Palavra mosca

PIQUENIQUE

 

Boa noite, colegas desta reunião das Moradoras do Condomínio Tudibom! Sinto-me muito contente por ter sido convidada por este grupo tão seleto.

Não tive tempo de ler a convocação que me foi enviada, principalmente porque ela era tão mal redigida que senti uma forte dor de cabeça. Daí que solicito que uma alma caridosa me lembre qual o assunto a ser discutido hoje.

Ah, trata-se de combinar um piquenique para o grupo! Ótima ideia, palavra esta que vem do Grego idea, “aspecto, padrão”, literalmente “forma, aparência”, de idein, “ver”.

E piquenique é do Francês pique-nique, possivelmente derivado de piquer, “pegar, apanhar, golpear”, mas aqui com a conotação de “dar uma mordida, um golpe de dentes”. O segundo elemento da palavra pode ser apenas uma reduplicação para rima ou pode derivar de nique, “coisa pequena, sem importância”.

De certa feita, pela época da proclamação desta nossa república, um filólogo brasileiro resolveu criar uma palavra em nosso idioma para que não usássemos esse estrangeirismo.

Dessa ideia resultou o temo convescote, a partir de convívio mais escote, esta significando “a parte da despesa que cabe a cada um”, do Francês escot, de mesmo significado. Devemos reconhecer que a palavra era estranha e pouco convidativa de se usar, de modo que acabou virando um espécime de dicionário. E ainda por cima, apesar de ser para evitar um galicismo, continha uma palavra francesa.

Mas, enfim, parece-me ótimo um pouco de inocente diversão, palavra esta que veio do Latim divertere,”voltar-se em outra direção”, formado por des-, “ao lado”, mais vertere, “virar-se, voltar-se”. A idéia aqui foi a de “voltar a cabeça” para outro lado que não sejam as preocupações.

Nada melhor do que um tanto de recreação, esta do Latim recreare, que significava “criar novamente”, referindo-se ao alento, às forças, à disposição de uma pessoa.

Distração também justifica um proveitoso afastamento das atividades cotidianas. Sua origem é o Latim distrahere, “separar, puxar em diferentes direções”, formada por dis-, mais trahere, “puxar, arrastar”. Trata-se, pois de afastar um pouco o pensamento para coisas agradáveis.

Portanto, caras amigas, devemos colocar em ação tão agradável e proveitosa atividade.

Já que suas expressões levemente pasmadas me mostram que as noções de Etimologia que estou graciosamente concedendo as estão impressionando sobremaneira, colherei a ocasião para entrar na origem das palavras de características comuns aos piqueniques que certamente teremos ocasião de usar durante nossa jornada.

Uma delas são as formigas, que se apresentarão para amavelmente compartilhar conosco os alimentos que levarmos. O nomezinho delas vem do Latim formica, “formiga”, do Grego myrmex (sei, ficou bastante diferente), do Indo-Europeu morwi-, o nome do inseto.

Não são os únicos animaizinhos que encontraremos caminhando por entre a relva e tentando se meter por baixo das nossas roupas, não. Podemos ver também por lá aranhas, do Latim aranea, que inicialmente designava a teia dela, mas depois se aplicou ao pequeno ser em si. Vem do Grego arakne, possivelmente de uma fonte Indo-Européia arak-, “tecer”. Não é bonito?

Mas, se uma delas se parar em sua frente e erguer as perninhas dianteiras, não pensem que ela está prestando alguma homenagem a vocês, não. Deve-se tratar de uma armadeira, que veio de armado, já que elas fazem isso quando estão preparando um ataque. Elas têm um veneno neurotóxico que é de bom alvitre evitar.

Poderemos encontrar também lagartixas, de lagarto, que veio do Latim lacertus, “lagarto”, possivelmente do Indo-Europeu leq-, “torcer, dobrar”, coisa que elas muito fazem, para inveja de mulheres que há muito tempo não conseguem fletir a cintura, não que haja qualquer uma delas aqui, claro.

Estes pequenos répteis podem até subir pelas pernas de uma pessoa, mas não mordem nem têm veneno algum. Devem receber elogios pelo seu trabalho de insetívoros. No meu apartamento há algumas, com quem eu bato papo às vezes. São ótimas ouvintes.

Mas, falando em veneno, quem pode ostentá-lo num piquenique é a lacraia. Seu nome vem do Árabe al-akrab, “escorpião, lacraia”. Há algumas espécies que têm uma picada extremamente dolorida. Mas não se preocupem, seu veneno não mata seres humanos. Exceto no caso de uma imprevisível reação anafilática, claro.

Elas também atendem pelo nome de escolopendra, do Grego skolios, “oblíquo, tortuoso”. O nome vulgar delas é centopeia. O povo escolheu esse nome para dizer que elas têm cem pés, mas isso varia muito. Podem ter de menos de dez até setecentas e cinquenta perninhas, umas simpatias!

Chegam até os trinta centímetros, mas não se preocupem que em nossa região não passam de quinze ou vinte.

