Palavra peruca

PERUCA E COMPANHIA

 

São vinte horas e o Detetive das Palavras, X-8, ouve baterem à porta de seu misterioso escritório escondido num bairro obscuro.

Ele dá um grunhido e entra um conjunto de palavras que tinha marcado hora para descobrir sobre as suas origens. Elas entram, encantadas com o clima antigo do lugar, e se dispõem nos assentos voltados para a enorme escrivaninha onde o grande profissional pontifica.

Com um olhar glacial escondido pela aba do chapéu, ele aguarda uns segundos, para criar tensão (ele se orgulhava em apresentar um serviço completo para a clientela) e as saúda:

– Boa noite, prezadas palavras. Conforme combinado, vocês trabalham com o significado de cabelo e adjacências. Começaremos pela própria, sentada aqui à frente, cheirando a xampu:

Você vem do Latim capillus, “cabelo” mesmo, que deve se relacionar a caput, “cabeça”, que é onde costuma se assentar.

Ali atrás vemos madeixa, que veio do Latim metaxa, “fio de corda em bruto”, do Grego metáxa, “seda bruta”.

Já falaremos de você, mecha: sua origem é o Francês mèche, “tufo de cabelos, pavio”, possivelmente do Latim micca, de mesmo significado.

Sacudindo-se com jeito adolescente, notamos aqui perto a palavrinha franja. Ela vem do Francês frange, “cabelo caído sobre a testa, fios que pendem da borda de um tecido”. E esta foi para lá a partir do Latim fimbria, “franjas de um tecido, borda”, possivelmente de fibra, “fio, fibra”.

Ao seu lado se encontra topete, que para variar veio do Francês toupet, “cabelo levantado no alto da testa”, do Frâncico topp-, “parte alta, ponta”.

Meio encabulada ali vemos chinó, aquela peruca pequena que se usa no alto da cabeça. É mais uma que vem do Francês. Veio de chignon, um derivado de chaîne, “cadeia, corrente”.

Estranho, não? Explico: chaîne veio do Latim catena, “corrente”. As vértebras cervicais podem ser encaradas como uma corrente de ossos, donde a expressão em Francês antigo chaaignon de col –  assim com dois “A” mesmo  –  ou seja, “corrente do pescoço”, que acabou tendo o significado de “laço, coleira, massa de cabelos presa à nuca”. Esta origem é mais complicada e, portanto, mais saborosa.

A palavra estufou de orgulho pela sua ascendência.

– Já a origem de melena, “cabeleira longa, cabelo caído ao redor da cabeça”, é o Espanhol melena, usado para designar uma almofada usada nos animais de tiro para não se machucarem com a canga. A origem anterior dela é desconhecida.

É importante destacar que, neste sentido, essa palavra nada tem a ver com a melena, de uso em Medicina, que é um sinal clínico de sangramento gastrointestinal e que vem do Grego melaina, “escuro, enegrecido”.

E gadelha, também dita guedelha, designando um cabelo comprido e descuidado? Parece vir do Latim viticula, “haste da parreira”, de vitis, “parreira”.

Temos também grenha, com o mesmo significado, do Latim grennio, que nos veio do Celta grenn-, “pelo facial”.

Com ar teatral, à nossa direita, está gaforinha, muitas vezes grafada sem o “H”. Deriva do sobrenome de uma cantora lírica italiana que se apresentou em Portugal no começo do século XIX e fez sucesso com sua cabeleira loura cuidadosamente desalinhada. Seu nome era Isabella Gafforini.

Quando os cabelos estão trabalhados para manter um determinado aspecto, dizemos que neles foi feito um penteado, palavra que vem do Latim pecten, “pente”, que originalmente significava “rastelo, ancinho” e servia para limpar o chão das folhas secas.

