Palavra verberar

VERBO

 

X-8, o detetive etimológico, está nervoso. Seu escritório vai receber hoje uma palavra de grande antiguidade e honorabilidade.

Será que está tudo em ordem por ali? Tudo imita muito bem uma sala de detetive de film noir dos anos 50, bem como as palavras gostam. Quem sabe uma vela acesa sobre a escrivaninha?…

Mas agora não dá para pensar em decoração. Uma batida com jeito antigo na porta o faz dizer, meio trêmulo, “Entre!”

E por ali penetra a cliente tão importante. É nada menos que a palavra verbo, tão conhecida e de tanto uso.

Muito digna, cônscia de seu valor dentro do idioma, ela cumprimenta graciosamente e se acomoda numa poltrona que o detetive conseguiu emprestada de uma das moças que trabalham no andar de cima e que nesse dia estava de folga. Ela é extremamente macia, revestida de veludo vermelho, apresenta umas manchas aqui e ali mas quase não dá para notar porque a sala é mal iluminada. Fica meio esquisita num escritório, mas foi o que X-8 conseguiu para sua excelsa visitante.

– É um enorme prazer ver Sua Senhoria aqui, Verbo. Naturalmente o seu interesse é saber das suas origens, e devo dizer que veio ao lugar certo.

Dá para notar que suas mudanças de forma foram escassas desde o Latim verbum, “palavra, parte do discurso que expressa ação”, originalmente apenas “palavra”.

Passou para o Latim vinda de uma raiz Indo-Europeia were-, “falar”.

E sua história é muito prolífica, pois deixou uma descendência de peso nos idiomas europeus.

Para começar, vou citar umas expressões latinas ainda em voga das quais a senhora participa.

Por exemplo, vana verba, “palavras vãs”, que se usa para afirmar que outra pessoa está dizendo bobagens. Não deixa de ser uma forma culta de dizer um desaforo para outra pessoa.  Cumpre notar que verba é o plural de verbum.

ipsis verbis ou in verbis quer dizer “com as próprias palavras” e se usa quando se está citando exatamente o que um autor disse. Essa expressão é muito usada em linguagem jurídica e cartorial e tem diversas variações de mesmo sentido. Ipsissima verba quer dizer “com as mesmíssimas palavras”.

Outra é verbum ad verbum, “palavra por palavra”, nome usado para se obter cópias de documentos em cartórios.

Mais uma é verbatim, “palavra por palavra”.

E quem quer dar muita veemência a este significado usa verbatim, litteratim et punctatim, “palavra por palavra, letra por letra e ponto por ponto”. Melhor que isto só uma fotocópia.

Verbi gratia, “por graça ou amor da palavra”, usa-se para expressar “por exemplo, como tal” e se abrevia v.g.

E também há o que falar sobre suas descendentes em Português.

Verbi gratia, se me perdoar a tentação, temos advérbio. Esta é uma categoria de palavra que se caracteriza por ser invariável, não tem plural nem feminino nem diminutivos. Ela modifica outras acrescentando circunstância de modo, tempo, causa, afirmação, negação e muitas outras. Vem do Latim adverbium, de ad, “junto a”, mais verbum.

Podemos citar também verbal, do Latim verbalis, “o que consiste em palavras”. Usa-se em oposição a escrito, que é uma maneira de fazer registro em papel ou outro meio de uma afirmação ou ordem. Se me permitir mais um latinório, acabo de me lembrar da frase verba volant, scripta manent, “as palavras voam, o que foi escrito permanece”.

Ou seja, convém registrar tudo o que se diz, quando existe o risco de nossas palavras serem usadas maliciosa ou distorcidamente.

Quando uma pessoa fala em demasia, ela sofre de verborragia ou verborreia. Esta vem de verbum mais o Grego rheon, “correr, fluir”.

Verberar significa “repreender, censurar com energia”. Muito pensam que deriva de verbum, já que as palavras são um meio usado para tal. Mas não é o caso: ela deriva de verbera, “açoite, vergasta”. Isso se vê também porque um dos seus significados é “flagelar, açoitar fisicamente”.

Quando um indivíduo é muito falador, tagarela, embromador, pode ser chamado de verboso, de verbosus, “falador, cheio de palavras”.

E se uma fala é muito prolongada, despida de significado, feita apenas para encher o tempo e a paciência dos ouvintes, usa-se verbiagem. Ela nos veio da França, de verbiage, “excesso de palavras com pouco sentido ou conteúdo”.

Chega a hora de citar a verve, “entusiasmo, vibração, graça em se expressar que uma pessoa apresenta”. Vem de verba, mais especificamente no sentido de “palavras com vivacidade, capricho, entusiasmo”.

Não podemos esquecer a verba, “importância em dinheiro”. Ela é uma extensão do sentido de “anotação, apontamento, cláusula de um documento”, também “quantia que faz parte de um orçamento”.

Muito bem, prezada senhora, foi uma grande honra recebê-la em meu humilde local de trabalho.