Agora, quem tem veneno mais assustador é o escorpião, do Latim scorpio, do Grego skorpios, de uma fonte Indo-Europeia sker-, “cortar”. Eles gostam de se esconder debaixo das pedras que a gente encontra pelo campo.

Mas também é possível encontrar outras lindas manifestações da natureza no ar. Por exemplo, as abelhas, do Latim apicula, diminutivo de apis, o nome do inseto, de origem anterior indefinida. Uma ferroada delas não mata ninguém, mas algumas centenas podem colocar uma vida em risco.

Outro inseto voador são as vespas, do Latim vespa, do Indo-Europeu wops-, “vespa” mesmo. Mas suas picadas doem mais do que matam, não se preocupem.

Ia-me esquecendo das moscas e mosquitos que geralmente se abatem sobre incautos citadinos que visitam nossa regiões rurais à busca de recreação. Mosca vem do Latim musca, “mosca”, do Indo-Europeu mu-, imitativo do zumbido das suas asas em vôo. E mosquito é um seu diminutivo.

Um tipo de mosca de picada particularmente desagradável é a mutuca, do Tupi mu’tuka. Também se chama de tavão ou tabano, do Latim tabanus, que era como eles chamavam essa praga que enlouquece de dor o gado.

Enfim, uns agradáveis momentos no mato, do Latim matta, “floresta, bosque”, repartindo petiscos e fofocas são sempre bem-vindos.

Claro que sempre há que prestar atenção aos vegetais presentes, como a urtiga, do Latim urtica, derivado do verbo urere, “queimar”. Um nome muito justo, pois elas possuem pequenas agulhas nas folhas que injetam histamina, responsável por uma intensa sensação de coceira e ardência na pele da gente.

Assim, caras companheiras, vou anotar o nome das interessadas em fazer nosso convescote.

Ué, o que foi que houve? Todas se lembraram ao mesmo tempo que precisam voltar para seus apartamentos por que eles podem estar se incendiando, recebendo um tsunami ou terremoto ou coisa parecida?

Mas e nossa diversão? Prezadas senhoras, voltem!

Caramba, dá para ver que não adianta. Quando aparece algo diferente para fazer as pessoas não querem. E depois se queixam de tédio.

 

 

Resposta:

Insetos Na Aula

Cri-an-ças! Mas que gritaria é essa? Logo agora que eu ia falar em Pitágoras, essas meninas ali começam a berrar como se Satanás estivesse no meio delas abanando o rabo e os chifres! O que é que houve?

Hein? Uma abelha entrou voando e pousou no cabelo da Patty, ora vejam! E isso é razão para tamanho escândalo? Olhem, ela se assustou e já está saindo pela janela. A abelha, não a Patty, Ledinha!

O que não quer dizer nada, já que agora todos aqui estão agitados. Então tá, olhem para os desenhinhos que a Tia Odete vai fazer para vocês aqui no quadro e vamos aproveitar para saber de onde vêm alguns nomes de insetos.

Para começar, obviamente, a abelha, cujo nomezinho vem do Latim apicula, diminutivo de apis, abelha.

E o senhor marido da abelha, quem sabe o nome dele? Não, Deli, não é “abelho”, não. Ele se chama zangão. Essa é uma palavra o-no-ma-to-pai-ca, o que quer dizer que ela foi feita para imitar um som. No caso, o zzzzumbido deste inseto durante o vôo formou a sílaba “zang-“, que também é usada para formar o verbo zangar, já que este inseto não costuma ser muito bem-humorado.

As abelhas dão o mel, as borboletas colorem nossas primaveras como se fossem flores que voam. Mas, infelizmente, não há certeza completa sobre a origem do nome delas. Dizem que ele vem do Latim papilio, que era como os romanos a chamavam.

Sim, Valzinha? Ah, mariposa vem do Espanhol mariposa, da expressão Mari, posa! ou seja, “Maria, pousa!”. Esse Mari é um encurtamento de “Maria”. Parece que a origem é uma brincadeira infantil.

Por que você perguntou isso, Val? Não entendi bem, houve uma invasão delas num apartamento vizinho ao seu? Ahn… Sua mãe diz que as filhas da vizinha são umas mariposas, é isso? Ora, decerto alguma vez elas saíram no Carnaval infantil fantasiadas com asinhas e anteninhas e…

Ah, não são mais crianças e saem tarde da noite, de saia bem curta e decote bem grande e salto bem alto e muita pintura – tá bem, isso não quer dizer nada, houve alguma confusão entomológica e vamos falar noutra coisa.

Por exemplo, naquela mosca que está pousada no nariz do Soneca, que não percebe porque está sesteando. Essa palavra vem do Latim musca, “mosca”, do Indo-Europeu mu-, imitativo do zumbido das suas asas em vôo. Certo, Robertinho, esse som se imita fazendo “zzz”. Mas, se você fizer o som de “mmm” também ficará parecido. E depois, talvez o som fosse meio diferente há uns cinco mil anos.

Falando nela, desde já informo que o mosquito teve seu nome originado daí; ele veio do Espanhol mosquito, diminutivo de mosca.

