Palavra imundície

LIXO

 

Esta noite os moradores do Ed. Éden, ali na esquina junto ao Bar do Garcia, estão reunidos na calçada, zumbindo como uma colméia ameaçada.

A razão? O extraordinário mau cheiro que tomou conta do prédio. É um fedor que entra pelas narinas, percorre o nervo olfatório, vai ao respectivo centro cerebral e dali faz curto-circuito direto para a alma da vítima, deixando-a esmagada perante a horrível sensação.

E vejam bem que quem mora naquele bairro esquecido da Divindade, –  para nem falar nas autoridades municipais  – está acostumado a sensações desse tipo.

Corte para o interior do escritório de X-8 no mesmo edifício, terceiro andar, fundo do
corredor.

É dali que vem o nauseabundo cheiro. Mas por que?

Ora, hoje é o dia das consultas charter, em que X-8 atende a grupos de palavras correlatas. E o tema é nada menos que… lixo.

Estão ali palavras que representam todo tipo de coisas de odor ofensivo, ansiosas por saberem algo sobre suas origens, desejo infrene de toda e qualquer palavra digna desse nome.

O detetive, ansiado pelos eflúvios sufocantes que elas emanam, está com um lenço no nariz ( – “Estou com um resfriado daqueles, vocês desculpem!”).

Ele trata de encurtar ao máximo a consulta. Mas sem deixar de repassar toda a explanação sobre a etimologia de cada cliente; ele jurou sempre fazer isso adequadamente quando prestou o compromisso solene na formatura da puxada Faculdade de Etimologia e nunca faltou.

Ele se dirige a uma palavra que parece comandar as outras, lixo.

– Você aí, lixo, devo informar que não tem origem definida com certeza; parece vir do Latim lixare, “aparar, desbastar, lixar”, em referência ao resultado da operação de retirar
excessos de algum material. Mas realmente não há certeza.

A palavra se remexeu na cadeira, decepcionada.

– Já sucata, do seu lado, que inicialmente designava “restos de material metálico”, vem do Árabe suqata, “aquilo que cai”.

E resíduo ali vem do L. residuum, “sobra, resto”, de residere, “ficar atrás, sobrar”. E esta
se forma por re-, “para trás”, mais sedere, “sentar”. Você tem exatamente a mesma formação que residência, aliás.

A noite era quente, o único equivalente de um condicionador de ar que X-8 tinha em seu antiquado escritório era um velho leque. Mas leque nenhum iria afastar aquela atmosfera esmagadora que se encontrava no aposento.

Ele prosseguiu, falando cada vez mais rápido:

Imundície, você está aí. Sua origem é o Latim imundus, “sujo”, formado por in-,
partícula negativa, mais mundus, “limpo”. Curiosamente, esta palavra também acumulava o significado de “mundo” e de “jóia”. Não sei bem quanto vinho tinha bebido o gramático que resolveu atribuir significado a estas palavras.

– E, apresentando o que deve ser o maior destaque olfativo desta sala, vemos lá no fundo excremento. Sua origem é o Latim excrementum, de excretus, “material eliminado pelo corpo”, particípio passado de excernere, “separar, eliminar”, formada por ex-, “fora”, mais cernere, “separar, peneirar”.

Vemos aqui na frente dejeto, que deriva do Latim dejectus, “lançado fora”, particípio passado de dejicere, “jogar fora, livrar-se de”, além de “destruir, vencer, matar”. Sua antepassada era feita por de-, “fora”, mais jacere, “jogar, lançar, atirar”.

A palavra se refestelou toda, impressionando as outras com seu passado sanguinário.

Resto, não se inquiete que já estou chegando aí. Você vem de restus, particípio passado de restare, “ficar para trás, ser deixado”, de re-, mais stare, “estar, ficar”.

– E de seu lado está sobra, que vem de superare, “passar por cima, elevar-se, subir”, de super, “sobre, acima”.

