Palavra palhaço

TIA ODETE NO PARQUE DE DIVERSÕES

 

Boa tarde, cavalheiro que se dedica ao pequeno comércio de grãos de milho estourados por meio do calor e entregues aos clientes em pequenos sacos de papel. Sim, eu sei que o senhor é o pipoqueiro, guardei para dizer isso ao lhe explicar a origem de tão sonora palavra. Pipoca vem do Tupi pi’poka, de pira, “pele”, mais pok, “estourar, arrebentar”.

Mas além disso eu ia lhe perguntar se este aqui é o Parque de Diversões recentemente instalado aqui em nossa cidadezinha. Sim, sim, estou enxergando o enorme cartaz onde isso está escrito bem acima de nossas cabeças. Mas a pergunta era apenas retórica, servia para lhe contar a origem desses termos.

Parque veio do Francês parc, “reserva fechada para guarda de animais destinados à caça”, derivado do Germânico parruk, “área cercada”. E diversão vem do Latim divertere,”voltar-se em outra direção”, formado por di-, des-, “ao lado”, mais vertere, “virar-se, voltar-se”. A idéia aqui foi a de “voltar a cabeça” para outro lado que não sejam as preocupações.

Coisa que eu me dedicaria a fazer constantemente, não fosse ter-me cabido o grupo mais insalubre de aluninhos que algum dia coube a uma professora.

Mas enquanto o senhor se delicia interiormente com essas informações, vou seguir minha visita a tão interessante estabelecimento.

Ora, vejam o que temos aqui. Este é o carrossel, não, senhor cuidador? E por acaso o senhor sabia que esse nome não vem de carro, por incrível que pareça?

Ele tem uma história estranha. Origina-se no século 16, de um torneio que era feito em Nápoles, chamado carusello.  Ele consistia em os participantes jogarem bolas de lama uns nos outros. Parece que eles achavam muito engraçado fazer isso.

Carusello era o diminutivo de caruso, “cabeça de criança” na linguagem local, e designava as tais bolas de lama.

Vejo espanto e admiração em sua face; certamente é porque está querendo saber o por quê de caruso. Ora, este vem de cara, palavra que era usada em certos pontos da Itália para dizer “cabeça”.

Que bonitos os cavalinhos que levam as crianças e até marmanjos em seus coloridos lombos para cima e para baixo, numa distração que francamente me soa um pouco disparatada!

O senhor sabia que, em Latim, caballus era o nome dado apenas ao cavalo de carga? Os cavalarianos de Roma não montavam um caballus, montavam um equus, animal mais adequado para tarefas militares.

Deixando-o encantado com o novo conhecimento adquirido, aproximo-me do senhor que gerencia a montanha-russa. Bom homem, aposto que o senhor não adivinha por que essa gigantesca estrutura onde as pessoas pagam para andar e se arriscar a ter um infarto se chama assim.

Pois é porque foi inventada na Rússia. Há séculos o pessoal de lá fazia rampas altas de neve e se punham a deslizar por elas sentados em blocos de gelo cobertos de palha. Com esses métodos meio precários e falta de controle, naturalmente a coisa nem sempre acabava bem, com acidentes sérios a toda hora.

Mas isso não impediu de serem feitas cópias da ideia usando trilhos e carros com rodas pelo mundo afora. O curioso é que parece que, na Rússia, o brinquedo é chamado de “montanha americana”.

Cabe dizer que montanha vem do Latim montaneus, “relativo a uma elevação”, de mons, “montanha”. E que Rússia vem do nome de um povo, os Rus,  que habitava certas regiões do país lá pelo início da Idade Média e que eram provavelmente de origem escandinava.

Cavalheiro do tiro-ao-alvo, boa tarde. Mesmo sem que o senhor pergunte, desde já vou informando que tiro vem do Latim tirare, “atirar, lançar” e que alvo vem do mesmo idioma, de albus, “branco”, pois esta era a cor do centro dos círculos marcados num objeto usado para adestramento em arco e flecha.

Ah, senhora cartomante, muito prazer. Talvez as cartas não lhe revelem que o nome de sua profissão vem de carta, do Latim charta, “folha de papel”, inicialmente “folha de papiro”, mais o Grego manteia, “adivinhação”.

