Palavra horóscopo

HORÓSCOPO I

Uma tarde, quando eu estava lá com meus dez anos, entrei no gabinete do meu avô e disparei:

– Por que o senhor é asséptico, Vô?

Ele me olhou espantado:

– Como assim, meu rapaz? Já fui acusado de várias coisas em minha vida, mas disso
é a primeira vez!

– É que o outro dia a Tia Beth estava contando como o horóscopo é importante para se conhecer as pessoas e pediu para não contar para o senhor, por que o senhor é muito asséptico.

O gentil velho riu até as lágrimas correrem pela face e falou:

– Não é asséptico que ela quis dizer, seu cabeça oca, é cético. A primeira dessas palavras quer dizer “aquilo que evita micróbios”, do Grego a-, negativo, mais septikos,
“podre”, de sepein, “fazer apodrecer”.

cético vem do Latim scepticus, do Grego skeptikos, literalmente “aquele que reflete, que indaga”, de skeptesthai, “refletir, olhar, vistoriar”, do Indo-Europeu skep-, “observar”.

Sua tia é uma pessoa muito querida, mas acredita em cada coisa estranha…

Mas ela disse certo, eu me orgulho de ser cético; ou seja, de refletir, de observar, de
indagar e não acreditar em coisas importantes simplesmente porque a maioria acredita, sem provas.

– E de onde vem esse tal de horóscopo?

– Essa palavra vem do Grego  horoskopos, “nascimento, previsões para o futuro da pessoa”, formada por hora, “momento, dia, hora”, mais skopeo, “eu vejo”. A ideia é de que a Astrologia, estudando a configuração dos astros no céu quando a pessoa nasce, possa predizer suas características e acontecimentos importantes no futuro.

– E Astrologia, de onde vem?

– Ela vem do Grego astron, “estrela”, mais logos, “estudo, tratado”.

– Mas parece que o senhor não acredita muito nisso, né?

– Você é muito jovem mas já percebe quando algo não me entusiasma. Quem tem uma formação científica passa dificuldades para engolir as afirmações do pessoal da área.

– Por que, Vô?

– Porque eles se baseiam na Astrologia antiga. E ela não contemplava três dos planetas  que foram descobertos há menos de dois séculos e que são Plutão, Netuno e Urano.

Se eles exercem alguma influência à distância, como afirmam os horoscopistas, como é
que se viam sem eles para fazer previsões?

– Só por isso, Vô?

– Já não é pouco. Mas os horóscopos atuais se baseiam em constelações que estavam em certos pontos do céu há dois mil anos, e por causa de uma tal Precessão dos Equinócios, que não vou explicar ainda porque você é muito pequeno e porque estou com preguiça, não se encontram mais ali. O resultado é que quem acha que nasceu sob um signo há muito tempo pertence a outro. E isso muda todas as características esperadas para a pessoa.

– Tem mais?

– Sim. Eles não levam em conta a presença de massas como os asteróides, cometas e até a do obstetra que faz o parto, que tem um efeito gravitacional muito maior do que
o dos planetas, por estar mais perto do recém-nascido.

– Mas então por que acreditam nisso?

– Pode ter certeza de que eles dizem que esses argumentos todos não passam de tentativas para afastar as pessoas de Verdade e que modernamente não é mais assim e que isso é sabedoria dos Antigos e etc., etc. Enfim, há muita coisa envolvida, inclusive uma indústria que recebe dinheiro de quem acredita no assunto.

Mas antes que eu fique bravo com isso, vamos falar de coisas mais inofensivas, como as origens de palavras relacionadas com o assunto.

– Oba! Historinhas!

– É isso mesmo, e eu sei que você gosta de ouvir. Vamos ver: zodíaco, por exemplo, vem da expressão grega zodiakos kyklos, literalmente “círculo de pequenos animais, de
figurinhas”, formado por zoon, “animal”, mais kyklos, “círculo, roda”. Designa o conjunto de constelações que se encontra na trajetória do Sol ao longo dos céus.

– E constelação?

– Do Latim constellatio, “conjunto de estrelas”, de com-, “junto”, mais o particípio passado de stellare, “brilhar”, de stella, “estrela”.

– Tia Beth diz que o senhor é Touro, que por isso é teimoso…

– Ah, essas coisas são divertidas… O nome dessa constelação vem do Latim taurus, “touro”, que parece vir do Indo-Europeu steu-ro-, “ser forte, ser grande”, como convém a qualquer touro que se respeite.

Temos em Química a palavra taurina, que designa uma substância que foi encontrada pela primeira vez na bile de touro e portanto nada tem a ver com estrelas.

Diziam os gregos que Zeus, o Pai dos Deuses, uma vez se apaixonou por uma ninfa muito bonita chamada Europa, e que se transformou num belo touro branco muito mansinho que se aproximou dela.

– E ela?…

– Disse “Que bonitinho!”, subiu no seu pescoço e começou a enfeitá-lo com flores.

