Palavra refrigerante

SUPERMERCADOS

 

Na vida moderna, os supermercados são estabelecimentos difíceis de dispensar, já que ali se pode encontrar com conforto a maioria do material necessário para a vida doméstica num único endereço.

Vamos então ver qual a origem de diversas palavras que nomeiam o seu conteúdo e seus setores.

 

SUPERMERCADO –  a ideia inicial foi mesmo a de oferecer coisas para comprar de modo a economizar tempo: por um lado, o tempo do cliente, que precisava ir a diversos lugares como a fruteira, a padaria, o açougue, o armazém. Por outro, o do pessoal que atendia, pois tudo era vendido a granel, sendo inicialmente pouco o material que se vendia que fosse empacotado de forma individual.

O nome do estabelecimento se formou a partir do Latim super, “além, sobre”, mais mercatus, “local de compra e venda, mercado”, de merx, “mercadoria, material para vender”.

 

PRATELEIRA – no interior do supermercado os objetos precisam ser expostos ao alcance dos compradores. Aí entram as prateleiras, que provavelmente derivam de prato, já que estes eram guardados sobre estas divisórias horizontais.

 

ESTANTE –  do Latim stare, “estar, ficar de pé, ficar firme”, pois é o papel que lhes cabe.

 

GÔNDOLA –  veio do Grego kondyra, “espécie de barco”, de kontos, “pequeno”, literalmente “de cauda curta”, através de um cruzamento com o verbo italiano dondolare, “balançar”. Alguém deve ter achado aqueles conjuntos de prateleiras parecido com uma gôndola, talvez por ter feito alguma viagem a Veneza.

 

AÇOUGUE –  o lugar onde se compra carne vem do Árabe as-suq, “feira, mercado, lugar de comércio de alimentos”.

 

HORTIFRUTIGRANJEIROS –  o setor onde a gente compra o produto de pomares, granjas e hortas. Formou-se há pouco tempo a partir de horta, do Latim hortus, “pátio cercado, jardim, verduras”, mais fruta, do Latim fructus, particípio passado de frui, “aproveitar, usar”, e que significa “produto, fruto, proveito”, mais granja, do Latim granica, derivado de granus, “grão”, pois  nesse local  se plantava o grão para preparar os alimentos.

 

LIMPEZA –  deriva do Latim limpidus, “transparente, claro, nítido”, do Grego lampein, “reluzir, brilhar”.

 

HIGIENE –  origina-se da Mitologia grega, vejam só. Deriva do nome da filha de Asclépios, o deus da Medicina, Higéia, que queria dizer “sã, em bom estado de saúde”.

 

ROUPA – nem todos os supermercados as vendem. Quando é o caso, vem do Francês robe, “vestimenta longa e solta”, do Germânico rauba, “botim, material roubado ao inimigo”, entre o qual certamente havia roupas. O inimigo certamente não gostaria do que lhe tinha acontecido.

 

BEBIDAS –  do Latim bibere, “beber, tomar líquidos”.

 

VINHOS –  do Latim vinum, do Grego oinos, “vinho”. É mais uma palavra que nos vem das lindas histórias da Grécia antiga.

Conta-se que um pastor chamado Estáfilo percebeu que algumas das cabras que ele cuidava apresentavam uma especial afeição por mastigar os frutos de uma determinada planta até então desconhecida.

Em vez de as comer, ele espremeu as frutinhas e as misturou com água do rio. Deve ter esperado algum tempo, o que permitiu a fermentação, pois quando bebeu ficou tão faceiro quanto os bodes.

Após se recuperar da primeira bebedeira do mundo, ele foi contar ao seu rei sobre aquele estranho achado. O rei, vaidoso, colocou o seu próprio nome na bebida. Como resultado, hoje temos uma pujante indústria resultante da atenção de um pastor às suas cabras.

 

CERVEJA –  vem do Latim cerevisia, com origem gaulesa.

 

REFRIGERANTE –  deriva do Latim refrigerans, “aquilo que refresca, que esfria”, de refrigerare, “esfriar, refrescar”, formado por re-, intensificativo, mais frigerare, “esfriar” propriamente, derivado de frigus, “frio”.

 

REPOSITOR –  sabe aqueles rapazes e moças que ficam colocando material nas prateleiras à medida que a gente as vai esvaziando? Pois o nome da função deles vem do Latim re-, “de novo”, mais ponere, “colocar, botar, pôr”. Sem eles não há compras.