Naturalmente que a tal carta aqui é a do baralho, não a que leva mensagens. Infelizmente o mundo está cheio de gente que acredita mais no que as cartas alegadamente dizem do que no trabalho e no estudo.

Antes que a senhora expresse sua indignação pela dura verdade que acabo de expressar, passo à tenda do mágico, que aqui está de traje escuro, gravata preta, cartola e ar mefistofélico, como convém a um profissional do ramo.

Tal nome vem do Grego magikós, “relativo à magia”, de magos, “membro de uma categoria sacerdotal”, derivado do Persa magush, “sacerdotes que interpretavam sonhos”. Sim, os Reis Magos que teriam visitado o Menino Jesus não eram reis, eram religiosos.

E entre o pessoal que anda por aqui vemos numerosos palhaços. Com suas roupas berrantes e trejeitos que se pretendem engraçados, sua origem é o Italiano pagliaccio, de paglia, “palha”, a qual era usada para encher suas roupas coloridas e deixá-las mais alegres.

Bem, pelo menos eles achavam. Lembremo-nos, no entanto, que eles começaram a se apresentar numa época em que a vida era parca em distrações. Nem televisão existia ainda! Dá para imaginar?

E olhe aqui, o vendedor de algodão-de-açúcar. Lembro-me de quando era criança e meu pai me dava uma porção dessa substância que faz a alegria dos dentistas. Algodão vem do Árabe al-qutn, “algodão”, provavelmente de origem egípcia. E açúcar é do Latim succarum, do Árabe sukkar, do Persa shakar, do Sânscrito sharkara, originalmente “pedra moída, brita”.

Destarte, não é de admirar que consumir uma boa porção dele faça as línguas dos incautos sangrarem.

E, por todo canto, crianças. Essa palavrinha vem do Latim creare, “produzir, erguer”, relacionado a crescere, “crescer, aumentar”, do Indo-Europeu ker-, “crescer”. Aliás, para quem não sabe, meu nome é Odete Sinclair, sou professora de Etimologia num Maternal de destaque em nossa cidade, onde comparece toda espécie de demoninho de pouca idade. Eles só se acalmam quando lhes conto quais as origens das palavras em geral, o que me deixou com o hábito de explicar Etimologia para quem quer que cruze pela minha frente.

Despeço-me agora dos circunstantes, cujo ar aparvalhado me deixa em dúvida sobre a eficiência de minhas lições tão generosa e altruisticamente dispensadas.

 

Resposta:

CIRCO

 

Atualmente o circo está perdendo, em nosso país, para atrações tecnológicas de diversos tipos. Mas já houve época em que as crianças sonhavam com ir a um local tão maravilhoso, cheio de atrações exóticas, ruído, aglomeração de pessoas, cheiro de pipoca…

Vamos ver a origem das palavras relacionadas a ele.

CIRCO – vem do Latim CIRCUS, “anel” (que se aplicava também às arenas redondas para esportes e lutas), que vinha do Grego KYKLOS, “círculo ou sua forma, movimento ao redor de, eventos que se repetem com regularidade”, do Indo-Europeu ker-, “torcer”.

Os romanos tinham o seu Circus Maximus, ou seja, “a arena maior”, o que hoje chamamos de Coliseu.

Este nome, aliás, vem de colossus, do Grego kolossos, “estátua gigantesca”, de origem desconhecida. Serviu para dar nome a uma enorme estátua de Nero, que foi feita no local que em breve seria o Circo Máximo, por isso até hoje conhecido por “Coliseu”, de Colosseum.

A famosa expressão Panem et Circenses é do poeta latino Juvenal e quer dizer “pão e jogos de circo”. Com isso ele queria dizer que em sua época o povo romano, em vez de fornecer bravos soldados à pátria, só desejava ganhar alimento e se distrair vendo as atrocidades cometidas nas arenas (elas eram subvencionadas pelo governo para manter a população distraída).

