Palavra odisséia

Origens de nomes de livros

Palavras: Ilíada , odisséia

Boa tarde, gostaria de saber a origem dos nomes dos seguintes livros: “Eneida” do autor Virgilio e “Ilíada” de Homero, entendo que não saiba mas fiquei curioso e estou a estudar essas obras.
Obrigado!

Resposta:

… mas sabemos.

1) De Eneu, do Latim AENNEUS, o nome de um herói troiano que se afastou de sua pátria destruída e se dirigiu à Itália. A origem de seu nome é discutida.

2) De ILION, o nome grego de Troia, derivado de seu fundador mítico, ILUS.

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Na nossa terceira edição falamos da freqüência com que se usam os derivados de nomes das divindades greco-romanas em nosso idioma. Pois ainda há mais, e hoje vamos entrar novamente no assunto.

TITÂNICO – todos conhecem esta palavra, que hoje significa “gigantesco, enorme”. Os Titãs, Titanes em Grego, eram os seis filhos de Úrano e Géia, ou seja, o Céu e a Terra.

Eles receberam os nomes de Oceano, Ceos, Crio, Jápeto, Hiperíon e Crono, pelo lado masculino. Tiveram seis irmãs, Tétis, Febe, Réia, Mnemósine, Têmis e Téia, as Titânidas. Os deuses do Olimpo viriam a ser gerados por um dos Titãs, Crono.

Crono mutilou o seu pai, Úrano, e assumiu o comando do universo, juntamente com os seus irmãos. Devido à sua crueldade, no entanto, e após uma enorme confusão, Zeus, o filho mais novo de Crono, começou uma luta contra papai e titios ajudado pelos seus irmãos.

As tias não se meteram no assunto, decerto achando que isso era coisa de homens desocupados e cheios de hormônios. A luta foi longa e árdua, mas a turma da segunda geração divina venceu os Titãs e os lançou no Tártaro, abaixo da terra, onde eles ficaram.

Prevendo uma pergunta que vai surgir: sim, o nome do Titanic, o navio cujo naufrágio anda tão em moda há alguns anos, se origina daí: significava Titânico, “semelhante aos Titãs por seu tamanho ou força”.

SÁTIROS – também chamados Silenos, eram divindades da Natureza. No começo era um só, que depois foi transformado em vários à medida que eram feitos acréscimos ao mito. Andavam sempre em volta de Dioniso, festeando todo o tempo. Eram em geral representados como metade homem, metade bode (esta, a de baixo). Eram extremamente ligados ao sexo; daí às vezes algumas esposas se queixarem de que os maridos “são uns sátiros”, para inveja das amigas.

E a palavra Satírico? – “Ah, mas esta eu sei!”, dirão muitos. “Vem justamente dos Sátiros, essa turma aí de cima que andava tocando flauta atrás das ninfas e fazendo versinhos engraçados e indecentes”.

Pois não vem daí, não, por incrível que pareça. Vem de sátira, que era originalmente uma “mistura” poética. A expressão original que foi aplicada ao trabalho escrito era satyra lanx, um “prato completo”, certamente da noção de diversos alimentos juntos. Este satyra vem de sat, “bastante, suficiente”, que originou também “satisfazer” e “saturar”. Com o tempo, este gênero acabou passando a ser um texto visando a ridicularizar uma pessoa.

Vejam só como, em Etimologia, nem tudo o que parece é.

PRÍAPO – já que estamos falando nessa turma que se divertia tão livremente, tão sem superego… Este era uma divindade originária da Ásia. Era o protetor dos jardins, dos pomares e das parreiras. Por esta razão era freqüente colocar-se uma estátua dele à entrada das plantações.

Andava sempre em ereção. Como era de se esperar, meteu-se numa série de situações inconvenientes por causa disso.

Há uma doença, o priapismo, que é um estado de ereção continuada. E os engraçadinhos ou preguiçosos de plantão que não queiram sofrer disso, pois essa situação é dolorosa e não permite aproveitar nada.

FAUNO – situa-se na linha dos dois últimos deuses citados. Ele era protetor da fecundidade das mulheres, da terra e dos rebanhos. Era também uma divindade com dons proféticos, pois podia revelar o futuro através do farfalhar do vento nas folhas das árvores. Bastava saber ouvir.