 

FIAMBRERIA – do Espanhol fiambre, do Latim frigidamen, de frigidus, “frio”, porque se trata de alimentos a serem comidos em temperatura ambiente, sem exigirem preparação pelo calor.

 

CAIXAS – veio do Italiano cassa, do Latim capsa, que era o nome dado às caixas cilíndricas onde os cidadãos de Roma guardavam os seus livros (na verdade, rolos de papiro ou material semelhante). E capsa vem do verbo capere, em sua acepção de “conter”.

Como o dinheiro recebido por uma venda era guardado antigamente em caixas, esse nome até hoje se aplica ao pessoal que recebe num estabelecimento.

 

EMBALAGEM –  vem do Francês balle, “trouxa, pacote”, do Germânico balla, “pacote”.

 

Resposta:

TIA ODETE VAI AO CINEMA

 

– Boa tarde, prezada senhorinha que vende as entradas, hoje resolvi vir ao cinema para me distrair um pouco, coisa que eu não fazia há uns vinte e cinco anos.

Enquanto eu abro a minha bolsa e remexo nela à procura da carteira, sabe como é, a gente nunca encontra o que quer numa bolsa de mulher, quiquiqui, até rimou, ih, ih, ih, colherei a ocasião para lhe explicar que essa palavra vem do Francês cinéma, encurtamento de cinématographe, nome dado à sua invenção ao redor de 1890 pelos irmãos Lumière, a partir do Grego kinema, “movimento”, de kinein, “mexer, deslocar, movimentar”.

É daí que temos a palavra cinéfilo, de cinema ou cine, mais philos, “amigo, o que gosta de”.

Bem, senhorinha, agora que a iluminei um pouco vou ficar esperando aqui nesta sala tão grande e bonita. Sei que ainda falta meia hora para começar a sessão, mas eu gosto de chegar cedo para garantir lugar. Vou até aquele balcão tão cheiroso ali adiante.

 

– Boa tarde, senhorinha que vende as pipocas em baldes enormes, que aparentam ser feitos para alimentação de muares e não de seres humanos. Sabia que o nome desses floquinhos de milho estourados que você vende vem do Tupi pi’poka, de pira, “pele”, mais pok, “estourar, arrebentar”?

E que o refrigerante vendido aqui em quantidades astronômicas deriva do Latim refrigerans, “aquilo que refresca, que esfria”, de refrigerare, “esfriar, refrescar”, formado por re-, intensificativo, mais frigerare, “esfriar” propriamente, derivado de frigus, “frio”?

Ficou espantada, não? Vou aproveitar um pouco do seu tempo para afastá-la um pouco das trevas da ignorância e contar que a origem da palavra filme, que é o que vim ver,  é o Germânico fellom, “pele de animal”, aparentado com o Latim pellis, “pele”?

Sei que o filme que passa agora nos cinemas costuma ser uma tira de triacetato de celulose e que não é extraída dos animais, mas a Etimologia tem dessas.

Já que falei nisso, posso explicar que a tela onde é projetada a imagem vem do Latim tela, “tecido”. Os primeiros filmes eram mostrados sobre um pano branco. Mas não na Roma antiga, veja bem!

E projeção vem do Latim projicere, formado por pro-, “à frente”, mais jacere, “lançar, atirar”. Não, não se atira nenhuma pedra, não, o que se lança aqui é apenas a imagem.

Já que falta bastante para começar a sessão, vou contar que ela nos chegou do Latim sessio, “ato de se sentar” de sedere, “sentar”. Uma “sessão”, seja parlamentar, de cinema, de reunião de condomínio ou o que seja, normalmente é feita com as pessoas sentadas.

Vejo que a distinta senhorinha está com o ar um pouco zonzo, não será pelas emanações da pipocas? Com o intuito de fazê-la sentir-se melhor, vou comentar que a origem de metragem, que se aplica à duração dos filmes, é o Grego metron, “medida”. Sim, isso mesmo, o mesmo metro que as costureiras usavam na gente para fazer as roupas antes que todas elas viessem prontas da China.

Vi no cartaz de uma propaganda ali fora que mais adiante vai passar um filme em 3D. Já lhe ocorreu perguntar de onde vem mais uma sigla neste mar de siglas em que vivemos? Ela vem do Inglês third dimension, “terceira dimensão“. Ou seja, trata-se de uma imagem que dá a sensação de profundidade além das outras duas de largura e altura.

