Palavra gárgula

ALGUNS MONSTROS ANTIGOS

 

Barbaridade, o comportamento monstruoso desta meninada de hoje. Nem vou reclamar muito, que hoje tomei uma dose reforçada de Nervocalm, agora com Vitamina C  –  é o que diz na caixa  –  e estou muito light.

Para demonstrar, hoje nós vamos falar na etimologia de alguns nomes de monstros. Olha aí, todos se assanharam.

Para começar, monstro vem do Latim monstrum, “ser deformado, monstruosidade, sinal, agouro”, literalmente “aquilo que deve ser mostrado”, derivado do verbo monere, “avisar, chamar a atenção para”.

Mas o assunto de nossa aulinha será a origem de nomes de monstros antigos, nada dessas coisas comuns de zumbis, vampiros e do Frankenstein que toma as telas de TV.

Aliás, este último nunca foi nome de monstro, sabiam? Ah, para isso eles têm cultura, né? Nome de escritor e cientista que é bom eles não sabem, mas agora várias mãos se levantaram para me contradizer.

Pois acontece que o monstro feito de retalhos e animado pela eletricidade dos raios que vocês conhecem simplesmente não tem nome; Frankenstein  é o nome de seu criador, o cientista maluco aquele. O autor da história nunca lhe deu nome. Mas, no fim das contas, ele acabou sendo chamado pelo nome de seu, digamos, papai.

Hoje vamos começar por um ser que visitava as casas de nossos antepassados do Norte de Portugal, o Trasgo. Este era o equivalente aos gnomos e duendes de outras culturas. Seu nome era trasgu na mitologia asturiana.

Ele era baixinho, moreno, mancava da perna direita e tinha um furo na palma da mão esquerda. Vestia-se de vermelho e usava um gorro pontudo da mesma cor. Não era difícil reconhecê-lo, portanto.

Não façam essas caras de medo, ele não era dos piores. Ele era o responsável pelos barulhos que uma casa faz à noite e às vezes ficava travesso e quebrava alguma louça. De minha parte, acho que mais de um prato foi quebrado pelas crianças da casa e ele acabou levando a culpa.

No fundo ele era bonzinho, pois até fazia serviços domésticos quando se sentia bem tratado.

Melhor um desses do que uma abantesma perambulando pelos nossos corredores à noite. Esta palavra é uma variante de  deriva do Grego phántasma, “espectro, ser imaginário”, derivado de phainein, “brilhar, iluminar”, derivado de phos, “luz”. Ou seja, trata-se apenas de uma imagem, algo incorpóreo como a luz.

A sereia era outro desses monstros. A expressão de vocês me mostra indignação; como assim, ela não é uma linda moça com rabo de peixe, amiga das pessoas?

De acordo com a mitologia grega, nada disso. Não era amiga dos seres humanos e, aliás, nem tinha esse aspecto. Elas eram grandes aves  com cabeça de mulher. Gostavam de atrair os marinheiros com suas canções, para apanhá-los e os devorar depois.

E não eram muitas, não; apesar de os desenhos animados e filmes as mostrarem como uma espécie inteira, seu número variava originalmente entre duas e cinco apenas.

O que não deixava de ser bom para os marinheiros.

Antes que eu me esqueça, dizem que os nome delas vem do Grego seirein, “ligar, atar”, pois elas faziam isso com a atenção dos homens. Mas Tia Odete não vai colocar sua mãozinha no fogo com essa origem, já que palavras referentes a essa área são muito enganosas.

Estão todos quietinhos, de olho arregalado. Quando se fala em seres deste tipo vocês prestam atenção, não é? Já na hora de aprender qualquer outra coisa, é aquele trabalhão.

E agora me vem à cabeça a gárgula. Como todos sabem ou ainda virão a saber, é o nome dado àqueles enfeites que algumas igrejas da Europa têm do lado de fora, representando animais demoníacos com a boca aberta. São estruturas muito atraentes, através da qual a água da chuva é coletada e derramada para baixo. Elas são alongadas para o líquido escorrer para longe, de modo a não saturar o terreno junto às paredes do prédio.