O interessante é que o verbo sobrar tem a conotação de “exceder, haver em abundância”, além de “subsistir como remanescente, ser desnecessário ou menosprezado”.

A palavra, que estava por se inflar toda com a origem, murchou.

– E agora, nossa conhecidíssima sujeira. Você deriva do Latim succidus, “com seiva, gorduroso, úmido”  –  enfim, qualquer material que deixe seu usuário pouco apresentável.

Agora temos umas clientes de uso menos comum, como lia.

Lia quer dizer “resíduo, resquício”, aplicando-se originalmente ao sedimento ou
borra que fica no fundo do barril de vinho em sua fabricação. Deriva do Gaulês liga e é uma das poucas palavras relativas ao assunto que hoje tratamos que não vem do Latim.

E, como falamos em borra, ela vem de bura, “tecido grosseiro, restos de tecido”, sendo depois aplicada a materiais como a lia.

E fundagem tem esse mesmo significado de “depósito no fundo de algum líquido”. Naturalmente vem de fundus, “vasto, fundo”, “a parte de baixo, alicerce, área de terra”.

Agora, prezadas e queridíssimas clientes, vou convidá-las a saírem pela porta dos fundos do edifício, pois o rumor de indignação por parte dos populares na calçada aqui embaixo me diz que estamos prestes a enfrentar uma revolta.

Desçam a escada até o primeiro andar, andem até a outra ponta do corredor e usem uma escadinha estreita que dá para o terreno baldio ao lado. Vai ser fácil de achar, é só seguir os ratos e baratas que circulam por ali.

Boa noite para todas e agradeço a presteza na saída.

 

Resposta:

Um Passeio Romântico

Como acontece todos os dias, é noite no bairro onde X-8 mora e trabalha. A maioria das pessoas prefere sair nessa ocasião, que assim se enxerga menos a sujeira.

Nossa câmera literária se desloca, num elegante vôo, sobre as ruas escuras, com poucas lâmpadas em funcionamento. Desce em picada sobre a quadra da Pizzaria do Porco.

Para quem não sabe, este é o estabelecimento do Porco Garcia, irmão do Garcia do Bar. Ambos são grandes, gordos, sujos, mal-encarados e com a barba por fazer. Seus negócios são estranhamente semelhantes aos donos.

Mas as pizzas do Porco são famosas no bairro. Aquele cheiro de queijo torradinho, as iguarias que vêm como cobertura…

Felizmente a Secretaria da Saúde não reconhece a existência do bairro, de forma que seus fiscais não podem interferir nos sabores inesquecíveis das pizzas.

De qualquer forma, é a única pizzaria do bairro. Outros já tentaram se estabelecer ali. No entanto, depois de Porco Garcia lhes fazer uma amável visita acompanhado do seu bastão e explicar as dificuldades e riscos do negócio na região, ninguém se arriscou a abrir casa por lá.

No caso de umas poucas pessoas não habituadas a sutilezas, as explicações de Porco Garcia exigiram um tempo longo e muitas sessões de fisioterapia para se consolidar.

Mas isso não vem ao caso. O que importa é que, com os modernos recursos da eletrônica virtual e espiã, nosso plano visual descortina um trio saindo do citado estabelecimento alimentar.

Uma das pessoas é uma figura totalmente envolvida por uma capa de gabardine cor-de-palha muito grande, com um chapéu marrom bem enfiado na cabeça.

Basta essa descrição para que todos saibam que se trata do Defensor das Palavras, o Grão-Guru da Etimologia, o Detetive X-8, aquele que tudo sabe sobre as origens das palavras.

Mas quem é casal que está com ele?

Vejamos: a moça é alta, bastante larga e profunda. Veste calças pretas, justas como uma pintura spray, uma camisetona ampla que desce até quase os joelhos, usa um par de sandálias de borracha cor-de-rosa com plataforma enorme.

