Palavra espezinhar

MAUS TRATOS

 

Um péssimo hábito de nossa espécie é tratar mal os outros. Seja por pura maldade, arrogância, cobiça ou mesmo por uma distorção mental, essas ocorrências são coisa de todo dia em nosso planeta.

Enquanto não conseguirmos eliminar essa conduta tão desagradável, vamos nos conformar com estudar as palavras usadas para descrevê-la.

 

MALTRATAR  –  evidentemente se forma por mal, do Latim malus, “mau, ruim, nocivo”, mais tratar, do Latim tratare, “lidar, manejar, administrar”, relacionado ao verbo trahere, “puxar, arrastar, trazer”.

 

HUMILHAR  –  do Latim humiliare, de humilis, “humilde, de baixa extração”, literalmente “no chão”, de humus, “terra, chão”.

 

ESPEZINHAR  –  de , do Latim pes, “pé”, pelo sentido de usá-lo para pisar repetidamente ou, metaforicamente, maltratar.

 

ENXOVALHAR  –  alguns atribuem sua origem a enxovia, “prisão”, do Árabe ax-xaiuia, “prisão, cárcere”. Mas não há certeza.

 

VILIPENDIAR  –  do Latim vilipendere, “desprezar, dizer que algo vale pouco”, de villis, “barato, vil”, mais pendere, “pesar, balançar, avaliar preço”.

 

ENVILECER  –  do Latim invillescere, também “tornar vil, rebaixar”, do mesmo villis acima citado.

 

AVILTAR  –  do Latim viltare, “tornar vil, menosprezar”. Os romanos gostavam deste tipo de desaforo, já se vê.

 

DESPREZAR  –  forma-se pelo prefixo latino des-, de oposição, mais pretium, “apreço, estima”, do Indo-Europeu pret-yo, “comerciar, vender”.

 

DEPRECIAR  –  tem a mesma origem do anterior; seu uso principal é relativo a “rebaixar o preço, o valor de alguma coisa”.

 

MENOSPREZAR  –  mais um derivado de pretium. Este começa com menos, para dar a ideia de rebaixamento.

 

ACANALHAR  –  esta deriva de canalha, do Latim canis, “cão”. Por motivos desconhecidos, o nome deste nosso melhor amigo é usado como ofensa em grande número de idiomas. Injusto.

 

ACHINCALHAR  –  esta se origina de um jogo chamado chinquilho ou malha. Trata-se de jogar uma ferradura para atingir uma estaca cravada no chão. Sugere-se que chinquilho  se tenha formado a partir de cinco, da época em que eram usadas cinco estacas.

E o que tem com o sentido de “desdenhar, escarnecer”? Que, durante o jogo, é comum rebaixar o adversário.

Claro que isso acontece em todo tipo de jogo, mas quando inventaram a palavra pareceu adequado…

 

INFAMAR  – do Latim infamia, “desonra,  má fama, má reputação”, de in-, negativo, mais fama, “reputação, fama”.

 

MACULAR  –  do Latim maculare, “manchar”, de macula, “mancha, sujeira”.

 

MANCHAR  –  tem a mesma origem da anterior.

 

DESLUSTRAR  –  de des-, negativo, mais lustrar, do Latim lustrare, “polir, limpar”.

 

DESDENHAR  –  sua origem é o prefixo negativo des-, mais um derivado do Latim dignari, “considerar de valor ou adequado”, de dignus, “valioso”.

 

APOUCAR  –  de pouco, do Latim paucus, “escasso, em pequena quantidade”. Em Latim arcaico queria dizer “ficar pequeno, diminuir”.

 

MENOSCABAR  –  do Latim minuscappare, “fazer mal alguma atividade, deixá-la por acabar”, de minus, “menos”, mais accapare, “levar a efeito, terminar, acabar”.

 

Resposta:

Oi, gostaria de saber a origem das seguintes palavras:

Proxeneta

Malgrado

Espezinhar

Exasperar

GRATO !

Resposta:

1) Do Grego PROXENETÉS, “funcionário que recebia os estrangeiros e os orientava numa cidade grega”. Servia também como mediador e  corretor de mercadorias, entre as quais meretrizes.

Formado por PRO-, “a favor”, mais XENOS, “estrangeiro”.

2) De “mal”, + “grado”, do Latim GRATUS, “agradecido, agradável”.

3) Deriva de “pé”, pelo sentido de usá-lo para pisar repetidamente ou, metaforicamente, maltratar.

4) Do L. EXASPERARAE, “irritar, provocar”, de EX-, “completamente”, mais ASPER, “rugoso, áspero”.

Cheguei mancando na casa do meu avô e logo fui contando:

– Eu estava jogando bola na aula e um dos meus colegas pisou no meu pé! Ui, como dói!

O velho me fez tirar o calçado e a meia, examinou-me gentilmente e concluiu que não havia motivo para preocupação pelo pé.

Mas pintou um  quadro horroroso do que ia ser do meu futuro se eu me dedicasse ao esporte bretão – ou qualquer outro – em aula. E não houve jeito de o convencer de que não fazia mal porque a professora não estava presente e um de nós estava cuidando à porta.

