Palavra fama

CÉLEBRE

 

Meu avô estava, para variar, lendo em seu gabinete. Depois de nos abraçarmos, eu, então com meus dez anos, perguntei:

– O senhor pode me contar se é verdade que uma celebridade é chamada assim porque se usa muito o cérebro?

O antigo cavalheiro riu muito:

– E quem foi que passou essa informação para você?

– Foi o Zorzinho, meu colega de aula.

– Você anda em más companhias –  disse ele, enxugando umas lágrimas de riso.

Mas vou ajudá-lo a combater as trevas da ignorância. Ainda bem que você teve senso crítico e não saiu por aí espalhando essa mentira.

Preste atenção: cérebro vem do Latim cerebrum, “órgão do interior do crânio”, de uma base Indo-Europeia ker-, “o alto da cabeça”.  E celebridade vem do Latim celebritas, “multidão, fama, muito repetido” , de celebris, “afamado, repetido, abundante, ilustre”. Logo, elas não tem a ver uma com a outra.

– Aquele menino me paga!

– Mas já que estamos falando no assunto, vou-lhe contar das origens de algumas palavras com significado aproximado.

Uma é prestígio, “distinção, boa reputação”. Vem do Latim praestigiae, “truques, atos de destreza, de malabarismo”, aparentemente em relação com praestringere, “amarrar apertadamente, vendar”, de prae-, “à frente”, mais stringere, “atar, amarrar”.

– Ué, isso me lembra mais “prestidigitação”.

– Está certo, ambas têm a mesma origem. O sentido de prestígio começou como “engano, ilusão”, como o que os mágicos fazem, passando depois a “impressionar, espantar, obter influência positiva sobre outros”.

– Cada volta que essas palavras dão…

– Verdade, por isso é que devem ser estudadas com cuidado.

– E a reputação, Vô?

– Esta nos veio do Latim reputatio, “consideração”, de reputare, “refletir sobre, estimar, calcular”, de re-, “de novo”, mais putare, “pensar, supor, calcular”, originalmente “podar”.

– O que é que “pensar” tem que ver com “podar”?

– Os romanos eram um povo agrícola, várias das suas palavras eram baseadas em metáforas relativas às plantações. Aqui, se faz referência a pensar como um ato em que se tem que podar, ou seja, retirar fora do processo material que não vai ajudar a levar a uma conclusão.

– Legal, Vô!

– Muito. Mas também se pode usar, com esse significado, a palavra nome, nomeada ou renome. Derivam do Latim nomen, do Grego onyma ou onoma, “palavra usada para identificar uma pessoa”.

Temos também o uso de conceito para designar a reputação de uma pessoa, do Latim conceptio, “compreensão”, de concipere, “pegar e manter firme”, de com, “junto”, mais capere, “tomar, pegar, segurar”. Assumiu o sentido atual de “pegar mentalmente, entender” no século XIV. E não sei bem por que voltas acabou sendo usada para “reputação, renome”.

Pode-se também dizer que ume pessoa tem uma aura, que não é aquele sintoma comum na enxaqueca mas sim a boa fama que emana de alguém. É do Latim aura, do Grego aura, “aragem, brisa”, do Indo-Europeu awer-, que originou também a palavra ar.

Já que tocamos em fama,esta vem do Latim fama, “fala, rumor, reputação”, do verbo Grego phánai, “dizer, espalhar pela palavra”.

Quando a fama é muito grande, pode-se falar mesmo em resplendor, do Latim resplendere, “brilhar intensamente”, de re-, intensificativo, mais splendere, “brilhar, reluzir, emitir luz”.

Temos também importância, do Latim importans, de importare, “ser significante em”, originalmente “trazer para”, formado por in-, “em”, mais portare, “levar, carregar”.

– Parece mais uma que andou mudando com o tempo, não?

– Exatamente. Você é bastante atento, o que lhe concede crédito. Esta  nos chegou do Latim creditum, “algo emprestado, objeto passado em confiança a outrem”, particípio passado de credere, “acreditar, confiar”.