Seus dedos das mãos e dos pés estão cheios de jóias de alumínio e vidro de muitos quilates. Seus cabelos longos e impossivelmente negros apresentam uma profusão de objetinhos coloridos com formas infantis, presos por molinhas, elásticos e outras criações estranhas da engenhosidade humana.

Essa descrição se aplica a quase todas as jovens do bairro. Por isso, desde já vamos explicando que esta é Mistinguete Garcia, a filha do dono da pizzaria.

Ao lado dela, vai um rapaz magro, alto, com o rosto cheio de espinhas e um olhar que lembra o vácuo do espaço exterior. Usa tênis sem cadarço, tão acolchoados que parecem um edredon enrolado nos pés. Suas calças são cheias de bolsos e terminam a meia-canela. Isso, combinado com a camiseta folgada cujas mangas descem abaixo do cotovelo, lhe dá a estranha aparência de um anão gigantesco.

Mais uma vez, descrevemos a maioria dos rapazes que circulam pelo bairro; precisamos dizer que este é Paulo Geraldo (“Pejota para os amigos”, diz ele, amavelmente, ao ser apresentado), que casou à força com Mistinguete Garcia numa festa concorridíssima. Forçoso é confessar que ele até agora não entendeu muito bem o acontecido.

Seu nível de inteligência tem o dom de não deixar ninguém acabrunhado, nem mesmo uma alface, caso esta fizesse um teste de QI. É por isso que muita gente do bairro gosta de passar uns momentos com ele. Faz bem para o ego.

No entanto, não debochem. Ele está em pleno processo de intelectualização. Percebe vagamente que X-8 é uma pessoa que sabe muitas coisas e está resolvido a passar o máximo de tempo junto dele, para ver se fica sabido também. Aliás, para ele é um avanço enorme perceber que há o que perceber no mundo ao seu redor.

X-8, que prefere companhias com um grau maior de conhecimentos, está passeando com eles porque o Porco Garcia lhe fez uma proposta irrecusável esta noite, na hora de levar a conta à mesa do detetive.

Ofereceu uma certa quantidade de refeições grátis ao detetive para que ele batesse uns papos com a filha e o genro.

A idéia era que o nível intelectual deles melhorasse o suficiente para eles poderem tocar o negócio, caso ele morresse algum dia.

Mistinguete não tinha conseguido passar da tabuada do seis; o rapaz, confrontado com um problema de primário em qualquer matéria, fazia uma cara de incompreensão cósmica que necessitaria um Da Vinci para reproduzir. Ou uma boa câmera fotográfica.

X-8, já com a carteira na mão, meditou rapidamente sobre a proposta. Pesou em seu raciocínio o cabo do porrete de madeira de lei muito alisado pelo uso que se projetava do bolso da calça de abrigo do Porco Garcia. Resolveu pelo mais seguro, topando a parada.

Mas insistiu numa cláusula: não podia dar qualquer garantia de resultados.

Garcia concordou e foi chamar o casal, que estava olhando TV no quartinho onde moravam sobre o depósito dos fundos.

Foi assim que as coisas se passaram para que agora estejamos olhando a lenta caminhada dos três pelas calçadas sujas do bairro.

– Côsa romântica né seu X-8 passear assim a gente falando sobre coisas legais né? Eu acho tipo assim muito legal – disse Mistinguete, que não era muito afeita à colocação de vírgulas nem na linguagem falada.

Pejota acrescentou:

– Eu queria saber de onde veio tanta coisa natural legal no mundo, que nem… que nem… – seu pensamento se fixou na primeira coisa que viu na calçada à sua frente – …aquele anjinho de rato morto ali.

– Aquilo se chama morcego e, embora pareça um rato com asas, não é. Seu nome veio do Latim mus, “rato” mais cecus, “cego”. Antigamente se achava que eram mesmo ratos de asas e que eles não enxergavam bem. Aliás, nisto eles acertaram.

– Ai, que romântico! – disse a moça – e aquela baratinha que está passando por ali?

