Palavra morrinha

CHEIROS

 

Hoje o Detetive das palavras, X-8, está plenamente preparado para receber o grupo de clientes marcado para este horário.

Ele porta uma máscara contra gases daquelas que a gente vê nos filmes da Primeira Guerra Mundial.

Deu um trabalhão para colocá-la entre o chapéu e a gola levantada da gabardine. Ele ficou meio parecido com um extraterrestre de filmes ruins da década de 1950, mas sabe que a prevenção é muito importante.

De repente, ele ouve uma gritaria de gentes e palavras se afastando do Edifício Éden, onde ele tem seu endereço profissional. Raciocina que devem ser suas clientes chegando em grupo para serem informadas de suas etimologias.

Realmente, são elas: palavras referentes a cheiros. E algumas são tão tremendas que só uma pessoa adequadamente preparada, como ele, pode ficar por perto.

Elas entram no escritório detetivesco, acomodam-se nos bancos à frente do profissional e aguardam, ansiosas para saberem de onde vieram.

Ele começa a falar apressado, temeroso de que o duplo filtro químico de sua máscara seja vencido pelos eflúvios presentes antes que ele termine a sessão:

– Boas noites, prezadas clientes, e desde já passo a contar a origem de cheiro, que parece liderá-las hoje. Você vem, com significativa mudança de som, do Latim fragrare, “emitir um forte odor”, do Indo-Europeu bhrag-, “cheirar”.

Como qualquer um pode ver, fragrância tem a mesma origem, mantendo semelhança maior com sua venerável avó.

E ali, fazendo de tudo para se fazer notar, vemos fedor, que vem do Latim foetere, “feder, ter mau cheiro”, possivelmente relacionada a fumus, “fumo”.

E informo a fedelho lá no fundo, agitando-se tanto, que ela está no grupo errado. Todos pensam que ela deriva de fedor, mas vem é do Latim feticulus, “criança nova”, de fetus, “feto”. Parece que as crianças em Roma não se destacavam muito pela higiene.

fétido, sim, vem de fedor. E fedença e fedentina também, obviamente.

E odor vem direto, sem alterações fora a acentuação, do Latim odor, “cheiro, fragrância”, seja bom ou mau.

Quando algo cheira muito mal, dizemos que é nauseabundo. Esta vem do Latim nausea, do Grego nausia, de naos, “barco, navio”, mais a expressão latina ab unda, “como as ondas”, ou seja, em grande quantidade.

E náusea descreve o enjoo que muitas vezes a gente sente quando está a bordo de um veículo que anda sobre as águas, devido às sacudidas. Ou quando se depara com algo que cheira muito mal, a ponto de dar enjoo.

Isso nos leva a pensar ali em hediondo, que vem de foetibundus, “aquilo que cheira mal”, de foetor, “fedor”, mais o ab unda que acabamos de citar. Um crime hediondo é um crime que causa repulsa, indignação como se cheirasse muito mal.

Falaremos agora de hircino, “relativo ao bode, malcheiroso”, de pouco uso nestes tempos de vocabulário cada vez mais reduzido. Vem do Latim hircus, “bode”, possivelmente tendo relação com hirsutus, “peludo”.

Interessante é notar que os romanos usavam a palavra hirquitallus, também derivada de hircus, para “rapaz na adolescência”. Parece que os jovens também não gostavam muito de ir aos banhos na época.

Posso dizer também que bafio, usado para descrever um cheiro a mofado, a úmido, vem de bafo, talvez do Latim baffa, de origem imitativa.

E que fartum ou fortum derivam de forte, do Latim fortis, “forte, intenso, firme”, qualidade que não é das melhores para um cheiro.

Bodum tem uma relação de significado com hircino: deriva de bode, animal geralmente mal-afamado em termos olfativos. E bode vem do Germânico bock, “macho da cabra”.

Finalmente chegamos a catinga, que se supões ter uma origem meio estranha. Ela viria de caatinga, do Tupi kaa’tinga, de ka’a, “mato”, mais tinga, “claro”.