Por incrível que pareça, filmes em 3D foram tentados pouco antes de 1900. Mas exigiam um equipamento tão complicado que não podiam ser exibidos em salas comuns. Houve outras tentativas depois, mas elas deslancharam tecnicamente mesmo foi na década de 1950.

Já que você quer saber a origem da palavra sala, que acabo de citar, vou contar que esta não vem do Latim e sim do Germânico sal, “prédio de um compartimento apenas, reservado para hospedagem”.

Quando eu era jovem  –  sim, eu já fui jovem, por incrível que pareça  –  existia em todo cinema a figura do lanterninha, um moço que levava os retardatários para tomarem assento sem tropeçarem na sala às escuras. Ele usava para esse fim uma lanterna, como você pode desconfiar.

O nome desse aparelho tão útil veio do Latim lanterna, “equipamento para iluminar”, vindo do Grego lampter, “tocha”, do verbo lampein, “trazer a luz, iluminar”.

Creio que não preciso lhe contar que as da época romana não funcionavam com pilhas e sim com alguma fonte de fogo em seu interior.

Alguns dos filmes que vemos são documentários, derivado do Latim  documentum, “demonstração, prova, lição”, mais tarde “instrumento oficial escrito”, de docere, “ensinar, mostrar”. Quando bem feito, um documentário pode ser um valioso auxiliar da difícil arte de ensinar.

Posso lhe ensinar ainda…

Pois não, cavalheiro que pede licença para interromper nossa tão elucidativa conversa? Ah, o senhor é o gerente do cinema? Muito prazer Odete Sinclair, professora de Etimologia do Maternal, em que posso servi-lo?

Não diga, mas que horror! A empresa proprietária deste cinema acaba de fechar fraudulentamente e a Polícia Federal está se encaminhando para cá, para prender todos os presentes, principalmente os inocentes que nem eu? E o senhor gentilmente se oferece para pagar o dobro do que eu despendi em minha entrada? Ah, e preciso me cuidar para não regressar jamais por aqui, porque provavelmente vão estar vigiando por muito tempo?

É muita cortesia, avisar-me de tão momentosa situação e ainda me dar dinheiro. Seguirei o seu conselho, pois se vê que o senhor é pessoa preparada e que sabe o que diz. Vou saindo de fininho já-já.

Olhe, a delicada senhorinha que vende as pipocas e que já passava mal enquanto eu lhe trazia preciosa iluminação etimológica desmaiou, deve ter ficado impressionada com a situação. Cuide bem dela e até loguinho!

 

Resposta:

REFRIGERANTE

  

X-8 está esperando os clientes da noite quando ouve um barulho borbulhante no corredor de seu edifício. O estranho ruído se aproxima da porta de seu escritório.

O detetive, alarmado, olha rapidamente a sua agenda e logo se acalma. Hoje ele está esperando palavras relacionadas a refrigerante. Devem ser elas que estão chegando.

Quando ouve baterem à porta, ele faz a sua voz mais gelada, mais detetivesca, mais indiferentemente corajosa, para mandar que entrem. Ele sabe que ela, mais a ambientação de escritório da época em que o Batman era escoteiro sempre impressionam suas palavras clientes.

Dito e feito. Um conjunto delas entra com mostras de timidez no escritório cuidadosamente desleixado e se acomoda nos assentos em frente à grande escrivaninha e ao grande profissional.

Ele as cumprimenta, frio como o aço, e logo começa a derramar a sua sabedoria:

Refrigerante e correlatos, hein? Muito bem, vamos começar por você, o cabeça do grupo. Seu nome vem do Latim refrigerans, “aquilo que refresca, que esfria”, de refrigerare, “esfriar, refrescar”, formado por re-, intensificativo, mais frigerare, “esfriar” propriamente, derivado de frigus, “frio”.

Qualquer líquido gelado pode assumir esse papel, não é necessário que ele seja industrializado. Aliás, é bom não esquecer que gelado vem do Latim gelidus, “frio, gelado”, de gelum, “gelo”.

Refresco é um bom exemplo; vem desse mesmo re-, mais o Frâncico frisk, que originalmente remetia ao sentido de “novo, jovem, robusto”. Esse significado acabou incluindo também o de “com baixa temperatura”.

Como exemplo, temos aqui laranjada. Este nome obviamente vem de laranja, que vem do Persa narang, através do Latim aurantia e do Italiano arancio. E mais distante ainda, sua origem é o Sânscrito nâgarang’a, que equivale a dizer “o fruto favorito dos elefantes”.

