Palavra propina

ORIGEM DA PALAVRA

Palavras: propina

Qual o significado inicial da palavra propina?

Resposta:

Essa palavra deriva do Grego PRO-, “a favor”, mais PINEIN, “beber”.

Assim, ocultava-se o suborno dizendo que aquelas moedas eram “para beber” alguma coisa.

“Gorjeta” tem uma formação semelhante, vem do Latim GURGUIS, “garganta”: era uma graninha para o beneficiado “molhar a garganta”.

Como se vê, o hábito é dos mais antigos.

Encurralado Num Beco Escuro!

 

X-8 está satisfeito. Acabou cedo o seu trabalho de hoje, entregando as respostas pedidas por uma cliente. Mal passa das 21 horas e ele está livre. Receber dinheiro sempre o deixa de bom humor, e hoje o deixou com fome.

Resolve que vai fazer algo pela economia do bairro e do país em geral: vai sair e comer pizza, em vez de fazer o seu lanche no escritório, como sempre.

Fecha as janelas do seu escritório em preto-e-branco. Sai, chaveia a porta, verifica se ela está bem trancada.

Precauções exageradas. O bairro é tão ruim que nem os bandidos se atrevem a chegar ali. Ninguém desconfia, mas o índice de crimes é baixíssimo, simplesmente pelo aspecto assustador daquelas quadras esquecidas pela municipalidade. Essa foi uma das razões para ele se estabelecer ali. Além do aluguel barato, é claro.

Afinal, ele tinha a raríssima formação de Detetive Particular e Etimologista e estava firmemente resolvido a usar aquilo para ganhar dinheiro. Vivemos num mundo capitalista; juntar grana na área de serviços essenciais não é proibido nem é pecado.

Deixando de lado os seus projetos de vida, o detetive desce as escadas muito sujas do seu edifício comercial/residencial e anda pela calçada.

Ele aprendeu a gostar daquele ambiente noir, das calçadas cheias de lixo, das marcas redondas de luz que os postes lançam no chão escuro, dos bares e estabelecimentos decadentes abertos para poucos fregueses.

Ele se dirige resolutamente para a esquerda. É uma figura que chamaria a atenção se estivesse noutro lugar. Usa uma gabardine cor de areia maior do que o seu tamanho e um chapéu de aba bem enfiado na cabeça, de modo que nada se enxerga do seu rosto.

Faz a imagem, embora amarfanhada e pouco graciosa, daqueles detetives das histórias americanas da década de 1950. Ou pelo menos tenta.

Caminha algumas quadras por aquela paisagem que lembra Roma depois dos bárbaros e chega à Pizzaria do Porco.

Trata-se de um estabelecimento com grandes janelas, mesas antigas de mármore, redondas, cadeiras duras e geralmente com uma pata mais curta. Tem ventiladores sujos de moscas no teto muito alto, girando a uma velocidade ridiculamente lenta.

É atendida por garçonetes de saias muito curtas e meias arrastão que há muito tempo trabalhavam no ramo do entretenimento individual mas que agora, quiçá por falta de clientes, resolveram fazer uma vida mais pacata.

O dono, o Porco Garcia, é irmão do Garcia que possui o bar em frente ao edifício de X-8. Eles são gêmeos.

Idênticos na sua gordura, na barba por fazer no bigode caído, na sua falta de higiene. Só que este usa sempre uma misteriosa toalha de rosto cinzenta caída sobre a cabeça.

Ninguém sabe por quê. Será apenas para fazer gênero? Para ser distinguido do irmão? Alguns sussurram que é para esconder uma horrível cicatriz causada por uma barata há muito tempo.

Dizem que a tal barata teria sido encontrada numa de suas pizzas, com o conseqüente desagrado do cliente, que era um lutador de sumô em regime de engorda.

Outra hipótese é que a toalha esconderia uma bela cabeleira loura encaracolada cuidadosamente mantida, um capricho peculiar do pizzaiolo.

O único que se sabe é que ninguém se arrisca a perguntar a razão daquilo.

O detetive entra e toma assento numa das mesas do fundo, voltado para a porta. Assim ele não será apanhado de surpresa por … por… deixa pra lá. A vida fica mais interessante se a gente providencia algum colorido. E imaginação não lhe falta.

