Palavra punho

ARTICULAÇÕES

 

O Detetive das Palavras X-8 aguarda a clientela desta noite. Suas sessões coletivas têm sido rendosas. A ideia de atender a palavras com semelhança de significados teve muito sucesso. Ele pensa em como fazer para emitir carnês de cobrança quando ouve um barulho como de matraquear se aproximando pelo corredor sujo de um edifício descuidado num bairro insalubre.

Percebe que é o pessoal de hoje, relacionado a articulações, que bate os ossos pelo caminho.

Abre a porta e entram as palavras que representam nomes que muitas vezes são conhecidos de todos e que outras vezes são usados apenas pelos estudiosos.

Depois que elas estão todas acomodadas ele começa, com aquele ar frio de sujeito corajoso que ele assume tão bem e que deixa a maioria das palavras apaixonadinha por aquele profissional bruto, sagaz e seguro de si.

– Dou a todas as boas-vindas e desde já começo ali pela palavra articulação. Minha cara, você vem de uma raiz Indo-Européia ar-, “juntar, aproximar coisas, encaixar”, passando pelo Grego arthron, “junta do corpo”.

Em Latim, artus queria dizer “junto” e articulus era o seu diminutivo. Daí se fez “articulação”, significando “área onde dois segmentos distintos se juntam, se encaixam”.

Estranhamente, ela se acompanha de um significado bem distinto, ainda em pleno uso: o de “falar alto, com clareza”, que se explica pela necessidade de bem encaixar ou unir os diversos componentes de um discurso.

Logo ali vemos tornozelo, o nome de uma junta que se destaca nos esportes como problemática. Claro que não é dela a culpa e sim dos atletas que a exigem demais. A sua origem é o Latim tornus, particípio passado de tornare, “fazer girar, fazer dar voltas”.

Claro que as demais articulações fazem o mesmo, mas por algum motivo essa palavra ficou assim em Português. Aliás, ou muito me engano ou não há esse nome com essa origem em nenhum outro idioma.

Mais no fundo vemos joelho, que vem do Latim geniculum, diminutivo de genu, “articulação em geral, especialmente aquela entre fêmur e tíbia”.

Indo para o membro superior, vemos aqui ombro. Vem do Latim umerus, “ombro, espádua”. Os nomes de regiões anatômicas antes eram meio confusos; eles mudaram um tanto e hoje “úmero” é o nome  do osso do braço.

Abaixo dele temos cotovelo, do Latim cubitellum, diminutivo de cubitum, “articulação entre úmero e rádio”. Por muito tempo, cúbito foi o nome do outro osso do antebraço, até ser mudado para ulna.

E cubitum também originou uma medida de comprimento chamada côvado, equivalente em geral a 66 centímetros.

Já que estamos por esta área, olhemos para punho: sua origem é o Latim pugnus, do Grego pygmaios, “punho”.

Acrescento que de pygmaios também derivou nossa atual palavra pigmeu, que começou sendo aplicada a um povo africano lendário que mediria cerca de um côvado de altura. Suas lutas contra as cegonhas foram descritas por Heródoto, o historiador.

Um nome usado quase só por profissionais é a gonfose, do Grego gomphoun, “atarraxar, unir por cavilha”. Aplica-se à articulação da raiz dentária no alvéolo maxilar. Não se trata de uma articulação de mobilidade significativa, mas fazer um movimento de báscula num dente o faz jogar um pouco. Mas que ninguém tente isso em casa, que deixe para os dentistas.

As articulações intervertebrais são, como o nome diz, as que se situam entre as vértebras; são as que dão mobilidade à nossa coluna. Seu nome vem do Latim inter-, “entre, no meio de”, mais vertebra, nome que parece vir do verbo vertere, “dobrar, torcer”, já que a coluna funciona como se fosse um conjunto de dobradiças.

Existem também as articulações costovertebrais, onde a parte dorsal das costelas se articula com as vértebras. São pouco móveis, mas o seu conjunto nos permite resistir a choques importantes no tórax. Esse nome se forma a partir do Latim costa, “flanco, costas, costela”.

