Palavra ótico

LENTES

 

Crianças, o que é que vocês estavam fazendo no canto do pátio agora há pouco no recreio, todas amontoadas num canto?

Ah, fazendo experiências científicas, que bonito! Tia Odete adoraria ter um aluninho seu recebendo o Prêmio Nobel.

Ainda mais se repartisse a grana com ela. Mas pode-se saber que tipo de experiência? Vejamos. Uma lupa aqui no bolso do Arturzinho, uma cara de culpabilidade geral… Já sei, tratava-se de experimentos de alta relevância no campo da Óptica Aplicada à Entomologia com Ênfase nos Resultados Térmicos.

Ou seja, vocês estavam se dedicando a queimar as pobres e inocentes formiguinhas que eu sei que moram junto àquele canteiro, não?

Ficaram espantados. Saibam que a Tia Odete tem cara de sonsa mas é mais esperta do que vocês acham.

Aproveitando que todos agora estão quietinhos porque se sentem culpados, vamos falar da origem de alguns termos de instrumentos ópticos.

Fale, Valzinha. Não, minha querida, se seu pai sempre diz Ótico quando se refere a lentes e física da luz, está incorreto o caro senhor. Essa palavra   quer dizer “referente ao ouvido”, do Grego otós, “ouvido”.

Óptica, com o “P” soando bem claro, deriva do Grego optikos, “relativo ao que se pode ver”, de ops, “olho”.

E instrumento deriva do Latim instrumentum, “ferramenta, vestimenta”, de instruere, “arranjar, fornecer o necessário”, de in-, “sobre”, mais struere, “empilhar uma coisa sobre a outra”.

Para nossa aulinha vamos falar em aparelhos que usem lentes para nos ajudar em alguma finalidade mais útil do que sacrificar pobres insetos.

Por exemplo, os óculos. E atenção: ela tem “S” no final; é plural, portanto nada de dizer “meu óculos”, entenderam bem? Essa palavra vem do Latim oculus, “olho”.

Antigamente as pessoas podiam usar o que se chamava de monóculo, que vem do Grego monos, “um”, mais “óculo”. Nunca entendi como era que os fulanos mantinham aquilo preso ao redor de um olho só, mas eles conseguiam. E ficavam com um bom aspecto de vilão antigo ou de nobre prussiano desdenhoso.

Hein? Muito bem, Aninha, os binóculos têm a ver, sim. Derivam do Grego bi-, “dois”, mais “óculo”. São para serem usados com os dois olhos e assim permitir uma visão estereoscópica dos objetos à distância.

Há outra coisa que foi moda antes das armações dos óculos estarem em uso regular e que se chamava lorgnon. Esse nome francês vem de lorgner, “olhar atravessado, olhar de lado”. São aqueles óculos que eram presos a uma haste e que as damas levavam aos olhos para espiar alguma pessoa numa festa e falar mal dela.

Antes das armações também se usava óculos que se prendiam por pressão sobre o nariz, o pince-nez, ou seja, “belisca-nariz” em Francês. Devia ser tudo muito incômodo.

Fale mais alto, Valzinha, que a gente não ouviu. Ah, ia contar do seu tio que foi apanhado beliscando uma colega de trabalho e só depois ficou sabendo que ela estava namorando o chefe deles. Tinha que ser você. Vamos passar para coisas mais interessantes.

Por exemplo, a origem de lente. Por incrível que pareça, ela deriva do nome de uma leguminosa, a lentilha, que os romanos chamavam de lens, com o diminutivo de lenticula.

O formato bicôncavo de uma lente usada em óptica lhes lembrou uma lentilha. Provavelmente o inventor estava com vontade de uma boa sopa em determinado momento de seu trabalho.

Não façam confusão com a outra palavra lente que temos em nosso idioma e que significa “professor”; esta vem do Latim legens, “aquele que lê”, de legere, “ler”. Por muito tempo os professores se limitavam a ler textos para seus alunos em aula. Não é o meu caso!

