Palavra tédio

UMA SESSÃO ENTEDIANTE

 

As palavras que haviam marcado hora com o Detetive da Etimologia naquela noite já haviam chegado e se acomodado no escritório cheio de poeira.

O grande profissional em suas roupas folgadas de Detetive dos Anos Cinqüenta estava sentado à sua escrivaninha, quase dormindo. Ao olhar para a clientela era possuído por uma moleza insopitável.

Um silêncio pesado se espalhava por toda a atmosfera, uma falta de vontade extrema tolhia todos os presentes e os deixava inertes. X-8 nunca tinha visto isso em todos os seus anos de Etimologia

Antes que cabeceasse de sono, respirou fundo e começou a sessão:

– Boa noite, queridas palavras. Vocês representam um tipo de sensação que todos sentem de vez em quando. Para termos uma ideia melhor, vamos começar por tédio, que está aqui na fila da frente com olhar mortiço e corpo esparramado no banco.

Sua origem é o Latim taedium, “enfado, tédio, desinteresse, repugnância”, de taedere, “cansar, trazer monotonia”.

Já que citamos enfado, que está ali com seus primos fastio e  fastídio fazendo cara de peixe morto: vocês três derivam do Latim fastidium, inicialmente “desprezo nascido da arrogância” e que se teria formado  de fastus, “soberba, arrogância” mais o taedium de que acabamos de falar. Mais tarde surgiu também o significado de “falta de vontade de comer, repugnância pelo alimento”.

Sentimentos assim costumam ser despertados pelo excesso de rotina. Esta deriva do Francês routine, “trilha batida, curso costumeiro de ação”, de route, “rota”, do Latim (via) rupta, “(caminho) rompido, aberto à força”, de rumpere, “quebrar, romper”. Parece que os romanos não eram muito sutis na hora de abrir uma estrada. Também, tinham montes de escravos à disposição.

Vemos ali ramerrão, palavra que era mais usada até um certo tempo e que agora está se tornando quase um cultismo. Notam como ela faz lembrar alguma coisa serrando, fazendo um barulho repetitivo? Pois é, ela tem origem imitativa mesmo.

O que nos faz pensar em repetição, fazendo sempre os mesmos movimentos sentada ali na extemidade do banco. Sua origem é o Latim repetere, “fazer de novo ou atacar outra vez”, de re-, “de novo”, mais petere, “ir em direção a, procurar, atacar”.

Quando as coisas não mudam, quando tudo é o mesmo e se repete, pode-se falar em mesmice, que está dormitando logo ali no fundo. Ela vem de mesmo, do Latim metipsimus, superlativo de metipse, uma variante de ipse, “o mesmo”.

Quando tudo é o mesmo, quando nada muda, usa-se também a palavra invariável. Ela se forma pelo prefixo latino in-, indicando oposição, mais variabilis, “mutável, de diversos aspectos”, de varius, “matizado, de distintas cores, diferente”.

Se algo não varia, se fica sempre na mesma, a gente pode acabar com leseira, que é aquela falta de energia, de ânimo. E deriva de leso, “danificado, estragado, portador de incapacidade que prejudica uma função”. E que por sua vez nos veio do Latim laesus, “ferido, machucado”, de laesio, “lesão, ferimento”.

Pelo mesmo caminho vai previsível, do Latim praevisio, de praevidere, “saber de antemão, ver antes”, de prae-, “antes”, mais videre, “ver”. Muitas pessoas preferem ser surpreendidas.

Pode-se dizer isso também de monotonia, do Grego mono, “um, único”, mais tonos, “tom”. Uma música que não apresenta variações é monótona.

Já a nossa amiga desânimo vem de des- mais ânimo, do Latim animus, “alma, coragem, desejo, mente”, relacionado a anima, “ser vivo, espírito, coragem, disposição”, derivado do Indo-Europeu ane-, “assoprar, respirar”.

Não deixa de ser interessante essa ligação feita espontaneamente da respiração com a alma. Não é à toa que antigamente se pensava que a alma de uma pessoa podia sair com um espirro e que em alguns países se lance uma bênção àquele que espirrou.

E aborrecimento, então, que não para de bocejar aqui à nossa frente? Vem do Latim abhorrere, “ser incompatível, afastar de si com horror”, de horrere, “eriçar” . Note-se que ela começou a vida com o significado de “causar aversão ou desgosto”, que ainda se usa em nosso idioma. Mas hoje aborrecimento passa mais a conotação de “contrariedade, desgosto”.

A sua contraparte em Inglês, abhor, mantém apenas o significado original latino.

Aqui à nossa esquerda vemos, lembrando uma lesma atropelada por um caminhão, inércia. Esta vem do Latim iners, “incapaz, despreparado”, de in, “não”, mais ars, “preparo, arte, capacidade de fazer”. Quando a gente se encontra abatido, prostrado, não consegue fazer  nada; parece que a gente é uma rocha enorme que não se consegue deslocar.

Falando nisso, prostração vem do Latim prosternere, “derrubar, estirar no chão, abaixar-se em cumprimento”, formado por pro-, “à frente”, mais sternere, “abater, derrubar, deitar abaixo”.