Pare de se coçar, Sidneizinho. Está com pulga? Antes que vocês perguntem, este nome vem do Latim vulgar pulica, do Latim clássico pulex, “pulga”.

Olhem, o Zorzinho parou de escrever para perguntar de onde vem piolho. Vem do Latim pediculus, diminutivo de pedis, “piolho”.

E a laboriosa formiga? Vem do Latim formica, “formiga” mesmo. Muito bem, Robertinho, tem mesmo a ver com “fórmica”, aquele revestimento para móveis.

Você chutou para se fazer de engraçadinho mas acertou. Esta marca registrada foi feita usando-se a primeira sílaba de “formol”, uma substância química usada para a produção desses laminados. E o nome desta substância vem de “fórmico”, o nome de um ácido que este inseto produz.

Esses nomes vêm de um outro idioma, mas o do vaga-lume se formou dentro do Português mesmo.

Consta que inicialmente, em vez de “V”, se escrevia com “C”, já que ele leva a luz (lume) na traseira. Por pudor, o verbo que inicia a palavra teria sido trocado pelo verbo “vagar”, isto é, “andar sem rumo”.

Eu sei perfeitamente que vocês nunca mais vão se esquecer dessa. Qualquer coisa remotamente suja gruda de imediato nessas suas cabecinhas.

Falando em nomes formados dessa maneira, temos também o louva-a-deus. Não se esqueçam dos tracinhos entre as palavras, pois senão estarão usando uma expressão e não o nome dos insetos.

Este bicho se coloca com jeito muito humilde, quietinho, com as patinhas erguidas como em prece e de repente, -zás! – lança as garras contra a presa, que acreditou nele e se aproximou para ver melhor esse exemplo de religiosidade, talvez até para rezar junto.

Já existe quem queira mudar o seu nome para “bicho-político”, mas não sei se vai colar.

Como, Sheila? Ah, traça vem de “traçar”, num significado antigo de “partir em pedaços”. Esses bichinhos são perigosos porque roem roupas e livros.

Se podem ficar muito cultos de tanto roer livros? É difícil, mas não dá para duvidar de mais nada nestas épocas de engenharia genética.

O que foi que você disse, Joãozinho? Ah, cupim. Esse nome vem do Tupi kupi′i, que era o nome dado a esses roedores de madeira.

Nãão, Ledinha, eles não roíam os móveis dos índios porque estes não tinham móveis. Esses bichinhos, quando estão na floresta, roem árvores mesmo. Fazem o serviço na fonte.

Agora me lembrei do besouro, que deriva do Espanhol abejorro, um aumentativo de abeja, “abelha”. E este, por sua vez, veio do Latim apis, tal como em Português.

Vejam, então, crianças, que besouro veio de apis, sendo que atualmente não tem mais semelhança com a palavra original. São coisas da Etimologia!

Sim, Valzinha? Aranha vem do Latim aranea; inicialmente designava a teia dela, mas depois se aplicou ao animalzinho em si. Vem do Grego arakne, possivelmente de uma fonte Indo-Européia arak-, “tecer”. Mas preste atenção: isto não é um inseto. Os insetos são hexápodos, ou seja, têm seis patas, do Grego hexa-, “seis”, mais pous, “pé, pata”.

As aranhas têm oito – podem contar quando encontrarem uma, mas de preferência de longe. Pertencem a um grupo chamado aracnídeos.

Tá bom, eu sei que eles parecem insetos, mas essas duas patas fazem a diferença e… Como, Val? Se as aranhas brigam muito? Não diria isso, por que você pergunta? Ah, agora são as suas vizinhas de outro apartamento que o pessoal diz que…

Oh, olhem lá fora depressa, crianças, acaba de passar uma linda libélula, apressada para pegar sua comidinha. O nome dela vem do Latim libella, diminutivo de libra, “balança”, pois ela parece se balançar no ar durante o vôo. Existe em nosso idioma o verbo librar, que significa “sustentar-se no ar, colocar em equilíbrio”.

Esse bicho tão acrobático tem uma fase larvar subaquática, quando é completamente diferente e se chama náiade. Este nome vem do Grego náias, um ninfa que vivia nas correntes cristalinas da antigüidade, quando em qualquer passeio na floresta a gente podia encontrar uma divindade.

A sua pergunta sobre as aranhas, Valzinha? Ora, ora, acaba de soar o sinal; a aulinha terminou e eu ganho muito pouco para ensinar em aula, que dirá depois. Fica para outra vez!

Resposta:

Múltiplas Personalidades!

 

X-8 está nervoso. No dia anterior não tinha tido nenhuma palavra cliente. Hoje o seu horário de trabalho está por terminar (já passa das nove da noite; ele fecha a sua porta rigorosamente às dez, se não estiver atendendo a freguesia) e nada ainda.

Palavras ingratas, que deixam de consultar depois de todos os sacrifícios que faz por elas! Está certo, os seus preços são bastante altos para o trabalho que ele tem, mas o que conta é a importância do seu trabalho para elas.

Se fosse barato, que valor elas iriam dar para o conhecimento das suas origens? Elas apenas teriam um papel com umas explicações que prontamente iriam esquecer numa gaveta.