PALHAÇO – é o primeiro que nos ocorre ao pensar em circo e outros lugares em que patuscadas são feitas para distrair o público. Essa palavra vem  do Italiano pagliaccio, de paglia, “palha”, a qual era usada para encher suas roupas coloridas e deixá-las mais engraçadas.

CLÓVIS – em alguns pontos do Brasil um palhaço ou outra figura fantasiada é chamado de clóvis. Isso nada tem a ver com o nome próprio; deriva do Inglês clown, do Inglês antigo cloyne, “sujeito rústico, campesino”, de origem desconhecida. Provavelmente resultou da leitura errada de algum cartaz que anunciava clowns no espetáculo.

DOMADOR – antes ele era figura indispensável num circo, com sua coragem e seu chicote. Agora números com animais são proibidos, felizmente, e ele deu lugar a outras atraçoes. De qualquer modo, essa atividade recebeu seu nome do Latim domare, “amansar, dominar, domesticar”, e se relaciona a domus, “casa”, passando a noção de que os animais pertencentes a ela já não eram selvagens, eram domesticados –  outra palavra que derivou daí.

EQUILIBRISTAS – aquele pessoal que deixava todo o mundo com o coração na mão ao andar de um lado para outro nas cordas bambas. A origem é o Latim aequilibrium, “de mesmo peso”, de aequi, “igual”, mais libra, “balança”.

TRAPEZISTAS  – esse pessoal se pendurava numa barra oscilante cujo nome vem do Grego trapezion, de trapeza, “mesa pequena de quatro patas”. Ela devia ser meio guenza para ter emprestado o nome à figura geométrica que chamamos de trapézio.

MALABARISTA – vem de Malabar, o nome da costa oeste da Índia. Parece que a capacidade de entreter o público com o movimento imprimido a objetos recebeu esse nome a partir da habilidade que os portugueses perceberam nos artistas dessa região. Mas ela é muito mais antiga do que isso, já que há desenhos egípcios mostrando pessoas a se apresentarem jogando diversas bolas no ar ao mesmo tempo.

MÁGICO – ourto artista indispensável num circo. Deriva do Grego magikós, “relativo à magia”, de magos, “membro de uma categoria sacerdotal”, derivado do Persa magush, “sacerdotes que interpretavam sonhos”.

BANDA – enquanto as atrações eram substituídas, uma banda com muitos instrumentos de sopro atacava com fúria a música de fundo. Seu nome deriva do Francês bande, aqui como “corpo de tropa”, do Gótico bandwa-, “sinal, marca, bandeira”.

FANFARRA – designa “conjunto de instrumentos de metal” ou “música ruidosa”, certamente com origem onomatopaica. Daí derivou o nosso fanfarrão, o sujeito que faz muito barulho do qual depois nada resta, como uma apresentação da banda.

TENDA – tudo isso se passa sob o abrigo de uma tenda, do Latim tenta, “barraca, tenda”, do particípio de tendere, “esticar, estender, alongar”. Se a tenda não está bem ajeitada, não há espetáculo.

LONA – a tenda é formada basicamente por um tecido impermeável e resistente, cujo nome vem da cidade francesa de Olonne, no vale do Loire,  há muito um centro de fabricação desse material.

MASTRO – sem ele, a lona não se sustenta. Vem do Francês mast, que deriva do Frâncico, onde significava “poste, tronco de árvore, madeira longa aparelhada para suportar cordas e velas”.

PICADEIRO – deriva de “picar”, verbo que se origina no som de algo batendo: “pic, pic”. Antigamente era  o lugar onde se treinavam cavalos com o pique, uma vara pontuda, daí o nome.

SERRAGEM – o chão do picadeiro é revestido com este material resultante do corte da madeira, fácil de retirar e repor. É uma palavra que vem do Latim serra e que não teve maiores modificações até agora em nosso idioma, como se pode ver.

Resposta:

Uma Lagartixa

Céus, que gritaria é essa? E esta correria? Nem se Satanás em pessoa se materializasse na mesa de um convento na hora do almoço se faria tamanho escândalo! O que foi?

Hein, como? Afinal, salamandra, lagartixa, lagarto ou jacaré? …Ah, aquilo ali na parede? Mas, crianças, é uma pobre lagartixinha perdida, morta de medo da gritaria e da movimentação histérica  que vocês fazem.