Bem, caras palavras, devo confesar que lidar com vocês acabou me de me deixar prostrado, desanimado, inerte e outras coisas que só poderão ser eliminadas por uma enorme noite de sono.

Assim, desejo-lhes uma boa noite. A última palavra feche a porta, por favor, que estou muito entediado.

As palavras levaram um tempão para saírem dos bancos duros e irem para o corredor sujo que levava à escada.

 

Resposta:

Tédio e companhia

O intrépido detetive etimológico, aquele que arrisca tudo – contanto que não perca nada – por ajudar as palavras a conhecerem a sua origem, aguarda em seu escritório empoeirado, totalmente em preto e branco, no terceiro andar do edifício Éden, pela consulta da noite.

Ela está agendada há duas semanas, de modo que ele teve tempo de sobra para se preparar. Trata-se de um grupo de palavras.

Ele prefere assim: atender um grupo é melhor, pois ele cobra um pouquinho menos de cada uma, ganhando mesmo assim uma boa grana.

Palavras fazem de tudo para saber suas origens, é um problema constitucional nelas.

Ele percebe, com irritação, que o grupo está atrasado. Dois minutos já, imaginem! O que elas pensam que são, para tratar assim um profissional que se esforça tanto por elas? Ou pelo menos finge bem que se dá a enormes trabalhos por essas ingratas que…

Mas ele ouve, com seus aguçados sentidos, um arrastar de pés que se dirige ao fundo do corredor escuro e sujo, onde se situa a porta com uma brunida placa de latão que reza apenas “X-8”.

Ei-las que batem à porta e entram devagar, depois de ouvir o “Entre!” que ele resmunga.

O grupo em si mostra o porquê da lentidão e do arrastar de pés. São palavras relacionadas a um tema e que são muitas vezes citadas juntas.

Elas se acomodam, olhar vazio, no banco que X-8 usa para consultas em grupo, o banco aquele que ele comprou da churrascaria que havia fechado no ano anterior porque os fornecedores não se atreviam a entrar naquele bairro insalubre.

O detetive, atrás do seu chapéu caído para a frente e da enorme gabardine que ele só tirava para tomar banho e dormir, olhou firme para a palavra que estava numa ponta do banco:

Tédio. Muito bem, você parece liderar e dar o tom a esse seu grupo. Sua origem é o Latim taedium, “cansaço, desprazer”, do verbo taedere, “cansar”.

Aí do seu lado está Melancolia, que deriva do Latim melancholia e do Grego melankholia, “tristeza”. Literalmente, queria dizer “bile negra”, pois melané queria dizer “negro” e kholé, “bile”. A fisiopatologia medieval atribuía a tristeza e a depressão a um excesso de “bile negra” no organismo, um humor que se acreditava ser feito no baço.

Vou falar logo sobre Cansaço ali, que parece estar à beira do desmaio. Se isso acontecer, não vai ouvir sobre seus antepassados e talvez não consiga nem me pagar, o que seria muito grave. Pois você vem do Latim campsiare, usado em linguagem náutica para dizer “rodear, dobrar uma ponta de terra”, relacionado ao Grego kamptein, “dobrar”.

Ao que parece, naquelas épocas fazer essas manobras exigia muito dos marinheiros. Ou talvez o que os cansasse tanto fosse o risco de manobrar perto de terra, com os perigos implicados nisso.

Ali, muito jururu, temos Tristeza, que vem do Latim tristis, “com aspecto amargo, funesto”.

E do lado está um sinônimo de Cansaço, a palavra Fadiga. Ela vem do Latim fatigari, “cansar”, originalmente “fazer desabar”, formada por fatis, de origem desconhecida, mais a raiz de agere, “guiar, levar a”.

Toda mole, a seguir, vem Languidez. Ela veio do Latim languidus, “desinteresse, falta de energia”, de languere, “fraco, apagado”. Este verbo tem relação com laxus, “frouxo”, de modo que laxante é seu parente.

A seguir temos uma palavra estrangeira, com ares de importante. Como vai, Weltschmerz? Para quem não sabe, é uma palavra que é usada quando alguém quer mostrar sabedoria. É alemã e se forma por Welt, “mundo”, mais Schmertz, “dor”. Usa-se para expressar uma apatia ou depressão causada pela comparação do estado atual do mundo com um estado ideal.

Aliás, não é prudente fazer esse tipo de comparação. Pode induzir ao suicídio.

E agora vem uma expressão latina muito nossa conhecida, Ad Nauseam. Como vai? Certamente você é a mais idosa do grupo, já que existe há tantos séculos sem alteração. Para quem ignora, seu significado é “até à náusea, até enjoar”. Ad quer dizer “para, até”, e nauseam vem do Grego nausia, “a doença dos navios”, de naos, “navio, barco” – ou seja, o enjôo.

As palavras se levantaram, um pouquinho mais animadas agora que sabiam suas origens, e foram embora, sussurrando um “obrigadas” pouco audível.

X-8 ficou ouvindo seus passos se arrastarem lentamente corredor afora, enquanto contava a grana que elas haviam deixado. Para aquela turma, aproveitar a vida seria sempre difícil.

Resposta:

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