Palavra xarope

REFRIGERANTE

  

X-8 está esperando os clientes da noite quando ouve um barulho borbulhante no corredor de seu edifício. O estranho ruído se aproxima da porta de seu escritório.

O detetive, alarmado, olha rapidamente a sua agenda e logo se acalma. Hoje ele está esperando palavras relacionadas a refrigerante. Devem ser elas que estão chegando.

Quando ouve baterem à porta, ele faz a sua voz mais gelada, mais detetivesca, mais indiferentemente corajosa, para mandar que entrem. Ele sabe que ela, mais a ambientação de escritório da época em que o Batman era escoteiro sempre impressionam suas palavras clientes.

Dito e feito. Um conjunto delas entra com mostras de timidez no escritório cuidadosamente desleixado e se acomoda nos assentos em frente à grande escrivaninha e ao grande profissional.

Ele as cumprimenta, frio como o aço, e logo começa a derramar a sua sabedoria:

Refrigerante e correlatos, hein? Muito bem, vamos começar por você, o cabeça do grupo. Seu nome vem do Latim refrigerans, “aquilo que refresca, que esfria”, de refrigerare, “esfriar, refrescar”, formado por re-, intensificativo, mais frigerare, “esfriar” propriamente, derivado de frigus, “frio”.

Qualquer líquido gelado pode assumir esse papel, não é necessário que ele seja industrializado. Aliás, é bom não esquecer que gelado vem do Latim gelidus, “frio, gelado”, de gelum, “gelo”.

Refresco é um bom exemplo; vem desse mesmo re-, mais o Frâncico frisk, que originalmente remetia ao sentido de “novo, jovem, robusto”. Esse significado acabou incluindo também o de “com baixa temperatura”.

Como exemplo, temos aqui laranjada. Este nome obviamente vem de laranja, que vem do Persa narang, através do Latim aurantia e do Italiano arancio. E mais distante ainda, sua origem é o Sânscrito nâgarang’a, que equivale a dizer “o fruto favorito dos elefantes”.

Portanto, cuidado, laranjada: se você encontrar um elefante com sede, estará correndo um sério risco.

A palavra se encolheu toda.

O detetive prosseguiu:

– Aí do seu lado está limonada. Naturalmente você sabe que vem de limão, do Francês limon, “fruta cítrica” (era um nome genérico de início), do Árabe laimun, do Persa limun, “fruta cítrica”.

Ali no fundo se acomoda xarope. Você entrou em nosso idioma vindo do Italiano sciroppo, do Árabe sharab, “bebida, vinho, café”, relacionado a sciariba, “beber”.

Com o passar do tempo, a palavra se fixou na conotação de “líquido de elevada concentração de açúcar para ser bebido diluído em água”; por extensão metafórica, há quem a use querendo dizer “pessoa que cansa, aborrecida”.

A palavra ficou com cara triste.

X-8, que tinha feito um excelente curso de Psicologia das Palavras na Faculdade, logo a aliviou:

– Mas não se amofine por isso, porque você não tem culpa de como as pessoas são. Além do mais, você tem mais de um significado, não é bárbaro?

A cliente deu um sorriso tímido, de reconhecimento.

– Muito bem. Agora olhemos ali para tubaína. Você entrou no Português do Brasil, pelo que pesquisei, em 1932.

Foi criada pelo fabricante como Turbaína, com “R”, para nomear uma bala de algo parecido com tutti-frutti. Depois passou a designar um refrigerante feito pela mesma empresa. No uso popular, perdeu o “R” e passou a designar refrigerantes baratos de vários tipos e origens.

Também se encontra aqui entre nós o Guaraná, que vem de waraná, do idioma dos Sateré-Maué, uma tribo amazônica. Esse pessoal é muito poético para dar nomes, pois essa palavra quer dizer “fruta que lembra os olhos de uma pessoa”. Ela tem uma parte preta que se destaca sobre o fundo vermelho e que lembra uma pupila.

A palavra citada corou de vaidade.

