Palavra sultão

CHEFES DE ESTADO

Palavras: , califa , doge , duce , emir , pendragon , sultão , tetrarca , , xógum

 

 

– Vô, acho que estou cansado de ver citarem presidentes, primeiros-ministros, e coisas assim. São muito poucas as escolhas.

– Você se refere às palavras usadas para os cargos mais importantes de uma nação? Ora, rapazinho, tantos outros… Por exemplo, rei, cacique, imperador, czar, rajá, príncipe…

– Pois é, prezado antepassado, mas a coisa não vai muito além. Eu gostaria de novidades no assunto.

– Parece-me é que você está com muito tempo livre nas mãos. Se estudasse mais, não se gastaria com isso.

– O senhor já disse que devanear traz criatividade.

– Verdade, penso assim. Eu estava apenas aproveitando para mangar de você.

Mas, ilustre descendente, devo dizer que há muitos títulos importantes que a maioria desconhece. Especialmente os pouco preparados que nem você.

– Pois então me conte sobre isso. Vou até me sentar aqui no banquinho para aguentá-lo.

– Vou permitir que o meu cérebro privilegiado comece a catar conhecimentos para espantá-lo. Ah, eis aqui.

Vamos começar por amir ou emir. É o título de líderes ou chefes militares em vários países de língua Árabe.

– Eu tive um coleguinha com esse nome há anos.

– É muito usado como nome próprio. Tem origem semítica e quer dizer “príncipe”, ou “aquele que dá ordens”. Não admira que seja bastante comum.

Outro que me ocorre é .

– Não venha me dizer que é o feminino de “coa”, Vô!

– Fique quieto. Essa não teve graça. Esta palavra se usou para os imperadores mongóis. Geralmente se apresenta na forma inglesa, Khan.

– Ei, tem a ver com o Gengis Khan?

– Milagre, Senhor, iluminaste as trevas mentais deste rapaz! –  disse o velho,  revirando os olhos para o céu.

– Eu também sei algo de História, Vô, embora não pareça.

– Muito bem, esse cavalheiro foi um de vários Khan que existiram e esta é uma palavra mongol para “soberano”, “chefe militar”.

– Mas esse título não se usa mais, não?

– Fique sabendo que este ainda está em uso na Ásia, Turquia e até no leste da Europa.

– Que coisa… Continue!

– Agora vou trazer à tona um título extinto: Pendragon.

– Esse eu também conheço, das histórias do Rei Artur!

– Está me saindo culto este rapaz. Um espanto. Muito bem, fique sabendo que esse era o título de diversos reis da Inglaterra e deriva do Galês Pen Draig, de pen, “cabeça”, mais draig, “dragão”.

– Legal, “cabeça de dragão”!

– Não, está mais para “dragão-chefe”. Acabou sendo confundido com um sobrenome e aplicado à família do rei Artur.

Indo mais para leste, também podemos lembrar os sátrapas. Estes eram os governadores de províncias em impérios remanescentes do Império Persa. A palavra vem do Grego satrapes, do Persa antigo xsaçapavan, “protetor da província”, onde a primeira metade da palavra queria dizer “reino ou província” e a outra, “aquele que protege, que defende”.

Em nosso idioma e em outros, hoje, essa palavra ostenta conotação pejorativa. Usa-se de pessoa que se apóia em alguém de maior poder para ter comportamento arbitrário e servil.

Indo mais longe ainda, encontramos o xógum, que era o nome de chefes militares no Japão em determinado período. Deriva do Mandarim chiang chun, “general”, uma expressão que queria dizer “chefiar o exército”.

Chegou a vez de falar sobre Sultão, “soberano de um país muçulmano”. Veio do Árabe sultan, “rei, soberano, poder”, do Aramaico shultana, “poder”.

O que me faz pensar em califa, nome que se usou para líderes de Bagdá até há muitos séculos e que teve seu papel no Império Turco também. Vem do Latim calipha, do Árabe khalifa, “sucessor” – no caso, de Maomé – de khalafa, “suceder”.

Podemos também lembrar o título do supremo magistrado das Repúblicas de Veneza e Gênova no século XVI, o Doge.

– O dono da marca de automóveis?

– Aquela marca é Dodge, e você sabe muito bem, não seja tolo. O título derivou do Latim dux, “líder”, do verbo ducere, “guiar”, chefiar”, que originou o nosso duque.

Originou também o título de Duce, assumido por Benito Mussolini como líder da Itália fascista.

– Puxa, eu não pensava que havia tantos títulos.

– Estes são apenas amostra. Temos também o , que…

– Já sei, foi quem inventou a famosa bebida…

– Nem mais um pio, ou expulso você daqui. Como eu ia dizendo, esta vem o Persa Shah, “rei, soberano”, uma alteração de xsayathiya, “rei”, do Indo-Iraniano ksayati, “ele tem poder sobre, ele comanda”.

– Vô, o senhor sabe um bocado!

– Eu não era assim quando nasci, meu caro. Aprendi através do estudo.

– Está quase me convencendo. Mas conte algo mais.

– Uma palavra que aparece na Bíblia e que deixa muitos intrigados é Tetrarca. Ela se refere ao soberano de uma quarta parte de província ou país na antiga administração romana. Vem do Grego tetra, mais arkhos, “líder”.

E por hoje basta, que essas cabecinhas modernas não têm muita capacidade e não quero ser acusado de rompimento de crânios adolescentes.

 

Resposta:

CHEFES DE ESTADO

Hoje o detetive das palavras, X-8, está recebendo mais um grupo de clientes. Mas o que é isso em seu escritório decorado à moda Anos Cinqüenta Degenerados? Diversas palavras-clientes se espalham pelos bancos toscos, mas cada qual ostenta uma dignidade e um brilho dignos de nota.