Muito bem, todos para os seus lugares; Ledinha, pare de pular e gritar, bem como a Leonorzinha, Valzinha e Patty; Joãozinho, afaste-se das meninas; Soneca, continue dormindo, Maria Tereza continue bonitinha e comportadinha em seu vestidinho branco, com os pezinhos cruzados por baixo da cadeira e ela não é “queridinha da fessora” coisa nenhuma, Sidneizinho, ela é civilizada, algo raro de se encontrar em certa aula, que infelizmente foi tocar logo para mim, confirmando que, se funcionar a teoria das vidas passadas, eu devo ter sido pessoa muito ruim em algum momento da História.

Olhem lá, o bichinho se acomodou no canto do teto. Deixem-no em paz e ouçam algo sobre a origem do seu nome e outros correlatos.

Inicialmente, não se trata de um jacaré, palavra que vem do Tupi yaka’re.  Segundo alguns, esse era simplesmente o nome de vários répteis deste tipo; dizem outros que queria dizer “sinuoso, com curvas”.

Não sei quem fez esse exagero, mas ouvi que a chamaram também de lagarto, que veio do Latim lacertus, “lagarto”, possivelmente do Indo-Europeu leq-, “torcer, dobrar”, o que mostra uma interessantíssima convergência conceitual de criação de palavra com o Tupi, mas é muito cedo para que eu possa explicar o que é isso.

Não é nem mesmo uma salamandra, cujo nome vem do Grego salamandra, um animal legendário que conseguia viver no fogo. Ele parece ter origem no Oriente, mas fora isso não se sabe mais sobre a palavra.

Graças a essa capacidade lendária, o trabalhador que lida com equipamentos muito quentes, como fornos, caldeiras, incêndios em poços de petróleo, etc., é chamado de salamandra, numa homenagem à duração das histórias antigas.  O nome se aplica também, em algumas regiões do país, a um fogãozinho de ferro fundido usado para aquecimento.

Salamandras são anfíbios, do Grego amphi-, “de ambos os tipos”, mais bios, “vida, modo de viver”. Isso quer dizer que seus parentes podem viver ou na água ou na terra ou em ambas.

O animalzinho que gerou tamanha baderna nesta aula é uma lagartixa, que não preciso explicar que se trata de um diminutivo de lagarto.

E este aqui é muito útil para as nossas casas. Sim, senhorinhas e senhorinhos, ele se dedica afanosamente a se alimentar dos insetos que nos incomodam, como moscas e mosquitos e – não senhor, Robertinho, morcego não é inseto – outras coisas repelentes e cheias de patas.

Já que ninguém perguntou, vou dizer que inseto  vem do Latim insectum animalis, “animal segmentado”, de insectare,  “cortar em pedaços”, de in-, “em”, mais secare, “cortar”. Podem observar que todos são como que partidos em dois ou mais segmentos.

Não, Valzinha, uma moça com a cintura muito fina e apertada pela roupa que nem a sua vizinha não é um inseto. É uma boba.

Olhem para ele ali agora. Notaram como a cor dele mudou? Ele está quase se confundindo com o tom da pintura. Isso é a sua propriedade de camuflagem, o que vem do Francês camoufler, “lograr, disfarçar, enganar”, que veio do Italiano cammuffare, aparentemente da expressão capo muffare, “tapar, cobrir a cabeça”. Provavelmente houve influência no Francês de camouflet, “baforada”, com o sentido de “jogar fumaça nos olhos de outro”.

Acho que em épocas antigas eles não tinham muito como passar o tempo, sei lá. Se bem que atualmente muitos se dediquem a inalar fumaças de várias origens.

Não, Mariazinha, eu nasci bem depois, até já existia o rádio para a gente se distrair, veja como sou moderna.

Em vez de camuflagem, podemos falar em disfarce, que não tem uma origem absolutamente certa. Parece que vem do Latim dis-, “fora”, mais farcire, “engordar um animal para abate”, daí “rechear, encher”. Como muitas roupas usadas em peças cômicas eram acolchoadas, recheadas de tecido ou palha, daí teria surgido a noção de “roupa que altera o aspecto de alguém”.   E que, no caso, serve para os predadores passarem sem ver nossa lagartixa.