Olha e vê Odila, a sua garçonete favorita. Estala os dedos em sua direção, como cabe a um rude policial. Mas os dedos apenas fazem “ffft”, um som chocho e decepcionante.

Ele roga uma praga entre dentes: esquecera de retirar as luvas de couro. Precisar de luvas de couro preto com a borda dobrada para fora ele não precisa, mas isso acrescenta vários pontos ao charme romântico que ele pensa espalhar ao redor. Só não dá é para estalar os dedos com elas.

Retira as luvas disfarçadamente, mas àquela altura Odila já o viu e se aproxima, dengosa como sempre, rebolando:

– Olá, bonitão? O que vai ser hoje? Posso pedir dispensa agora e aí a gente sobe para o meu apartamento aqui em frente, que tal? Sei servir os pratos mais quentes que você já viu…

– Não, bêibi. Nunca quando estou a serviço. Vim apenas comer enquanto espero um criminoso passar pela rua.

Odila sempre faz isso para melhorar a sua gorjeta. Se, por acaso, algum cliente topar, ela desconversa.

Mas o pobre detetive, em sua inexperiência nesses assuntos, não sabe como são essas coisas. Acha que é verdade. E acha que ela acredita quando diz que está trabalhando. Sente até uma certa pena da coitada da moça que aparenta passar o tempo apaixonada, pensando nele.

Mas quem escolhe a vida da luta contra o crime não pode se comprometer. É duro, mas é a vida, bêibi.

Mostrando-se decepcionada e fazendo beicinho, Odila diz:

– Já que você não quer isso… O que vai ser então?

– O de sempre – X-8 acha uma glória pedir assim.

Claro que, nas histórias de detetive, “o de sempre” é um Bourbon com soda, um gin-fizz, uma taça balão com conhaque ou coisa parecida. Mas no caso dele, quer dizer uma fatia de pizza Seis Queijos e uma fatia de Pizza Surpresa com um copo de guaraná bem gelado.

A pizza Seis Queijos é coberta por seis pedaços do queijo que estiver sobrando no momento, não pensem que são seis tipos diferentes. Isso inclui as cascas também. E a pizza Surpresa foi o jeito de nomear uma fatia recoberta por material comestível de difícil identificação, que de cada vez se apresenta diferente. Daí o nome.

Mas a massa é boa, fina (não tanto por imitar as verdadeiras pizzas italianas mas por economizar insumos), o cheiro do queijo torradinho é tentador.

Em breve Odila traz o pedido e, como sempre, diz que ele foi sorteado para receber a Oferta da Casa grátis – ela mesma.

X-8 recusa polidamente, achando que às vezes seria melhor não ter tanto charme, para evitar trabalho. Odila encolhe os ombros; afasta-se, com jeito de amuada, e em trinta segundos se esquece do freguês.

Ele come as fatias com as mãos, tentando inutilmente evitar que caia molho e queijo derretido na sua gabardine. Azar; esta refeição vale a pena. Já estava na hora de mandar lavá-la mesmo. A última vez tinha sido há dois ou três anos, ele não se lembra.

Come devagar, saboreando a sua liberdade. Bebe o guaraná, que desliza gelado pela sua boca e vai se encontrar com a pizza ali adiante.

Enche a barriga pensando na vida, que não está das piores. Se os seus pais o vissem agora! Com um florescente escritório de pesquisas etimológicas, respeitado pela clientela, sabendo aplicar os mais modernos princípios de “marketing” – passou rapidamente por esta parte – podendo comer o que bem entendesse e quando bem entendesse…

Seus pais estavam errados quando se opuseram à sua ida para a Faculdade de Etimologia. Preferiam juntar dinheiro para comprar um carrinho de pipoca novo, para que ele pudese suceder ao pai na praça. Coitados, que o Céu os tenha em paz. O maior presente para eles era que ele estava bem.

Dali a meia hora pagou a conta para Odila e deixou uma boa gorjeta, meio culpado por não corresponder à paixão dela.