Pois diz a lenda que elas foram feitas a partir da primeira, um monstro chamado em Francês Gargouille, que deriva do Latim gurguis, “garganta”, de origem onomatopaica, já que ele lembra o ruído de líquido sendo engolido.

Pois bem, a Gargouille era nada mais que um dragão típico, com asas e tudo, que andava infestando a região ao redor de Rouen e se divertia queimando tudo com o fogo que saía de sua boca.

Aí um religioso, que viria mais tarde a ser chamado São Romano, o enfrentou e o derrotou. Levou-o para cidade para queimá-lo, mas o seu pescoço e cabeça estavam tão habituados às chamas que não pegaram fogo.

O bravo santo, que devia ter seu lado de arquiteto, mandou colocar essa cabeça na parede da catedral, para comemorar a sua vitória contra o mal.

E mais tarde outros teriam tido a ideia de decorar as igrejas com estátuas semelhantes. Não venham me perguntar se é verdade,  estou contando a história como eu ouvi.

Para terminar, vou contar que a esfinge que todos conhecem a partir da enorme estátua perto das Pirâmides do Egito também tinha um aspecto um pouco diferente na mitologia grega. Ela tinha corpo de leão, asas muito grandes e cabeça feminina.

Ela não era lá muito sociável, não; colocava-se no passo dos viajantes, na entrada da cidade de Tebas, e lhes propunha um enigma. Se eles não soubessem a resposta, ela os devorava.

Não sei não, mas ou o pessoal que passava por ela era muito esperto ou as perguntas dela eram muito tolas, porque não se soube de maiores problemas para entrar na cidade por causa disso.

Seja como for, seu nome vem do Grego sphinx, “aquele que estrangula”, do verbo sphingein, “apertar, atar”.

Bem, agora que deixei meus aluninhos com material bastante para ter bons sonhos esta noite, podem sair que a aula terminou.

 

Resposta:

Gárgula

Palavras: gárgula

Boa tarde senhores,

Gostaria de saber a origem da palavra GÁRGULA.

Muito obrigada.

Resposta:

“Gárgula” vem de GARG-, um som imitativo de sons feitos com a garganta, que resultou em numerosas palavras, como a própria “garganta”, “gargarejo”, “gargantilha”, “gargalo” e muitas outras.

Catedral

 

Noite escura como todas as do bairro, mesmo as que têm lua cheia.

Edifício Éden. Cinco andares, elevador estragado, escadas cheias de lixo, vizinhança de meter medo.

Um vulto coloca a cabeça para fora da porta do edifício. Olha para um lado, olha para outro. Nada enxergando de mais suspeito que o normal, ele se afasta com passos rápidos para a esquerda.

Vamos segui-lo. Ele usa uma gabardine enorme e um chapéu enterrado na cabeça. Seu rosto fica nas trevas, suas mãos nos bolsos. Seu olhar percorre de um lado para o outro a calçada e a rua com pouco movimento.

No bairro todos sabem quem ele é: X-8, o detetive etimológico, um paladino da causa da origem das palavras e da sua própria conta corrente. Ele sempre anda de modo disfarçado por hábito profissional, para não chamar a atenção.

Esta noite ele se dirige para a Pizzaria do Porco. Ah, ele deve estar com vontade de fazer uma reconfortante janta de pizza com um queijo bem torradinho, regada com um bom refrigerante.

Mas não, ele passou direto pela frente da Pizzaria. Sua garçonete preferida, Odila, o vê passar como uma ratazana apressada e nem tem tempo para chegar até à porta e assobiar um fiu-fiu.

A intrigante figura segue por mais umas duas quadras. Pára, olha ao redor de maneira escandalosamente disfarçada. Abaixa-se para amarrar o sapato direito.

Levanta-se, olha ao redor e se abaixa para amarrar o outro sapato. Anota mentalmente que esta manobra é sempre mais convincente quando os sapatos são de amarrar.