Pelo menos é isso que ela quer que aconteça.

Falando em  disfarce, ao olhar certos aluninhos, não posso deixar de me lembrar que a palavra palhaço vem do Italiano pagliaccio, de paglia, “palha”, a qual era usada para encher suas roupas coloridas e deixá-las mais engraçadas.

Não entenderam minha associação de idéias? Não faz mal, deixem para lá.

E agora arrumem  suas coisas e vão para casa. E, se encontrarem por lá uma das primas da nossa amiga aqui, não se esqueçam de a tratar muito bem, pois ela é um excelente inseticida, grátis e não-tóxico.

Certo, Robertinho, quando você crescer vai fazer uma indústria para vender lagartixas em caixa, muito bem. Não, por favor, não chame o produto de “Tia Odete”, dispenso comovida essa homenagem.

Resposta:

Aniversário

                   – Então a senhora é que é a mãe do Humbertinho! Muito prazer, sou a Tia Odete, professora dele. Ele é o único aluninho que me convidou para a sua festa de aniversário até hoje.                  Devo lhe dizer que ele é certamente o mais brilhante de todos, um verdadeiro exemplo de menino que não só não incomoda como colabora com a sua cansada mestra.                  É sempre ele que me traz um copo dágua quando estou muito atacada, que se oferece para apagar o quadro-negro, que me conta quem foi que fez as malfeitorias. Prevejo um grande futuro para ele. Não duvido que chegue à Presidência. Não sei de quê, mas vai chegar à Presidência.                 Venha cá, meu querido, a Tia Odete trouxe uma pequena lembrança para você. É um bloquinho de anotações com um lápis para você escrever os nomes dos seus coleguinhas que fizeram coisas ruins e que você vai me passar depois.                   Não agradeça; total, é só o que uma professora esforçada pode dar hoje em dia, com os salários baixos que se recebe e… mas vamos falar de coisas melhores.                   Certo, vou sentar com as outras senhoras aqui na sala. Boa tarde, como vão? Bonito aniversário, este.                    Hum. Naturalmente todas vocês sabem de onde veio a palavra aniversário, não? Como? Verdade que não? Então eu vou ter o prazer de contar, já que não pode haver ocasião melhor.                    Ela vem do Latim, de anniversaria dies, “dias a serem observados em especial”. E anniversaria vem de annus, “ano”, mais vertere, “virar”, ou seja, quando se completava mais um ano dum acontecimento.                    A palavra annus deu – sim, Joãozinho, meu anjo? – não, a Tia Odete não chamou você, meu doce; vá continuar a sua brincadeira com as meninas atrás da porta, que hoje eu não tenho nada que ver com isso.                    Mas, como eu dizia, essa palavra originou muitas outras em Português, como anais, inicialmente “fatos lembrados a cada ano”, centenário, “o que tem cem anos”, anual, “o que acontece a cada ano”, como, por exemplo, receber uma turma nova de demônios para cuidar.                    Antigamente se fazia também festa pelo onomástico da pessoa. Isto vem do Grego onomázein, “nomear, atribuir um nome”, de ónoma, “nome”. Fazia-se uma festa no dia do santo cujo nome a pessoa usava. Note-se que nem sempre este era o dia do nascimento.                   Por exemplo, se alguém quisesse dar uma festa de arromba para mim no dia da minha santa onomástica, o faria ou no dia dedicado a Santo Odon, o abade de Cluny, que viveu no Século X ou no dia dedicado ao Santo Odon que foi bispo de Urgel, na Espanha, no Século XII. É que Odete é o feminino de Odon, em Francês.                   Claro que alguém só faria isso se achasse que eu tinha algum tipo de merecimento devido ao fardo que agüento todos os dias sem me queixar.                   E já que falei em festa mais de uma vez, eis também a ocasião de falarmos sobre a etimologia desta palavrinha tão simpática. Ela vem do Latim festae, “feriados”, que vem de festus, “festivo, alegre” e que se relaciona tanto com feriae, “feriado” como com fanus, “templo”. As festas religiosas foram, por muito tempo, uma rara ocasião de as pessoas se encontrarem, em épocas nas quais a maior distração que aparecia na aldeia era um enforcamento.                   