Portanto, cuidado, laranjada: se você encontrar um elefante com sede, estará correndo um sério risco.

A palavra se encolheu toda.

O detetive prosseguiu:

– Aí do seu lado está limonada. Naturalmente você sabe que vem de limão, do Francês limon, “fruta cítrica” (era um nome genérico de início), do Árabe laimun, do Persa limun, “fruta cítrica”.

Ali no fundo se acomoda xarope. Você entrou em nosso idioma vindo do Italiano sciroppo, do Árabe sharab, “bebida, vinho, café”, relacionado a sciariba, “beber”.

Com o passar do tempo, a palavra se fixou na conotação de “líquido de elevada concentração de açúcar para ser bebido diluído em água”; por extensão metafórica, há quem a use querendo dizer “pessoa que cansa, aborrecida”.

A palavra ficou com cara triste.

X-8, que tinha feito um excelente curso de Psicologia das Palavras na Faculdade, logo a aliviou:

– Mas não se amofine por isso, porque você não tem culpa de como as pessoas são. Além do mais, você tem mais de um significado, não é bárbaro?

A cliente deu um sorriso tímido, de reconhecimento.

– Muito bem. Agora olhemos ali para tubaína. Você entrou no Português do Brasil, pelo que pesquisei, em 1932.

Foi criada pelo fabricante como Turbaína, com “R”, para nomear uma bala de algo parecido com tutti-frutti. Depois passou a designar um refrigerante feito pela mesma empresa. No uso popular, perdeu o “R” e passou a designar refrigerantes baratos de vários tipos e origens.

Também se encontra aqui entre nós o Guaraná, que vem de waraná, do idioma dos Sateré-Maué, uma tribo amazônica. Esse pessoal é muito poético para dar nomes, pois essa palavra quer dizer “fruta que lembra os olhos de uma pessoa”. Ela tem uma parte preta que se destaca sobre o fundo vermelho e que lembra uma pupila.

A palavra citada corou de vaidade.

– Já vamos falar de você, gasosa, que está tão irrequieta aí. Você se chama assim por conter um gás chamado dióxido de carbono. Quando a gente tira a tampa da garrafa, ele se libera porque fez contato com a pressão atmosférica de fora dela, que é menor.

Aí surgem as bolhinhas tão nossas conhecidas. Isso quando algum engraçadinho não sacudiu previamente a garrafa, caso em que o líquido se espalha com violência para fora do recipiente, deixando o incauto que tirou a tampa todo molhado.

Há uma história interessante por trás disso. Foi assim: em 1767 um genial cientista inglês, chamado Joseph Priestley, por acaso se mudou para uma casa ao lado de uma cervejaria.

Sendo muito curioso, ele foi meter o bedelho na fábrica e descobriu que a cerveja, durante o processo de fermentação, gerava o que era chamado de ar “fixo” ou “mefítico”.

Prontamente ele descobriu que, ao se colocar um recipiente com água na região ocupada pelo tal ar diferente, ela adquiria uma característica efervescente, dada pelas bolhas do que ele ainda não sabia que era o gás carbônico, que se dilui muito facilmente na água.

Na época, havia um grande mercado para as águas minerais, que tinham adquirido status de medicação. Muitas delas eram naturalmente cheias de bolhas desse gás e o nosso pesquisador percebeu que havia descoberto uma maneira de colocar as bolhas em água comum, o que acabou gerando toda uma indústria.

A primeira bebida com as características carbonatadas e refrescantes de um refrigerante foi lançada em 1771. Um tal de Schweppes, suíço radicado na Inglaterra, aproveitou o processo de Priestley e criou a água tônica com quinino, com a intenção de vendê-la nos mercados da África e Ásia. Isso porque o quinino teria a capacidade de ser profilático contra a malária, que abundava nessas regiões.

É por isso que a água tônica tem um gosto amargo. Mas atualmente a quantidade dessa substância que a bebida apresenta é inferior à dose medicamentosa. Portanto, que ninguém pense em tratar alguém de malária com garrafadas de água tônica.

Bem, por hoje já lidamos com as origens de todas as presentes, de modo que vocês podem passar aqui e deixar os meus honorários sobre a mesa… Obrigado, obrigado…

Passem bem e cuidem-se na saída, este bairro é muito insalubre.