Ergue-se, puxa um lenço do bolso, seca o suor do chapéu, deixa-o cair e o recolhe enquanto olha ao redor. Encosta-se à parede de um prédio, põe as mãos nos bolsos, suspira com ar de tédio, sempre perscrutando as imediações.

Quando finalmente ele se convence de que não está sendo seguido, entra rapidamente pela porta do prédio, que é ainda mais mal encarado do que o Edifício Éden.

Vai até o fundo do corredor, onde se situa o elevador. Ele é pequeno, tem lugar para apenas duas pessoas e ostenta por fora uma placa com os dizeres “NÃO FUNSIONA. NÃO INCISTA”.

Inesperadamente, ele entra no elevador. A porta de madeira se fecha atrás dele.

Ele olha ao redor para ver se está realmente sozinho naquele espaço restrito e começa um ritual muito estranho: assobia bem alto o começo do terceiro movimento da Sétima Sinfonia de Beethoven, acompanhando-se ao sapateado.

Depois de fazer isso por trinta segundos, ele repete a música, só que de trás para diante, enquanto sapateia de trás para diante também.

Com um estalido, o painel do elevador fronteiro à porta se abre: era uma porta disfarçada, de cuja existência poucas centenas de pessoas sabiam. Ele passa para o outro lado.

Ali atrás é a Kasa da Kópia, o estabelecimento de cópias do bairro. Eles fazem tudo que é tipo de cópia, em preto e branco, colorido, “banners”, placas de acrílico, impressão em camisetas, até bordados.

São extremamente hábeis, mestres em copiar direitinho qualquer tipo de etiqueta. Daí o nome da loja, sugerido pela Numerologia. Isso lhes garante uma clientela certa entre os industriais do bairro.

São eles os responsáveis pelas marcas de aparelhos eletrônicos, roupas, bolsas, tênis e muitos outros artigos que passam silenciosamente pelo bairro e ativam a sua economia.

É por esta razão que eles tomam especiais cuidados em relação à entrada da loja. A Polícia há muitos anos desistiu de entrar no bairro, mas nunca se sabe. Os donos do próspero estabelecimento preferem prevenir a remediar.

Os donos são um casal de destaque na vida social local, Pescoço e Mortadela. Ele é conhecido assim por que é magro que nem pescoço de galinha fugida.

E ela tem esse apelido (embora não saiba) por apresentar notável semelhança com o dito embutido. Principalmente quando faz calor e ela coloca uma daquelas blusas amarradinhas nas costas. Algumas línguas mordazes dizem que é também porque a inteligência dela em nada fica a dever à de uma mortadela, mas ninguém fez ainda um estudo comparativo de QI para comprovar o fato.

Eles se dão muito bem; trabalham juntos, comparecem a todas as festas do Clube do bairro, adoram ouvir pagode, tomar cerveja e comer até arrebentar. Evidentemente, um casal feliz.

Com eles trabalham diversas pessoas da família. Hoje há uns três ou quatro rapazes, todos de bermudão, camiseta e chinelos, cabelo raspado e toucas de lã, que cumprem as suas tarefas entre olhares cheios de suspeita para o recém-chegado.

O casal, lidando com números não-contabilizados à mesa, cumprimenta cordialmente o detetive.

Ele é um cliente especial; embora seja um grande pão-duro e gaste pouco ali, a sua presença dá uma aura séria, intelectual, à Kasa das Kópias.

Hoje ele está precisando de cópias de um pequeno dicionário, que passa às mãos brancas e rechonchas de Mortadela.

– Uma de cada? Preto e branco ou colorido? – pergunta ela.

Ele chega a pensar numa resposta mordaz, mas se controla e diz, muito sério, que hoje prefere em preto e branco.

Enquanto ela faz as cópias, Pescoço vigia os seus movimentos. Ela tem uma curiosa capacidade de esquecer a ordem dos gestos simples de apertar botões na copiadora.

Mas desta vez tudo dá certo, depois que eles conseguem retirar os papéis que ficaram trancados nos cilindros da máquina. Pescoço entrega as cópias, caprichosamente acondicionadas numa sacola de supermercado pouco amassada, daquelas reservadas para os clientes importantes. Recebe o pagamento em moedas e se despede do detetive.