Agora, se não se incomodar, posso receber a verba que me cabe pela minha exaustiva e perigosa pesquisa sobre o seu valor histórico

 

Resposta:

BRILHOS

  

A seleta clientela desta noite para X-8 está se aproximando do escritório dele. Ele percebe isso por causa dos estranhos ruídos estalados que vêm do corredor e pelos reflexos piscantes de luz que entram por baixo da porta.

Em breve estão todas as palavras-clientes acomodadas à frente dele, que faz um breve e enigmático intervalo antes de se dirigir a elas. Ele acha que é sempre bom manter uma aura de mistério ao trabalhar.

– Boa noite, caras consulentes. Esta é mais uma das Noites de Desconto, em que eu baixo meus honorários para atender a palavras que mantenham entre si uma relação de sentido. Faço isso exclusivamente a bem da cultura e informação das Palavras, sacrificando ganhos para poder informá-las de suas origens.

Por favor, coloquem aqui nesta caixa de charutos o pagamento de cada uma e não se esqueçam que quem não pagar sai imediatamente, que afinal sacrifício tem limite.

Bem, verifico que todas cumpriram seu dever, agora é a minha vez.

Com licença, vou colocar meus óculos escuros para contemplar tão brilhante plateia. E preciso deles, pois hoje o tema é “Brilhos”. Todas vocês representam causas de emissão de luz.

Iniciemos ali por brilho. Sua origem é o Latim beryllus, a pedra preciosa, do Grego beryllos, de origem na Índia.

Mais adiante, projetando brilhos, está centelha. Ela vem do Latim scintilla, “faísca”, provavelmente do Indo-Europeu skai-, “brilhar”.

Na sala iluminada por reflexos fortes as palavras estavam pendentes do que o detetive dizia.

– Quando falei em faísca, aquela ali se agitou; seu nome, cara cliente, deriva do Germânico falaviska, “faísca”.

Começando com a mesma sílaba, ali no fundo vemos fagulha, do Latim facucla, um diminutivo de falx, “facho, tocha”. Do seu lado está a sua gêmea não-idêntica faúlha.

E talvez com o maior brilho de todas as presentes, aqui está relâmpago de re-, um prefixo intensificativo, mais lampadare ou lampadicare, de lampada, outro nome para “tocha”, do Grego lampein, “brilhar”.

A palavra se estufou toda.

– Sua prima lampejo tem a mesma origem.

E, com vontade de aparecer, logo aqui se encontra clarão, do Latim clarus, “limpo, claro, brilhante, nítido”.

Formando uma dupla, lá estão foguete, que vem do Espanhol cohete, “artefato pirotécnico”, do Catalão coet, que veio do Latim coda, “cauda”, e pirotecnia, do Grego pyr, “fogo”, mais tekhné, “arte”.

Vejam que os foguetes costumam ter uma cauda que lhes concede boa parte de sua beleza. E que, para lidar com eles, é necessária uma capacidade de lidar com fogo, o que é perfeitamente expresso em pírotecnia.

Temos em nosso grupo também o verbo coruscar, que nos veio do Latim coruscare, “emitir brilhos, faiscar”.

Originalmente ele queria dizer também “dar marradas, bater com a cabeça”, vindo do Grego koryssein, “chifrar, dar marradas”, de korys, “testa”. Com o tempo, o significado mudou para “vibrar” e depois “vibrar emitindo raios”.

Vejam só que complicada essa origem!

As demais palavras olharam o verbo com certa inveja. Elas são assim, definem seu status pela origem.

– Quietinha em sua cadeira, vemos rutilar, do Latim rutilus, “vermelho-dourado”, de um radical Indo-Europeu rudh-, “vermelho”.

A palavra, tímida e satisfeita, ficou com a face vermelha.

– E olhemos ali sua companheira reverberar, do Latim reverberare, “golpear de volta”, de re-, “para trás”, mais verberare, “bater, golpear”. Ela serve para o som  –  o eco é uma reverberação dele  –  e também para a luz. Provavelmente ganha dobrado.

Lembro que em nosso idioma temos verberar, “censurar energicamente, repreeender, criticar”.

Como vai, fulgor? Suas origens, como as da maioria aqui, estão em Roma, no verbo fulgere, “brilhar”.

Pequenininha ali, vemos chispa, de origem onomatopaica. Não sabem o que é isso? É uma palavra feita para imitar um som. Vem do Grego onomatopoiía, “ato de fazer palavras”, de onoma, “nome, palavra”, mais poiein, “fazer”. Vejam como o som dela lembra mesmo alguma coisa que ocorre rapidamente, num instante.

Quem é que falta ainda? Ah, sim, por último e nem um pouco menos importante, vemos reluzir, formada por re-, denotando intensidade, mais lucere, “brilhar, emitir luz”, de lux, “luz”.

Bem, caríssimas clientes, nossa sessão está encerrada. Não preciso avisá-las para se cuidarem nos corredores escuros do edifício porque vocês têm luz própria. Minhas recomendações às suas famílias.

Depois que elas fecharam a porta e se afastaram, X-8 tirou os óculos escuros e massageou os olhos.

Os sacrifícios que ele faz pelas palavras, pensou, enquanto guardava o dinheiro recebido debaixo do colchão.

 

Resposta:

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