Mais no fundo desta sala vemos um grupo de articulações pequenas dando-se cotoveladas.

Muito bem, chegou a sua vez. Vocês são as articulações interfalângicas, de inter-, mais phalanx, palavra usada tanto pelos gregos como pelos romanos para dizer tanto “linha ou arranjo de homens para batalha” como “dedo do pé ou da mão”. Originalmente significava “tronco, pedaço de madeira”.

Seu nome em Anatomia vem do fato de que os segmentos dos dedos se alinham como homens aprestados para combater à moda antiga.

A base dos dedos das mãos, por sua vez, se articula com os ossos metacarpianos, que são aqueles que formam o dorso da mão. O nome aqui é metacarpofalângica, do Grego metakarpion, de metá-, “além, depois”, mais karpion, “pulso”. Essa parte da mão fica além ou depois do pulso.

Há um conjunto de ossinhos bonitinhos que dão o movimento da mão em relação ao punho e que são ditos ossos do carpo.

Nos pés temos a mesma situação, mas os ossos do peito do pé se chamam metatarsianos, de metá- mais tarsos, “tornozelo, sola do pé”, originalmente “superfície achatada”.

Temos também o correspondente aos ossos do carpo nos pés, os ossos do tarso.

Para terminar, pelo menos com as clientes que vieram hoje, falaremos sobre a articulação temporomandibular, a única móvel existente em nosso crânio. Ela se chama assim a partir do Latim tempora, plural de tempus, “tempo”. Consta que isso é porque em geral a passagem do tempo é notada inicialmente nas pessoas pelo surgimento de cabelos brancos na região sobre as orelhas.

E o resto da palavra vem do Latim mandibula, relacionado a mandere, “mastigar”, pois ela se dedica muito a essa atividade.

Nossa sessão se encerra por aqui. Façam bom uso de seus conhecimentos. Favor não chacoalharem muito pelos corredores para não acordar os vizinhos.

 

Resposta:

Pigmeu

É noite no pior bairro da cidade. Se fosse dia, não seria muito diferente. Através dos miasmas e da atmosfera ameaçadora das ruas desertas pode-se ver uma caixa de papelão, que um dia conteve um televisor, emborcada sobre a calçada. Até aí nada de mais, entre tanto lixo. O esquisito é o seu comportamento, pois ela se desloca sozinha pelo chão. Ela avança um pouco, pára, avança mais; às vezes bate num poste ou numa lata de lixo virada, emitindo um resmungo abafado. Arrastando-se desse jeito, ela chega até um edifício velho. A caixa misteriosa entra pela porta e se esgueira para dentro do corredor escuro. Vai até o fundo dele. Se alguém estivesse olhando, veria que ela se levanta um pouco e que dali sai um pequeno vulto. Este sobe rapidamente as escadas, tratando de não tropeçar nos jornais velhos, garrafas plásticas vazias e cascas de banana que por ali se amontoam. Alguns andares acima, X-8, o Detetive Etimológico, está destemidamente sentado à sua enorme escrivaninha. Como sempre, está com uma gabardine (onde se viu detetive de verdade sem gabardine?) e chapéu. No escritório meio escuro não se pode enxergar o seu rosto. Hoje ele está muito contente, orgulhoso até: revisando os seus registros percebeu que, em seus anos de trabalho etimológico, nunca perdeu um caso.Até agora, todas as palavras que o haviam consultado tinham saído satisfeitas, o mesmo acontecendo com a conta corrente dele. Só ele sabe a coragem que é necessária para enfrentar os livros, fazer cuidadosas pesquisas, conferir várias vezes em dicionários de diferentes idiomas, preparar um documento verídico, fazer toda uma atmosfera para comprazer a clientela… Sim senhor, não é para qualquer um! Em seu devaneio, ele quase cai da cadeira quando a porta se abre subitamente e se fecha com estrondo, permitindo a entrada do que parece, à primeira vista, um rato grande. O recém-chegado olha ao redor e se aproxima de um banquinho desconjuntado. Pega-o com esforço e o coloca sobre a cadeira dos clientes, em frente à escrivaninha. Trepa na cadeira, sobe no banco e se senta de frente para X-8. Só então é que este vê exatamente quem foi que entrou: Pigmeu. – O senhor é o famoso consultor etimológico? – perguntou este, com uma vozinha fina. – Famoso consultor, não. Sou o famoso detetive etimológico, responde X-8, que sempre tinha tido uma queda pela aventura e pela investigação, além de uma autoestima estratosférica. Só não estava agora num alto cargo da Polícia porque havia sido recusado por ter pés chatos. Ou por ser um chato, isso não havia ficado bem claro na época. – Pois umas clientes suas… – Já sei, gostaram dos meus serviços e lhe deram o meu nome e endereço. Isso não é novidade. – disse X-8 friamente. Ele sabia que a clientela adorava ser tratada rudemente por um sujeito enigmático vestindo gabardine. – Sim. Puxa, o que me disseram é verdade. O senhor sabe tudo! Então, deixe-me explicar: sendo Pigmeu, sempre que me citam é num contexto de pouco respeito, de exotismo, de insignificância. Eu gostaria de saber se tenho origens decentes ou se é melhor amarrar um pedaço de tijolo no pescoço e me jogar num balde dágua de uma vez. O que é que o senhor pode fazer por mim? Com a sua longa experiência, X-8 percebeu imediatamente que estava lidando com um caso de risco. Palavras deprimidas facilmente podem fazer besteira. E isso ele não podia deixar acontecer; se a pobre criatura se suicidasse, ia ser um desastre para as suas estatísticas. E talvez ele nem chegasse a ser pago. Mas, quando palavras correm perigo, ele sabe como agir. – Posso fazer muito. Excepcionalmente, dada a sua simpatia, abrirei uma brecha na minha agenda e lhe fornecerei uma resposta rapidamente. Aguarde com fé e tranqüilidade. Parece-me praticamente certo que você terá notícias que a farão sentir-se melhor. Volte aqui em três dias. Tome aqui um folheto dos meus serviços. Na última página está a minha tabela de honorários. Observe bem que o seu caso se enquadra na tabela de Serviços Urgentes, aquela ali em vermelho. Ao ver que a palavra arregalava os olhos enquanto lia os preços, X-8 acrescentou: – Naturalmente, se a senhora quiser contratar um profissional menos qualificado, que é capaz de levar um tempão para lhe passar uma empulhação qualquer sem certificação, ao contrário de mim… – N-não, vá em frente. Eu tenho uma poupança que estava fazendo para o estudo dos meus filhos e… Agradecido por ter encontrado alguém tão previdente e garantidos os seus polpudos lucros, X-8 voltou ao seu jeito durão: – Então volte no dia marcado, sem dizer a ninguém aonde vai. E, por favor, venha sem armas. – baixou mais ainda o chapéu sobre os olhos. Como ficou sem enxergar nada, manteve-se imóvel, para não fazer bobagem. Pigmeu agradeceu e foi embora, sentindo-se um pouco melhor porque alguém tinha achado que ela era capaz de andar armada por aí. X-8 esperou a porta bater, ergueu um pouco