Mas o que ele produz é cercado pelo mistério de um escritório de detetive com uma decoração que é legítima imitação das histórias dos anos 50, com sujeira, teias de aranha, com um intrigante detetive de capa e chapéu que afirma correr enormes riscos. É um documento altamente qualificado.

E é assinado por um profissional que fez a Faculdade de Etimologia, o Curso Ataliba por Correspondência para Detetives Particulares e ainda se pós-graduou na Academia de Detetives Etimológicos. Foi o primeiro colocado na sua turma.

Verdade é que ele era o único, mas e daí? O diploma está lá na parede para comprovar, e não diz quantos alunos havia.

Ele se sente acabrunhado pelo descaso das palavras. Por que não estão comparecendo como antes? Como é que ele vai manter o seu saldo ascendente no banco desse jeito? Com os chocolates finos cada vez mais caros, os livros importados então nem se fala, aquele carro estrangeiro que ele andava namorando…

Comprar à vista, como? E submeter-se aos juros escorchantes desses ladrões que não têm dó do dinheiro alheio, que tudo o que querem é sugar o sangue dos pobres clientes, é uma indignidade.

Ele pensa que, desse jeito, em menos de vinte anos vai ter que colocar uma banquinha na calçada e ficar apregoando:

“Olha a etimologia boa e barata! Saiba as suas origens na horinha! Aqui, minha senhora, aqui, meu senhor! Sai uma prô cavalheiro ali, outra para a menina aqui! Vamos lá, pessoal! É bom, é importante, é baratinho! Por umas moedas você descobre seus antepassados! Aí, gente! Concorra ao sorteio de uma camiseta no fim do ano! A cada dez encomendas você recebe um étimo grátis!”

Sente seus olhos se marejarem. Uma carreira brilhante indo pelo ralo, sem ao menos uma explicação plausível. Não dá para entend…

Pára, seus sentidos aguçados como um gato à caça, pois julgou ouvir passos pelo corredor vindo para a sua sala.

Ele gosta de pensar que ouviu passos porque é mais romântico. Na verdade, o que se ouve é o ruído do lixo a ser espalhado pelos pés de quem caminha: copos descartáveis, garrafas plásticas vazias, cacos de louça, caixas velhas e coisas que é melhor não mencionar.

Imediatamente sua coluna se ergue, ele fica teso, quieto e misterioso atrás da escrivaninha enorme.

Batem à porta; ele manda entrar. Passam pela soleira três palavras: Pera, Mosca e Vela.

– O senhor é que é o famoso, competente e audaz detetive que ajuda as palavras em necessidade? – diz Vela.

A figura dentro da capa de gabardine cor de palha parece inchar. Por entre a gola levantada e a aba do chapéu sai sua voz:

– Em carne, osso e principalmente cérebro, para servir as distintas clientes. Por favor, sentem aí no banco e abram os corações.

– Nós somos conhecidas de umas clientes suas que estiveram consultando não faz muito, Sessão, Cessão, Seção

– Eu me lembro do caso. Fiz um atendimento conjunto de urgência, pois elas estavam muito deprimidas e em risco grave e iminente.

– Pois é – disse Pera – elas nos contaram que o conheceram quando o senhor estava falando com o dono do barzinho ali em frente.

Aliás, pelo que elas viram, parecia que o senhor o estava apertando, dando-lhe um duro. Ficaram achando que decerto ele andava fazendo alguma coisa ilegal e que o senhor, mesmo correndo risco de vida numa espelunca daquelas, foi dizer para ele voltar à linha para não ter que enfrentar os seus punhos ou coisa parecida.

Dava para perceber que aquela palavra gostava de traçar uma reta a partir de um único ponto. X-8, que sabia muito bem que Garcia, o sujeito do bar, tinha sido o seu fornecedor quando ele estava nas garras do vício, mudou logo de assunto.

– Sou uma pessoa muito reservada e modesta. Prefiro que não falem sobre meus feitos heróicos na minha frente. Quem sabe passamos ao motivo da simpática vinda de vocês?

– Bem, doutor X-8 – falou Mosca – nós não temos problemas de homofonia como aquelas nossas amigas (elas nos explicaram tudinho o que o senhor falou). Mas nos atrapalhamos ao ter que atender usuários que nos destinam a significados muito diferentes.

Não é tanto que isso nos incomode, só queríamos saber o por quê. Até trouxemos dinheiro para pagar, já que sabemos que o senhor é capaz de atender na hora a qualquer dúvida.

E agora? No atendimento a que elas se referiam, X-8 tinha tido preciosos minutos para pesquisar rapidamente a etimologia das palavras que ele já sabia que iriam até ali consultar. Mas nem ele sabia a resposta assim de cor para uma dúvida como a que estava à sua frente. Quem mandou fazer aquela onda toda?

Mas ninguém pense que ele se deixaria atrapalhar por um probleminha desta ordem, não. Com a maior seriedade, ele colocou a mão direita na testa, ou melhor, na copa do chapéu, a esquerda num bolso, pensou um pouco e olhou para Mosca.