Ou se pode sizer que ali se fez um toucado, de origem um pouco diferente. Vem do Celta tauka, “abrigo de pano para a cabeça”, que era muito usado há alguns séculos. O nome toucado passou a um tipo de chapéu feminino e depois passou a designar “adornos para a cabeça” e principalmente “penteado”.

Entrando numa área onde os cabelos já se confundem com a barba, temos as suíças. Estas vieram da época em que o Rei francês Luís XIII contratou mercenários suíços para o servirem, os quais usavam vistosas costeletas que achava que lhes dava um ar mais feroz. Acabaram fazendo moda.

E costeleta vem de costela, do Latim costa, que queria dizer “costela”, mas também “flanco, lateral”. Elas se situam nos lados do rosto, o que é uma boa explicação.

Para o fim deixamos a origem de peruca, que se apresenta meio desapontada ali. Você vem do Italiano parrucca, que se supõe que seja um cruzamento de pelo, “cabelo”, mais zucca, “abóbora”, também servindo para “cabeça”. Mas há controvérsias sobre a verdadeira origem.

O que quero contar agora se liga mais à História do que à Etimologia, mas não deixa de ser interessante.

Houve uma tremenda epidemia de sífilis na Europa pelo fim do século XVI. Entre tantos males que doença causava (cegueira, demência, paralisias) estavam manchas na pele e perda de cabelo em áreas do couro cabeludo.

Por essa época, a moda masculina eram os cabelos longos. Eles encarnavam o poder e a virilidade. Logo, apresentar-se calvo ou com pouco cabelo não ajudava a imagem de nenhum homem, ainda mais que tantas vezes a causa era uma doença venérea.

Imediatamente as perucas começaram a ser usadas para ocultar essas falhas. E em pouco passaram a ser empoadas com talquinhos perfumados, para ficarem mais agradáveis.

Lá pela segunda metade do século XVI, o rei Luís XIV (sim, o Rei Sol) da França, possivelmente afetado pela doença, passou a usar peruca. Logo depois foi seguido pelo seu primo Carlos II da Inglaterra.

Obviamente, seus cortesãos imitaram suas Altezas Reais, sendo seguidos logo por burgueses e militares.

As perucas também ajudavam com outro problema: como as pessoas precisavam raspar as cabeças para ajustá-las, os piolhos pararam de infestar as cabeças.

Claro que eles se mudaram então para as perucas, mas estas eram limpas pela fervura, coisa que seria mal recebida se fosse feita direto na pessoa. Isso ajudou em muito a higiene pública.

A história das perucas disseminadas pela população começou a fenecer com a Revolução Francesa, já que o uso delas era associado à nobreza. Na Inglaterra, um imposto sobre o talco para elas surgido em 1795 ajudou a desbancá-las. Mesmo assim, ainda hoje lá elas fazem parte da vestimenta profissional na Justiça.

E aqui as deixo, prezadas palavras-clientes, remoendo pensamentos sobre as estranha condutas dos homens e voltando para suas casas com a cultura aumentada.

Resposta:

CABELOS

 

Me-ni-nas! Parem com isso, larguem os cabelos umas das outras! Basta eu me virar para o quadro-negro para se formar às minhas costas uma turbamulta de moçoilas se puxando mutuamente os apêndices capilares. E o meninos, que deveriam agir como cavalheiros e apartá-las, ficam só olhando, se divertindo e dando risadas, olha aí!

Nem quero saber por que foi que a presente guerra começou entre vocês; larguem umas das outras, ajeitem-se e vamos ouvir um pouco de Etimologia, que só assim vocês se aquietam.

Para começar, cabelo vem do Latim capillus, “cabelo” mesmo, que deve se relacionar a caput, “cabeça”, que é onde costuma estar o dito cujo.

Existe uma coisa chamada capilé, que pode ser um suco de avenca ou, mais genericamente, um refresco de frutas, ou mesmo um tipo de bebida alcoólica.

Pois esse nome, apesar de ter esse som tão africano, é do Latim: veio do Francês capillaire, “suco feito com a capilária, um tipo de avenca, que deriva de capillum por lembrar uma cabeleira.