o chapéu para confirmar que estava sozinho e foi consultar seus livros. Mexeu, remexeu, fez anotações com uma excelente caneta-tinteiro num belo papel creme. Em particular, ele só usava material muito bom para escrever, mesmo para os rascunhos. Sobre a escrivaninha, no entanto, à vista da clientela, havia maços de folhas de ofício em papel de jornal, canetas Bic sem tampa e lápis pretos com ponta rombuda, meio roídos. Ele tinha o maior nojo daquele material, mas sabia que era aquilo que se esperava de um detetive que trabalhava num lugar assim. Feitas as pesquisas, revisou as anotações, colocou uma folha de papel barato na máquina de escrever antiga e barulhenta e redigiu: Pigmeu – Do Grego pygmaios, “punho”. Pygúsios era a palavra que se usava para designar uma medida de comprimento, definida como a distância entre o cotovelo e a ponta do dedo médio. Esta medida variava conforme a região, mas se situava a partir dos 45 centímetros. Em Português, a medida se chama côvado. No Brasil, valia 68 centímetros, o que faz pensar que que o dono desse antebraço devia ter sido muito grande. Os pigmeus eram conhecidos já no mundo antigo, através de contatos da Grécia com o Egito, que por sua vez se ligava a outras culturas e povos da África. Dizia-se que eles mediam um côvado de altura (um evidente exagero), donde o nome que lhes foi dado. Viajantes gregos descreviam o povo pigmeu e suas lutas constantes contra as cegonhas, que migravam da Europa para a terra deles no inverno. Pygmaios passou para o Latim como pugnus, também com o significado de “punho”. Pugnar em nosso idioma vem de pugnare, “lutar”; significa batalhar ardentemente por aquilo em que se acredita, mesmo sem ter que usar os punhos. Uma palavra derivada desta é propugnar, com o sentido de “espalhar, tentar cooptar com veemência”, quase como na base da porrada. Pugilista é a pessoa que se dedica, por esporte ou profissão, à luta com os punhos. Punhal é uma arma branca que se segura com o punho para atacar. Vem do Francês poignard, de poing, “punho”, derivada do já citado pugnus. Atualmente, na França, a expressão armes de poing designa “armas de fogo curtas”, como revólveres e pistolas. Impugnar vem do Latim in, “contra”, e pugnare. Significa “lutar contra” e é a ação que em Direito se toma quando existe desconformidade com uma sentença ou laudo. X-8 tirou o papel da máquina, com um gesto rápido que fez aquele “rrriiip” que tanto lhe agradava. Olhou o papel: ajeitadinho demais. Deu-lhe umas discretas amassadas, esfregou-o um pouco no chão. Satisfeito, guardou-o num envelope pardo grande. Três noites depois, Pigmeu estava à frente do grande detetive. Desta vez, a palavra tinha-se enfiado numa sacola de supermercado. Nervosa, tinha-se esquecido de fazer buracos para os olhos. Devido a isso, bateu em vários móveis no caminho da escrivaninha. X-8 pensou que o trajeto pelas ruas até chegar ali devia ter sido muito atrapalhado. Mas, enfim, se era para falar com ele, valia a pena. – Depois de me pagar, leia aqui na minha frente, disse o detetive. Pigmeu leu o papel meio amassado à luz do cartaz luminoso, que entrava aos borbotões pela janela. Impossível cena mais clássica: a pequena palavra sentada sobre o banco que X-8 tivera o cuidado de colocar sobre a cadeira, no escritório cuidadosamente mal arrumado e empoeirado, o homem de capa imóvel à sua frente, as sombras nas paredes… Para isto valia a pena trabalhar! Que ambiente! Pigmeu terminou de ler e falou, com alegria: – Veja só, tenho um passado relacionado com lutas! E ainda por cima, minha história é muito antiga, com citações dos gregos clássicos e tudo! Puxa vida, nunca pensei… Pegou a sacola de supermercado para sair e de repente se imobilizou; estufou o peito, embolou a sacola e a jogou sobre a escrivaninha, com gesto brusco e provocador. Relanceou um olhar desafiador para X-8. O detetive se encolheu visivelmente perante aquela atitude. Pigmeu pulou para o chão e se dirigiu à porta sem dizer nada. A palavra saiu, batendo a porta atrás de si, atrevidamente. Afastou-se de cabeça erguida, pisando forte com os pequeninos pés, chutando o lixo que encontrava pelo caminho em vez de se desviar dele. Agora ela sabia o seu valor! A vida ia ser diferente daqui por diante! Ia fazer um curso de caratê, ninguém mais ia fazer pouco caso dela! Seguiu pelas ruas sujas, rumo à sua casa, louca para comprar briga. X-8 olhava da sua janela. Sentiu-se muito maduro por ter fingido se assustar, dominando a tendência de dar um peteleco naquela figurinha insignificante, bestinha atrevida. Aquilo havia sido um reforço naquele ego tão sofrido que talvez durasse toda a vida. Mais uma vida salva… Realmente, competência compensa, pensou, enquanto imaginava distraidamente a que hora ia passar no banco no dia seguinte para depositar os seus bem-havidos ganhos.

Resposta:

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