Palavra invectiva

OFENSAS

 

Lá pelos meus doze anos, visitando meu avô em seu gabinete forrado de livros e de amabilidade, contei uma briga que tinha visto acontecer com uma vizinha de minha casa e outra pessoa, em plena calçada.

Iara, esse era o nome da vizinha, tinha acrescentado muito ao meu escasso repertório de palavras ofensivas. A capacidade que ela demonstrava em ofender era impressionante.

Disse meu avô:

– Pois é, meu caro, eu já tinha ouvido falar que essa pessoa inconveniente era muito mal-educada, apesar de ser uma pessoa que tem bastante estudo. Mas vejo que você não gostou da cena, e está certo quanto a isso. Já que estamos lidando com esse assunto, não vamos fugir dele e sim examiná-lo etimologicamente.

Por exemplo, ofensa. Esta palavra vem do Latim offendere, “atacar, desagradar”, formada por ob- “contra”, mais fendere, “investir contra, atacar”.

– Era isso mesmo que ela parecia estar fazendo, Vô!

– Ainda bem que só usou palavras, não paus e pedras. Ela deve ter dito também muitos insultos, do Latim insultare, “atacar, pular sobre”, de in-, “em, sobre”, mais salire, “pular”.

– Ela quase pulou sobre o pobre homem.

– Aposto que gostaria. E que ela usou de muitas calúnias, do Latim calumnia, “acusação malevolente, subterfúgio, disfarce”, de calvi, “enganar”.

Também aposto que não poupou desacatos, do Latim…

– Já sei, Vô! Tem a ver com catus, “gato”, como o senhor falou no outro dia.

O velho revirou os olhos para o alto, dramaticamente:

– Ó Senhor, por que não me poupas disto? Meu descendente acha que Etimologia é amontoar palavras parecidas! Olhe aqui, rapazinho, essa palavra vem de des-, com o sentido de “oposto, contrário”, mais capere, “tomar, agarrar”.

– Não peguei o sentido.

– O sentido é que se tira o que outra pessoa pegou; no caso, direitos, dignidade e outras miudezas.

– Percebi que ela xingou muito a pobre vítima. Mas não se preocupe, caro antepassado, eu posso explicar que esta vem do nome do Rio Xingu, onde as pessoas ficavam se dizendo palavrões de uma margem à outra, aproveitando que ele é muito largo e…

– Se eu acabar por estrangulá-lo tenho certeza de que o júri vai me liberar e ainda me condecorar quando souber que você abusou de um ancião. Esse verbo vem do Quimbundo xinga, “ofensa, desaforo, blasfêmia”.

E mais, vou-me queixar de você por desrespeito, de des- mais respeito, do Latim respectus, particípio passado de respicere, “olhar outra vez”, de re-, “de novo”, mais specere, “olhar”.

– Você está muito complicado hoje, não entendi bem a razão.

– A metáfora é de que algo que merece um segundo olhar tem qualidades que levam a uma atitude de consideração e reverência.

– Agora sim.

– Verdade? Que coisa inesperada… Mas, prosseguindo, vou falar de uma palavras que você provavelmente ainda não conhece, por serem pouco usadas.

Por exemplo, diatribe, que quer dizer “crítica severa, fala afrontosa”, do Latim diatriba, do Grego diatribein, “discurso, estudo”, literalmente “perda de tempo”, de dia-, “através”, mais tribein, “gastar, esfregar”.

– Gostei dessa ,Vô.

– Temos também invectiva, “palavras injuriosas”, do Latim invectivus, “o que reprova, desaprovador”, de invehi, “atacar com palavras”, formado por in-, “em”, mais vehere, “guiar, levar por um rumo”.

Isso para não falar em vitupério, “desonra, mancha na reputação”…

– Tem algo a ver com o Seu Vítor da venda? Viturpério?

– Pare de arriscar a vida, rapaz. Tem a ver com o Latim vituperare, “sujar, atribuir culpa”, de vitium, “vício, mancha”, mais parare, “providenciar, prover”. Trata-se de providenciar uma sujeira na vida alheia.

– É bem verdade que eu nunca tinha ouvido estas últimas.

– Eu imaginava. Para variar um pouco, vou falar sobre ultraje  –  e antes que você me venha com gracinhas, esta nada tem a ver com “traje”.

– Eu ia perguntar se era um traje ultravioleta…

– Baah para você. Ela quer dizer “ofensa grave, desacato” e veio do Francês antigo oltrage, “excesso, extravagância, comportamento violento”, do Latim ultraticum, “excesso”, de ultra, “além”.

– Agora me ocorreu uma, Vô: difamação.

– Muito bem, algum vocabulário você apresenta. Essa vem de diffamare, formado por dis-, no sentido de “estragar, destruir”, mais fama, “rumor, informação, reputação”, relacionado ao verbo latino fari, “falar”.

Falando nisso, ocorre-me injúria, do Latim injuria, “conduta fora da lei, injustiça”, de in-, negativo, mais jus, “direito, justiça”. Muitas vezes são ditas coisas que não são verdadeiras quando uma pessoa se descontrola ao falar.

E, para terminar, afronta, do Latim affrontare, “ofender, desrespeitar”, originalmente “bater na face”, da expressão ad frontem, “na face ou para a face”. Bater no rosto sempre foi uma ofensa muito grave.