Este sai e se vê dentro do elevador. Espia pela janelinha deste, não vê ninguém e sai do prédio, andando apressado.

Ele acha bárbaro todo este ritual para fazer umas simples fotocópias; ele toca a sua alma de amante do mistério e antigo leitor de histórias policiais.

A sua imaginação é fértil. Enquanto ele caminha, vai imaginando acontecimentos perigosos envolvendo um bravo homem da lei, uma bela, rica e assanhada cliente, um grupo de bandidos que não resistem à inteligência aguda que ele tem e aos socos rombudos que ele distribui.

Está no ponto em que já derrotou dezessete criminosos, descobriu onde é que eles escondiam o pônei de estimação dela e está recebendo o pagamento de seus honorários. O pacote em euros (dólares são coisa ultrapassada!) já está no bolso, agora é a hora de um extra por “serviços prestados além do cumprimento do dever”, segundo ela.

O négligé preto de renda voa para cima de um sofá; ele dá um passo entusiasmado para a voluptuosa cliente e o seu pé afunda numa poça de água até o tornozelo.

Praguejando, ele olha para baixo e vê a poça, o lixo pelo chão, papéis espalhados…

Diacho, mais uma vez ele se deixou levar pela imaginação! Se continuasse mais um pouco, ia dar de cara com o muro que fecha este beco. Volta-se para sair, com o pé fazendo sons líquidos, e vê a entrada do beco tomada por vultos iluminados por trás, quietamente ameaçadores, sem possibilidade de fuga.

Puxa, isso já tinha acontecido aquela vez em que tinha ido à Pizzaria do Porco. Felizmente os vultos pertenciam a palavras pobres e sem má intenção, das quais ele se livrou graças ao seu papo. Devem ser elas de novo.

Avança para elas, confiante, e elas se dispõem de modo a fechar a saída. Todas estão enroladas em capas longas, à moda antiga. Não parecem os mesmos seres que da outra vez. A figura da esquerda aponta para ele com um gesto vigoroso.

Ele sente que desta vez não houve acaso. Ele fora seguido. E para boa coisa não era, pois ninguém é encurralado num beco para dar autógrafos.

Quem estava apontando para ele afrouxa a capa e ele vê que era um palavra mesmo, Acólito. Ela fala, voz grave:

– Precisamos de você. Temos uma consulta para fazer. Secreta, secretíssima.

Com as pernas trêmulas, entre temeroso e aliviado, X-8 não consegue responder.

A palavra da direita, que abrira a capa também, para mostrar que era Sacristão, diz:

– Aqui há uma palavra que não pode ser vista andando por um lugar de vícios e pecados como este seu bairro. Você vai nos dizer a etimologia dela e jurar manter segredo.

Ainda sob o efeito do susto, mal podendo respirar, o detetive fica imóvel, o que é tomado pelas palavras como uma calma concordância vinda de um sujeito impassível.

É então que a palavra do meio abre a capa e se mostra em seu esplendor de arcos, gárgulas, vitrais, pompa e incenso: Catedral! Ela fecha o tecido de seda púrpura farfalhante, vira as costas e se afasta imediatamente, em passo majestoso.

Acólito diz:

– Aguardamo-lo amanhã neste mesmo beco e nesta hora. Seu documento e seu silêncio serão regiamente recompensados – olha para os lados rapidamente e acrescenta:

– Não sai aí uma origenzinha dos nomes dos auxiliares também? Dá prá dar essa forcinha, gente boa? – e dá uma cotovelada no braço de X-8. Este reúne as suas forças, dissipadas pelo susto, e mal consegue levantar um trêmulo polegar.

Os assistentes de Catedral se afastam também. X-8 esqueceu o sapato sujo e tudo o mais; após recobrar a respiração, volta para casa muito apressado.

Chegado lá, começa a mexer freneticamente nos seus livros.

Na noite seguinte, bem mais seguro, X-8 está à espera no beco. Seu orgulho está em alta: então o pessoal do Alto Clero das palavras já o conhece e toma providências para o procurar! Bom, muito bom.