– Muito bem. Vamos começar por você. O seu caso é o seguinte; uma raíz Pré-Indo-Européia…

Foi quando se ouviu o som de “Tico-Tico no Fubá” saindo de dentro da sua capa.

– Desculpem. Só um momento.

Ele puxou um celular do bolso e começou a responder:

– X-8. Sim.. Não… Quem?… Como?… Onde?… Quando?… Quantas mortes?… Nenhum sobrevivente… Muito sangue… Sei… Certo, não se pode espalhar o pânico.

Isolem a área e não mexam em nada até eu chegar. Comecem a interrogar a vizinhança discretamente, sem que ela perceba. Tirem-nos da cama se for preciso, mas sem chamar a atenção. Não demoro.

Guardou o celular com o ar mais preocupado possível para quem tem o rosto oculto. Olhou para as suas clientes:

– Aconteceu uma coisa muito séria. Não posso dizer quem foi que ligou, nem dar idéia do que foi que houve. Apenas digo que há muitas vidas em risco se não agirmos logo. Daí se vê que não vou poder atendê-las agora; sou chamado para algo urgente e inadiável e simplesmente não posso desobedecer, devido a certas funções secretas que exerço. Vamos fazer o seguinte: voltem amanhã às vinte horas e dezessete minutos. Até lá já deverei ter resolvido o caso e poderemos falar com mais tranqüilidade. Sinto muito, mas uma pessoa comprometida com a luta contra o crime nunca é de todo livre, vocês entendem. Podemos descer juntos.

As palavras estavam de olhos arregalados, fascinadas por estarem participando de uma situação daquelas. Disseram que compreendiam muito bem a conjuntura e que não queriam atrapalhar.

Desceram os quatro pelas escadas escuras e sujas. Chegados à calçada, o detetive perguntou:

– Para que lado vocês vão?

– Para lá, disse Pera, apontando para a direita.

– Pena. O veículo do Serviço Secr… – pareceu atrapalhar-se – uma carona está me esperando para o outro lado. Até amanhã – parou de repente, como se só então se tivesse lembrado de algo – devo dizer que, se vocês ouviram alguma coisa do que eu falei ao telefone, devem esquecer. O assunto está sob a jurisdição da Lei dos Segredos Secretos, que não pode ser rompida. Não se esqueçam disso.

As palavras, impressionadíssimas, seguiram o seu caminho em silêncio. Só começaram a comentar aquela situação emocionante dali a duas quadras.

O detetive se afastou, passos de veludo, para o outro lado. Parou na esquina seguinte. Encostou-se a um poste e olhou para trás. Quando as palavras sumiram de vista, ele voltou rapidamente para o seu edifício, subiu depressa as escadas e entrou no escritório.

Chegado lá, congratulou-se mentalmente por ter comprado aquele celular de brinquedo que tocava ao apertar de um botão.

Igualzinho a um de verdade e bem barato nos camelôs. Um profissional que enfrenta tantos perigos deve sempre contar com todos os recursos para se safar.

Foi até à estante e começou a retirar livros. Espalhou-os sobre a escrivaninha, pegou seu papel de luxo e sua caneta-tinteiro e começou a rabiscar.

Algum tempo depois, ele organizou os seus achados e os estudou com muita atenção. Dando-se por satisfeito, foi dormir e teve sonhos muito bons.

Na noite seguinte, ele ouviu passos e cochichos no corredor, que cessaram até serem pontualmente as oito e dezessete. As palavras então bateram à porta e foram convidadas a entrar.

Encontraram o detetive à espera e se sentaram à sua frente, ansiosas.

Ele começou a falar como se não tivessem sido interrompidos na noite anterior de forma tão espetacular:

– Como eu ia dizendo, Dona Mosca, uma raiz Indo-Européia mu-, provavelmente derivada do zumbido desse inseto, acabou dando musca em Latim. Esta palavra virou mosca em Português e Espanhol e, muito industriosa, se prestou para diversas acepções.

Por exemplo, devido ao tamanho, forma e cor do inseto, passou a querer dizer “sinal, pequena mancha na pele”. Pelo mesmo motivo é o nome dado a um pequeno tufo de barba usado logo abaixo do lábio inferior.

Relacionado com esse aspecto, temos a palavra moscado, sinônimo de mosqueado, “cheio de pintinhas pretas”, como se se tratasse de um objeto recoberto por esses insetos.

Também se chama assim o centro de um alvo, por ser pequeno.

Falando em tamanho, há certos tipos de mosca que, por serem maiores que as outras, levam o nome de moscardo. Também na rubrica “tamanho”, peso-mosca é uma categoria de pugilista em torno dos 50 quilos de peso.

Em Medicina existe um sintoma chamado muscae volitantes, “moscas esvoaçantes”, que consiste em enxergar manchas ou cintilações e faz pensar em oxigenação cerebral deficiente.

Sendo esse um inseto cosmopolita e muito ativo, ele gerou diversos ditados e expressões. Um deles é o latino Aquila non captat muscas, “A águia não pega moscas”, que quer dizer que uma pessoa num cargo muito elevado não pode se preocupar com o que é insignificante.