– E então?

– De repente ele se atirou no mar e nadou até a ilha de Creta,onde eles casaram e
tiveram filhos.

– E foram felizes para sempre?

– Não, porque com os deuses a coisa era muito complicada.

– Puxa, que história. Mas diga, eu sou de Áries, de onde vem isso?

– Ah, meu carneirinho, você tem muito tempo para dar suas cabeçadas neste mundo. Esse era o nome latino para “carneiro”, de uma raiz ligada ao significado de “saltar, pular”, coisa que os carneiros gostam de fazer. Em Latim, arietare significava “bater,
golpear com a cabeça”, mais uma atividade em que se destacam esses animais.

Na antiguidade se usavam os aríetes, troncos que muitas vezes ostentavam uma cabeça de carneiro de bronze na extremidade, para bater nas portas de muralhas e pô-las abaixo.

– E tem alguma lenda sobre ele?

– Claro que sim. Antigamente o pessoal, em vez de olhar TV, ficava nas cavernas gastando tempo livre em inventar histórias. Era bem mais produtivo que agora.

O carneiro dessa história seria um animal de pelo de ouro enviado pelo deus Hermes para proteger duas crianças que estavam sendo maltratadas na casa de seu pai, o rei da Tessália.

Mas por agora chega, que eu nunca fui tão velho na minha vida e agora canso de falar.
Se quiser, volte outro dia para a gente falar mais sobre o assunto.

– Sem falta, Vô!

E saí pensando em quantas histórias ainda ouviria de meu avô.

 

 

Resposta:

O Tempo

Este tempo não passa! A turma está incontrolável e a hora da saída está longe ainda! Os segundos parecem minutos, os minutos são horas!

Como, Ledinha? Não, nada, estou apenas resmungando. Coisas de uma pessoa cujo destino a faz pagar por coisas que deve ter feito em outra vida, que nesta nada justifica tamanho penar.

Muito bem, já tive a inspiração que me faltava. Meninos, deixem de acossar a Maria Tereza. Val, pare de falar. Zorzinho, pare de escrever. Soneca, acorde e continue dormindo. Mariazinha, pare de tentar uma reunião de cúpula com os meninos. Agora vamos fazer uma roda aqui no chão e vamos falar do Tempo, essa coisa que assusta tanto os seres humanos.

Não, Ledinha, não interessa se o tempo agora está chuvoso ou não; nós vamos falar nele com o sentido de “passagem dos momentos”. Realmente, o nosso idioma se presta a essa confusão porque, desde o século 16, tal palavra passou a significar também clima.

Os ingleses não sofrem disso, pois têm uma palavra para clima, weather, e outra para o tempo que nos envelhece, que é time.

No início, os romanos usavam tempus para designar “estação do ano, medida de uma sílaba para fazer poemas”.

Houve até agora diversas maneiras de medir o transcorrer do tempo. Não vamos hoje falar nos mecanismos usados, mas sim nas unidades que eles marcam.

Está certo, Robertinho, é fácil ver as horas no relógio digital, mas na época antiga não existia nem o despertador do seu avô.

Já que você falou em hora, vou contar que hora, em Latim, tinha um significado menos estrito que hoje e servia para designar “tempo em geral, hora, estação do ano”.

Em Grego, a palavra hora era usada para qualquer porção delimitada de tempo, como dia, hora, ano, estação. Que confusão, não é?

Pior vocês vão achar ainda se souberem que os gregos pegaram dos babilônios a idéia de dividir o dia em doze partes. Só que estes dividiam o dia inteiro em doze partes, com o que as suas horas duravam o dobro das nossas.

Talvez porque naquelas épocas a iluminação artificial era precária e poucas atividades se desenvolviam durante a noite – quieto, Joãozinho! – os gregos resolveram, passar essa divisão em doze para as horas em que havia luz. Os romanos também adotaram esse método.

Como resultado, as horas passaram a ter uma duração diferente conforme a época do ano, pois o tempo entre o nascer e o pôr do sol varia conforme as estações.

Por incrível que pareça, apenas no século 16 foi que se fez a distinção entre a hora sideral – vinte e quatro por dia, todas iguais em duração – e a chamada “hora temporária”, essa de que eu falei.

Uma coisa em que muitos ainda acreditam é o horóscopo. Ele tem a ver com essa hora de que estou falando, sim. Vem do Grego horoscopos, de hora mais skopos, “olhar, vigiar”, já que o fazedor de horóscopos indagava da hora de nascimento da pessoa.

Hein, Valzinha? Não, não queremos saber da briga do casal da frente da sua casa porque a sua vizinha leu no horóscopo que o marido ia encontrar uma paixão no seu trabalho. Deixe para lá.

Não, Lúcia, o mundo continuava existindo de noite, só que eles não contavam horas nesse período. Talvez, como eu disse, porque não havia muito o que fazer… Não, Joãozinho, não pedi sugestões sobre o que eles poderiam fazer. Calado!

