Palavra

Pã, panis, pão

Palavras:

A palavra latina panis, que deu origem á palavra pão, em português, tem alguma relação com o nome do deus grego Pã?

Resposta:

Não. Ela vem do Latim PANIS, de uma fonte mais antiga PA-,  signifcando “nutrir”.

E Pã, como tantos nomes de grande antiguidade, não tem etimologia definida.

FERRAMENTAS II

 

– Você se lembra, Vô, de uma vez em que me contou sobre a origem do nome de umas ferramentas? Você ficou de me falar sobre outras e acabamos nos esquecendo e agora seu neto aqui é um ignorante.

O velho esbelto e de barba branca curta me olhou com fingido ar de desprezo:

– Que eu me esqueça, do alto de minha avançada idade, não é nada. Mas que você se esqueça já na adolescência é um sinal perigoso. Talvez seja necessário interná-lo num lugar onde cuidem bem de você…

– Mas o senhor vai antes!

Ele suspirou.

– Está bem, em vez de discutirmos isso é melhor eu cumprir a minha promessa e a gente se esquecer de que se esqueceu.

Vamos lá, posso começar pelo sargento.

– Iih, Vô, o senhor caducou de vez? A gente não ia falar sobre militares!

– Prezado descendente, sua ignorância me faz pensar seriamente que você foi adotado, pois não parece meu parente de sangue. Em todo caso, dando um desconto para a sua idade, informo de que estou falando sobre uma ferramenta, sim.

Ela serve para apertar uma peça de madeira contra outra ao serem coladas, por exemplo. Seu nome nada tem a ver com o posto militar, vem do Francês serre-joint, de serrer, “apertar, comprimir”, mais joint, “articulação, espaço entre superfícies”.

A pronúncia em Francês de serre-joint é muito parecida com a de sergent, “sargento”.

E agora, se Vossa Senhoria me permitir, informarei que morsa ou “torno de bancada”, aquele artefato que fica preso a uma mesa de trabalho e se usa também para apertar uma peça contra outra ou para firmá-la enquanto se trabalha nela, vem do Latim morso, particípio passado de mordere. Tanto é assim que as duas peças que se aproximam entre si para firmar um objeto se chamam mordentes.

Acrescento que o mamífero marinho das beiras do Ártico, com aquelas enormes presas, também se chama morsa, mas seu nome tem origem diferente. Vem do Francês Morse, do Russo morju.

– E o torno do qual o senhor falou?

– Esse veio do Latim tornus, particípio passado de tornare, “fazer girar, fazer dar voltas”. A função dele é fazer girar uma peça de madeira ou metal para que ela possa ser desbastada.

– E como se chama aquela coisa que se usa para desbastar e alisar um pedaço de madeira?

Plaina. Seu nome vem do Latim planea, derivado de planum, “liso, plano”, que é como deve ficar a madeira com ela trabalhada.  Se o trabalho for bem feito, claro.

– Muito bem, e a broca que usa para fazer furos?

– Essa que veio do Latim broccus, “o que tem a boca ou os dentes para a frente”, dando a ideia geral de  “pontudo, saliente”.

– E os brócolis? – disse eu, rindo.

– Acha que é muito gracioso, é? Pois essa palavra vem de broccus mesmo, pelo sentido de “fazer saliência ao nascer, brotar”. Quá! Por essa você não esperava.

– Não esperava mesmo, Vô. Mas agora já sei, e continuo torcendo que não me sirvam isso na comida.

– Estou com você. E isso me lembra que não há só esse vegetal com o nome derivado daquela palavra.

Existem vários animais também chamados de broca pelo seu mau hábito de perfurar coisas que interessam à nossa espécie, como cascos de navio feitos em madeira ou plantas úteis, como o café.

– Falando em café, o senhor podia falar em ferramentas para agricultura?

– Como não. Podemos começar com a , do Latim pala.  Eles tinham também outro nome para ela, sappa. Até hoje existe a palavra sapador para designar aquele que faz certos trabalhos de engenharia militar.

Até pelo menos a Idade Média, estes eram importantíssimos nos trabalhos de cerco a cidades: faziam escavações por baixo das muralhas e enchiam o espaço assim aberto de lenha e acendiam fogo, para enfraquecer as fundações delas.

– Legal! Então era só chamá-los que a cidade estava tomada?

– Nada disso. O pessoal de dentro também tinha os seus sapadores, que faziam túneis para descobrir os dos atacantes e muitas vezes ocorriam lutas das mais horrendas debaixo da terra.

– Espertos, eles.

– Ah, para matar a humanidade sempre foi muito criativa. Mas voltando a atividades mais produtivas, podemos pensar na enxada, que veio do Latim asciata, o nome da ferramenta.

– E aquele instrumento que a Morte usa para suas colheitas?

– Que imagens! Você deve estar se referindo à foice.

Essa palavra veio do Latim falx, “foice”.  E agora me ocorre também o rastelo, que se usa para juntar folhas caídas, que veio do Latim rastellum, ligado a rastrum, “rastro, marca no chão”, já que ele sempre deixa seus sinais onde é usado.

Um utensílio mais ou menos com a mesma função é o ancinho, do Latim uncinus, “gancho”, diminutivo de uncus, “gancho, bastão recurvo”.

– E a picareta?

– Essa vem de “picar” mesmo, pois é para isso que serve, ao bater na terra e soltar seus fragmentos para serem retirados. E esse verbo deriva de uma base onomatopaica, isto é, da imitação do som de uma batida seca, “pic”.

