Palavra ímpeto

CORAGEM

Esta é uma das qualidades que sempre se destacaram no rol das coisas boas que um caráter humano pode apresentar.

Sempre é mostrada como material abundante nos heróis de filme e nas figuras históricas; em relação a estas, quanto mais no passado elas estão, maior é a coragem que lhes é atribuída, já notaram?

CORAGEM – do Latim coraticum, derivado de cor, “coração”. Isso porque, em épocas remotas, este órgão era considerado a sede da coragem, além da inteligência.  Daí o apelido do Ricardo Coração de Leão.

Uma fofoca histórica: consta que corajoso ele era, mas não era muito adepto de cumprir a sua palavra.  Foi apelidado pelos súditos de Richard aye and nay, ou seja, “Ricardo sim e não”.

BRAVURA – do Italiano bravo, “atrevido, audacioso, bravo”, possivelmente do Latim bravus, “vilão, criminoso”, de pravus, “depravado, desonesto”.

Eis uma palavra que começou designando uma qualidade negativa e que acabou vencendo na vida.

VALOR – veio do Latim valor, “riqueza, valor”, da mesma origem de valere, “apresentar boa saúde, ser forte”.

Os romanos se cumprimentavam muitas vezes dizendo Si bene vales, valeo:   “Se estás bem, eu também”.

Um sinônimo é valentia, de mesma origem.

Passou a apresentar o significado de “coragem” a partir dos fins do século XVI, através do Italiano valore.

DESTEMOR – descreve a coragem através do seu oposto. Forma-se por des-, com significado de “oposto”, mais “temor”, que vem, do Latim timor, “receio, medo”.  Ou seja, é a qualidade daquele que não teme.

DESASSOMBRO – da mesma maneira que aqui acima se construiu esta palavra mas usando “assombro”, que vem de “sombra”, que vem do Latim umbra, “escuridão, sombra”.

Não é normal a gente ter medo do escuro quando é criança?

Na idade adulta também, só que a gente não pode confessar.

AUDÁCIA – do Latim audacia, “coragem, atrevimento”, do Latim audax, “atrevido, bravo”, de audere, “atrever-se, empreender”.

Note-se que audax tinha um sentido pejorativo além desse, que era o de “inconsequente, desprovido de noção do resultado de seus atos”.

OUSADIA – o mesmo audere se transformou, no Latim vulgar, em ausere, que nos deu esta palavra.

ARROJO – vem do Latim rotulare, “atirar um objeto rodando, girando”, de rota, “roda”.

Uma pessoa que age arrojadamente muitas vezes lembra um objeto que entra girando loucamente em algum lugar.

Se a sua ação der certo, ela fica com fama de corajosa, se não der, de insensata.

HEROÍSMO – do Grego hero, “semideus”, significando originalmente “defensor, protetor”, de uma base Indo-Européia ser-, “proteger, vigiar”, que se manifesta também em “servo” e “serviço”.

GALHARDIA – do Francês gaillard, “vigoroso, forte, bravo”. Talvez venha do Galo-Romano galia, “força”, do Celta gal, mas não há certeza absoluta.

INTREPIDEZ – do Latim intrepidus, “o que não teme, o que não é dominado”, formado por in-, negativo, mais trepidus, “alarmado, trêmulo”, parente do nosso “tremer”.

ÍMPETO – do Latim impetus, “ataque, impulso, vigor”, formado por in-, “em”, mais petere, “correr para, dirigir-se a”.  Este verbo, aliás, originou a palavra “petição”.

BIZARRIA – a sua conotação de “coragem”  é pouco conhecida, mas existe. Provavelmente venha do Italiano bizzarro, “irritadiço, feroz”,  de bizza, “acesso de raiva”.

BRIO – do Italiano brio, “exuberância, espírito, vivacidade”,  possivelmente do Gaulês brigo, “força”.

ÂNIMO – do Latim anima, “alma, espírito, vida”.

Resposta:

Panne

Eu estava com meus dez anos quando cheguei timidamente ao escritório de meu avô cheio de livros, na peça que ele havia construído no fundo do seu pátio.

Ele voltou para mim aquele olhar claro e assustador, que imediatamente se suavizou:

– Ora, quem está aqui! Quais são as novidades, meu menino?

– O Pai chegou atrasado da viagem dele porque houve uma panne no avião. E eu queria perguntar para o senhor se isso é o que estou pensando.

– Bem. Imaginemos o seguinte: você está num avião. Ocorre uma panne. O que é que você espera ver?

– Bom, eu acho que de repente todos se levantam e começar a gritar e correr que nem galinhas assustadas, atirando as bandejas de comida para todos os lados, abrindo as maletas e bolsas e atirando roupas uns nos outros, derrubando as aeromoscas, indo até a cabine do piloto e batendo nele até o avião quase cair, enquanto todos berram “Panne! Panne!”

Parei de teatralizar os movimentos tal como eu os imaginava e perguntei:

– É assim, Vô?