– Já vamos falar de você, gasosa, que está tão irrequieta aí. Você se chama assim por conter um gás chamado dióxido de carbono. Quando a gente tira a tampa da garrafa, ele se libera porque fez contato com a pressão atmosférica de fora dela, que é menor.

Aí surgem as bolhinhas tão nossas conhecidas. Isso quando algum engraçadinho não sacudiu previamente a garrafa, caso em que o líquido se espalha com violência para fora do recipiente, deixando o incauto que tirou a tampa todo molhado.

Há uma história interessante por trás disso. Foi assim: em 1767 um genial cientista inglês, chamado Joseph Priestley, por acaso se mudou para uma casa ao lado de uma cervejaria.

Sendo muito curioso, ele foi meter o bedelho na fábrica e descobriu que a cerveja, durante o processo de fermentação, gerava o que era chamado de ar “fixo” ou “mefítico”.

Prontamente ele descobriu que, ao se colocar um recipiente com água na região ocupada pelo tal ar diferente, ela adquiria uma característica efervescente, dada pelas bolhas do que ele ainda não sabia que era o gás carbônico, que se dilui muito facilmente na água.

Na época, havia um grande mercado para as águas minerais, que tinham adquirido status de medicação. Muitas delas eram naturalmente cheias de bolhas desse gás e o nosso pesquisador percebeu que havia descoberto uma maneira de colocar as bolhas em água comum, o que acabou gerando toda uma indústria.

A primeira bebida com as características carbonatadas e refrescantes de um refrigerante foi lançada em 1771. Um tal de Schweppes, suíço radicado na Inglaterra, aproveitou o processo de Priestley e criou a água tônica com quinino, com a intenção de vendê-la nos mercados da África e Ásia. Isso porque o quinino teria a capacidade de ser profilático contra a malária, que abundava nessas regiões.

É por isso que a água tônica tem um gosto amargo. Mas atualmente a quantidade dessa substância que a bebida apresenta é inferior à dose medicamentosa. Portanto, que ninguém pense em tratar alguém de malária com garrafadas de água tônica.

Bem, por hoje já lidamos com as origens de todas as presentes, de modo que vocês podem passar aqui e deixar os meus honorários sobre a mesa… Obrigado, obrigado…

Passem bem e cuidem-se na saída, este bairro é muito insalubre.

 

Resposta:

REFRIGERANTE

  

X-8 está esperando os clientes da noite quando ouve um barulho borbulhante no corredor de seu edifício. O estranho ruído se aproxima da porta de seu escritório.

O detetive, alarmado, olha rapidamente a sua agenda e logo se acalma. Hoje ele está esperando palavras relacionadas a refrigerante. Devem ser elas que estão chegando.

Quando ouve baterem à porta, ele faz a sua voz mais gelada, mais detetivesca, mais indiferentemente corajosa, para mandar que entrem. Ele sabe que ela, mais a ambientação de escritório da época em que o Batman era escoteiro sempre impressionam suas palavras clientes.

Dito e feito. Um conjunto delas entra com mostras de timidez no escritório cuidadosamente desleixado e se acomoda nos assentos em frente à grande escrivaninha e ao grande profissional.

Ele as cumprimenta, frio como o aço, e logo começa a derramar a sua sabedoria:

Refrigerante e correlatos, hein? Muito bem, vamos começar por você, o cabeça do grupo. Seu nome vem do Latim refrigerans, “aquilo que refresca, que esfria”, de refrigerare, “esfriar, refrescar”, formado por re-, intensificativo, mais frigerare, “esfriar” propriamente, derivado de frigus, “frio”.

Qualquer líquido gelado pode assumir esse papel, não é necessário que ele seja industrializado. Aliás, é bom não esquecer que gelado vem do Latim gelidus, “frio, gelado”, de gelum, “gelo”.

Refresco é um bom exemplo; vem desse mesmo re-, mais o Frâncico frisk, que originalmente remetia ao sentido de “novo, jovem, robusto”. Esse significado acabou incluindo também o de “com baixa temperatura”.

