronunciar um texto em voz alta”. Mas também quer dizer “impor idéias ou condutas, prescrever, determinar”.

Daí temos ditador, ditadura e companhia, gente cujo tempo esperamos que já tenha passado e não volte mais.

Também temos o nome de um aparelho que era usado em empresas, o Ditafone, derivado da marca comercial Dictaphone, formada pela raiz de dicere mais o Grego phone, “voz”.  Há algumas décadas, era o máximo um executivo ditar a correspondência nesse aparelho e esperar que a datilógrafa a transcrevesse para o papel.

“Aquilo que deve ser cumprido” é a definição de ditame, outra parenta sua, prezada cliente.  Em Latim, dictamen quer dizer “determinação proclamada por uma autoridade, lei”.

Ditado, além de ser o que as professoras antigamente faziam para os alunos escreverem e avaliar como andava a sua ortografia, significa “provérbio, frase curta que sintetiza um pensamento”.

Eu mesmo, modéstia à parte, minha senhora, já inventei diversos provérbios, tais como “Água mole em pedra dura tanto bate até que molha”, “A pressa é inimiga da lentidão”… Fiz  muitos outros, que talvez um dia publique se os amigos insistirem muito.

Mas vamos voltar à nossa consulta; sei que a senhora está fascinada e que gostaria de ficar mais por aqui, mas o tempo passa  e pelo preço que a senhora está pagando mal posso compensar o custo das diversas taxas e subornos que preciso ajeitar para poder exercer esta perigosa atividade.

Falado em ditado, temos o dito, “frase, afirmação, expressão”.  Ou, como adjetivo, “aludido, referido, do qual se disse”, como na frase “o dito político foi acusado de…”.

E a dita, querendo dizer “sorte, fado, fortuna” vem de dicta, “coisas ditas, fatos predeterminados pelo destino”.

Para dizer essas coisas todas, é necessária uma boa dicção,  “modo de articular palavras, pronúncia”, que em Latim é dictio, “modo de dizer, discurso”.

E quem quer saber o significado das palavras deve recorrer ao dicionário, que deriva do Latim dictionarium, “coleção de palavras e frases”.

A ideia de fazer uma obra listando os significados de palavras e frases vem já desde o sétimo século AC, veja só, na Babilônia.

A pessoa que é muito crítica, irônica, mordaz, pode ser chamada – atualmente, só por pessoas cultas – de dicaz, que também vem de dicere.

Mas acho que já disse tudo o que poderia dizer sobre Dizer, se me permite o trocadilho. Vou abrir a porta do escritório para a minha cara cliente.

Não se esqueça de tomar cuidado nas ruas, este bairro é muito perigoso. Passar bem!

 

Resposta:

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