Palavra insigne

REUNIÃO DE NOTÁVEIS

 

X-8, o detetive etimológico mais famoso do seu bairro  –  para dizer a verdade, o único  –  está arrumando sua sala para receber mais um conjunto de palavras que marcou hora antecipadamente e pagou uma quantia absurda para saber de suas origens.

Essa é a grande fraqueza das palavras. Dão tudo para saberem de sua genealogia. E isso engorda a conta-corrente de nosso detetive.

Enfim, lá está ele se dedicando ativamente a realçar o aspecto de escritório de detetive da época em que as historias de mistério eram todas em preto e branco.

Espalha papéis amassados por aqui, um pouco de poeira por ali, cola pelos cantos umas teias de aranha feitas com finos fios de seda, auto-adesivas  –  o que não fazem hoje em dia!  –  monta cinzeiros com restos de charutos falsos e cinza de raspa de plástico.

Qualquer palavra fica fascinada ao entrar num ambiente assim.

Neste momento começam a chegar as palavras-clientes. Entram com elevados ares de importância, uma sobrancelha levantada, anéis nas mãos, gravatas muito bem dispostas, e se acomodam nos bancos grosseiros em frente à escrivaninha do poderoso profissional.

O local não parece adequado para essas palavras, que se referem ao que é notável, famoso, insigne, de alta categoria. Mas elas, por trás de suas faces aparentemente impassíveis, estão assanhadas que nem crianças.

A voz gélida do detetive sai de baixo do seu chapéu arriado:

– Muito boas noites às prezadas clientes. Lidarei com suas etimologias sem maiores delongas, pois sei que todas são muito importantes e não têm tempo a perder.

Iniciaremos com notável, que se apresenta exatamente assim aqui na primeira fila e deriva do Latim notabilis, “digno de nota”, de notare, “perceber, destacar”, de nota, “marca, sinal, letra”, originalmente “marca, sinal de reconhecimento”.

Junto a ela temos notório, de notorius, “o que se usa para notificar”, também vindo de nota.

Logo ali se destaca preclaro. Sua origem é o Latim praeclarus, “luminoso, brilhante, magnífico”, de prae, “à frente”, mais clarus, “claro”.

A palavra pareceu inchar de tão satisfeita.

Agora aponto para vocês emérito, do Latim ex-, “para fora”, mais meritus, “aquele que faz jus a algo”, de merere, “merecer, adquirir, ganhar”, do Indo-Europeu (s)mer-, “destinar a”.

As clientes todas acompanhavam com atenção a fala do grande profissional, a maioria tomando notas em caros aparelhos eletrônicos.

– Para citar outra palavra com o início parecido, temos ali eminente, do Latim eminens, de eminere, “projetar-se, destacar-se”, que se forma de ex-, “fora”, mais minere, “ter relevo, destacar-se”, relacionado com mons, “colina, monte, montanha”. O que é eminente se destaca do que está nos arredores.

Requestado é  uma palavra bastante perseguida por fãs. Vem do Latim requisitus, “procurado, demandado, exigido”, de re-, “novamente”, mais quaerere, “procurar, pesquisar”.

Podemos ver que famoso, ali presente, mostra inquietude por ainda não ser citado. Saibam todas as presentes que ela deriva do Latim fama, “reputação, opinião pública, fala”, de fari, “falar”.

No caso, “falar bem”. Existe o seu oposto, que naturalmente não andaria com este destacado grupo, que atende pelo nome de infame. A origem também é fama, mas com o prefixo in-, negativo.

E insigne vem do Latim insignis, “aquele que porta uma marca distintiva, o que se destaca”, formado por in-, “em”, mais signum, “marca, indicação, símbolo”, do Indo-Europeu seqw-, “seguir”.

Favor não confundirem esses dois in-, que às vezes levam as pessoas à dúvida. Eles têm a mesma forma mas sentidos diferentes.

Portando uma conotação um tanto menos elevada, vemos ali, com certo rubor, a palavra manjado. Ela vem de manjar, do Latim manducare, uma alteração de mandere, “comer”.  Não sabemos exatamente por que se associou o que foi comido a algo muito conhecido, banal, sem surpresas. Mas as coisas são assim na vida e na Etimologia: nem sempre dá para entender tudo.

Uma origem fácil de entender é a de memorável. Vem do Latim memorabilis, “o que vale a pena lembrar, o que deve ser lembrado”, de memorare, “mencionar, relembrar”, de memor, “o que se lembra”, de uma raiz Indo-Europeia smar-, “lembrar-se, conhecer”.

Outra é a de conhecido. Veio do Latim cognoscere, “conhecer, saber”, formada por cum-, “junto”, mais gnoscere, de uma raiz gna-, “conhecer, apreender com o intelecto”.

A próxima que vou citar tem menos uso em nossos dias, mas ainda está nos nossos dicionários: assinalado. Significa “ilustre, apontado, destacado” e tem a mesma origem de sua prima insigne, em quem falamos há pouco.