– Seu nome vem do Latim blatta, usado para denominar mais de uma espécie de bicho rastejante, do Grego blaptein, “estragar”.

Mistinguete falou:

– Ué, “estragar” por que? Lá na cozinha do pai…

O detetive, com a barriga cheia de pizza feita justamente “na cozinha do pai”, mudou depressa de assunto:

– Olhem lá, que rato grande que passou junto à cerca! Sabiam que o nome dele vem do Latim rattus, mas não é ligado ao verbo rodere, “roer”? Na verdade, não há certeza da origem, acredita-se que seja palavra não-românica, que veio do Leste europeu com as migrações de povos…

– Tá, mas na cozinha… – teimou a rapariga. O vulto na capa atalhou, rápido, apontando para o alto com a mão enluvada:

– E olhem quantos insetos estão reunidos ao redor da lâmpada daquele poste. Olhem que beleza! Como eles voam bonito, não? Essa palavra vem do Latim insectum, “cortado, dividido”, pois é assim que eles se apresentam, com os segmentos do corpo bem marcados por estreitamentos. Essa palavra é o particípio passado de insectare, “cortar em”, formado por in-, “em”, mais secare, “secar”.

E, sem deixar tempo para que a mente da moça retomasse o assunto que se configurava tão mal, seguiu:

– Falando em romantismo, vejam só a sujeira que se acumula nas calçadas. Tal palavra vem do Latim succidus, “gorduroso, úmido, melequento”, de sucus, “seiva, suco, bebida”…

Pejota interrompeu:

– Pois é, o Seu Garcia, pai desta aqui, quando faz um bom suco, todo o mundo pergunta o que é que ele bota a mais para dar um gostinho especial e ele diz que é segredo. Mas eu já espiei ele fazendo e ele não bota nada de mais. Ele até raspa de vez em quando por dentro o copo do liquidificador, quando a gosma fica muito grossa e endurece…

Ansiado, X-8 aponta de súbito para o céu:

– A lua! Um eclipse! As estrelas! As cegonhas!

– Ué, Seu X-8, tá nublado e não se enxerga nada lá em cima!

– Não, eu quis dizer que essas coisas estão lá, mas não dá para ver agora. Você foi muito inteligente ao perceber isso, Pejota!

O rapaz se encheu de orgulho.Ser chamado de inteligente pela pessoa mais inteligente do bairro! Com essa adrenalina a estimular a custo os seus neurônios pouco habituados ao trabalho, ele fez uma pergunta.

E ela, para alívio de X-8, não lidava com os acontecimentos obscuros da cozinha de onde tinha saído a refeição que ele agora tinha no estômago:

– E beco, de onde vem, Seu Detetive?

– Em Português antigo era viecu, um diminutivo de via, “estrada, rua, caminho”.

Mistinguete não ia ficar atrás:

– Olhalí as lesmas na parede! De onde vem o nomezinho delas que são tão engraçadinhas?

– Em Roma eram chamadas limax, as engraçadinhas – ao perceber que o casal estava num momento de pouca inspiração e temendo que eles voltassem ao assunto da cozinha, X-8 começou a falar sem parar:

– E quanta imundície artisticamente disposta nas calçadas! Essa palavra vem do Latim imundus, “sujo”, formado por in-, partícula negativa, mais mundus, “limpo”. Curiosamente, esta palavra também acumulava o significado de “mundo” mesmo e de “jóia”.

Nossos esgotos estão sempre com problemas porque a Prefeitura não se atreve a mandar gente para limpar. Essa palavra vem do Latim gutta, “gota”, dando a idéia de líquido a escorrer, como se espera que aconteça com os esgotos.

Eu falei em limpar e me lembrei que essa palavra vem do Latim limpidus, “transparente, claro, límpido”.