Esse objeto que tanto divertiu vocês ali no pátio se chama lupa. Vem do Francês loupe, o nome do instrumento, mas antes disso não se sabe mais.

Para olhar mais longe temos também a luneta, do Francês lunette, de lune, “lua”, por se tratar de algo feito com objetos redondos como a lua cheia, ou seja, as lentes.

Sim Lary, dá para notar que os franceses deram nome a bastante coisa nessa área.

Agora pare de pular porque acertou uma e fique calminha.

Acode-me à memória o microscópio, do Grego mikrós, “pequeno”, mais skopein, “olhar”.

Feita na mesma base temos o telescópio, do Grego tele, “longe”, mais skopein. O anterior serve para olhar o que é muito pequeno, este serve para olhar de longe.

Não, Patty, não serve para entregar telegramas, não.

Nos submarinos se usa o periscópio, aquele tubo vertical com lentes e prismas para espiar o que acontece na superfície. O nome vem do Grego peri-, “ao redor”, junto com skopein.

Os médicos usam, para espiar no interior de nosso corpo, aparelhos ópticos chamados genericamente de endoscópios, de endo, “dentro”.

Quando você saírem do Maternal, se não forem presos antes, vão ter muitas aulas em que os professores usam projetores de vários tipos, seja para ilustrar melhor as aulas, seja porque têm preguiça de rabiscar no quadro.

Esse nome vem do Latim  projicere, formado por pro-, “à frente”, + jacere, “lançar, atirar”. Isso porque ele lança à sua frente a imagem enquanto os alunos dormem, como é o caso do Soneca ali no fundo.

Já soou o sinal de saída. Acordem esse menino, peguem suas mochilinhas e vão saindo com calma. E deixem aquelas formigas em paz.

 

Resposta:

Alfabeto III

Palavras: óptica , ótico

Desta vez a Tia Odete aqui se lembra em que letra paramos em nosso estudo da origem do alfabeto. Foi o “K”, portanto agora é o “L”.

Vamos nos sentar em círculo e prestar atenção. Não, não adianta acordar o Soneca, deixem-no roncar. Val, pare de falar um pouco. Joãozinho, eu já disse várias vezes que você não pode se sentar entre as meninas, por motivos que eu sei muito bem.

Não vou contar para vocês que o “L” tem um som alveolar, fricativo, lateral, sonoro, porque é complicado demais. Apenas cabe dizer que há pouco a falar, pois esta é uma letrinha muito bem-comportada que não apresenta grandes variações na pronúncia.

Isso em Português e Espanhol, pelo menos. Em Inglês, o que eles engolem esse som não está no mapa. Por exemplo, nas palavras castle, “castelo”, muscle, “músculo”, walk, “caminhar”, talk, “falar”, o “L” absolutamente não soa; entra na palavra mudo e sai afônico.

Curiosamente, esta letra tem a fama de evocar a idéia de líquido, de liso (e vejam que estas duas palavras começam por ela).

Platão dizia que ela deu, devido ao seu som, o nome às coisas lisas, começando pelo verbo “deslizar”, olisthánein em Grego.

Sua origem gráfica é o lamed fenício, “cajado”, representando o aguilhão com que se controlava o gado. Na época do Brasil Colônia, havia portugueses que debochavam dizendo que os  brasileiros confundiam o “L” e o “R” (“pobrema”, por exemplo) e explicavam esse fato afirmando que isso era compreensível, em se tratando de um povo bárbaro, “sem lei nem rei”.

E depois dessa vem o “M”. Ela deriva do men fenício, que queria dizer “água” – e que, aliás, lembra mesmo umas ondinhas numa superfície de líquido.  Inclusive, em alguns textos latinos arcaicos chegou a ter quatro ou cinco perninhas.