Meu digno e sério avô, com todos os cursos e estudos que tinha, foi abrindo a boca e arregalando os olhos enquanto me ouvia e começou a rir até acabar deitado no chão, com lágrimas nos olhos, batendo os pés:

– Pare, pare, que você me mata! Não agüento mais! De onde é que você tira tanta bobagem? Você ainda vai ser um grande escritor de ficção. Agora deixe eu me ajeitar que vou lhe contar alguma coisa sobre o assunto.

Sentou-se na sua poltrona de couro e começou a falar, entre acessos de riso:

– Inicialmente, não é “aeromosca”, é “aeromoça”. Elas já têm incomodações bastantes no seu trabalho para ainda serem chamadas assim por um pirralho, de modo que não se esqueça.

Quanto à panne, é assim, ó: essa palavra vem de uma raiz indo-européia pete-, “lançar-se contra”, aparentada com ped-, “cair”.

Ela gerou um número grande de descendentes, muitos com significados pouco relacionados com o antepassado remoto.

Por exemplo, temos o Grego pteron, asa. Só esta já nos deu muitas outras palavras.

– Que nem pterodáctilo, Vô?

– Muito bem! Isso mesmo: esse nome foi inventado de pteron, asa, mais daktylon, “dedo”, pois as membranas das asas daqueles bichos eram esticadas em estruturas ósseas derivadas dos dedos.

Há muitas outras palavras de uso em diversas ciências que se aproveitam de pteron, como pteridófita, “certo tipo de planta”; pterígio, “membrana que cresce no olho”; pterigóide, “ponta de um osso do crânio”; pterigoto, “classe de insetos alados”; pterocarpo, “fruto que tem membranas alares para melhor se difundir”.

Todas essas coisas têm em comum o fato de terem alguma relação com asa, seja na forma, seja na função.

Outra palavra que derivou desses sons é o verbo petere, “procurar atendimento, pedir”. Daí temos petição, o ato de pedir, transformado num documento oficial para produzir determinados efeitos na Justiça.

– O Pai, quando chegou dessa panne toda, disse que estava “em petição de miséria”. Então ele estava pedindo miséria?

– Não, meu guri, não… Acontece que, até certa época, em nosso país, quando uma pessoa estava realmente sem dinheiro para pagar as suas dívidas, ela tratava de obter com as autoridades uma petição de miséria, uma declaração oficial de que ela não podia pagar as suas contas.

Mais um derivado é o verbo petulare “ser fogoso, pronto para o ataque”. Do seu particípio passado, petulans, temos a palavra petulante, que hoje significa “arrogante, atrevido, ousado”.

– Foi por isso que a Vó disse que o gato do vizinho era um petulante quando ele entrou no quarto e molhou os sapatos dela?

– Isso mesmo. Mas há mais. Em Latim, appetere era “cobiçar”. Daí que appetitus passou a significar “instinto, desejo”.

– Quando estou com muito apetite, é instinto ou desejo?

– Instinto, desejo, olho grande e falta de laço. Tudo isso em grandes doses. Não me faça perder o fio! Senão eu não lhe conto que competere significava “encontrar-se no mesmo ponto” ou “estar adequado ou conveniente para”.

Pessoas que competem entre si têm todas a pretensão de se encontrarem no mesmo lugar no fim da corrida. Claro que cada uma espera chegar antes das outras.

E “ser um profissional competente” é “estar adequado ao que se espera dele”. As autoridades competentes são aquelas que têm os poderes adequados para lidar com determinada situação.

impedir vem do verbo impetere, “lançar-se sobre”. Se uma pessoa se lança sobre outra, física ou metaforicamente, não está deixando que a outra faça o que pretende.

Daí também ímpeto, “vitalidade, ardor, movimento intenso”.

E também repetir, de repetere, “atacar de novo, ir procurar”.

E mais ainda: de per-pet-s se fez perpes, “o que avança de modo contínuo”, que nos deu perpétuo, “eterno”, através do Latim perpetuum.

– Muito bem Vô, até agora saiu um monte de palavras aí mas nada de panne. O senhor está me enrolando?

– Seu impaciente, agora é que eu ia entrar numa subfamília desta inicial. Em Latim, há a palavra penna, derivada do Indo-Europeu pet-sna, significando pena, asa.

Na Idade Média, a palavra panne teve diversos significados, como “estofado macio como uma almofada de penas” e, por extensão, “camada de gordura da barriga de certos animais”.

Também queria dizer “parte lateral de um tipo de verga”. Verga é aquela peça horizontal que se situa nos mastros e da qual são penduradas as velas.

Mettre en panne, em Francês, era “imobilizar um barco manobrando as vergas de modo a impedir as velas de colher vento”. Pronto: aí está a sua panne.

– Puxa, Vô, de barcos à vela a um avião a jato! Essa viagem foi boa.

– E longa em termos de tempo, meu rapaz. E não pense que pára por aí a história dessa palavra. Só para falar um pouquinho mais, sem pretender acabar com o assunto: daí também derivou o Latim pannum, “tecido, trapo, pano”.

E então temos pendão, do Francês pennon, “bandeira triangular” e outras que não vou citar porque você me obrigou a rir demais e estou com medo de ter uma panne na minha cabeça. Noutro dia a gente conversa mais.

Resposta:

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