Aproveitou para explicar à moça que gorjeta vem do Latim gurguis, “garganta”, já que o dinheiro servia para molhar a dita cuja. Acrescentou que a palavra propinaquer dizer exatamente o mesmo, em Grego, de pro-, “para” e pinein, “beber”. Disse que, se ela trabalhasse na França, receberia um pourboire, literalmente “para beber”.

Despediu-se e saiu para a calçada deserta. Começou a andar lentamente, barriga contente, enquanto pensava automaticamente nos étimos que lhe vinham à cabeça:

Pizza aparenta vir do Grego pitta, “bolo, alimento assado feito com farinha”. Fez-se a hipótese de que venha mais remotamente de peptos, “cozido, digerido”. Aliás, esta palavra lembra dispepsia, sintoma de desconforto gástrico que casualmente costumava acompanhar as refeições na Pizzaria do Porco. Ela é grega, formada por dis-, “mau, mal feito” e pepsys.

O tomate que vem sobre a fatia tem seu nome derivado do Náhuatl, idioma da região do México, onde era tomatl, “a fruta que incha”, de tomana, “inchar”.

Alíás, este idioma nos deu também o xocolatl, de xococ, “amargo”, e atl, “água”. Na época, esta era uma bebida quente, amarga e apimentada. Com o tempo e as novas receitas virou o nosso chocolate, em barras e doce.

E o queijo? Este vem do Latim caseus, com origem mais remota no Indo-Europeu kwat-, “azedar, fermentar”. Na França – onde se entende do assunto – o nome tem outra origem: é fromage, que vem do Latim formaticum, de forma, “molde, forma”.

E assim ia o corajoso detetive, distraído com os seus pensamentos, os pensamentos que nunca lhe permitiam saber o que eram a solidão ou o tédio, virando esquinas, caminhando com calma, até que ele percebeu que nunca tinha passado por aquele lugar.

Voltou sobre os seus passos e virou para outro lado, andando mais um pouco.

Também não era por ali.

Tentou a rua transversal. Agora, sim. Aquele rato morto estava ali quando ele passou para a pizzaria. Seguiu em frente. Mas, pensando bem, o rato estava virado para o outro lado e era menor antes… Era outro mesmo, pois ele deu com um muro fechando a viela em que se tinha metido.

Com pezinhos frios e úmidos, o medo percorreu rápido os desvãos da sua cabeça e largou um pensamento como se botasse um ovo: se isto fosse uma história em quadrinhos, ao se virar ele veria a entrada da ruela tomada por vultos iluminados por trás, quietamente ameaçadores, sem possibilidade de fuga.

Voltou-se, resolvido a sair dali o mais rápido que pudesse.

E viu a entrada da ruela tomada por vultos iluminados por trás, quietamente ameaçadores, sem possibilidade de fuga.

– Sonho idiota! – pensou, mas sabia muito bem que aquilo não era sonho.

Os vultos começaram a se aproximar lentamente, por entre as caixas velhas, latas de lixo e pequenas poças dágua. Chegaram até bem perto.

Ele sentiu o cheiro de fumaça e de falta de banho. Procurou freneticamente em seus bolsos: clipes, caneta, bloquinho para anotações, o dinheiro que ele tinha recebido pelo seu último trabalho, guardanapos de papel subtraídos na Pizzaria, um chiclete de Tutti-Frutti… Nada que pudesse ajudar numa situação daquelas.

Os vultos se moviam tranqüilamente, decerto por perceberem que ele não poderia sair sem esbarrar neles. Chegaram perto e sentaram sobre caixotes, ainda barrando a passagem.

Como num gesto combinado, todos estenderam as mãos para ele, que olhou para ver as lâminas que ameaçavam a sua vida.

As mãos estavam vazias, com a palma voltada para cima, no gesto de quem pede.

Agora que os vultos tinham chegado perto, ajudado pela lâmpada de uma sacada próxima, ele pôde ver melhor. Eram todos palavras: Mendigo, Pedinte, Esmoleiro. Algumas eram palavras estrangeiras: Beggar, Pordiosero, Limosnero, Linyera.

Então ele percebeu que o medo havia sido gerado apenas pela sua consciência e pelos estereótipos; enfim, pela sua própria cabeça. Deu-se conta de que isso ia render uma agitada sessão com o seu psiquiatra naquela semana.