E nesta época de jovens de cabeça oca, o fato de você se interessar por cultura é notável, que vem do Latim notabilis, “digno de nota”, de notare, “perceber, destacar”, de nota, “marca, sinal, letra”, originalmente “marca, sinal de reconhecimento”.

Uma pessoa pode ter muito destaque; esta vem do Francês détacher, “soltar, desamarrar, separar”, formado por des-, “afastado, para fora”, mais attacher, “atar a, apoiar em”.

– E daí?

– Daí que uma pessoa que não precisa se apoiar noutra ou numa instituição pode ser notável. Mas nem sempre isso ocorre.

E, finalmente, de uma pessoa de boa reputação se diz que ela tem cartaz, do Grego khartes, “papel, folha de papel”.

Ufa, estou cansado de tentar iluminar as trevas de seu cérebro embotado. Está na hora de fazer um lanche, topa?

 

Resposta:

Mais Divindades Antigas Ainda Em Nosso Idioma

Já vimos, nas edições 3, 9 e 48 desta seção, como os nomes relacionados à mitologia greco-romana estão presentes em nosso cotidiano.

Pois a lista não se esgota aí; agora apresentamos mais palavras formadas a partir de divindades.

ÉDIPO – um sujeito de trágico destino, que inadvertidamente mataria o pai e casaria com a própria mãe, muito adequadamente usado por Freud para descrever determinada situação em Psiquiatria.

Seu nome viria, segundo Sófocles, do verbo grego oidein, “inchar”, mais pous, “pé”. Assim, ele seria “o de pés inchados”, pois eles tinham sido atados juntos fortemente quando foi abandonado num monte para morrer.

Quem começa a vida desse jeito só pode ter um futuro complicado.

PENÉLOPE – era a esposa de Ulisses, que esperou longamente por ele em sua volta da Guerra de Tróia. Ele era dado por morto em ação, e numerosos interessados disputavam a mão dela, que disse que só resolveria algo depois que terminasse de tecer a mortalha de Laerte, seu pai. Mas o que ela tecia de dia, desfazia pela noite, assim conseguindo retardar a questão.

Sua estratégia funcionou, pois Ulisses voltou a tempo de fazer picadinho dos pretendentes e reassumir o trono de Ítaca.

Daí se chamar de “teia de Penélope” uma conduta protelatória, que impede a resolução de um assunto. O nome da fiel esposa vem de pénelops, “pato ou ganso selvagem”, consoante um antigo costume grego de dar nomes de aves às mulheres. Esse final –ops não parece se ligar ao significado de “olho”; usava-se com freqüência em nomes de aves.

MENTOR – falando em Ulisses… Este era  amigo fiel do herói, que o deixou administrando seus bens em Ítaca, seu reino.

O nome deriva de ménos,  “decisão, mente, vontade, espírito”, e quer dizer “o que pensa, que reflete, que é prudente”.

VULCANO – usa-se para designar o tratamento da borracha pelo calor, a partir de 1846. Até então, o verbo to vulcanize, “vulcanizar”, era usado em Inglês com o significado de “inflamar, colocar em chamas”.

Deriva do deus romano do fogo, Vulcanus, de provável origem etrusca e significado ainda desconhecido. Claro que a palavra “vulcão” também vem do nome deste deus.

Ele era muito feio e manco, mas foi casado com Vênus, a deusa da beleza. Paradoxos da vida!

SEREIA – vem do Grego seirén, cujo significado se desconhece. As do mito eram formosas jovens da cintura para cima, mas aves daí para baixo. Possuíam o mau hábito de usar suas vozes maravilhosas para atrair os marinheiros para os rochedos, onde as naus se rompiam.

O uso da palavra “sereia” ou “sirene” para os artefatos que fazem ruído em veículos específicos para emergências parece um desaforo às suas maviosas vozes, mas deriva delas mesmo.

PANDORA – sim, é aquela moça que abriu a caixa da qual escaparam todas as calamidades e infortúnios que até hoje nos atormentam.