E ora, vejam só, não é que estamos chegando aqui no Edifício Éden, onde eu moro? Bem, pessoal, foi um grande prazer passear com vocês, a gente tem que fazer isso mais seguido, gosto muito da juventude, mas minha mãezinha velhinha está me esperando e pode ficar preocupada se eu demorar, de modo que até logo e qualquer dias desses a gente se vê de novo, tchauzinho, hein? Lembranças para o P… para o Seu Garcia, não se esqueçam!

E subiu correndo as escadas, deixando o romântico casal voltar para casa enlevado nas nuvens da intelectualidade.

Resposta:

Aniversário

                   – Então a senhora é que é a mãe do Humbertinho! Muito prazer, sou a Tia Odete, professora dele. Ele é o único aluninho que me convidou para a sua festa de aniversário até hoje.                  Devo lhe dizer que ele é certamente o mais brilhante de todos, um verdadeiro exemplo de menino que não só não incomoda como colabora com a sua cansada mestra.                  É sempre ele que me traz um copo dágua quando estou muito atacada, que se oferece para apagar o quadro-negro, que me conta quem foi que fez as malfeitorias. Prevejo um grande futuro para ele. Não duvido que chegue à Presidência. Não sei de quê, mas vai chegar à Presidência.                 Venha cá, meu querido, a Tia Odete trouxe uma pequena lembrança para você. É um bloquinho de anotações com um lápis para você escrever os nomes dos seus coleguinhas que fizeram coisas ruins e que você vai me passar depois.                   Não agradeça; total, é só o que uma professora esforçada pode dar hoje em dia, com os salários baixos que se recebe e… mas vamos falar de coisas melhores.                   Certo, vou sentar com as outras senhoras aqui na sala. Boa tarde, como vão? Bonito aniversário, este.                    Hum. Naturalmente todas vocês sabem de onde veio a palavra aniversário, não? Como? Verdade que não? Então eu vou ter o prazer de contar, já que não pode haver ocasião melhor.                    Ela vem do Latim, de anniversaria dies, “dias a serem observados em especial”. E anniversaria vem de annus, “ano”, mais vertere, “virar”, ou seja, quando se completava mais um ano dum acontecimento.                    A palavra annus deu – sim, Joãozinho, meu anjo? – não, a Tia Odete não chamou você, meu doce; vá continuar a sua brincadeira com as meninas atrás da porta, que hoje eu não tenho nada que ver com isso.                    Mas, como eu dizia, essa palavra originou muitas outras em Português, como anais, inicialmente “fatos lembrados a cada ano”, centenário, “o que tem cem anos”, anual, “o que acontece a cada ano”, como, por exemplo, receber uma turma nova de demônios para cuidar.                    Antigamente se fazia também festa pelo onomástico da pessoa. Isto vem do Grego onomázein, “nomear, atribuir um nome”, de ónoma, “nome”. Fazia-se uma festa no dia do santo cujo nome a pessoa usava. Note-se que nem sempre este era o dia do nascimento.                   Por exemplo, se alguém quisesse dar uma festa de arromba para mim no dia da minha santa onomástica, o faria ou no dia dedicado a Santo Odon, o abade de Cluny, que viveu no Século X ou no dia dedicado ao Santo Odon que foi bispo de Urgel, na Espanha, no Século XII. É que Odete é o feminino de Odon, em Francês.                   Claro que alguém só faria isso se achasse que eu tinha algum tipo de merecimento devido ao fardo que agüento todos os dias sem me queixar.                   E já que falei em festa mais de uma vez, eis também a ocasião de falarmos sobre a etimologia desta palavrinha tão simpática. Ela vem do Latim festae, “feriados”, que vem de festus, “festivo, alegre” e que se relaciona tanto com feriae, “feriado” como com fanus, “templo”. As festas religiosas foram, por muito tempo, uma rara ocasião de as pessoas se encontrarem, em épocas nas quais a maior distração que aparecia na aldeia era um enforcamento.                   