As pobres palavras apenas queriam ajuda para sobreviver. Expressavam isso claramente com sua atitude corporal.

Ele puxou um caixote mais alto que os outros, sentou-se em frente a elas e começou a falar. Disse que percebia que elas lutavam por cada migalha que lhes permitisse manter o coração batendo e que ele sabia que isso era resultado das políticas governamentais que há muito tempo contemplavam mais a sobrevivência dos homens no poder do que os anseios do povo e das palavras. E que ele, naquele momento, ia tentar dar a sua pequena contribuição, diretamente para eles.

– Por exemplo, Mendigo, você sabia que a sua origem é de menda, “quem tem defeito físico”? Como esta ocorrência em épocas antigas implicava em que a pessoa não teria meios de ganhar bem a vida, o significado adquiriu a conotação de “pobre” e depois a de “pessoa que vive de caridade”. Existem Ordens Mendicantes na Igreja Católica, que começaram com a idéia de serem sustentadas pela comunidade. A palavra mentira tem a mesma origem.

Voltou-se para outra palavra:

– E você, Esmoleiro, sabia que vem do Grego eleemosyne, “piedade, mercê, favor”? Em Grego Eclesiástico, adquiriu o significado de “donativo, caridade”. Assim, você é parente ali de Limosnero, do Espanhol limosna, que tem exatamente a mesma origem.

– Quanto a Pedinte, ali: evidentemente, sua origem é o verbo latino petire, que significava tanto “exigir, solicitar, pedir” como, originalmente, “atacar, ir em frente”. A origem mais remota ainda é o Indo-Europeu pet-, “voar”, por estranho que pareça.

– Os senhores estrangeiros que nos honram com a sua presença não escolheram um lugar dos melhores para pedir dinheiro; em todo caso, posso dizer que ali o Beggar, Inglês, teve seu nome derivado de uma ordem de irmãos leigos pedintes, os Beghards, do Holandês baggaert, “mendicante”.

Esta ordem em pouco tempo ficou com má reputação porque muitas pessoas que não pertenciam a ela começaram a pedir dinheiro em seu nome. E a base da palavra está no Germânico beth-, “pedir”, que passou a beg atualmente em Inglês, com o mesmo sentido.

– E Pordiosero é uma palavra espanhola de origem muito expressiva. Vem da invocação do pedinte ao solicitar esmola: “Por Dios”, ou seja, “Por Deus”.

– O amigo Linyera é do Lunfardo, a gíria portenha, em grande parte derivada do Italiano. No dialeto do Piemonte, llinger significava “pobre”, de onde se fez linghera, “peão, trabalhador por tarefa”, que originou o atual linyera.

No beco escuro, as palavras estavam mudas de assombro por terem recebido aquela lição. Enquanto ruminavam as idéias em suas cabeças obnubiladas pelo pouco exercício, X-8 intrepidamente passou entre elas, despediu-se, saiu do beco e foi a passo acelerado para a rua que ainda não havia testado, a qual logo o levou a caminhos bem conhecidos.

Já em casa, depois de um bom banho ter tirado o cheiro de pizza que grudava em todos os que freqüentavam a Pizzaria do Porco, deitado com seu pijama de listras azul e branco, o detetive pensava que naquele dia finalmente tinha feito algo fundamental pelas palavras pobres da região.

E sem cobrar um tostão! Ficou com os olhos marejados de tanta generosidade.

O sono dos justos tomou conta da sua mente e do seu corpo e ele dormiu muito bem.

Resposta:

Gárgula

É noite na pior parte da cidade. Aliás, no resto dela também.

No seu escritório mal-encarado, X-8 espera uma cliente que tinha marcado hora por telefone. Ela havia exigido que não houvesse mais ninguém na sala de espera. Ele garantiu que não haveria.

Fácil: seu escritório não tinha sala de espera. Fora da sua porta reforçada, com a placa de latão brilhante que dizia apenas “X-8”, apenas o corredor sujo e mal iluminado, onde ninguém se atreveria a ficar esperando.