Não, Valzinha, ninguém aqui quer saber o que o filho de sua prima faz com as perninhas dos insetos que pega, esqueça, não nos interessa.

Em vez de lembrar isso, aprenda que houve um gramático latino, Quintiliano, que chamava essa letra de littera mugiens, “a letra que muge”, dada a semelhança do seu som com a voz da senhora esposa do touro. É um som muito fácil de emitir, daí ser um dos primeiros que começamos a dizer em nossa infância – exceto no caso da Valzinha ali, que com três meses já usava todas as letras para contar causos. É por isso que a palavra usada para dizer “mãe” é tão parecida na maioria dos idiomas, desde o Sânscrito ma.

Já a “N” trabalha dobrado; tem uma curiosa vocação para as matemáticas. Ali ela é usada, desde o século XIV,  para designar um número qualquer, justamente por ser a inicial de “número”, palavra que vem do Latim numerus, “quantidade, número”, do Indo-Europeu nem-, “distribuir, dividir, atribuir a cada um”.

Em Fenício ela se chamava nun, mas há certa confusão quanto ao seu significado inicial. Uns dizem que era um peixe, outros uma cobra, outros que se trata apenas de uma alteração da agüinha que gerou o “M”.

Felizmente para os nossos aluninhos, que já acham tudo tão difícil, em nosso idioma não existe a freqüente duplicação do “N” que há no Francês e no Inglês, em palavras como anniversaire, biennal, innocent, runner.

A seguinte letrinha tem uma característica especial: é a única cuja forma é representada pelos lábios na sua emissão.

Pronto, eu sabia: toda a aula está fazendo bocas redondas para testar.

Parem com isso e prestem atenção: este som se liga muito à expressão de surpresa, de admiração. Na maioria dos idiomas europeus, essas interjeições levam essa letra: oh!

No que se trata da forma, ela vem do Fenício ayin, “olho”. Em certas épocas, até levava um ponto no meio para lembrar mais um olhinho.

Não, Aninha, ela nada tem a ver em suas origens com o zero.  Este tem essa forma porque representava um vazio. Como este não se pode desenhar, desenha-se a delimitação de um espaço ao redor de nada. Entre os ingleses, quando se vão dizer os algarismos de um número, muitas vezes, para encurtar, eles dizem “O” em vez de “zero“.

Agora vem o “P”, que para os fenícios se chamava pe e representava uma boca. Os gregos a chamaram de pi e, com tal nome, ela também seria muitíssimo usada em Matemática. Esse numerozinho que não tem um fim conhecido tem uma imensa utilidade, que um dia vocês ainda vão aprender, se não tiverem ido parar na cadeia antes.

É interessante saber que, entre os árabes, não há qualquer distinção entre o som de “P” e o de “B”, o que torna para eles extremamente difícil aprender a nossa pronúncia.

Falando em pronúncia, é comum as pessoas lerem óptica sem pronunciarem o “P”. Ora, essa palavra deriva do Grego optikos, “relativo ao que se pode ver”, de ops, “olho”.

Por outro lado, a palavra ótico quer dizer “referente ao ouvido”, do Grego otós, “ouvido”. Logo, devemos pronunciar aquele “P” bem direitinho se quisermos nos comunicar com correção.

Dizem que a próxima letra, o “Q”, é um “O” abanando o rabo. Gracinhas à parte, essa letra vem do Fenício, que simplificou um signo egípcio que significava “macaco”. O tracinho da letra provavelmente é um remanescente do rabo do bichinho.

Ela foi combatida por vários gramáticos latinos, pois por longo tempo a sua função era preenchida pela letra “C”.

Mas hoje, sempre seguida por um “U” em nosso idioma, ela obteve uma estabilidade que já não se discute. O mesmo não se pode dizer de uma pobre professora quando os seus ingratos aluninhos começam a  atirar bolas de papel uns nos outros e a pular em cima das mesas. Peguem suas coisas e caiam fora já!

Resposta:

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