Como exemplo, temos aqui laranjada. Este nome obviamente vem de laranja, que vem do Persa narang, através do Latim aurantia e do Italiano arancio. E mais distante ainda, sua origem é o Sânscrito nâgarang’a, que equivale a dizer “o fruto favorito dos elefantes”.

Portanto, cuidado, laranjada: se você encontrar um elefante com sede, estará correndo um sério risco.

A palavra se encolheu toda.

O detetive prosseguiu:

– Aí do seu lado está limonada. Naturalmente você sabe que vem de limão, do Francês limon, “fruta cítrica” (era um nome genérico de início), do Árabe laimun, do Persa limun, “fruta cítrica”.

Ali no fundo se acomoda xarope. Você entrou em nosso idioma vindo do Italiano sciroppo, do Árabe sharab, “bebida, vinho, café”, relacionado a sciariba, “beber”.

Com o passar do tempo, a palavra se fixou na conotação de “líquido de elevada concentração de açúcar para ser bebido diluído em água”; por extensão metafórica, há quem a use querendo dizer “pessoa que cansa, aborrecida”.

A palavra ficou com cara triste.

X-8, que tinha feito um excelente curso de Psicologia das Palavras na Faculdade, logo a aliviou:

– Mas não se amofine por isso, porque você não tem culpa de como as pessoas são. Além do mais, você tem mais de um significado, não é bárbaro?

A cliente deu um sorriso tímido, de reconhecimento.

– Muito bem. Agora olhemos ali para tubaína. Você entrou no Português do Brasil, pelo que pesquisei, em 1932.

Foi criada pelo fabricante como Turbaína, com “R”, para nomear uma bala de algo parecido com tutti-frutti. Depois passou a designar um refrigerante feito pela mesma empresa. No uso popular, perdeu o “R” e passou a designar refrigerantes baratos de vários tipos e origens.

Também se encontra aqui entre nós o Guaraná, que vem de waraná, do idioma dos Sateré-Maué, uma tribo amazônica. Esse pessoal é muito poético para dar nomes, pois essa palavra quer dizer “fruta que lembra os olhos de uma pessoa”. Ela tem uma parte preta que se destaca sobre o fundo vermelho e que lembra uma pupila.

A palavra citada corou de vaidade.

– Já vamos falar de você, gasosa, que está tão irrequieta aí. Você se chama assim por conter um gás chamado dióxido de carbono. Quando a gente tira a tampa da garrafa, ele se libera porque fez contato com a pressão atmosférica de fora dela, que é menor.

Aí surgem as bolhinhas tão nossas conhecidas. Isso quando algum engraçadinho não sacudiu previamente a garrafa, caso em que o líquido se espalha com violência para fora do recipiente, deixando o incauto que tirou a tampa todo molhado.

Há uma história interessante por trás disso. Foi assim: em 1767 um genial cientista inglês, chamado Joseph Priestley, por acaso se mudou para uma casa ao lado de uma cervejaria.

Sendo muito curioso, ele foi meter o bedelho na fábrica e descobriu que a cerveja, durante o processo de fermentação, gerava o que era chamado de ar “fixo” ou “mefítico”.

Prontamente ele descobriu que, ao se colocar um recipiente com água na região ocupada pelo tal ar diferente, ela adquiria uma característica efervescente, dada pelas bolhas do que ele ainda não sabia que era o gás carbônico, que se dilui muito facilmente na água.

Na época, havia um grande mercado para as águas minerais, que tinham adquirido status de medicação. Muitas delas eram naturalmente cheias de bolhas desse gás e o nosso pesquisador percebeu que havia descoberto uma maneira de colocar as bolhas em água comum, o que acabou gerando toda uma indústria.

A primeira bebida com as características carbonatadas e refrescantes de um refrigerante foi lançada em 1771. Um tal de Schweppes, suíço radicado na Inglaterra, aproveitou o processo de Priestley e criou a água tônica com quinino, com a intenção de vendê-la nos mercados da África e Ásia. Isso porque o quinino teria a capacidade de ser profilático contra a malária, que abundava nessas regiões.