Ele está com a sua roupa de trabalho: uma gabardine cor de areia, amarfanhada e com a gola levantada, que o oculta quase todo. Um chapéu desabado sobre o rosto completa a tarefa. Nenhuma cliente conhece o seu aspecto físico. “É melhor assim”, gosta de pensar ele, com a vaga noção de que não sabe bem o que isso quer dizer, mas que é bastante dramático.

A porta é discretamente arranhada.

– Entre – diz ele.

A cliente empurra a porta e entra.

Apesar dos seus anos de crua experiência etimológica, X-8 se espanta. Sua boca se abre, felizmente sem ser vista do exterior.

Ele já tinha lido sobre isso, mas é a primeira vez que vê: ela usa um chapéu de abas largas, do qual pende um véu negro que vai até abaixo dos ombros. Apesar de inusitado, o conjunto feito com o vestido cinza-escuro e os sapatos de saltos altos e finos é inegavelmente elegante. E, principalmente, é usado com uma elegância fácil, inconsciente, capaz de bolir com quaisquer hormônios masculinos. As curvas estão logo ali, abaixo do tecido, e isso se percebe mesmo sem ver.

O detetive se sente remetido às histórias mais clássicas de sua profissão.

A figura alta e esguia com véu desliza harmoniosamente, sem ruído, parecendo nem tocar no chão. As curvas do corpo descrevem sinuosidades doces, macias, tépidas e vários outros adjetivos menos apropriados. Senta-se à frente da escrivaninha enorme, cruza as pernas e começa a falar. Sua voz é baixa e aveludada, suas palavras são concisas, sem qualquer hesitação:

– Sou uma palavra que só circula em meios cultos e viajados. Sou bastante requerida por estudiosos de História, Arte e Arquitetura. Mas me sinto muito solitária. Minhas origens… Não sei nada sobre elas. Estou à procura de meus parentes, se é que os tenho.

X-8, apesar de sua frieza, não pôde deixar de sentir um certo rubor de lisonja: então ele já era conhecido na elite! Ótimo.

Ela levantou o misterioso véu, mostrando quem era: Gárgula. Mostrou também olhos de um verde profundo enlouquecedores, um nariz de desenho delicado, lábios que eram um verdadeiro atentado ao pudor.

O detetive fez um considerável esforço para não deixar transparecer nenhuma emoção ao tratar dos seus emolumentos, mais gastos gerais, mais taxas, seguro, etc. etc. Sentiu-se suar um pouco quando combinou chamar a cliente assim que tivesse algo a relatar.

A intrigante figura velada se retirou, deixando atrás de si um perfume caro iluminando o ar e um investigador estranhamente perturbado. Perturbado a ponto de só mais tarde perceber que se tinha esquecido de cobrar um adiantamento, o que era absolutamente inédito para ele.

Após longos minutos fitando o vazio e aspirando o perfume, ele sacudiu a cabeça com força e se dirigiu à sua estante atulhada de livros.

Ao ver de quem se tratava, ele logo fizera idéia do que havia por trás. Mas, para fazer um trabalho completo e honesto, como sempre, ele abriu vários livros, pegou caneta e papel e começou a fazer anotações, absorto.

Na hora de escrever o seu laudo, hesitou. Apresentá-lo no habitual papel de jornal sujo e amassado, batido na sua máquina de escrever velha? Ou usar aquele papel especial cor de pêssego e imprimir numa fonte romântica? Dar a habitual impressão de profissional descuidado com as formalidades ou agradar mostrando-se sofisticado? X-8 se espantava consigo mesmo: nunca se havia visto num dilema deste tipo.

Raciocinou que aquela cliente devia preferir o que se podia esperar daquela ambientação sórdida. Resolveu escrever no papel pobre de sempre, na mesma máquina. Mas pelo menos não sujou nem amassou o papel depois de datilografar.

Eis o que resultou:

GÁRGULA –

Ao que tudo indica, a antiga raiz garg- ou gurg- surgiu como onomatopéia, uma imitação de sons feitos com a garganta, sem modulação pelas cordas vocais ou boca.

Daí surgiu o Grego gargarízein, “gargarejar”, que passou para o Latim como gargarizare. Neste idioma, gurgulio significava “garganta, esôfago, goela”. Gurgis era usado para “redemoinho”.