Na hora aprazada, apresentam-se as três figuras, imponentes, à entrada da ruela. Aproximam-se em silêncio. A de capa púrpura e farfalhante faz um gesto e uma das outras estende a mão. X-8 lhe alcança um papel enrolado, atado com uma fita vermelha. A palavra embuçada lhe alcança uma pequena sacola de veludo. Seria mais interessante se ela contivesse moedas de ouro, mas o dinheiro em papel que ali está não é desagradável.

As três palavras se voltam e saem, dignas, solenes. Andam com esse porte até a esquina e, logo que a dobram, abrem depressa o papel enrolado, entre pulinhos de adolescentes assanhadas.

Desta vez X-8 caprichou: escolheu o seu melhor papel creme e cuidou bem a escolha da fonte do computador.

– “Nada é bom demais num caso destes” – pensava ele, enquanto trabalhava no seu escritório noir.

O documento pago a bom preço rezava:

CATEDRAL – esta palavra vem da expressão em Latim Eclesiástico ecclesia cathedralis, “a igreja onde um bispo tem assento”.

A palavra ecclesia se originou no Grego ekklesia, “assembléia, reunião do povo” e se transferiu mais tarde para o prédio dedicado às reuniões religiosas, resultando na nossa igreja.

Como todos sabem, bispo vem do Latim episcopus, do Grego episkopos, formado por epi-, “sobre”, mais skopéo, “eu vejo, eu olho”. Ou seja, literalmente um supervisor.

Catedral em si vem do Grego katá-, “para baixo”, mais hedra, “assento, face, base”, por sua vez derivado do Indo-Europeu sed-, “sentar”. A noção é a de “sentar sobre algo”.

Este final hedra- tem muito uso em Geometria. Como exemplo, citamos tetraedro, um corpo com quatro faces iguais, dodecaedro, idem com doze faces iguais, diedro, local onde dois planos se tocam e fazem ângulo.

Como inhapa, contaremos que a origem de Acólito é o Latim Eclesiástico acolythus, do Grego akólouthos, “aquele que serve, companheiro de viagem”.

E que Sacristão vem do Latim sacristianus, “o que auxilia em tarefas sagradas”, que veio de sacer, “sagrado”.

Como todas as palavras, seja de que nível forem, estas três tinham intensa curiosidade em saber das suas origens. Leram o documento aos empurrões e gritinhos, sem respeitar a importância de Catedral. Terminada a leitura, voltaram aos pulos pelas ruas desertas até chegarem a uma região mais respeitável, quando reassumiram o porte digno e imponente que lhes cabia.

O detetive, voltando para casa, aproveitou para deixar algum dinheiro em troca de uma boa pizza, servida com os costumeiros oferecimentos extra-refeição de Odila, a garçonete.

Enquanto bebia seu refrigerante gelado, ele pensava:

– Catedral… uma catedral tem gárgulas. Mais um sinal de que eu preciso falar com Gárgula, minha antiga cliente. Parece que o destino a está apontando para mim. Decididamente, vou ter que fazer alguma coisa sobre isso.

Esse pensamento não lhe saía da cabeça enquanto ele voltava para casa pelas ruas desertas.

Resposta:

Gárgula

É noite na pior parte da cidade. Aliás, no resto dela também.

No seu escritório mal-encarado, X-8 espera uma cliente que tinha marcado hora por telefone. Ela havia exigido que não houvesse mais ninguém na sala de espera. Ele garantiu que não haveria.

Fácil: seu escritório não tinha sala de espera. Fora da sua porta reforçada, com a placa de latão brilhante que dizia apenas “X-8”, apenas o corredor sujo e mal iluminado, onde ninguém se atreveria a ficar esperando.

Ele está com a sua roupa de trabalho: uma gabardine cor de areia, amarfanhada e com a gola levantada, que o oculta quase todo. Um chapéu desabado sobre o rosto completa a tarefa. Nenhuma cliente conhece o seu aspecto físico. “É melhor assim”, gosta de pensar ele, com a vaga noção de que não sabe bem o que isso quer dizer, mas que é bastante dramático.