Outro é Comer moscas, que descreve uma pessoa tão atarantada ou incapacitada que é capaz de ficar de boca aberta, sem perceber que os insetos estão entrando por ali.

Há umas palavras parecidas, mas que não têm a mesma origem. É o caso da noz-moscada. Esta última parte da palavra vem do Grego moskhos, “espécime jovem da espécie humana, mas principalmente da bovina”.

Essas duas letras -kh- tentam dar a idéia do som da letra chi em Grego, um som que não existe em nosso idioma, e que é como o do -ch– alemão. Por falta de representação adequada em Latim, acabou soando mesmo como -k-.

Em Latim a palavra passou para muschus, de onde derivou para uso no caso de um animal específico, o almiscareiro, moscado ou mosco. Como este animal tem uma glândula que produz uma substância, o almíscar, usada em perfumaria como fixador, palavras parecidas começaram a designar coisas que produzem odores marcantes.

Daí o nome da uva e do vinho moscatel: é um diminutivo da palavra moscato, “moscado”, com o sentido de “perfumado”.

As palavras estavam mudas, ouvindo aquele derramar de sabedoria. O detetive se voltou para outra:

Quanto à senhora, dona Pera, sua origem está no Latim pirum. A senhora tem outros significados devido ao seu formato.

A palavra, incomodada, pensou mais uma vez que deveria fazer a lipoaspiração que se estava prometendo há tempos. Mas não deixou transparecer nada.

O seu nome é usado para designar certos interruptores elétricos por causa disso. Pelo mesmo motivo são chamados assim os dispositivos de borracha com válvula que a gente usa para transferir ar ou líquidos em aparelhos, como aquele que os doutores usam para medir a pressão arterial.

Curiosamente, seu nome também é usado para uma pequena porção de barba mantida na extremidade do queixo. Logo, a senhora e Mosca têm uma relação casual com os barbeiros.

Agora era a vez de Vela.

– A senhora vem do Latim vellum, “tecido, pele, véu”. Como as velas dos barcos da antigüidade eram de tecido, a palavra passou a designar o equipamento que se pendurava das vergas para captar o vento que movia as naves.

A palavra vela podia nomear também os próprios barcos. Dizem que a beleza de Helena de Tróia “moveu mil velas”, já que essa seria a quantidade de barcos gregos que partiu para a guerra.

A expressão Desfraldar velas significa “partir”. Dar velas à imaginação é uma bela expressão para dizer que alguém se deixa levar pela criatividade.

Esse sentido de “véu, cobertura, pano” foi usado no verbo velar, que quer dizer “cobrir, tapar, disfarçar como com um véu”.

vela como “cilindro de cera com pavio, usado para iluminar” deriva do verbo velar com outro sentido, um sentido relacionado com o verbo latino vigilare, “vigiar”.

Este verbo vem do Indo-Europeu weg-, “estar atento, ser forte, vivaz” e do Sânscrito vaja-, “velocidade, força”.

Daí o verbo velar usado para “cuidar, ficar acordado, vigiar”. E daí velório, quando as pessoas vigiam por algum tempo o corpo daquele que partiu.

A vela como fonte de luz originou, por semelhança de forma e, principalmente, de função, o nome da vela dos motores à explosão, já que ela emite uma faísca quando em atividade.

A forma e a cor, mas não a função, foram lembradas para designar a vela do filtro, aquele cilindro de substância porosa que é usado para retirar impurezas da água.

Velar um filme significa expô-lo a uma luz forte e queimar as imagens registradas. Se for de perto, até a luz de uma vela serve. Existe até a frase “Fulano velou o meu filme”, querendo dizer que ele trouxe algum tipo de prejuízo, geralmente de reputação, ao que fala. Com a invasão das câmeras digitais, é possível que esta frase desapareça em algum tempo. Talvez vire “Fulano estragou o meu cartão de memória” ou coisa parecida.

X-8 parou de falar e se levantou. As palavras perceberam que a sessão cultural estava terminada. Levantaram-se para sair, naturalmente depois de pagarem os honorários detetivescos. Antes de chegarem à porta, Mosca se virou para trás e perguntou, timidamente:

– Ãããh…o assunto de ontem correu bem, espero? Não vimos nada no jornal nem na TV…

O detetive pareceu hesitar antes de responder:

– Nem verão. Não adianta procurar. Mas os responsáveis já pagaram pelo que fizeram.

Pêra disse, com um tremor na voz:

– Estão na cadeia?

X-8 disse, sua voz máscula demonstrando, nas entrelinhas, que era melhor elas não tentarem saber nada:

– Eu disse que eles pagaram por isso, não que foram presos. E agora, por favor, lembrem-se de esquecer o que aconteceu. Adeus.

As três palavras saíram, completamente arrepiadas.

Antes de deitar naquela noite, X-8 pensou que estava por nascer a palavra que fosse mais forte do que a sua criatividade.

Resposta:

Acampamentos

Eu tinha quatorze anos e estava assanhadíssimo. Queria dar logo a notícia ao meu avô.