Festa nos deixou também a palavra festão, que nada tem a ver com “festa grande”. Designa uma guirlanda, um ramo de flores pendente, e veio do Francês feston, que veio do Italiano festone, “ornamento festivo”. Foi muito usado como ornamento arquitetônico nas épocas em que os prédios não seguiam o modelo caixa de sapato.                   Também derivou daí festival, de festivalis, “referente a um feriado religioso”.                   Espera-se de uma festa que ela seja alegre, palavra que veio do Latim alacer, “animado, vivaz”. Essa palavra se encontra hoje muito pouco modificada na linguagem culta: álacre.                   Conhecem aquela poesia que começa com “Álacres saem as andorinhas do ninho…”? Não? Nem poderiam, pois é uma das modestas poesias que eu andei fazendo nas minhas raras horas de folga e que vou declamar agora perante tão distinta platéia, se me permitirem…                   Mas como vocês são gentis em correrem para me oferecer bebidinhas e comidinhas! Com a boca cheia não vou poder declamar. Fica para depois então.                   Este refrigerante está numa temperatura muito boa. Claro que todas sabem… Não? Vou contar então. Refrigerante vem do Latim refrigerare, “refrescar”, de re, partícula intensificativa, e frigo, “frio”. Quem me dera ter sempre um refrigério para a alma quando os filhos das senhoras aqui presentes começam a aprontar na aulinha!                   Mas, como sempre digo, passemos adiante e vejamos a origem do nome daqueles rapazes com estranhas vestes que foram contratados para alegrar as crianças. Palhaço vem do Italiano pagliaccio, de paglia, “palha”, porque eles usavam roupas acolchoadas com palha para parecerem mais engraçados e para agüentarem as pancadas que davam uns nos outros.                   Um sinônimo de palhaço que agora anda em desuso é bufão. Tal palavra vem do Italiano buffare, “debochar, zombar, rir de alguém”, provavelmente com origem onomatopaica a partir do som buf-, de deixar o ar sair em sinal de desprezo. O verbo bufar tem a mesma origem.                    Mas que deliciosas empadas! Esta palavrinha vem do Latim panis, através do Espanhol empanada, nome dado inicialmente a alimentos fritos sob uma camada de material com farinha.                    No entanto, a gente sempre tem que se cuidar para não comer descuidadamente uma empada, não vá se machucar ao morder uma eventual azeitona no seu interior, palavra que vem do Árabe az-zaitûn, que queria dizer tanto a oliveira quanto o seu fruto.                    Não sei por quê, mas falar neste salgadinho me trouxe à mente a expressão cirurgia plástica. Devo explicar que plástica, no caso, não é porque as pessoas ficam com as caras sem expressão que nem uma boneca de plástico; essa palavra vem do Latim plasticus, o mesmo que o Grego plastikos, “capaz de ser moldado”, de plastos, “moldado”, de plassein, “moldar”. A idéia é de que as pessoas possam “moldar” seu corpo conforme seus desejos de beleza. Ih, ih, ih.                     O uso da palavra plástico para designar o material que conhecemos tão bem, hoje feito de derivados de petróleo, é de 1909, cunhado por Leo Baekeland, que inventou a baquelita. Eu ainda conheci os telefones feitos com baquelita; só a parte que se retirava do gancho para falar era do tamanho e peso de vários celulares de hoje.                      Que maravilha, estes pasteizinhos! Estão uma delícia; saibam que o nome deles vem do Italiano pasta, “massa”, que vem do Latim pasta, “massa” também. Mais remotamente, veio do Grego pasta, “mistura salgada de alimentos”, de pastos, que queria dizer “polvilhado, salgado”, de passein, “espalhar”.                       Nem precisam me perguntar, que já explico: o pastel que muitas pessoas usam para fazer quadros não é de comer mas tem relação com estes aqui no meu prato, sim. Seu nome vem do Italiano pastello, “material reduzido a uma pasta”, e foi a palavra escolhida para designar a mistura de certas ceras com pigmentos que era usada para colorir. Aliás, ainda é.                       