Com o tempo, a religião também tornou múltipla esta divindade, atribuindo-lhe o papel de espíritos das florestas, identificados com os Sátiros na libidinagem .

Era uma época mais básica, aquela.

MUSA – é comum se ver, na imprensa, uma moça bonita e com pouca roupa citada como “a musa disso ou daquilo”.

Mas o que diabo é essa palavra com som estranho? Vem de mousa, em Grego. Elas eram nove divindades e nasceram por encomenda. Sim, foi porque os outros deuses pediram a Zeus que ele providenciasse alguém para cantar os feitos de todos na luta contra os Titãs.

Ele, muito bonzinho na hora de unir útil com agradável, as gerou com Mnemósine, a personificação da Memória.

Essa turma que fez a Mitologia da época era genial! Não admira que Freud tenha ido buscar ali as imagens que usou.

Portanto, as Musas eram as cantoras divinas que alegravam os imortais. Presidiam o pensamento sob diversas formas.

Já que se dedicavam à Poesia, à História, Astronomia, Matemática e outras matérias que exigem muito estudo, elas provavelmente não tinham tempo para malhar na academia, cuidar do bronzeado com ultravioleta, usar diversos shampoos nos cabelos longos, escolher túnicas de alta costura, etc. Ou seja, fica claro que elas não eram deusas da beleza feminina. Nada as impedia de serem bonitas, mas não é essa a idéia do seu mito.

Portanto, marmanjos, parem de babar automaticamente quando virem a palavra musa em alguma revista, que ela não vem sendo bem usada.

NARCISISMO – já que citamos Freud logo acima… Narciso, Nárkissos em Grego, era filho de um deus-rio e de uma ninfa. Ele era inacreditavelmente belo, a ponto de sua mãe se preocupar com os riscos decorrentes dessa formosura.

Por isso, ela foi consultar um adivinho sobre o futuro do menino. A resposta foi de que o jovem “poderia viver muito, se não se visse”. Mamãe acabou com todos os espelhos de casa e a vida seguiu.

Naturalmente que acabou surgindo um enorme bando de moças interessadas nele. Entre elas se destacava uma ninfa que o seguia aonde ele fosse. Mas ele não se interessava. Repelida com frieza por ele, a coitada parou de comer, definhou e acabou se transformando numa rocha, seca e sem vida.

As demais ninfas, movidas pelo espírito corporativo, solicitaram vingança a Nêmesis, a reparadora das injustiças. Esta, comovida com o sofrimento da ninfa, condenou o rapaz a “amar um amor impossível”. E o que ela resolvia se cumpria!

Pouco depois disso, ele foi beber numa fonte e viu, no espelho das águas, a imagem de uma pessoa tão bela que ele se apaixonou instantânea e irremediavelmente. Não saiu mais dali, olhando e fazendo apelos não respondidos. Acabou morrendo de amor insatisfeito.

Os deuses, que adoravam uma boa novela à mexicana, transformaram o seu corpo numa bela flor, o narciso.

Daí é que a palavra narcisismo, indicando um apreço exagerado pela própria pessoa, foi cunhada.

Todos nós conhecemos alguém que corre perigo ao se ver num espelho, mesmo que metafórico.

ECO – ah, não. Até aqui se manifesta a Mitologia antiga? Ah, sim, até aqui, na palavra que descreve um fenômeno tão banal.

Eco, em Grego Ekhó, era uma ninfa que um dia teve o azar de ver o rapaz mais belo do mundo e de se apaixonar loucamente por ele.

Ele era, isso mesmo, o Narciso de quem falamos no item anterior. Como dissemos, a ninfa acabou se transformando num rochedo, ressequida de amor não-correspondido. A única coisa que ela podia fazer era repetir o final das palavras que eram lançadas em sua direção.

Essa era a explicação dos antigos para o fenômeno da reflexão das ondas sonoras. E tem muito mais graça do que as leis da Física atuais.

NINFAS – tanto falamos nelas que é melhor explicar alguma coisa sobre esta palavra que evoca bosques, propósitos inconfessáveis, gritinhos e correrias em tardes de verão.