 

Resposta:

REFRIGERANTE

  

X-8 está esperando os clientes da noite quando ouve um barulho borbulhante no corredor de seu edifício. O estranho ruído se aproxima da porta de seu escritório.

O detetive, alarmado, olha rapidamente a sua agenda e logo se acalma. Hoje ele está esperando palavras relacionadas a refrigerante. Devem ser elas que estão chegando.

Quando ouve baterem à porta, ele faz a sua voz mais gelada, mais detetivesca, mais indiferentemente corajosa, para mandar que entrem. Ele sabe que ela, mais a ambientação de escritório da época em que o Batman era escoteiro sempre impressionam suas palavras clientes.

Dito e feito. Um conjunto delas entra com mostras de timidez no escritório cuidadosamente desleixado e se acomoda nos assentos em frente à grande escrivaninha e ao grande profissional.

Ele as cumprimenta, frio como o aço, e logo começa a derramar a sua sabedoria:

Refrigerante e correlatos, hein? Muito bem, vamos começar por você, o cabeça do grupo. Seu nome vem do Latim refrigerans, “aquilo que refresca, que esfria”, de refrigerare, “esfriar, refrescar”, formado por re-, intensificativo, mais frigerare, “esfriar” propriamente, derivado de frigus, “frio”.

Qualquer líquido gelado pode assumir esse papel, não é necessário que ele seja industrializado. Aliás, é bom não esquecer que gelado vem do Latim gelidus, “frio, gelado”, de gelum, “gelo”.

Refresco é um bom exemplo; vem desse mesmo re-, mais o Frâncico frisk, que originalmente remetia ao sentido de “novo, jovem, robusto”. Esse significado acabou incluindo também o de “com baixa temperatura”.

Como exemplo, temos aqui laranjada. Este nome obviamente vem de laranja, que vem do Persa narang, através do Latim aurantia e do Italiano arancio. E mais distante ainda, sua origem é o Sânscrito nâgarang’a, que equivale a dizer “o fruto favorito dos elefantes”.

Portanto, cuidado, laranjada: se você encontrar um elefante com sede, estará correndo um sério risco.

A palavra se encolheu toda.

O detetive prosseguiu:

– Aí do seu lado está limonada. Naturalmente você sabe que vem de limão, do Francês limon, “fruta cítrica” (era um nome genérico de início), do Árabe laimun, do Persa limun, “fruta cítrica”.

Ali no fundo se acomoda xarope. Você entrou em nosso idioma vindo do Italiano sciroppo, do Árabe sharab, “bebida, vinho, café”, relacionado a sciariba, “beber”.

Com o passar do tempo, a palavra se fixou na conotação de “líquido de elevada concentração de açúcar para ser bebido diluído em água”; por extensão metafórica, há quem a use querendo dizer “pessoa que cansa, aborrecida”.

A palavra ficou com cara triste.

X-8, que tinha feito um excelente curso de Psicologia das Palavras na Faculdade, logo a aliviou:

– Mas não se amofine por isso, porque você não tem culpa de como as pessoas são. Além do mais, você tem mais de um significado, não é bárbaro?

A cliente deu um sorriso tímido, de reconhecimento.

– Muito bem. Agora olhemos ali para tubaína. Você entrou no Português do Brasil, pelo que pesquisei, em 1932.

Foi criada pelo fabricante como Turbaína, com “R”, para nomear uma bala de algo parecido com tutti-frutti. Depois passou a designar um refrigerante feito pela mesma empresa. No uso popular, perdeu o “R” e passou a designar refrigerantes baratos de vários tipos e origens.

Também se encontra aqui entre nós o Guaraná, que vem de waraná, do idioma dos Sateré-Maué, uma tribo amazônica. Esse pessoal é muito poético para dar nomes, pois essa palavra quer dizer “fruta que lembra os olhos de uma pessoa”. Ela tem uma parte preta que se destaca sobre o fundo vermelho e que lembra uma pupila.

A palavra citada corou de vaidade.

– Já vamos falar de você, gasosa, que está tão irrequieta aí. Você se chama assim por conter um gás chamado dióxido de carbono. Quando a gente tira a tampa da garrafa, ele se libera porque fez contato com a pressão atmosférica de fora dela, que é menor.

Aí surgem as bolhinhas tão nossas conhecidas. Isso quando algum engraçadinho não sacudiu previamente a garrafa, caso em que o líquido se espalha com violência para fora do recipiente, deixando o incauto que tirou a tampa todo molhado.