O trabalho de limpar o mato faria as pessoas suarem e apresentarem cheiro forte, donda a associação. Mas há controvérsias sobre esta origem, que parece um tanto forçada.

E para morrinha, que designa uma doença do gado além de um cheiro desagradável não há origem definida com precisão.

E miasma então? Vem do Grego míasma, “nódoa, mancha”, do verbo miaíno, “manchar, sujar, emporcalhar”. Por muito tempo essa palavra designou uma imaginária exalação de certas matérias que era capaz de gerar doenças de vários tipos.

Falando em exalação, aqui temos eflúvio, do Latim effluens, “aquele que flui”, de effluere, “fluir, deslizar como um líquido”, formado por ex-, “para fora”, mais fluere, “fluir”.

Aparentemente, inhaca vem do Tupi yakwa, “o que tem cheiro”.

Bem, caríssimas palavras-clientes, acho que já atendi a todas em seu natural e saudável desejo de conhecer suas origens.

Agora devo me desculpar por apressar a sua saída porque estão me esperando na capital de nosso país para resolver uma questão etimológica internacional que daria muito que falar se chegasse aos ouvidos da imprensa mundial.

Há um avião no aeroporto neste momento aquecendo as turbinas e esperando unicamente pela minha pessoa. Agradeço a sua presença e me despeço já com saudades.

Resposta:

Gente Chata

 

Eu estava na sétima série. Tinha ido pedir ajuda com alguns problemas de Matemática ao meu avô em seu gabinete, todo macio de madeiras, livros e couro.

O velho de barba branca curta e olhos claros também era macio. Por dentro, que por fora parecia ser cheio de arestas e resmungos. Eu era o único dos seus netos que percebia o que havia por baixo da superfície e isso nos unia fortemente.

– Bem, por hoje parece que é isso. Acho que você finalmente entendeu o Teorema de Pitágoras. Não se esqueça que, quando a gente encontra um triângulo retângulo pela frente num problema, encontrou algo que pode ser domado.

– Pois é, Vô. Quando o senhor me ensina, parece tudo fácil. Mas meus professores são uns chatos e eu aprendo pouco com eles.

– Às vezes a pessoa que ensina não está seguindo sua verdadeira vocação. Na maior parte, porém, os professores enfrentam tamanha luta pela sobrevivência que não estão em condições de desenvolverem todo o seu potencial didático. E muitas outras vezes encontram alunos desinteressados, não é? Seu olhar penetrante me perfurou. Protestei:

– Eu não sou desses, Vô! Sou quieto e presto atenção. Mas é verdade que muitos dos meus colegas são assim como o senhor disse.

– Ah, então estamos chegando à conclusão de que nem sempre os professores é que são chatos. Já é um avanço. Aliás, já que tocamos nessa palavra…

– …Qual a sua origem, Vô? Acomodei-me sobre a banqueta de couro forrada onde eu ficava para ouvi-lo desde que era pequeno.

– Vem do Latim platus, “plano, sem relevo, sem destaques”. Esta palavra resultou em “chato” em Português, para designar uma pessoa que não tem destaques em sua personalidade ou conduta.

Mas isso só aconteceu em Português. Em Espanhol, por exemplo, um dos sentidos de chato é “de nariz curto e arrebitado, chimbé”.

– Esta palavra “chimbé” eu não conhecia! De onde vem?

– É, está em desuso, pelo menos nos meios urbanos. “Chimbé” ou “chimbeva” vem do Tupi timbé, de tim, “focinho, nariz” e mbé, “achatado”.

Seja como for, nos países do Prata se usa o apelido chato (ou ñato, com a mesma origem) para a pessoa com um nariz assim. É apenas uma referência ao apêndice nasal, não quer dizer que a pessoa seja uma mala sem alça.

– O senhor não sofre disso, né, Vô?

– O meu nariz é simplesmente perfeito – fez o seu melhor ar de dignidade ofendida. Só as pessoas desprovidas de senso artístico e de inteligência é que não lhe dão o devido valor estético. Torça para que o seu fique grande assim um dia.