Na Mitologia grega, Nymphe eram divindades menores. Como tal, elas não habitavam o Olimpo, mas se espalhavam por florestas, cursos dágua, mares, vales, montanhas, árvores. Ligadas à terra e à água, eram símbolos da força criadora da natureza.

Elas não eram imortais, mas podiam viver dez mil anos. Não envelheciam, de modo que passavam longe do silicone e do botox.

Elas tinham o dom de profetizar, de nutrir e de curar. Mas podiam também ser maléficas, chegando a raptar mortais.

Especialmente perigoso para as pessoas é se aproximar de fontes e bosques ou de determinadas árvores ao meio-dia, quando elas estão com seus poderes no auge. Enxergar uma ninfa pode levar a um entusiasmo ninfoléptico que abale para sempre a razão do infeliz. Abra o olho! Depois não diga que não avisamos!

SATURNISMO – esta palavra é usada em Medicina. Significa “intoxicação por chumbo”, que pode ocorrer em certas atividades.

Seu nome deriva de Saturnus, a divindade romana identificada com o Crono dos gregos. Na Astrologia e Alquimia, ele era associado ao chumbo, daí a doença causada pelo chumbo ter recebido esse nome. Era mau sinal nascer sob esse planeta; sinal pior ainda é trabalhar com esse metal sem que sejam tomadas medidas de proteção.

BACO, DIONISO – o deus grego Diónyso tinha a sua contrapartida entre os romanos como Bacchus, nosso conhecido “Baco”. Note-se que Dionísio quer dizer “referente a Dioniso“, que era o nome verdadeiro deste deus.

Ele tinha um mito muito complexo; relacionava-se com a videira, o vinho, o teatro, o delírio místico, as orgias.

Os espertinhos da época, por ocasião da vindima, celebravam a festa do vinho novo, quando bebiam, cantavam e dançavam até à exaustão, tudo em homenagem ao tal deus. Os de hoje nem essa desculpa dão.

As festas em honra dele eram chamadas, em Roma, de Bacchanalia, hoje “bacanais”. Foram proibidas devido aos excessos nelas praticados pelo Senado Romano no ano 186, mas esse decreto até hoje não foi levado muito a sério.

ARGÚCIA – na Mitologia Grega havia diversos Argos: um era o cão de Ulisses, o único que o reconheceu ao voltar para casa após mais de vinte anos; outro foi foi um filho de Zeus com uma mortal, o introdutor da técnica do preparo da terra para as plantações; havia mais um que foi o construtor da nave dos Argonautas, a qual se chamou Argó, no feminino.

E havia um Argos que era um gigante, dizem que provido de cem olhos. Imaginem a quantidade de colírio que ele deveria gastar para tratar uma conjuntivite! E quando precisasse de óculos, então? Sua consulta com o oftalmologista devia levar uns três dias.

Ele era um sujeito muito forte e realizou diversas façanhas (pudera! Com esse tamanho, qualquer um!). Quando tinha que vigiar alguma coisa, ele podia dormir com cinqüenta olhos, que os outros davam conta da missão.

Daí que uma pessoa atilada, alerta, inteligente, possa ser comparada com o Argos da história, pois se mantém focada no assunto como se tivesse cem olhos.

MOMO – parece mentira, mas nosso simpático Rei Momo aparenta ter-se originado de uma divindade bem diferente do que ele agora representa.

Para início de conversa, Momo era do sexo feminino, filha da Noite (Nix) . Ela personificava o sarcasmo, e talvez esse aspecto de deboche tenha sido o início da transformação conceitual que essa entidade sofreu até passar a simbolizar as festas de Carnaval.

Mas Momo não era moleza, não. De certa feita, Zeus desejou aliviar a Mãe Terra do peso da humanidade sobre ela. Já estava planejando uma enchente enorme, um dilúvio que praticamente acabasse com a espécie, quando Momo deu uma sugestão: por meio de uniões feitas de propósito, nasceriam Aquiles, um herói grego responsável por muitas mortes, e Helena, que seria raptada por Páris e daria início à Guerra de Tróia.

A quantidade de mortos dessa guerra aliviou Gea, a Terra, mas não por muito tempo.

Será que neste momento Zeus não está urdindo um novo plano, com Momo ao lado?