Cheguei ao seu gabinete, entrei e o vi sentado à sua poltrona de couro, fazendo consertos com agulha e linha forte num guardachuva.

– Vô, posso entrar?

– Se não for para incomodar… sua expressão desmentia a resposta mal-encarada – Você parece agitado, seus olhos estão que nem um par de faróis. Que é que há?

– É que vou acampar com uns colegas agora nas férias do meio do ano! Estou louco para ir!

– Ora, ora. Então o meu pequeno citadino vai ficar telúrico e andar pelos matos, hein?

– É. Quase todo o mundo que eu conheço já foi e eu nunca tive ocasião. O senhor sabe que os meus pais não são chegados, daí que nunca fui antes.

– Muito bem. Há quem goste e quem não goste; as pessoas nunca vão chegar a um acordo quanto a isso. Eu, particularmente, sou da mesma opinião de um escritor que eu admiro muito e que disse que não ia acampar porque era injusto a humanidade ter levado milênios para deixar de fazer as necessidades no mato e agora voltar a fazer isso.

Mas há quem não se incomode, e na sua idade é uma experiência que a gente precisa ter mesmo.

Sente-se aqui e vamos ver se você aprende alguma coisa para contar aos outros enquanto estão reunidos ao redor da fogueira, à noite, sendo comidos pelos mosquitos.

Acomodei-me na banqueta.

– Naturalmente vocês vão dormir numa barraca. Espero que tenham uma e que saibam montá-la.

– Sim, o pai de um dos meus amigos vai junto e é um grande acampador.

– Agora fico mais tranqüiilo. Deixe-me dizer que o nome do abrigo temporário que vocês vão usar vem de barro, pois as primeiras construções deste tipo eram feitas com barro e galhos. A palavra barro, por sua vez, vem de uma palavra Ibérica barr-, “lodo, lama”. Outra derivada daí que nós temos é a palavra barranco.

– Como foi aquela vez que o senhor escorregou e caiu sentado no barro com um prato de comida emborcado em cima, Vô?

– Isso tudo são intrigas da sua avó e do seu pai quando era pequeno. Uma pessoa com o meu absoluto controle físico não pode, por definição, passar por uma situação ridícula dessas. É pura inveja da parte deles – fez sua melhor cara de dignidade ofendida.

Mas não me atrapalhe com essas besteiras. Deixe-me lembrar que você tem que levar algo que lhe sirva de colchão. Esta palavra é um aumentativo de colcha – outra coisa que você não pode esquecer de levar. E colcha vem de do Francês Antigo colche, do verbo colchier, que por sua vez veio do Latim collocare, “colocar”.

– O que é que se colocava? A pessoa na colcha ou a colcha na pessoa?

– Escolha você, gracioso. Sei é que agora a pessoa se coloca no colchão e coloca a colcha por cima.

Você pode usar também um cobertor para evitar o frio. Essa palavra também vem de Roma, do verbo cooperire, que queria dizer “tapar, cobrir”.

E, para folgar durante o dia, se puder, leve uma rede. Esta é mais uma palavra que vem do Latim, onde era rete.

– O pessoal em Roma colocava suas redes entre as colunas dos templos para descansar, Vô?

– Você está impossível hoje. Tamanho assanhamento está perturbando essa sua cabeça ventosa.

Naquela época ainda não se tinha inventado a rede de dormir, mas havia vários outros tipos. Uma delas era um enfeite para conter os cabelos das damas. Outra era a que os pescadores usavam para retirar os peixes da água. Ainda outra era a que os reciários usavam nas suas lutas contra os gladiadores.

– Oba, luta!

– Claro, “oba, luta!”, mas na hora de fazer algo criativo ou trabalhoso, não querem saber.

– Os mais velhos da sua geração também resmungavam contra os jovens, Vô?

– Também. Mas, no caso, eles não tinham razão e vamos mudar de assunto. Os reciários (em Latim, retiarii) eram aqueles sujeitos que usavam uma rede, um tridente, um capacete e uma proteção no braço esquerdo.

– E qual dos dois o senhor queria ser, Vô?

– Nenhum. Preferiria estar longe dos circos, procurando as ninfas pelos campos. Onde, aliás, qualquer pessoa tem que se precaver contra moscas e mosquitos. Ambas essas palavras derivam do Latim musca, “mosca”. Mosquito é um diminutivo de mosca formado no Espanhol. A notícia mais remota dessa palavra é que talvez tenha vindo do Indo-Europeu mu-, um som imitativo do zumbir dos insetos.

– Uma vez o Pai estava faceiro, dizendo que “tinha acertado na mosca”. Fiquei achando que ele tinha muito boa pontaria, ainda mais que elas não costumam ficar paradas. Ou será que ele usou uma lata de inseticida?

– “Acertar na mosca” é uma expressão que significa “atingir o alvo bem no centro”. Como o centro exato dele é um círculo pequeno, ele foi comparado a uma mosca. Claro que há um certo exagero nisso. Os ingleses o chamam de bull’s eye, “o olho do touro”, pela forma e tamanho, o que descreve melhor a verdade.