– Então o pica-pau vem daí?

– Exatamente, que neto esperto eu tenho! Quem diria…

O velho tinha um jeito de não demonstrar com palavras o seu carinho, mas a mim não enganava.

– E agora, caro descendente, vamos parar que essa conversa toda sobre material de trabalho me deixou cansado. Vamos ouvir uma boa música e falar alguma besteira, para variar.

Resposta:

Ferramentas II

Eu me tinha interessado tanto com o que meu avô tinha falado sobre a origem do nome das ferramentas comuns que fiz uma lista mental e, assim que pude, fui visitá-lo para aprender mais.

– Hum, um jovem que não está apenas querendo saber de futebol e pagode. Só pode ter puxado a mim! – disse ele, tentando disfarçar seu contentamento.

– Nada disso, Vô, eu fui adotado – respondi, com a maior cara-de-pau.

– Então é um milagre. Ajoelhemo-nos para rezar.

– Quem sabe a gente pula essa parte e o senhor responde às minhas perguntas?

– Está bem, seu incréu, está bem. Mande.

– Vamos ver então… tesoura de onde vem, Vô?

– Do Latim tonsorius, “o que serve para cortar”, do verbo tondere, “cortar, tirar o pelo”.

Existe um outro derivado desse verbo que é tonsura, aquele corte circular do cabelo que os padres ostentam na cabeça, como um sinal de que são servos do Senhor.

– Ué, por que?

– É que entre os romanos os escravos tinham o cabelo raspado para serem facilmente distinguidos dos cidadãos livres. Esta pequena zona raspada ficou como um símbolo dessa relação.

Já que falamos em tesoura, cabe lembrar o podão, que veio do verbo latino putare

– Ei, essa não! Não me esqueci de que o senhor uma vez disse que esse verbo queria dizer “calcular, estimar, considerar”. Mudou agora, é?

– Calma, seu afoito. Esse verbo também era usado para “desbastar, cortar o que não é necessário, podar”. Aliás, deve ter sido esse o seu sentido inicial, seguindo o fato tão comum de que palavras relacionadas à agricultura acabaram tendo outros significados na civilização romana. Veja bem a analogia entre podar uma planta e podar os fatos para se poder fazer uma estimativa.

– É disso que eu gosto nestas histórias, Vô.

– Para mim, essa é a maior graça da Etimologia.

– E a espátula que se usa para alisar coisas?

– Veio do Latim spatula, diminutivo de spata, “instrumento largo e achatado, espada larga”, do Grego spathe, “lâmina, instrumento achatado”.

Aqui me ocorre a palavra sapador, aplicada ao militar que se encarregava de abalar muralhas cavando túneis por baixo. Ele se chamava assim devido à sua ferramenta básica, a sapa, uma pá cujo nome vem de spata.

Mas saiba que o nome da que usamos modernamente, quando os explosivos se encarregam de destruir obstáculos, deriva do Latim pala, também “pá”.

– Muito bem; e a picareta?

– Do verbo picar, que se origina de um som imitativo, uma onomatopéia de batida: “pic, pic”. Usar uma picareta num terreno acaba deixando tudo fragmentado, picado.

Isso me lembra um instrumento que se usa para fazer furos, a pua. O nome dela não tem origem muito certa, mas pode estar relacionado com o verbo latino pungere, “fazer furos, fincar”.

Há outra ferramenta que se usa para fazer furos retirando a parte do meio do material, de modo a que a borda não fique irregular; é o vazador, do Latim vacivus, “desocupado, vago, vazio”, pois ele deixa um espaço vazio no meio. Sem ele, fazer furo num cinto acaba saindo uma porcaria.

– Para construir casas, sei que era muito usado o esquadro.

– Palavra que vem de exquadrare, “partir em quatro”, de quattuor, “quatro”. O ângulo de noventa graus resulta de cortar um círculo em quatro partes iguais. Você sabia que o ângulo reto é o ângulo que ferve a noventa graus?

– Como é isso, Vô?

– Deixe para lá, que em troca eu lhe digo de onde veio a palavra régua. Foi de regula, que veio do verbo regere, “determinar, dirigir, guiar”, ligado a rex, “rei”, pois a idéia era que ele fizesse exatamente isso.

– Espertinhos, esses romanos. Deixe ver, tenho mais um nome para saber… ah, prumo.

– Este vem do Latim plumbum, “chumbo”. É que se usavam pesos desse metal presos a fios, para que estes representassem bem a perpendicular dum dado ponto, já que as paredes deviam subir bem retinhas para cima, para poderem se sustentar melhor.

– E o que pesa mais, Vô, um quilo de chumbo ou um quilo de penas?

– Um quilo de chumbo – disse o velho cara-de-pau muito rapidamente.

– Peguei o senhor, Vô! Que vergoonha! Pois, se se trata de um quilo, os dois pesam a mesma coisa! Mas que vexame, meu avô, tão preparado…

– Ah, é, espertinho? Pois então me diga o que você prefere que lhe caia na cabeça, um quilo de chumbo ou um quilo de penas?

Aquilo me deixou balbuciando, tentando falar em densidade e coisas assim, mas o velho não parava de rir de mim, de modo que desisti. O velho estava impossível naquele dia.

Resposta:

Do NOT follow this link or you will be banned from the site!