Festa nos deixou também a palavra festão, que nada tem a ver com “festa grande”. Designa uma guirlanda, um ramo de flores pendente, e veio do Francês feston, que veio do Italiano festone, “ornamento festivo”. Foi muito usado como ornamento arquitetônico nas épocas em que os prédios não seguiam o modelo caixa de sapato.                   Também derivou daí festival, de festivalis, “referente a um feriado religioso”.                   Espera-se de uma festa que ela seja alegre, palavra que veio do Latim alacer, “animado, vivaz”. Essa palavra se encontra hoje muito pouco modificada na linguagem culta: álacre.                   Conhecem aquela poesia que começa com “Álacres saem as andorinhas do ninho…”? Não? Nem poderiam, pois é uma das modestas poesias que eu andei fazendo nas minhas raras horas de folga e que vou declamar agora perante tão distinta platéia, se me permitirem…                   Mas como vocês são gentis em correrem para me oferecer bebidinhas e comidinhas! Com a boca cheia não vou poder declamar. Fica para depois então.                   Este refrigerante está numa temperatura muito boa. Claro que todas sabem… Não? Vou contar então. Refrigerante vem do Latim refrigerare, “refrescar”, de re, partícula intensificativa, e frigo, “frio”. Quem me dera ter sempre um refrigério para a alma quando os filhos das senhoras aqui presentes começam a aprontar na aulinha!                   Mas, como sempre digo, passemos adiante e vejamos a origem do nome daqueles rapazes com estranhas vestes que foram contratados para alegrar as crianças. Palhaço vem do Italiano pagliaccio, de paglia, “palha”, porque eles usavam roupas acolchoadas com palha para parecerem mais engraçados e para agüentarem as pancadas que davam uns nos outros.                   Um sinônimo de palhaço que agora anda em desuso é bufão. Tal palavra vem do Italiano buffare, “debochar, zombar, rir de alguém”, provavelmente com origem onomatopaica a partir do som buf-, de deixar o ar sair em sinal de desprezo. O verbo bufar tem a mesma origem.                    Mas que deliciosas empadas! Esta palavrinha vem do Latim panis, através do Espanhol empanada, nome dado inicialmente a alimentos fritos sob uma camada de material com farinha.                    No entanto, a gente sempre tem que se cuidar para não comer descuidadamente uma empada, não vá se machucar ao morder uma eventual azeitona no seu interior, palavra que vem do Árabe az-zaitûn, que queria dizer tanto a oliveira quanto o seu fruto.                    Não sei por quê, mas falar neste salgadinho me trouxe à mente a expressão cirurgia plástica. Devo explicar que plástica, no caso, não é porque as pessoas ficam com as caras sem expressão que nem uma boneca de plástico; essa palavra vem do Latim plasticus, o mesmo que o Grego plastikos, “capaz de ser moldado”, de plastos, “moldado”, de plassein, “moldar”. A idéia é de que as pessoas possam “moldar” seu corpo conforme seus desejos de beleza. Ih, ih, ih.                     O uso da palavra plástico para designar o material que conhecemos tão bem, hoje feito de derivados de petróleo, é de 1909, cunhado por Leo Baekeland, que inventou a baquelita. Eu ainda conheci os telefones feitos com baquelita; só a parte que se retirava do gancho para falar era do tamanho e peso de vários celulares de hoje.                      Que maravilha, estes pasteizinhos! Estão uma delícia; saibam que o nome deles vem do Italiano pasta, “massa”, que vem do Latim pasta, “massa” também. Mais remotamente, veio do Grego pasta, “mistura salgada de alimentos”, de pastos, que queria dizer “polvilhado, salgado”, de passein, “espalhar”.                       Nem precisam me perguntar, que já explico: o pastel que muitas pessoas usam para fazer quadros não é de comer mas tem relação com estes aqui no meu prato, sim. Seu nome vem do Italiano pastello, “material reduzido a uma pasta”, e foi a palavra escolhida para designar a mistura de certas ceras com pigmentos que era usada para colorir. Aliás, ainda é.                       