– Eu me lembro direitinho daquela constelação da Mosca, Vô.

– Isso, a que eu lhe mostrei daquela vez na praia. É um conjunto de quatro estrelas pequenas bem aos pés do Cruzeiro do Sul. Talvez você possa mostrá-la aos seus amigos no acampamento. Não se esqueça de que, nesta época do meio do ano, o Cruzeiro está quase deitado com o pé para a esquerda, no começo da noite.

E falando em insetos, cuidem-se para não montar a barraca sobre um formigueiro, que as donas não aceitam desculpas depois. Formiga vem do Latim formica, que se relaciona com o Grego myrmex.

– E as formigas fabricam Fórmica?

– Mais uma dessas e eu vou pedir ao pai dos seus amigos que não o traga de volta. Essa marca de material de revestimento vem da empresa que começou a fabricá-lo, uma tal Formica Insulation. E parece que o nome foi escolhido porque o formol ou o ácido fórmico entravam na composição do material.

Uma vez eu ganhei um concurso que desafiava alguém a dizer qual a palavra que se usaria para “genocídio de formigas”, isto é, uma matança generalizada da espécie. Eu falei em mirmicídio, que está certíssimo, e até hoje o malandro não me pagou o prêmio.

– E qual era ele?

– Bem, é verdade que era uma viagem para um lugar aonde eu não iria nem pintado de ouro, só que ele nem fez menção de pagar… Mas vamos ver outra coisa que pode incomodar se os senhores acampadores não estiverem bem preparados: fome. Esta palavra tão curta vem do Latim famis. Deve ser evitado o seu surgimento através de um bom planejamento do que se vai levar para comer.

– Daí foi que a Mãe falou uma vez numa famigerada ex-namorada do Pai? Ela sentia muita fome?

– Chiii… Esses são terrenos perigosos, mesmo que o seu pai nunca mais tenha visto aquela moça. Não, famigerada vem de fama, “reputação, fama” e de gerere, aqui com o sentido de “levar”. A rigor, a palavra designa quem tem uma reputação, mas o sentido em nossa língua se fixou na má reputação.

Lembrem-se de ter também à mão um bom suprimento de água limpa e fresca, para evitarem a sede, palavra que vem de sitim. Esta deu duas palavras com o mesmo significado: sedento e sequioso. Esta última é de uso mais culto.

E não se esqueça de levar os seus talheres, para não ter que matar a fome de maneira muito selvagem. A palavra talheres parece vir do Italiano tagliare, “cortar”, pois são os instrumentos que se usa para cortar
a comida em pedaços que caibam na boca do vivente.

Entre eles encontramos a faca, cuja etimologia não está bem definida. Uma das várias hipóteses é que venha do Latim falx, “foice”.

Colher vem do Latim cochlearis, que vem de cochlea, “caramujo”, pela semelhança de um fragmento de casca deste bicho com a colher. E garfo vem do Árabe garf, “punhado, mancheia”.

A comida vocês vão preparar nas panelas, cujo nome vem do Latim panella, diminutivo de panna, “frigideira”. Vai ser servida nos pratos, do Latim platus, do Grego platys, “amplo, chato”. Acabo de me lembrar que o nome científico do ornitorrinco é Platypous, “pé chato”, de platys mais pous, “pé”.

E não deixem de cuidar do fogo, cujo nome vem de focus, que antigamente designava, nos lares romanos, a lareira ou lugar onde ele era feito. Esta palavra acabou desbancando a que era usada especificamente para fogo, ignis, que acabou ficando com uso restriro a palavras cultas ou técnicas, como ignífugo e outras.

Mas acho que basta por hoje; sua cabecinha quer é se assentar em outros acampamentos que não este. Espere um pouco.

Levantou-se e abriu uma das portas de um armário alto e escuro. Subiu um banquinho e tirou de lá um pacote grande. Deu uma olhada rápida dentro dele e o passou para mim:

– Tome. Acho que isto vai ser útil.

Puxei o conteúdo: uma mochila grande, de lona, com todo o jeito de material militar! Clássica, charmosíssima, desbotada (melhor ainda) mas em excelente estado! Quase caí sentado.

– O-o senhor vai me emprestar sua mochila, Vô?

– Não, seu tolo. Vou dar. Acampar é uma das coisas que eu não vou fazer mais mesmo, e eu estava guardando esta para quando você entrasse nessa fase.

– Mas, Vô! Puxa! O senhor usou esta aqui na Primeira Grande Guerra, com máscara de gás no rosto, capote e um fuzil Lee-Enfield daqueles, com baioneta e tudo?

– Não cheguei a isso, mas se eu tivesse uma baioneta aqui eu sei qual língua eu iria cortar com ela, seu desaforado!

Coloquei-a nas costas. O velho me ensinou a prendê-la. Olhei para ele e tive vontade de fazer uma coisa.

Fiz, e não me arrependi nunca: pulei e lhe dei um abraço longo e forte, que ele retribuiu com um calor que eu sentiria ainda no acampamento.

Saí pulando pelo corredor e o peso da mochila parecia me deixar ainda mais leve.

Resposta:

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