Dessas origens surgiu uma grande quantidade de palavras de uso atual, como:

Regurgitar – fazer sair de volta pela garganta.

Gargalhada – emitir sons de riso.

Gargalheira ou gorgueira – parte da armadura que protegia o pescoço.

Gargalo – o pescoço das garrafas. Por extensão, o ponto de estreitamento do trânsito, das atividades, de processos.

Gargantear – o ato de contar vantagens, de se supervalorizar.

Gargantilha – adorno para se usar em torno do pescoço.

Gargomilo – quando alguém está “cheio até os gargomilos”, está cheio até à garganta; não cabe mais.

Gorgolejar – o ruído de líquidos jorrando ou sendo vertidos, como através de um gargalo.

Gorjeta – esta é inesperada! Era a quantia de dinheiro dada a uma pessoa “para molhar a garganta”. O Francês tem uma palavra mais clara para isso: pourboire, literalmente “para beber”.

Se a pessoa que merece a recompensa for abstêmia, não deixe de lhe dar algo como propina, que significa “para comer”.

A Gárgula, distinta cliente, é um enfeite arquitetônico usado nos pontos de saída das calhas, nas igrejas antigas da Europa. Eram esculturas de seres fantásticos de cuja boca jorrava a água da chuva que caía nos telhados.

Dias depois, chamada por X-8, Gárgula compareceu ao desleixado escritório. O corajoso investigador havia tomado um banho caprichadíssimo e estava muito bem penteado. Claro que nada disso se enxergava de fora, mas ele estava se sentindo o máximo.

Esta cliente era uma palavra altiva e cônscia do seu valor. Deslizou para o escritório sem dizer nada, almofadada pelas suas curvas. Sem tirar o véu, ergueu levemente a cabeça, num inequívoco gesto de: – “E”?

X-8 não quis falar, por medo de lançar um grasnido. Indicou com o queixo o envelope pardo lacrado sobre a mesa. Em silêncio, a palavra o pegou, colocou-o numa finíssima bolsa de couro negro, largou um maço de dinheiro atado com uma fita dourada em seu lugar.

Deu meia-volta e flutuou para fora, uma visão etérea, deixando atrás de si um perfume intenso e um detetive abalado.

Primeiro o detetive embolsou o dinheiro, depois chegou à janela para ver a cliente pairar pela rua suja, três andares abaixo, passando sob a luz crua da lâmpadas dos postes. O véu se movia em torno dela, sugerindo mistérios sobre mistérios, em camadas concêntricas.

X-8 nunca se tinha sentido tão apropriado em sua profissão.

Encostado à parede que fazia ângulo com a janela, pensou que o momento pedia um cigarro. Ah, lançar as preguiçosas volutas de fumaça azulada para o ar na solidão do devaneio, acompanhar as suas formas caprichosas…

Se ao menos ele soubesse fumar!

Então, pelo menos um uísque. Como todo detetive particular, ele guardava uísque barato numa gaveta de arquivo metálico, com a letra “U” na frente. Pegou um copo de plástico, abriu a garrafa, aspirou profundamente o cheiro que saía do gargalo.

Tossiu, engasgou-se, fez uma cara de nojo irreprimível e guardou rapidamente a garrafa de volta. Foi até o frigobar que havia na sala ao lado, onde os clientes
não entravam, tirou uma lata de suco de morango e voltou para a janela.

Contemplou longamente a rua deserta, marcada a intervalos pelos círculos de luz, enquanto bebericava o seu suco. Ele tinha a sensação de enxergar o rastro de perfume por onde Gárgula tinha passado.

Precisou usar de todo o seu cinismo para evitar pensamentos doces sobre a cliente misteriosa que recém tinha saído.

Usou-o também para evitar a desmoralização despertada por aquela lata fria em sua mão.

– “Ossos do ofício”, pensou.

Ser um Detetive Etimológico é coisa para poucos. O sujeito tem que ser puramente profissional.

Mas, ao guardar a fita dourada que envolvera o maço de dinheiro na sua carteira, não pôde deixar de pensar que tinha o telefone de Gárgula em sua agenda.

Resposta:

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