Quem se dedica à antiquada atividade de ler, coisa tão rara hoje, deve saber o que é um pastiche. Atualmente essa palavra designa um escrito calcado num outro, como quando se faz uma história com o Sherlock Holmes como detetive.                       Há um tempo, essa palavra significava “escrito feito com fragmentos de outros”. Seja como for, a palavra vem do Francês pastiche, que vem do Italiano pasticcio, que vem do Latim pasticium, “feito de massa”, isto é, juntando-se punhados de materiais e amassando para obter algo diferente.                       Que interessante, olhem: algum capetinha se dedicou a sacudir as latas de refrigerante e cada vez que alguém abre uma, é um banho ao redor! Parecem fontes!                        E aquele grupo ali adiante começou uma guerra com docinhos, que gracinhas! Pensando bem, esses brigadeiros e branquinhos parecem ideais para se atirar. E os sanduichinhos redondos, que deram tanto trabalho para fazer, estão servindo como aquelas armas de arremesso dos japoneses, as tais estrelas ninja. Como eles se divertem!                          Ai, mas que beleza! É sempre bom a gente ver a alegria pura e espontânea das crianças, tão ativas…                         Olha, olha! Estão correndo atrás das meninas com o bolo. Eles andaram vendo filmes de pastelão, os queridinhos. Só acho que o ideal era as velas não estarem acesas.                          Chiii! Puseram a torta fria no sofá e fizeram o gordinho sentar em cima. Mas ele não se rendeu: está tirando pedaços esmagados do traseiro e jogando nos outros. Como se divertem! Como é boa a infância! Como é bom não ter nada que ver com isso!                          Olhem o Joãozinho e o Sidneizinho levando aquelas duas meninas para o banheiro. Decerto vão ajudá-las a limpar alguma manchinha nas roupas.                           E aquelas pernas saindo de trás do sofá? Ah, é o meu bom Soneca que está fazendo o que mais lhe agrada: sesteando. Esse é outro que não incomoda; passa dormindo a aulinha inteira.                          E ali está passando o Artur, agarrado numa bandeja de doces, com as bochechas estufadas, dizendo “É meu” É meu!”                          Parece que as outras estão ocupadas tentando controlar os seus filhos, de modo que ficamos só nós duas para conversar, minha senhora. Admiro a sua tranqüilidade. Ah, sim, não é tanto que a senhora seja calma como porque a sua perna está engessada até em cima. Foi na ginástica, é? Felizmente isso passa com uma boa imobilização.                          Aproveitando que a senhora não pode sair daqui, vou contar-lhe a origem de algumas coisas que as crianças estão fazendo, tal como imundície. Esta palavra vem do Latim in, “sem”, mais mundus, “limpo”. O que estava imundus não estava limpo, que nem o que está acontecendo com esta sala.                            E sujeira vem do Latim succidus, “úmido, gorduroso, sujo”. É uma palavra aparentada com sucus, “extrato, suco”.Se pudermos considerar o refrigerante como um suco, ele está umedecendo quase tudo o que a gente vê aqui.                             Vai ser bem difícil tirar as manchas dos estofados, palavra essa que vem do Latim macula, “nódoa, erro”.                              Acho que o erro mesmo foi juntar essas crianças. Eu, que as agüento todos os dias úteis, sei que isso é perigoso.                               Parece  que vai ser difícil essas mães conseguirem algo com as crianças sem que se chame uma força de elite.                                Ué, já terminou a festa? Deve ser coisa moderna. As de antigamente duravam mais de meia hora. Permita-me despedir-me da dona da casa… Como? Ela saiu porta afora, aos berros, coberta de merengue e pão de sanduíche? Bem, deixem-lhe minhas recomendações.                                Coisa curiosa, esta época moderna e seus costumes. Acho que vou ter que me reciclar um pouco. Espero que me convidem para outras festas, pois tenho certeza de que abrilhantei esta.

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