Há uma história interessante por trás disso. Foi assim: em 1767 um genial cientista inglês, chamado Joseph Priestley, por acaso se mudou para uma casa ao lado de uma cervejaria.

Sendo muito curioso, ele foi meter o bedelho na fábrica e descobriu que a cerveja, durante o processo de fermentação, gerava o que era chamado de ar “fixo” ou “mefítico”.

Prontamente ele descobriu que, ao se colocar um recipiente com água na região ocupada pelo tal ar diferente, ela adquiria uma característica efervescente, dada pelas bolhas do que ele ainda não sabia que era o gás carbônico, que se dilui muito facilmente na água.

Na época, havia um grande mercado para as águas minerais, que tinham adquirido status de medicação. Muitas delas eram naturalmente cheias de bolhas desse gás e o nosso pesquisador percebeu que havia descoberto uma maneira de colocar as bolhas em água comum, o que acabou gerando toda uma indústria.

A primeira bebida com as características carbonatadas e refrescantes de um refrigerante foi lançada em 1771. Um tal de Schweppes, suíço radicado na Inglaterra, aproveitou o processo de Priestley e criou a água tônica com quinino, com a intenção de vendê-la nos mercados da África e Ásia. Isso porque o quinino teria a capacidade de ser profilático contra a malária, que abundava nessas regiões.

É por isso que a água tônica tem um gosto amargo. Mas atualmente a quantidade dessa substância que a bebida apresenta é inferior à dose medicamentosa. Portanto, que ninguém pense em tratar alguém de malária com garrafadas de água tônica.

Bem, por hoje já lidamos com as origens de todas as presentes, de modo que vocês podem passar aqui e deixar os meus honorários sobre a mesa… Obrigado, obrigado…

Passem bem e cuidem-se na saída, este bairro é muito insalubre.

 

Resposta:

Aniversário

                   – Então a senhora é que é a mãe do Humbertinho! Muito prazer, sou a Tia Odete, professora dele. Ele é o único aluninho que me convidou para a sua festa de aniversário até hoje.                  Devo lhe dizer que ele é certamente o mais brilhante de todos, um verdadeiro exemplo de menino que não só não incomoda como colabora com a sua cansada mestra.                  É sempre ele que me traz um copo dágua quando estou muito atacada, que se oferece para apagar o quadro-negro, que me conta quem foi que fez as malfeitorias. Prevejo um grande futuro para ele. Não duvido que chegue à Presidência. Não sei de quê, mas vai chegar à Presidência.                 Venha cá, meu querido, a Tia Odete trouxe uma pequena lembrança para você. É um bloquinho de anotações com um lápis para você escrever os nomes dos seus coleguinhas que fizeram coisas ruins e que você vai me passar depois.                   Não agradeça; total, é só o que uma professora esforçada pode dar hoje em dia, com os salários baixos que se recebe e… mas vamos falar de coisas melhores.                   Certo, vou sentar com as outras senhoras aqui na sala. Boa tarde, como vão? Bonito aniversário, este.                    Hum. Naturalmente todas vocês sabem de onde veio a palavra aniversário, não? Como? Verdade que não? Então eu vou ter o prazer de contar, já que não pode haver ocasião melhor.                    Ela vem do Latim, de anniversaria dies, “dias a serem observados em especial”. E anniversaria vem de annus, “ano”, mais vertere, “virar”, ou seja, quando se completava mais um ano dum acontecimento.                    A palavra annus deu – sim, Joãozinho, meu anjo? – não, a Tia Odete não chamou você, meu doce; vá continuar a sua brincadeira com as meninas atrás da porta, que hoje eu não tenho nada que ver com isso.                    Mas, como eu dizia, essa palavra originou muitas outras em Português, como anais, inicialmente “fatos lembrados a cada ano”, centenário, “o que tem cem anos”, anual, “o que acontece a cada ano”, como, por exemplo, receber uma turma nova de demônios para cuidar.                    Antigamente se fazia também festa pelo onomástico da pessoa. Isto vem do Grego onomázein, “nomear, atribuir um nome”, de ónoma, “nome”. Fazia-se uma festa no dia do santo cujo nome a pessoa usava. Note-se que nem sempre este era o dia do nascimento.                   Por exemplo, se alguém quisesse dar uma festa de arromba para mim no dia da minha santa onomástica, o faria ou no dia dedicado a Santo Odon, o abade de Cluny, que viveu no Século X ou no dia dedicado ao Santo Odon que foi bispo de Urgel, na Espanha, no Século XII. É que Odete é o feminino de Odon, em Francês.                   Claro que alguém só faria isso se achasse que eu tinha algum tipo de merecimento devido ao fardo que agüento todos os dias sem me queixar.                   E já que falei em festa mais de uma vez, eis também a ocasião de falarmos sobre a etimologia desta palavrinha tão simpática. Ela vem do Latim festae, “feriados”, que vem de festus, “festivo, alegre” e que se relaciona tanto com feriae, “feriado” como com fanus, “templo”. As festas religiosas foram, por muito tempo, uma rara ocasião de as pessoas se encontrarem, em épocas nas quais a maior distração que aparecia na aldeia era um enforcamento.                   Festa nos deixou também a palavra festão, que nada tem a ver com “festa grande”. Designa uma guirlanda, um ramo de flores pendente, e veio do Francês feston, que veio do Italiano festone, “ornamento festivo”. Foi muito usado como ornamento arquitetônico nas épocas em que os prédios não seguiam o modelo caixa de sapato.                   Também derivou daí festival, de festivalis, “referente a um feriado religioso”.                   Espera-se de uma festa que ela seja alegre, palavra que veio do Latim alacer, “animado, vivaz”. Essa palavra se encontra hoje muito pouco modificada na linguagem culta: álacre.                   Conhecem aquela poesia que começa com “Álacres saem as andorinhas do ninho…”? Não? Nem poderiam, pois é uma das modestas poesias que eu andei fazendo nas minhas raras horas de folga e que vou declamar agora perante tão distinta platéia, se me permitirem…                   Mas como vocês são gentis em correrem para me oferecer bebidinhas e comidinhas! Com a boca cheia não vou poder declamar. Fica para depois então.                   Este refrigerante está numa temperatura muito boa. Claro que todas sabem… Não? Vou contar então. Refrigerante vem do Latim refrigerare, “refrescar”, de re, partícula intensificativa, e frigo, “frio”. Quem me dera ter sempre um refrigério para a alma quando os filhos das senhoras aqui presentes começam a aprontar na aulinha!                   Mas, como sempre digo, passemos adiante e vejamos a origem do nome daqueles rapazes com estranhas vestes que foram contratados para alegrar as crianças. Palhaço vem do Italiano pagliaccio, de paglia, “palha”, porque eles usavam roupas acolchoadas com palha para parecerem mais engraçados e para agüentarem as pancadas que davam uns nos outros.                   Um sinônimo de palhaço que agora anda em desuso é bufão. Tal palavra vem do Italiano buffare, “debochar, zombar, rir de alguém”, provavelmente com origem onomatopaica a partir do som buf-, de deixar o ar sair em sinal de desprezo. O verbo bufar tem a mesma origem.                    Mas que deliciosas empadas! Esta palavrinha vem do Latim panis, através do Espanhol empanada, nome dado inicialmente a alimentos fritos sob uma camada de material com farinha.                    