Falando nisso, houve um lugar e uma época em que, quanto mais achatado um nariz, melhor para o seu dono. Na Rússia existiu, por bastante tempo, o Regimento de Infantaria Pavlovski, chefiado de direito pelo Czarévich, isto é, o primeiro filho do Czar, aquele que se esperava que sucedesse ao pai no trono.

Todos os soldados deste regimento tinham os narizes chatos e arrebitados, bem pequenos.

– Por que, Vô? Lutavam melhor assim? Ficavam mais ferozes?

– Não, foi apenas uma questão de vaidade. O que aconteceu foi que o Czar Paulo I, nascido em 1754 e morto em 1801, tinha nascido assim. Logo que puderam, os puxa-sacos da Corte o convenceram de que isso era o cúmulo da perfeição, bem como sinal de elevada inteligência.

Aí o pobre Czar, cujas faculdades mentais não eram das melhores – pelo retrato que vi, ele talvez fosse um caso de sífilis congênita – resolveu providenciar um regimento de guarda feito à sua imagem e semelhança nasal.

Mandou levar todos os homens portadores de nariz curto do império para servir no tal regimento. Eles desfilavam ante o Czar, que os escolhia pessoalmente.

E há mais: como o pobre Paulo achava que espirrar na sua presença lhe trazia azar, ordenou que o regimento inteiro se assoasse cuidadosamente sempre que ia se apresentar à autoridade máxima. Um problema sério é que não lhes eram fornecidos lenços, de modo que o regimento inteiro usava a mão para essa tarefa. Gurf!

O interessante é que o regimento e seus costumes perduraram até o início do século 20, quando os Czares já não tinham narizes curtos.

– Gostei da história, Vô! Mas por que o título dele era Czar? Já ouvi também falar em Tzar. Dá no mesmo?

– Sim. Esta palavra vem do nome de César, que passou a ser adotado como título pelos imperadores romanos a partir de Augusto. O título, em russo, passou a Czar ou Tzar.

– E eu sei de onde foi que veio o nome César! Um amigo do meu pai contou que vem da cirurgia chamada cesariana. Como o futuro imperador nasceu assim, ele recebeu este nome. Que tal? Não estou sabido hoje?

– Lamento dizer, mas não está nada sabido. Só que não é sua culpa. O problema é a etimologia popular, que sempre foi exercida conforme as fantasias dos interessados.

O nome de César vinha de caesaries, que queria dizer Cabeleira. Sei que as estátuas da época o mostram com pouco cabelo, mas provavelmente o nome se referisse a um antepassado seu. E a palavra cesariana vem de caesus, do verbo caedere, “cortar”. Diga isso ao amigo do seu pai; se ele quiser se esclarecer mais, mande-o falar comigo que terei gosto em orientá-lo.

Mas, já que começamos a falar em gente chata, vejamos outros tipos que em geral não nos agradam.

Há pouco falei nos puxa-sacos da Corte. Consta que esta expressão tem origem nas épocas coloniais do Brasil. Quando um oficial era designado para uma cidade e lá chegava com os seus pertences embalados num saco, sempre havia gente disposta a ajudar, de olho na gorjeta que pudesse obter; assim, às vezes havia até briga, com vários puxando o saco ao mesmo tempo.

– Foi assim mesmo?

– É uma possibilidade razoável. Não conheço esta expressão em idiomas aparentados.

Também temos aquelas pessoas que são perniciosas para as outras, seja por serem desagregadoras, demasiado arrogantes, fofoqueiras, invejosas ou coisa parecida. Esta palavra vem do Latim pernicies, “destruição”, de per nex, onde o per quer dizer “total, completamente” e nex vem de necare, “matar”. Um parente desta é nekros, “cadáver”.

– A minha outra avó gosta muito de chamar os outros de nojento. De onde vem isso?

– A palavra nojo vem do Latim inodiare, que vem da expressão in odio habere, “ter em desgosto, ter raiva de”. Seu sentido agora é o de algo repugnante, causador de asco.

Também temos, como um tipo de gente desagradável, os aborrecidos. A palavra vem do Latim abhorrere, “ser incompatível, afastar de si com horror”. É o que dá vontade de fazer com a nossa vizinha, D. Valéria, aquela que, mal enxerga a gente, começa a falar sem parar sobre pessoas e assuntos que nem sabemos o que são.