Fiquei achando que prontamente iria acabar atrás das grades, dado o meu potencial criminoso.

Mas me parece que até ele achou demais a sua preleção e começou a me falar da origem dessa palavra e dos seus parentescos. Acomodei-me deitado no chão sobre o tapete, junto à sua cadeira, coloquei o pé machucado para cima, sobre o banquinho, e escutei.

–  Essa palavra de tanto uso vem do Latim pes, tendo passado pelo Grego como pous, que se torna podos ao entrar na composição de palavras.

– Por que?

– Por causa das declinações do idioma. E garanto que você não vai querer saber desse assunto por ora, de modo que fique quieto e escute.

– Como eu ia dizendo antes de ser tolamente interrompido, essa palavrinha tão curta, que em Indo-Europeu era ped-, gerou enorme descendência em nosso idioma e em outros. Por exemplo, o Inglês foot vem desse ped-.

Começando, sem ordem alguma, dá para lembrar a palavra podálico, “referente aos pés”.

Em Botânica, temos pedúnculo, do Latim pedunculus, “pezinho”, pois é através dele que uma flor se mantém erguida.  O pecíolo, que mantém o fruto unido à planta, vem de petiolus, também de pes.

Evidentemente que a pessoa que não usa veículo ou animal para se deslocar é chamada de pedestre porque…

– Vai a pé!

Ele me olhou com um cínico ar espantado:

– Impressionante, eu jamais pensaria que você percebesse isso.

Aquilo me calou por um tempo. Com um ar de sarcasmo, ele continuou:

– Os peões que fazem trabalho pesado em diversas áreas de nossa economia são assim chamados porque em geral não dispõem de veículo próprio.

Um animal pode ser bípede, como é o caso do bípede implume esparramado aqui na minha frente, quadrúpede, centípede, milípede, conforme o número de pés que porta, do Latim bis, “dois”, quattuor, “quatro”, centum, “cem”, mille, “mil”…

– Hah! Sendo assim, não existe nada com três pés! E há bichos com cem e mil pés mesmo?

– Vá até à cozinha então, seu bobo, e conte quanto pés tem as banquetas de lá. São trípodes. E quanto aos pés de certos artrópodes como a lacraia, eles não são mesmo em tamanha quantidade. O povo é que colocou esses nomes neles e pegou.

Quando você anda de bicicleta, sua energia é colocada diretamente nos pedais, eis aí mais um derivado.

Mas essas palavras nem sempre designam órgãos ou artefatos que fazem a gente se deslocar. Por exemplo, em Latim pedica queria dizer “armadilha para prender os pés de um animal” e adquiriu o significado também de “engano, engodo, cilada”.

Daí que impedir alguém de fazer alguma coisa se relaciona com os laços de corda que os meninos romanos faziam, há milhares de anos, para pegar passarinhos.

Despachar vem do Latim disimpedicare, “livrar de peias, soltar”; expedir vem de ex-, “fora”, mais pes, algo como “desimpedir, liberar os pés, o andamento de alguma coisa”.

Daí vem o expedicionário, que é quem participa de uma expedição, seja ela militar ou não.

Descer de um cavalo e ficar a pé se diz apear.

Maltratar uma pessoa, usar de desdém ou tirania contra ela, é espezinhar, como se o malvado estivesse pulando em cima.

Falando nisso, tripudiar vem de um sinal grego que se fazia batendo os pés três vezes quando se queria afastar uma pessoa ou desfazer dela.

Quando a gente tem que pagar pedágio  para andar numa estrada a gente está lidando com essa antiga palavra.

E o pedestal onde se coloca uma estátua, vem de, de…

Pes! E aposto que o Pediatra com quem eu consultava também vem daí. Ele sempre vai a pé até o seu consultório?

– Estava demorando para sair bobagem. Essa palavra vem do Grego pais, “criança”, mais iatrós, “médico”.

– Mas exatamente como se dizia “pediatra” em Grego?

– Não se dizia. Essa palavra foi criada no século XIX, na França, a partir das raízes gregas.

– Tá bom, e pedicure?

Essa sim, vem de pes mais curare, “tomar conta, cuidar”. E temos outra palavra que, pelo sentido, nem parece relacionada: o do verso. Lembra-se do falecido Tio Venâncio, que insistia em declamar nas festas suas poesias feitas a machado?

– Sim! Todos falavam alguma coisa sobre “pé quebrado” e eu não entendia como é que ele caminhava sem mancar.

– Quebrado estava outro , não o dele. Esta palavra também se usa para expressar o ritmo dos versos, do hábito instintivo de acompanhar as notas mais fortes numa música ou poema com um pé. Quando os versos não mantêm adequadamente o ritmo, a leitura fica desagradável, antiestética, e se diz que “o verso é de pé quebrado”.

Muito bem. Agora vá para casa cuidar desse seu pé não-quebrado, que eu tenho mais coisas a fazer do que dar aulas a um possível foragido da Justiça.

Resposta:

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