A porta é discretamente arranhada.

– Entre – diz ele.

A cliente empurra a porta e entra.

Apesar dos seus anos de crua experiência etimológica, X-8 se espanta. Sua boca se abre, felizmente sem ser vista do exterior.

Ele já tinha lido sobre isso, mas é a primeira vez que vê: ela usa um chapéu de abas largas, do qual pende um véu negro que vai até abaixo dos ombros. Apesar de inusitado, o conjunto feito com o vestido cinza-escuro e os sapatos de saltos altos e finos é inegavelmente elegante. E, principalmente, é usado com uma elegância fácil, inconsciente, capaz de bolir com quaisquer hormônios masculinos. As curvas estão logo ali, abaixo do tecido, e isso se percebe mesmo sem ver.

O detetive se sente remetido às histórias mais clássicas de sua profissão.

A figura alta e esguia com véu desliza harmoniosamente, sem ruído, parecendo nem tocar no chão. As curvas do corpo descrevem sinuosidades doces, macias, tépidas e vários outros adjetivos menos apropriados. Senta-se à frente da escrivaninha enorme, cruza as pernas e começa a falar. Sua voz é baixa e aveludada, suas palavras são concisas, sem qualquer hesitação:

– Sou uma palavra que só circula em meios cultos e viajados. Sou bastante requerida por estudiosos de História, Arte e Arquitetura. Mas me sinto muito solitária. Minhas origens… Não sei nada sobre elas. Estou à procura de meus parentes, se é que os tenho.

X-8, apesar de sua frieza, não pôde deixar de sentir um certo rubor de lisonja: então ele já era conhecido na elite! Ótimo.

Ela levantou o misterioso véu, mostrando quem era: Gárgula. Mostrou também olhos de um verde profundo enlouquecedores, um nariz de desenho delicado, lábios que eram um verdadeiro atentado ao pudor.

O detetive fez um considerável esforço para não deixar transparecer nenhuma emoção ao tratar dos seus emolumentos, mais gastos gerais, mais taxas, seguro, etc. etc. Sentiu-se suar um pouco quando combinou chamar a cliente assim que tivesse algo a relatar.

A intrigante figura velada se retirou, deixando atrás de si um perfume caro iluminando o ar e um investigador estranhamente perturbado. Perturbado a ponto de só mais tarde perceber que se tinha esquecido de cobrar um adiantamento, o que era absolutamente inédito para ele.

Após longos minutos fitando o vazio e aspirando o perfume, ele sacudiu a cabeça com força e se dirigiu à sua estante atulhada de livros.

Ao ver de quem se tratava, ele logo fizera idéia do que havia por trás. Mas, para fazer um trabalho completo e honesto, como sempre, ele abriu vários livros, pegou caneta e papel e começou a fazer anotações, absorto.

Na hora de escrever o seu laudo, hesitou. Apresentá-lo no habitual papel de jornal sujo e amassado, batido na sua máquina de escrever velha? Ou usar aquele papel especial cor de pêssego e imprimir numa fonte romântica? Dar a habitual impressão de profissional descuidado com as formalidades ou agradar mostrando-se sofisticado? X-8 se espantava consigo mesmo: nunca se havia visto num dilema deste tipo.

Raciocinou que aquela cliente devia preferir o que se podia esperar daquela ambientação sórdida. Resolveu escrever no papel pobre de sempre, na mesma máquina. Mas pelo menos não sujou nem amassou o papel depois de datilografar.

Eis o que resultou:

GÁRGULA –

Ao que tudo indica, a antiga raiz garg- ou gurg- surgiu como onomatopéia, uma imitação de sons feitos com a garganta, sem modulação pelas cordas vocais ou boca.

Daí surgiu o Grego gargarízein, “gargarejar”, que passou para o Latim como gargarizare. Neste idioma, gurgulio significava “garganta, esôfago, goela”. Gurgis era usado para “redemoinho”.

Dessas origens surgiu uma grande quantidade de palavras de uso atual, como:

Regurgitar – fazer sair de volta pela garganta.