Seja como for, Tia Odete recomenda fortemente vocês a não tentarem fazer caldos e sucos de nenhuma planta. Uma assustadora percentagem delas é tóxica e eu não quero ter que comparecer a nenhum enterro.

Não preciso explicar que cabeleira vem de “cabelo”, imagino eu. Sei que vocês são mais inteligentes do que parecem.

Mas esta palavra tem um sinônimo pouco conhecido, coma.

Não ouvi, pode repetir, Valzinha? Sim, o seu vizinho de condomínio está em coma desde que o marido da vizinha que ele visitava todos os dias quando ficava sozinha para fazer massagens nas costas desconfiou do bem-estar que ela apresentava ultimamente, chegou mais cedo em casa e os pegou em plena massagem…

Tá bem, tá bem, mas você se refere a outra palavra, que vem do Grego kôma, “sono profundo”.

E favor não falar mais nessas coisas que estão sempre acontecendo com seus vizinhos. De minha parte acho que os seus pais deveriam se mudar de lá.

Coma, sinônimo de “cabeleira”, vem do Latim coma, do Grego kóme, “cabeleira” mesmo.

Há uma bonita história sobre uma coma. A rainha do Egito, Berenice II, prometeu dedicar à deusa Afrodite o seu cabelo se seu marido, Ptolomeu II, voltasse sem danos de uma batalha.

Tendo ocorrido isso, ela cumpriu o prometido, cortou o  cabelo e o colocou no altar da deusa.

No dia seguinte, o cabelo tinha desaparecido e o astrônomo real apontava o surgimento de uma nova constelação no céu, que até hoje se chama Coma Berenices, “a cabeleira de Berenice”. Não é bonita a história?

Se foi verdade mesmo? Bem, a alternativa é que algum puxa-saco da Corte tenha dado sumiço nos cabelos, falado com o Astrônomo e inventado a história para deixar o casal real contente e com tendências à generosidade. O fato é que a constelação já existia, era a cauda do Leão.

E essa não a única ocorrência dos cabelos na Astronomia. Sabem os cometas, aqueles que quando vão aparecer prometem ser espetaculares e depois acabam sendo umas mixarias mal visíveis? Pois o halo de poeira e vapor que eles soltam e que os torna visíveis se chama coma, na parte situada junto ao núcleo. É como se fosse os cabelos soltos ao vento solar desse corpo celeste.

Não é lindo também?

Quando da conquista romana, uma parte de Gália era chamada Gallia comata, “Gália cabeluda”, pelo hábito de seus habitantes de usarem cabelos longos.

Mas esses apêndices da pele podem ser chamado também de pelos, do Latim pilus, provavelmente derivado de capillus.

Quando uma pessoa não tem lá muito cabelo, ela recorre à peruca. Este nome vem do Italiano parrucca, que se supõe que seja um cruzamento de pelo, “cabelo”, mais zucca, “abóbora”, também servindo para “cabeça”. Mas não assino embaixo, pois há controvérsias.

Esta comparação é boa, pois muitas pessoas não têm conteúdo que valha mais do que o de uma abóbora em seu crânio.

E o cabelo pode ser classificado como liso, do Latim lisius, “sem aspereza, liso”. Pode ser crespo, do Latim crispus, “ondulado, retorcido”. Ou ondulado mesmo, do Latim unda, “onda”, sendo que muito machos naufragaram neste tipo de onda sem água.

Pode ser louro, do Latim laurus, “da cor das folhas secas do loureiro”, castanho, da cor da castanha, que veio do Latim castanea, , o nome do fruto de cor amarronzada e pode ainda ter qualquer cor que se imponha à vontade da dona e exista na farmácia.

E agora, que as meninas perderam apenas uns poucos chumaços das suas comas e terminou a aulinha, vão todos para casa e cuidem bem dos seus cabelos.

Resposta:

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