Quem se dedica à antiquada atividade de ler, coisa tão rara hoje, deve saber o que é um pastiche. Atualmente essa palavra designa um escrito calcado num outro, como quando se faz uma história com o Sherlock Holmes como detetive.                       Há um tempo, essa palavra significava “escrito feito com fragmentos de outros”. Seja como for, a palavra vem do Francês pastiche, que vem do Italiano pasticcio, que vem do Latim pasticium, “feito de massa”, isto é, juntando-se punhados de materiais e amassando para obter algo diferente.                       Que interessante, olhem: algum capetinha se dedicou a sacudir as latas de refrigerante e cada vez que alguém abre uma, é um banho ao redor! Parecem fontes!                        E aquele grupo ali adiante começou uma guerra com docinhos, que gracinhas! Pensando bem, esses brigadeiros e branquinhos parecem ideais para se atirar. E os sanduichinhos redondos, que deram tanto trabalho para fazer, estão servindo como aquelas armas de arremesso dos japoneses, as tais estrelas ninja. Como eles se divertem!                          Ai, mas que beleza! É sempre bom a gente ver a alegria pura e espontânea das crianças, tão ativas…                         Olha, olha! Estão correndo atrás das meninas com o bolo. Eles andaram vendo filmes de pastelão, os queridinhos. Só acho que o ideal era as velas não estarem acesas.                          Chiii! Puseram a torta fria no sofá e fizeram o gordinho sentar em cima. Mas ele não se rendeu: está tirando pedaços esmagados do traseiro e jogando nos outros. Como se divertem! Como é boa a infância! Como é bom não ter nada que ver com isso!                          Olhem o Joãozinho e o Sidneizinho levando aquelas duas meninas para o banheiro. Decerto vão ajudá-las a limpar alguma manchinha nas roupas.                           E aquelas pernas saindo de trás do sofá? Ah, é o meu bom Soneca que está fazendo o que mais lhe agrada: sesteando. Esse é outro que não incomoda; passa dormindo a aulinha inteira.                          E ali está passando o Artur, agarrado numa bandeja de doces, com as bochechas estufadas, dizendo “É meu” É meu!”                          Parece que as outras estão ocupadas tentando controlar os seus filhos, de modo que ficamos só nós duas para conversar, minha senhora. Admiro a sua tranqüilidade. Ah, sim, não é tanto que a senhora seja calma como porque a sua perna está engessada até em cima. Foi na ginástica, é? Felizmente isso passa com uma boa imobilização.                          Aproveitando que a senhora não pode sair daqui, vou contar-lhe a origem de algumas coisas que as crianças estão fazendo, tal como imundície. Esta palavra vem do Latim in, “sem”, mais mundus, “limpo”. O que estava imundus não estava limpo, que nem o que está acontecendo com esta sala.                            E sujeira vem do Latim succidus, “úmido, gorduroso, sujo”. É uma palavra aparentada com sucus, “extrato, suco”.Se pudermos considerar o refrigerante como um suco, ele está umedecendo quase tudo o que a gente vê aqui.                             Vai ser bem difícil tirar as manchas dos estofados, palavra essa que vem do Latim macula, “nódoa, erro”.                              Acho que o erro mesmo foi juntar essas crianças. Eu, que as agüento todos os dias úteis, sei que isso é perigoso.                               Parece  que vai ser difícil essas mães conseguirem algo com as crianças sem que se chame uma força de elite.                                Ué, já terminou a festa? Deve ser coisa moderna. As de antigamente duravam mais de meia hora. Permita-me despedir-me da dona da casa… Como? Ela saiu porta afora, aos berros, coberta de merengue e pão de sanduíche? Bem, deixem-lhe minhas recomendações.                                Coisa curiosa, esta época moderna e seus costumes. Acho que vou ter que me reciclar um pouco. Espero que me convidem para outras festas, pois tenho certeza de que abrilhantei esta.

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