Seu nome de forma por pan, “todo”, e doron, “dom, presente”. Ela é a “detentora de todos os dons”, porque foi feita pelos deuses com atributos de vários deles para ser irresistível ao homem.

FLORA – é uma deusa romana, cujo nome vem de flos, “flor”, derivado do Indo-Europeu bhlo-, “brilhar, florir”. Era a deusa da vegetação, uma das mais antigas divindades romanas, fato perfeitamente de acordo com a importância da agricultura nessa civilização.

FAUNA – teria sido a esposa do deus Fauno, que protegia a fertilidade da terra e dos rebanhos.

Seu nome, de etimologia incerta, agora é usado para citar o conjunto dos animais de uma certa área ou época.

FAMA – vem do verbo phánai, “dizer, espalhar pela palavra”. Era uma deusa romana que vivia num palácio de bronze com inúmeros orifícios, que tudo captavam, por mais baixo que se falasse.

Talvez caiba lembrar que nem a Internet nem o celular existiam nessa época, de forma que se devia recorrer a tecnologias alternativas.

Ela tinha asas e se deslocava rapidamente para propagar tudo o que sabia.

Hoje em dia, geralmente a “fama” é tida por coisa boa e desejada por quase todos, mas originalmente ela podia ser tanto má como boa.

Enfim, ela parece ter sido a Fofoca divinizada.

HIGIENE – vem do nome da filha de Asclépios, o deus da Medicina, Higéia, que queria dizer “sã, em bom estado de saúde”.

PANACÉIA – é irmã da anterior e deriva de pan-, “todo”, mais  ákos, “remédio”. Ou seja, ela era “a que cura todas as doenças”.

Resposta:

Fábula

Até há algumas décadas, fazia parte da educação das crianças a leitura de fábulas. Elas eram histórias curtas com personagens animais, com a idéia de fixar nas mentes infantis preceitos de moral e ética. Havia a história do Lobo e o Cordeiro, da Mãe Coruja, da Cigarra e da Formiga e muitas outras.

Ao que parece, a idéia de incutir moralidade através desse método não ajudou muito as gerações em que ela foi aplicada, pois elas não se caracterizaram por elevados padrões na idade adulta.

Mas, olhando mais de perto a palavra fábula, alguém diria que ela tem parentesco com infantaria, profeta, eufemismo…?

Não pode ser. Ou pode? Será que as palavras dão tantas voltas assim ao longo do seu desenvolvimento? Vamos ver.

Uma raiz Indo-Européia bha– significava “falar”. Daí derivaram:

AFASIA – do verbo grego phanai, “falar”, derivou phasis, “palavra”. Junto com o prefixo negativo a-, temos afasia, “incapacidade para falar”, termo usado em Neurologia e que muitas vezes gostaríamos de poder aplicar a certos faladores notórios.

Estes são praticantes da verborragia, do Latim verbum, “palavra”, com o Grego rheon, “correr, fluir, derramar”. É gente de cuja boca corre caudaloso um rio de palavras que ameça afogar quem estiver no caminho.

EUFEMISMO – em Grego, pheme também era usado para “palavra”. Se a ela antepusermos o prefixo eu-, “bom, agradável”, formamos eufemismo, de euphémein, “pronunciar palavras de bom augúrio”.

Hoje em dia o sentido é o de “palavra ou expressão mais suave usada no lugar de uma de significado chocante”. Exemplo: dizer “ele não esmaga ninguém com a sua inteligência” em vez de “ele é muito burro”.

PROFETA – prophetés em Grego queria dizer “aquele que fala pelos deuses”. Essa palavra se formou de pro-, “à frente, mais adiante”, com pheme, “palavra”. Essa era uma pessoa que falava “o que ia acontecer mais adiante”. Ou seja, anunciava o futuro.