É por isso que a água tônica tem um gosto amargo. Mas atualmente a quantidade dessa substância que a bebida apresenta é inferior à dose medicamentosa. Portanto, que ninguém pense em tratar alguém de malária com garrafadas de água tônica.

Bem, por hoje já lidamos com as origens de todas as presentes, de modo que vocês podem passar aqui e deixar os meus honorários sobre a mesa… Obrigado, obrigado…

Passem bem e cuidem-se na saída, este bairro é muito insalubre.

 

Resposta:

FORMAS MEDICAMENTOSAS

 

São numerosas as formas que a Farmacologia usa para introduzir no corpo humano substâncias para tratar as doenças. Umas através da pele, outras de engolir, outras doloridas – mas que têm que ser usadas para evitar um mal maior.

A seguir, as origens dos misteriosos nomes usados para elas.

POMADA – veio do Italiano pomata, de pomo, “maçã”, do Latim pomum, “fruta”, porque uma das primeiras receitas incluía maçãs esmagadas.

UNGUENTO – do Latim unguentum, “óleo perfumado, essência”, de unguere, “untar, ungir”.

Na Roma antiga, chamava-se unguentarius o sujeito que trabalhava com esse material, o que hoje diríamos “perfumista”.

CREME – veio de uma palavra latina de origem gaulesa, cramum, misturada com o Latim chrisma, outra palavra que eles tinham para ungüento, essa vinda do Grego khrisma, de mesmo significado.

LOÇÃO – do Latim lotio, “ato de lavar”, de lotus, forma popular de lautus, particípio passado de lavere, “limpar, lavar”.

COLÍRIO – do Latim collyrium, do Grego kollyrion, “emplastro, ungüento para os olhos”.

EMPLASTRO – do Latim emplastrum, “medicamento que permanece sobre a pele”, do Grego emplastron, derivado de plassein, “modelar, dar forma”.

CATAPLASMA – do Grego katáplasma, de kataplassein, “cobrir com gesso”, formado por kata-, “contra, encostado em”, mais plassein.

 SPRAY – é uma palavra inglesa, mas é tão usada que vamos citá-la igualmente. Vem do Germânico antigo spraewjanan, “espalhar”, de uma fonte Indo-Europeia sper-, “espalhar”.

EMBROCAÇÃO – poucos conhecem esta palavra, confessem. Ela designa o ato de passar medicação líquida na pele, como se esta estivesse sendo pintada, e deriva do Grego embrokhe, “loção, remédio de passar na pele”.

INJEÇÃO – ui, dá medo! Este nome vem do Latim injectio, de injicere, “lançar em”, formado por in-, “em”, mais jacere, “atirar, lançar”.

ESCARIFICAÇÃO – algumas vacinas são feitas por este método de raspar a pele em alguns pontos e depois pingar o líquido com os vírus desativados no local.

A palavra deriva do verbo latino scarificare, “abrir por meio de raspagem”, do Grego skariphasthai, “riscar um contorno, esboçar”, de skariphos, “estilo, varinha de escrever”.

COMPRIMIDO – é o particípio passado de “comprimir”, já que eles são feitos apertando-se o pó onde estão misturados o veículo e a substância medicamentosa.

E comprimir vem do Latim comprimere, “apertar, comprimir”, formado por com-, “junto”, mais premere, “apertar”.

PÍLULA – do Latim pilula, “objeto pequeno e arredondado”, diminutivo de pila, “bola, bolota”.

DRÁGEA – do Francês dragée, “confeito com nozes, amêndoas e pistache recoberto de açúcar”, originalmente “mistura de grãos variados para forragem animal”.

CÁPSULA – do Latim capsula, diminutivo de capsa, “caixa, baú, arca”.

PASTILHA – do Espanhol pastilla, diminutivo de pasta, “massa”.

XAROPE – do Italiano sciroppo, do Árabe sharab, “bebida, vinho”.

GOTAS – do Latim gutta, “gota”.

Resposta:

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