GEOGRAFIA – e Geologia, Geomancia, Geocentrismo, Geodo, Geodésico, Geofagia, Geofísica, Geometria, Geopolítica, Geoquímica e dezenas de outras palavras.

Elas todas vêm de Gea, a Terra. Esta divindade surgiu após o Caos e gerou sozinha Úrano, o Céu, os Montes e Pontos, o Mar. Com a ajuda de seres do sexo masculino, gerou os Titãs, os deuses Olímpicos em sua maioria, bem como monstros quais as Harpias, Caribdes, Píton, Équidna e outros horrores.

Com o tempo e o refinamento dos mitos, ela se transformou na mãe dos deuses e de tudo o que habita nela.

Está na moda agora chamá-la de Gaia, mas as pronúncias originais eram “Géa” ou “Guê”.

CALCANHAR DE AQUILES – esta história, sim, é conhecida de todos: o herói grego que era vulnerável apenas no calcanhar, por onde a mãe o segurou para o imergir no sagrado rio Estige. Durante a Guerra de Tróia, Apolo impeliu a flecha de Páris para atingir justamente esta parte do corpo.

A expressão é usada para citar o ponto vulnerável de uma pessoa ou instituição que aparenta ser muito segura.

O que não é de conhecimento geral é que este foi um dos heróis de mito mais complexo. Na Ilíada, ele é citado quase trezentas vezes.

Ele era representado como um homem muito belo, dado às paixões tanto da violência quanto do amor. Em determinado momento, ele pôde escolher entre viver uma longa e humilde vida ou morrer muito jovem, mas com renome eterno. Ele escolheu esta possibilidade, foi para Tróia – e até hoje falamos nele.

Daí se vê que as escolhas maduras não costumam trazer fama. Portanto, exigem muita segurança.

Há uma história que o dá levado pela mãe, a Nereida Tétis, depois de morto, para a Ilha dos Bem-Aventurados, onde ele passa a eternidade se exercitando para a guerra e aproveitando os banquetes perfeitos do local, sem ressaca nem dor de cabeça.

ODISSÉIA – esta palavra originalmente se referiu à demorada viagem de outro herói grego da Guerra de Tróia, Ulisses para os latinos e Odysseus para os gregos.

Ele era um guerreiro que fazia da astúcia a sua arma principal. Foi ele que teve a idéia de fazer um grande cavalo de madeira levando guerreiros gregos no seu interior, que os troianos conduziriam para dentro das muralhas.

Nem por ser esperto ele deixava de ser corajoso e cruel, características comuns aos soldados de uma época em que o Tratado de Genebra estava ainda distante.

Contrariado por deuses adversos, que não lhe perdoavam o papel desempenhado na vitória dos gregos, Odisseu demorou dez anos para voltar à sua casa, em Ítaca.

É por isso que muitas vezes nos queixamos de termos cumprido “uma Odisséia” para conseguir alguma coisa que dê muito trabalho, implicando em muitas voltas e perda de tempo.

PLÊIADES – nos discursos de outrora, eram comuns as referências a “esta Plêiade” de artistas, militares, professores, atletas, etc. etc., querendo dizer que se tratava de um grupo muito destacado.

As Plêiades hoje são uma parte da constelação do Touro, visível no céu de verão. Representam uma mancha sobre o seu ombro esquerdo, formada por sete estrelas visíveis a olho nu. Por isso também é chamada, em alguns pontos do Brasil, de “Sete-Estrelo”.

Mas, na época antiga, elas eram as filhas do Gigante Atlas com Plêione.

Um belo dia, estavam passeando com a mãe pelos campos da Beócia, quando o caçador Órion as viu e se apaixonou por elas.

Ele era exagerado em tudo. Perseguiu-as implacavelmente por cinco anos, até que, cansadas, elas se metamorfosearam em pombas. Com pena delas, Zeus transformou as moças em estrelas.

As moças todas eram casadas com deuses, exceto uma delas, Mérope, que casou com um mortal de nome Sísifo. E que, por sinal, não prestava; era um tremendo mau-caráter. Envergonhada com isso, ela se transformou na estrela menos brilhante do grupo.

Como se vê, paixão é sinônimo de confusão de um modo ou
de outro.

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