Veem-se ali medalhas, comendas, fitas, galões, franjas, borlas, correntes de todas as cores e todos os metais. O tilintar de metal contra metal e de seda revoluteando é ensurdecedor.

Para entender o mistério, apressemo-nos para ouvir a introdução do célebre pesquisador, que como sempre está envolto em sua gabardine folgada, chapéu desabado e mistério proposital:

– É subida honra receber em meu humilde escritório palavras que representam Chefes de Estado em geral, atrás de suas origens. Alguém se esqueceu de entregar o pagamento adiantado? Não? Então vamos lá, aleatoriamente.

Vejo aqui Sua Excelência o Presidente. Esta palavra, caro público, vem do Latim praesidere, “chefiar, agir como líder, superintender”, literalmente “sentar-se à frente de”,  formado por prae-, “à frente”, mais sedere, “sentar-se”. Quem preside uma organização ou um estado se senta à sua frente, pelo menos metaforicamente, para avaliar os problemas que surgem. E que não são poucos.

Presidente, usando uma faixa colorida, assentiu com gravidade.

O destemido detetive se voltou para outra cliente:

– Vejamos a origem de rei, que está sentado, quieto e curto, como que desprezando a sua importância. Saiba Vossa Majestade que deriva do Latim rex, “rei”, que veio do Indo-Europeu reg-, “mover-se em linha reta”, daí “dirigir, guiar, comandar”. Historicamente sabemos que muitos reis não seguiram a linha reta em suas vidas, mas isso é outro departamento.

E ali temos outra majestade, o imperador. Esta palavra vem do Latim imperator, “chefe, comandante”, um título inicialmente dado a um general romano vitorioso, do verbo imperare, “comandar”, formado por im-, “em”, mais parare, “ordenar, preparar”.

Ali atrás está um trio de parentes próximos: César, Kaiser e Czar. Estes dois últimos são títulos imperiais, o primeiro da Áustria-Hungria e Alemanha e o segundo da Rússia. Ambos derivam de Caius Julius Caesar, o imperador romano cujo nome passou a significar “imperador”. E esse nome vem de caesaries, “cabeleira”, pois o iniciador de  sua linhagem teria nascido com um revestimento completo de cabelo. O que não deixava de ser irônico, pois César era careca. E não gostava nada disso.

Epa, vejo uma certa agitação ali. Acalme-se, príncipe, sua vez chegou. Você deriva do Latim princeps, “o primeiro, o que vai à frente”, de primus mais a raiz de capere, “tomar, pegar”. Era “o que ia à frente” nas campanhas militares. Pelo menos era essa a ideia geral, que nem todos sentiam prazer em serem alvos de flechas e tiros.

Colho a ocasião para dizer que o uso atual de príncipe se refere aos filhos do rei. Aliás, na Península Ibérica, o título cabe unicamente ao filho que vai herdar a coroa, os outros são chamados infantes. Mas notem bem, príncipe não era necessariamente ligado ao parentesco real, foi por muito tempo um nome dado a pessoas de especial importância política.

Agora podemos falar de régulo, atualmente uma palavra pouco conhecida. Ela pode se referir a um rei ainda criança, mas é mais usada para falar em um rei de Estado de tamanho e importância diminutas; foi mais usado para designar chefes tribais na África. Deriva do Latim regulus, diminutivo de rex.

E ainda na África existe o título soba, chefe de povo ou pequeno Estado, do Quimbundo soba, “chefe, líder, governante”.

Sem falar que, na Etiópia, o título de imperador era conhecido como negus, do Amárico negus, “rei”.

Deixando de lado os países leigos, saudamos Sua Santidade a palavra  Papa. Nos inícios da Igreja Católica ela se aplicava a todos os bispos; depois passou a designar somente o bispo de Roma. Veio do Grego papas, “bispo, sacerdote”, uma variante de pappas, “pai”.

Ao lado dele se encontra, com seu bonito traje de penas, cacique. Esta vem do Espanhol, que a tirou do Taino cacique, “chefe”.

Indo para terras mais distantes, citamos nossa visitante rajá, que vem do Sânscrito rajan, “chefe, soberano” e é parente, vejam só, do rex latino.

Com ela se encontra sua amiga marajá, “grande rei”, formada por maha, “grande”, mais rajan.

Pela região do Oriente Médio, recebemos hoje sultão, do Árabe sultan, “soberano”.

E antes que me esqueça, soberano vem do Latim superanus, “chefe, comandante”, derivado de super, “acima”. Ele era o que “ficava acima” dos outros. Até que lhe cortassem a cabeça num golpe palaciano, claro.

Vejam ali o belo turbante de vizir, do Turco vezir, do Árabe wazir, “carregador”, de wazara, “levar um peso”. Eles viam essa tarefa como algo cansativo, ao contrário dos políticos de um certo país que se divertem cada vez mais com os seus cargos.

E o emir? Ele era o comandante ou chefe de Estado em alguns países islâmicos, do Árabe amir, “comandante”.

Em paises de língua espanhola se reserva o título de caudilho para um chefe de Estado, especialmente no caso de um ditador militar. Originou-se do Latim capitellum, diminutivo de caput, “cabeça”.

E, cheio de estrelas nos ombros, ali se encontra generalíssimo, usado para o comandante supremo de forças armadas, especialmente se além disso ele detém poder político. Deriva do Italiano generalissimo, aumentativo de generale, “general”.

Creio ter com  isso revisado as origens de tantas palavras ilustres e agradeço a distinção que me foi feita com sua visita.

Desejo-lhes uma boa noite e, por favor, não reparem na sujeira dos corredores do edifício. Não vão escorregar no lixo, que alguém pode se espetar em alguma medalha afiada. Uma boa noite para todas.

 

Resposta:

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