Bem, meu caro, agora chega de falar em coisas que fazem mal às pessoas. Agora você vai me contar o que tem feito na aula.

 

Resposta:

UM DESABAFO

 

– Bom dia, Sr. dono deste simpático barzinho perto da minha casa onde eu compro meu pão diário mas onde minhas dívidas não são perdoadas, bom dia aos frequentadores aqui reunidos tanto para fazer suas comprinhas como para trocar informações sobre a vida alheia ou para consumir bebidas espirituosas.

Hoje acordei de muito mau humor, fato que atribuo ao meu  trabalho de lecionar Etimologia para um grupo de crianças extremamente difíceis de controlar, para dizer o mínimo.

É por isso que me sinto necessitada de lançar invectivas contra algumas coisas que vejo aqui.

Para os que não sabem, invectiva vem do Latim invectivus, “agressivo, inadequado”, do verbo invehere, “atacar com palavras”, originalmente “jogar-se, atirar-se contra”, de in-, “em”, mais vehere, “levar, transportar”, que originou também “veículo” e “veemente”.

Acabo de ser passada para trás na fila por aquela senhora acolá com cara de quem nem tinha reparado; gostaria de dizer a todos e principalmente a ela que a polidez que lhe faltou vem do Latim polire, “polir, tornar suave”, metaforicamente, “elegante, correto, respeitoso”. Seria lindo se ela conseguisse corresponder à origem dessa palavra por meio de atos.

Uma coisa que os senhores de olhar vago sentados nessas horrendas cadeiras de plástico fazem, enquanto bebericam suas cervejas, é falar em política.  Antes que pensem que essa palavra se relaciona com polidez, aviso que ela deriva do Grego politikos, “relativo ao cidadão ou ao Estado”, de polites, “cidadão”, derivado de polis, “cidade”.

Esta palavra veio do Indo-Europeu polh-, “espaço fechado, em geral em local elevado”, o que descreve o núcleo inicial de muitas cidades nas civilizações antigas.

Polícia é outra derivada, relaciona-se com ela pelo sentido de “cuidar das cidades”, onde a segurança  sempre foi uma preocupação.

Quanto àquelas senhoras ali que fornecem uma à outra os pormenores de todas as suas doenças, cada qual querendo ter sofrido mais do que a outra,  embora pareçam extremamente sadias, elas precisam saber que a Policlínica de que tanto falam não  vem do Grego poly- no sentido de “vários, muitos”, não.

Todos pensam que a palavra vem do fato de um local assim atender a muitas especialidades ou ter muitos médicos, mas a origem na realidade é o polis “cidade” de que já falamos. Tratava-se da “clínica da cidade” no início.

Falando em conduta nas cidades, podemos lembrar que esta palavra veio do Latim civitas, originalmente “condição ou direitos de cidadão”, de cives, “homem que vive em cidade”.

Daí veio civilização, como oposto a barbárie, do Grego barbaros, “estrangeiro, forasteiro” literalmente “aquele que fala de modo incomprensível”, de um som barbarbar que imitava um balbuceio.

Civilidade é um conjunto de formalidades, palavras e atos que os cidadãos adotam entre si para demonstrar mútuo respeito e consideração. Pelo que vejo, nem todos os presentes se dedicam com demasiado afinco a exercer uma condição tão bonita, seja por desinteresse, seja por escassez de neurônios mesmo.

Tendo falado em bárbaros e olhando certos atos que daqui distingo com meus olhos treinados em perceber os atos mais solertes dos meus aluninhos – como aquela senhora que está colocando o tomate mais bonito que encontrou disfarçadamente no bolso ou o dono do bar se enganando propositalmente no troco a devolver, ocorre-me à memória já tão abalada pelo desgaste cotidiano a palavra selvagem.

Ela vem do Latim selvaticus, uma alteração de silvaticus, “selvagem”, de silva, “floresta, bosque, selva”, local onde costumam morar seres que não tiveram qualquer informação sobre os modos de se comportar numa sociedade humana.

E sim, essa palavra originou o sobrenome tão conhecido, Silva. Muitos dos habitantes das aldeias antigas adotaram essa palavra como sobrenome, quando estes passaram a se fazer necessários, por morarem nas beiras do lugarejo, já perto da floresta.

Eu me referi aos bichos da floresta, que são chamados também de  brutos; eles podem não saber de nosso comportamento e é por isso que seu nome veio do Latim Brutus, “estúpido, grosseiro”.

Naturalmente isso não é de esperar de quem já freqüentou uma escola, como quero crer que ocorreu com todos os presentes.

Os animais, por sua natureza, se nos apresentam como ferozes, do Latim ferus, “selvagem, não-domesticado”. Mesmo assim, em geral eles se mostram menos destrutivos em seus lugares de domínio do que determinados bípedes implumes que se recusam a seguir o que sua lei determina.

Ah, prezados senhores e senhoras que me olham atônitos  –  palavra que vem do Latim atonitus, “atordoado pelo ruído do trovão” de tonitrus, “trovão”  – como é bom desabafar um pouco, tirar do peito nossa naturais revoltas e sentir-se leve como uma pluma!

Agradeço a todos por esta oportunidade e prometo voltar amanhã.

Resposta:

Do NOT follow this link or you will be banned from the site!