No entanto, a gente sempre tem que se cuidar para não comer descuidadamente uma empada, não vá se machucar ao morder uma eventual azeitona no seu interior, palavra que vem do Árabe az-zaitûn, que queria dizer tanto a oliveira quanto o seu fruto.                    Não sei por quê, mas falar neste salgadinho me trouxe à mente a expressão cirurgia plástica. Devo explicar que plástica, no caso, não é porque as pessoas ficam com as caras sem expressão que nem uma boneca de plástico; essa palavra vem do Latim plasticus, o mesmo que o Grego plastikos, “capaz de ser moldado”, de plastos, “moldado”, de plassein, “moldar”. A idéia é de que as pessoas possam “moldar” seu corpo conforme seus desejos de beleza. Ih, ih, ih.                     O uso da palavra plástico para designar o material que conhecemos tão bem, hoje feito de derivados de petróleo, é de 1909, cunhado por Leo Baekeland, que inventou a baquelita. Eu ainda conheci os telefones feitos com baquelita; só a parte que se retirava do gancho para falar era do tamanho e peso de vários celulares de hoje.                      Que maravilha, estes pasteizinhos! Estão uma delícia; saibam que o nome deles vem do Italiano pasta, “massa”, que vem do Latim pasta, “massa” também. Mais remotamente, veio do Grego pasta, “mistura salgada de alimentos”, de pastos, que queria dizer “polvilhado, salgado”, de passein, “espalhar”.                       Nem precisam me perguntar, que já explico: o pastel que muitas pessoas usam para fazer quadros não é de comer mas tem relação com estes aqui no meu prato, sim. Seu nome vem do Italiano pastello, “material reduzido a uma pasta”, e foi a palavra escolhida para designar a mistura de certas ceras com pigmentos que era usada para colorir. Aliás, ainda é.                       Quem se dedica à antiquada atividade de ler, coisa tão rara hoje, deve saber o que é um pastiche. Atualmente essa palavra designa um escrito calcado num outro, como quando se faz uma história com o Sherlock Holmes como detetive.                       Há um tempo, essa palavra significava “escrito feito com fragmentos de outros”. Seja como for, a palavra vem do Francês pastiche, que vem do Italiano pasticcio, que vem do Latim pasticium, “feito de massa”, isto é, juntando-se punhados de materiais e amassando para obter algo diferente.                       Que interessante, olhem: algum capetinha se dedicou a sacudir as latas de refrigerante e cada vez que alguém abre uma, é um banho ao redor! Parecem fontes!                        E aquele grupo ali adiante começou uma guerra com docinhos, que gracinhas! Pensando bem, esses brigadeiros e branquinhos parecem ideais para se atirar. E os sanduichinhos redondos, que deram tanto trabalho para fazer, estão servindo como aquelas armas de arremesso dos japoneses, as tais estrelas ninja. Como eles se divertem!                          Ai, mas que beleza! É sempre bom a gente ver a alegria pura e espontânea das crianças, tão ativas…                         Olha, olha! Estão correndo atrás das meninas com o bolo. Eles andaram vendo filmes de pastelão, os queridinhos. Só acho que o ideal era as velas não estarem acesas.                          Chiii! Puseram a torta fria no sofá e fizeram o gordinho sentar em cima. Mas ele não se rendeu: está tirando pedaços esmagados do traseiro e jogando nos outros. Como se divertem! Como é boa a infância! Como é bom não ter nada que ver com isso!                          Olhem o Joãozinho e o Sidneizinho levando aquelas duas meninas para o banheiro. Decerto vão ajudá-las a limpar alguma manchinha nas roupas.                           E aquelas pernas saindo de trás do sofá? Ah, é o meu bom Soneca que está fazendo o que mais lhe agrada: sesteando. Esse é outro que não incomoda; passa dormindo a aulinha inteira.                          E ali está passando o Artur, agarrado numa bandeja de doces, com as bochechas estufadas, dizendo “É meu” É meu!”                          Parece que as outras estão ocupadas tentando controlar os seus filhos, de modo que ficamos só nós duas para conversar, minha senhora. Admiro a sua tranqüilidade. Ah, sim, não é tanto que a senhora seja calma como porque a sua perna está engessada até em cima. Foi na ginástica, é? Felizmente isso passa com uma boa imobilização.                          Aproveitando que a senhora não pode sair daqui, vou contar-lhe a origem de algumas coisas que as crianças estão fazendo, tal como imundície. Esta palavra vem do Latim in, “sem”, mais mundus, “limpo”. O que estava imundus não estava limpo, que nem o que está acontecendo com esta sala.                            E sujeira vem do Latim succidus, “úmido, gorduroso, sujo”. É uma palavra aparentada com sucus, “extrato, suco”.Se pudermos considerar o refrigerante como um suco, ele está umedecendo quase tudo o que a gente vê aqui.                             Vai ser bem difícil tirar as manchas dos estofados, palavra essa que vem do Latim macula, “nódoa, erro”.                              Acho que o erro mesmo foi juntar essas crianças. Eu, que as agüento todos os dias úteis, sei que isso é perigoso.                               Parece  que vai ser difícil essas mães conseguirem algo com as crianças sem que se chame uma força de elite.                                Ué, já terminou a festa? Deve ser coisa moderna. As de antigamente duravam mais de meia hora. Permita-me despedir-me da dona da casa… Como? Ela saiu porta afora, aos berros, coberta de merengue e pão de sanduíche? Bem, deixem-lhe minhas recomendações.                                Coisa curiosa, esta época moderna e seus costumes. Acho que vou ter que me reciclar um pouco. Espero que me convidem para outras festas, pois tenho certeza de que abrilhantei esta.

Resposta:

Do NOT follow this link or you will be banned from the site!