Todos sabem que a hora se divide em 60 minutos. Este nome se originou na Geometria; foi dado por analogia com o círculo. Vocês ainda vão aprender que este se divide em 360 partezinhas bonitinhas, todas iguaizinhas, que se chamam graus. Pois um dia um matemático chamado Ptolomeu precisou de unidades mais precisas para seus estudos e dividiu cada um desses graus em 60 partezinhas bonitinhas iguaizinhas pequenininhas.

A cada uma delas ele chamou, usando o Latim, pars minuta prima, “a primeira parte pequena”, o que deu nosso minuto.

Calma, Mariazinha; você tem razão, deixe-me contar. É isso mesmo, se ele deu esse nome foi porque ele pretendia fazer ainda outra divisão: fragmentou o minuto em outras 60 partezinhas, que ele chamou de pars minuta secunda, nossos atuais segundos.

Essas subdivisões se aplicaram à hora, que passou a ter 60 minutos com 60 segundos cada.

Muito bem, Robertinho; você quer saber porque os antigos não dividiam essas partes em dez e cem. É que os babilônios escolheram o sistema duodecimal, baseado no número doze, que apresenta a vantagem de ter vários divisores. O 60, por exemplo, que é 5 vezes 12, pode ser dividido exatamente por 1, 2, 3, 4, 5, 6, 10, 12, 15, 20, 30, 60. Isso ajudava muito numa época em que as calculadoras eletrônicas não eram abundantes no mercado.

Um conjunto de 24 horas é chamado de dia. Tal palavra vem do Latim dies, de uma fonte Indo-Européia dyeu- ou diwos-, que queria dizer “brilhar” e também era associada a “céu”. Esta fonte também gerou as palavras “deus”, “divindade”, “Zeus”.

Um grupo de sete dias nós chamamos de semana, que em Latim era septimana, “relativo ao sétimo dia”. O adjetivo mais comum referente a ela é semanal. Mas podemos usar uma palavra mais culta, hebdomadário. Isto vem do Latim eclesiástico hebdomadarius, “aquele que desempenha ofício uma vez por semana”, do Grego hebdomos, “sétimo”.

Nosso ano tem doze meses, nome que vem do Latim mens, que no começo designava o mês lunar. Sua fonte Indo-Europeia tinha o significado tanto de mês como de lua.

E ano vem do Latim annus, “volta completa da terra ao redor do sol” e se você não parar quieto, Joãozinho, eu vou prendê-lo no armário. Como? Não. Sozinho, sem nenhuma das meninas.

Existe uma medida de tempo pouco usada agora: é o lustro, “cinco anos”. Em Roma, a cada cinco anos, se fazia a cerimônia das “águas lustrais“, na qual se fazia a purificação através do contato com a água. Elas eram chamadas assim a partir do verbo lustrare, “espalhar luz, iluminar”. E esse verbo vinha da palavra lux, “luz”.

O dobro de um lustro é um decênio. Esse nome vem de decem, “dez”, mais… Está certo, Joãozinho, annus, “ano”, mas não precisava gritar assim.

Pode-se usar também década com esse sentido, mas essa palavra designa mesmo é um período de dez dias, de decem dies. Também pode ser usada para um conjunto qualquer de dez elementos. Dá para dizer “Na minha aula há duas décadas de mal-educados”, por exemplo.

A marcação das datas é feita pelos calendários. Esse nomezinho vem do Latim calendarium, “livro de contas”, que veio de kalendae, o nome dado em Roma ao primeiro dia de cada mês, época em que os empréstimos venciam e deviam ser acertados os negócios. E esse nome veio do verbo calare, “anunciar publicamente”, que deriva do Indo-Europeu gal-, “gritar, chamar”.

Hoje, nós chamamos um conjunto de cem anos um século, mas para os romanos saeculum podia significar também um espaço de trinta anos, de mil anos ou qualquer intervalo grande de tempo.

E o nosso milênio vem de mille, “mil”, mais… Aí está. Hoje o Joãozinho resolveu me ajudar com o Latim. Algumas coisas você aprende rápido, não?

Há nomes que designam também fragmentos curtos mas indeterminados de tempo, como momento. Esta palavra vem do Latim movimentum, de movere, “mover, deslocar”, já que fazemos a imagem de que o tempo passa, se desloca.

Isso fora daqui; dentro desta sala os astrofísicos deveriam fazer estudos para ver por que o tempo se arrasta, como eu já disse.

Também podemos dizer instante, que vem do Latim instans, “presente, urgente, aquele que apressa”, e que vem do verbo instare, de in-, “em”, mais stare, “estar, ficar de pé”.

E, ora vejam! Não é que o tempo se decidiu a passar e já terminou a nossa aulinha? Peguem as suas coisas e saiam como se fossem comportados. Sem perda de tempo, por favor.

Resposta:

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