– E os asquerosos, Vô?

– Esses vêm de asco, aparentado com asca, “mau cheiro”. Há quem discorde, mas muitos apontam como origem o Grego éskhara, “crosta de ferida, casca”. Como muitas feridas podem ter aspecto pouco agradável e cheirar mal, acabou surgindo tal palavra para expressar o sentimento de repulsa gerado pela visão delas. Devo acrescentar que a palavra escara, “crosta de ferida” em nosso idioma, evidentemente vem daí.

Em minha opinião, um tipo dos mais desagradáveis é o arrogante. Esta palavra se formou do Latim arrogare, de ad-, “para” e rogare, aqui com o sentido de “exigir”. A origem descreve bem esta distorção da personalidade em que o portador se acha no direito de exigir do mundo um reconhecimento que ele não merece.

Coitados, andam pelo mundo com o nariz erguido, sentindo-se superiores a todos os outros. Nem sabem que o que os motiva é um sentimento inconsciente da sua pequenez mental.

Mais ou menos a mesma coisa é a pessoa presunçosa. Isto é do Latim prae, “antes” e sumptus, particípio passado de sumere, “tomar, pegar”. Uma pessoa presunçosa é a que “toma para si antes dos outros” o que deseja.

Mas que se vai fazer? As pessoas são diferentes entre si.

– No outro dia o Pai andava resmungando sobre uns políticos traidores. É verdade que o nome deles vem de uma antiga tribo romana de comedores de traíras que atacavam os viajantes ao passarem pela sua região?

Eu percebera que meu avô tinha ficado meio irritado com algum arrogante do seu passado, que agora tinha ressurgido entre os seus pensamentos.

Mas, se o velho sabia lidar comigo, eu também tinha aprendido alguns truques. Ele gostava muito quando eu inventava uma besteira surreal dessas, e com isso consegui o que queria: ele riu e as nuvens passaram.

– Continue assim que você ainda vai ser um cronista de sucesso em algum jornal. Agora, a verdade é que traição e tradição são parentes próximos.

Ambas as palavras vêm do Latim traditio, um derivado de tradere, “entregar, passar adiante”. E este verbo se formava por trans-, “além, adiante”, mais dare, “dar, entregar”.

Tradição atende ao significado de “passar algo a alguém”, como costumes, cerimônias, hábitos, características de um grupo.

Traição também, mas aí existe uma conotação de “entregar algo em prejuízo de outrem”, como quem passa informações que possam ser usadas com más conseqüências.

Também temos as pessoas molestas. São pessoas que incomodam, que se tornam como um espinho no pé dos outros. Este adjetivo vem do Latim molestia, “doença”. A gente, ao lado de uma pessoa destas, se sente como se estivesse doente.

Falando em doença, muitas vezes dizemos que tal pessoa é uma morrinha. Geralmente são pessoas molestas, e o seu nome realmente vem de uma doença. É a morrinha, moléstia epidêmica de animais, do Espanhol morriña, “tristeza do gado”. Não há certeza total sobre a origem mais remota, mas se faz a hipótese de que venha de morrer, pois muitas vezes esta é a conseqüência da doença.

– A Mãe ontem andava incomodada porque o encanador estava embromando…

– Sei como é. A pessoa diz que vai fazer tal coisa em tal dia, depois não deu porque aconteceu tal e tal coisa, mas agora vai, e aí faltou material na praça e no outro dia marcado o carro dele não pegou e ele teve que gastar na oficina, aliás, se ela não adiantar algum dinheiro ele vai ter que pegar outro serviço para poder consertar o carro para poder ir lá…

Uma pessoa que faz isso está deixando a outra insegura como se estivesse no escuro, nas brumas, que parece ter sido a origem desta palavra.

Mas muito bem, meu pitagórico aluno. Já falamos mal de uma porção de tipos de gente. Agora vá terminar de estudar em casa, para eu não correr o risco de virar um chato.

Resposta:

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