Em Latim, a raiz que citamos deu o verbo fari, “falar”. E este literalmente deu muito o que falar, já que gerou uma prole numerosíssima:

PREFÁCIO – formada por prae-, “antes”, mais fari, esta palavra quer dizer “o que é falado antes”. É esse o papel de um prefácio, onde são expostas idéias ou fatos julgados necessários para o bom entendimento de um livro.

AFÁVEL – é o que se diz de uma pessoa cortês, acessível, agradável no trato. Pois essa palavra vem de ad-, “junto”, mais fari. Ou seja, pode-se chegar a ela e falar que a gente não vai ser repelido.

INEFÁVEL – em Latim, effabilis, formado por ex-, “fora”, mais uma forma do verbo fari, significava “aquilo que pode ser dito”. E, se algo era tão maravilhoso que nem podia ser expresso com palavras, dizia-se ineffabilis, inefável, “o que não se pode expressar com palavras”.

NEFANDO – significa o mesmo que a palavra do tópico acima mas com conotação oposta. Quando uma pessoa ou coisa é tão detestável que nos faltam palavras para a descrever, dizemos que ela é nefanda (ou nefária). Esta vem de ne-, “não”, mais uma forma de fari.

CONFESSAR – quando a gente confessa seus pecados a um sacerdote ou confessa estar atraído por alguém, está usando o particípio passado de fari mais o prefixo con-, “junto”.

Uma confissão antigamente era feita junto a uma outra pessoa. Agora, com a televisão e os jornais, nem sempre é o caso: situações íntimas podem ser passadas ao público num instante.

PROFESSOR – em Latim, profiteri era “fazer uma declaração pública, esclarecer abertamente”. Tal palavra se forma por pro-, “adiante, à frente”, mais fari. Isso descreve bem o que os professores fazem: falar à frente dos seus alunos.

INFÂNCIA – já que falamos em professores, lembramo-nos do pessoal de pouca idade. Como no início da vida nossa fala não se apresenta completa, fez-se esta palavra, formada por in-, “não”, mais fari: era o ser que “não falava”, ou “não falava corretamente”.

Na nobiliarquia da Península Ibérica, infante é o filho ou filha do rei que se segue ao herdeiro do trono. Somente este é o príncipe.

INFANTARIA – em todas as épocas, os soldados a pé sempre foram os mais sacrificados nas lides guerreiras. Fosse porque eles tinham que carregar pessoalmente as suas armas e utensílios, fosse porque estavam mais expostos, por sua menor mobilidade, às agressões inimigas, suas atividades eram particularmente arriscadas.

Cabe a ela o papel indispensável, numa campanha, de ser quem ocupa o terreno, função que nunca desaparecerá enquanto houverem guerras. Mas, dadas as dificuldades que o soldado de tal arma enfrenta, ele foi comparado à criança, ao infante, que se apresenta restrito em suas capacidades de sobrevivência.

FÁBULA – tinha, em Latim, originalmente, o sentido de “conversa”. Fabulari era “conversar”. E fabulosus era “relativo às lendas, ao que se fala”.

FAMA – era “ruído que corre, o que se fala de alguém”. Daí famosus, “famoso”, “aquele que faz falarem de dele”. Se ele dava motivos para falarem mal, ele era infamis, “infame”, “o que perdeu a reputação”, de in-, “não”, mais fama.

E difamar vem de dis-, “mau, ruim”, mais fama: era “dizer que uma pessoa tem má fama”.

FACUNDO – esta palavra é das pouco usadas atualmente. Significa “aquele que tem facilidade para se comunicar, para falar”. Vem de fari mais unda, “onda”, dando a idéia de existir em grande número e volume, como as ondas do mar.

FADO – esta canção portuguesa, de conteúdos tristemente românticos, vem de fatum, do verbo fari. Liga-se ao sentido de fado como “destino”.

FANDANGO – as fontes sugerem queo nome desta dança provenha de fadango, derivado por sua vez do fado de que falamos acima.

FANTOCHE – deriva do Italiano fantaccino, de fante, forma abreviada de infante.

Como se vê, também na rubrica “entretenimento” os frutos da raiz citada se fazem presentes.

Resposta:

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