Gargalhada – emitir sons de riso.

Gargalheira ou gorgueira – parte da armadura que protegia o pescoço.

Gargalo – o pescoço das garrafas. Por extensão, o ponto de estreitamento do trânsito, das atividades, de processos.

Gargantear – o ato de contar vantagens, de se supervalorizar.

Gargantilha – adorno para se usar em torno do pescoço.

Gargomilo – quando alguém está “cheio até os gargomilos”, está cheio até à garganta; não cabe mais.

Gorgolejar – o ruído de líquidos jorrando ou sendo vertidos, como através de um gargalo.

Gorjeta – esta é inesperada! Era a quantia de dinheiro dada a uma pessoa “para molhar a garganta”. O Francês tem uma palavra mais clara para isso: pourboire, literalmente “para beber”.

Se a pessoa que merece a recompensa for abstêmia, não deixe de lhe dar algo como propina, que significa “para comer”.

A Gárgula, distinta cliente, é um enfeite arquitetônico usado nos pontos de saída das calhas, nas igrejas antigas da Europa. Eram esculturas de seres fantásticos de cuja boca jorrava a água da chuva que caía nos telhados.

Dias depois, chamada por X-8, Gárgula compareceu ao desleixado escritório. O corajoso investigador havia tomado um banho caprichadíssimo e estava muito bem penteado. Claro que nada disso se enxergava de fora, mas ele estava se sentindo o máximo.

Esta cliente era uma palavra altiva e cônscia do seu valor. Deslizou para o escritório sem dizer nada, almofadada pelas suas curvas. Sem tirar o véu, ergueu levemente a cabeça, num inequívoco gesto de: – “E”?

X-8 não quis falar, por medo de lançar um grasnido. Indicou com o queixo o envelope pardo lacrado sobre a mesa. Em silêncio, a palavra o pegou, colocou-o numa finíssima bolsa de couro negro, largou um maço de dinheiro atado com uma fita dourada em seu lugar.

Deu meia-volta e flutuou para fora, uma visão etérea, deixando atrás de si um perfume intenso e um detetive abalado.

Primeiro o detetive embolsou o dinheiro, depois chegou à janela para ver a cliente pairar pela rua suja, três andares abaixo, passando sob a luz crua da lâmpadas dos postes. O véu se movia em torno dela, sugerindo mistérios sobre mistérios, em camadas concêntricas.

X-8 nunca se tinha sentido tão apropriado em sua profissão.

Encostado à parede que fazia ângulo com a janela, pensou que o momento pedia um cigarro. Ah, lançar as preguiçosas volutas de fumaça azulada para o ar na solidão do devaneio, acompanhar as suas formas caprichosas…

Se ao menos ele soubesse fumar!

Então, pelo menos um uísque. Como todo detetive particular, ele guardava uísque barato numa gaveta de arquivo metálico, com a letra “U” na frente. Pegou um copo de plástico, abriu a garrafa, aspirou profundamente o cheiro que saía do gargalo.

Tossiu, engasgou-se, fez uma cara de nojo irreprimível e guardou rapidamente a garrafa de volta. Foi até o frigobar que havia na sala ao lado, onde os clientes
não entravam, tirou uma lata de suco de morango e voltou para a janela.

Contemplou longamente a rua deserta, marcada a intervalos pelos círculos de luz, enquanto bebericava o seu suco. Ele tinha a sensação de enxergar o rastro de perfume por onde Gárgula tinha passado.

Precisou usar de todo o seu cinismo para evitar pensamentos doces sobre a cliente misteriosa que recém tinha saído.

Usou-o também para evitar a desmoralização despertada por aquela lata fria em sua mão.

– “Ossos do ofício”, pensou.

Ser um Detetive Etimológico é coisa para poucos. O sujeito tem que ser puramente profissional.

Mas, ao guardar a fita dourada que envolvera o maço de dinheiro na sua carteira, não pôde deixar de pensar que tinha o telefone de Gárgula em sua agenda.

Resposta:

Do NOT follow this link or you will be banned from the site!