E apregoado? Aqui ela se apresenta com sua conotação de “tornar-se conhecido, divulgar-se”. Vem do Latim praeconor, “leiloeiro público”, de praedicare, “falar em público, anunciar para todos”, de prae, “à frente, perante todos”, mais dicere, “falar, dizer”.

E já que acabo de citar a palavra falar, informo que ela é a origem de outra cliente, falado. Vem do Latim fari, “falar, dizer”.

Por último. olhemos para consabido ali, que vem de com mais sabido, de saber, do verbo latino sapere, que tanto queria dizer “ter gosto, sentir gosto”, como “compreender, saber”. Está com uso escasso hoje em dia e significa “o que é sabido ou conhecido por muitos”.

Muito bem, caras palavras-clientes, aqui se encerra a nossa sessão. Como muitas vezes aviso as caras visitantes quando saem deste nosso templo do conhecimento, cuidem-se nos corredores e nas escadas, que este não é mês de faxina.

 

Resposta:

Elogios

Cheguei à porta do escritório de meu avô e vi o velho de barba branca curta e olhos claros atrás de sua escrivaninha. Para variar, estava lidando com papéis e livros.

Depois de trocarmos um abraço afetuoso, passei-lhe a dúvida do dia:

– Vô, o Pai recebeu uma carta em cujo envelope ele era tratado de “Excelentíssimo Senhor”. Eu acho que ele  até que é bem razoável para um pai, mas excelentíssimo?

O velhote riu muito:

– E olha que a sua opinião sobre ele é bem melhor do que a da maioria dos filhos, inclusive a que ele tinha sobre mim quando era adolescente que nem você…

Essa carta usou uma forma de tratamento que vem do Latim excellens, de excellere, “subir, ultrapassar, ser eminente”, verbo formado por ex-, “fora”, mais cellere, “subir alto”, relacionado a celsus, “alto, grande”, do Indo-Europeu kel-, “elevar-se, subir”.

– Quer dizer que o meu colega Celso Roque é alto e grande?

– Pode até não ser, mas quem fez esse nome pensava assim.

Há um outro elogio que também virou nome: augusto, que veio de augere, “aumentar, elevar”.

Há diversas outras palavras que são usadas para elogiar pessoas em discursos e correspondências, mesmo sem serem sinceras.

Por exemplo, insigne, que vem do Latim insignis, “aquele que porta uma marca distintiva, o que se destaca”, formado por in-, “em”, mais signum, “marca, indicação, símbolo”.

Ao dizer que um sujeito sabe muito, pode-se usar douto, do Latim doctus, “instruído, o que aprendeu”, de docere, “mostrar, ensinar”.

– Isso tem a ver com doutor?

– Certo, meu neto que hoje até que está esperto e parece um douto. Essa palavra vem de doctor, “aquele que ensina”.

Posso ensinar outro elogio desses: probo, derivado do Latim probus, “de valor, testado, provado”. A origem mais remota é o Indo-Europeu pro-bhwo-, “estar à frente, de pro-, “à frente”, e bhu-, “estar”.

Falando nisso, ocorre-me a palavra grado, que tem uma origem interessante. Vem do Latim. granatus, “cheio de grãos”, portanto “importante, significativo”.

– Uma espiga de milho é cheia de grãos. Os antigos romanos a achavam importante assim?

– Aqueles romanos não conheceram o milho, rapaz! Ele veio das Américas. Mas conheciam muito bem o trigo e outras plantas que produziam grãos. As plantas em si não eram ditas lá tão grandes, mas os proprietários delas, sim.

– Hum… e ilustre, Vô? Lá em casa há vários ilustres pendurados no teto para iluminar…

Ele lançou um olhar assassino em minha direção:

– Essa palavra, engraçadinho, vem do Latim illustris, “brilhante, distinto, famoso”, de illustrare, “embelezar, distinguir”, formado por in, “em”, mais lustrare, “iluminar, clarear”.

Um elogio muito distinto é chamar alguém de paradigma. Já esta palavra vem do Grego paradeigma, “padrão, exemplo, modelo”, de paradeiknynai, “mostrar, representar”, literalmente “mostrar lado a lado”, formado por para-, “ao lado”, mais deiknynai, “mostrar, apresentar”.

– E o exemplo que o senhor recém citou, vem de onde?

– Do Latim exemplum, “uma amostra”, literalmente “o que é retirado”, do verbo eximere, “tirar, remover”, de ex-, “fora”, mais emere, originalmente “tirar”.

– E o tal modelo?

– Do Latim modulus, “medida, padrão”, de modus, “modo, jeito, medida”.

Ao se puxar o saco de alguém, principalmente em Política, pode-se usar prócer, que vem do Latim procer e quer dizer “extremidade saliente de uma viga” e, por extensão, “pessoa que se destaca”.

E ao citar a Política já perdi a vontade de continuar falando. Vamos para o pátio ver o que é que o gato está aprontando.

Resposta:

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