BAZÓFIA

 

Quando tinha meus dez anos, cheguei ao gabinete do meu avô, no fundo do pátio, e fui fazendo uma pergunta:

– Vô, uma pessoa com bazófia tem uma doença difícil de curar?

O cavalheiro esbelto de curta barba branca e olhos muito claros me fitou com ar de espanto:

– E esta agora, menino? De onde saiu tanta asneira?

– É que meu pai disse que um conhecido dele estava com isso e aí imaginei que …

– Você é bem um descendente de sua avó, que cria uma história sem pé nem cabeça num instante. Mas pelo menos consulta sobre o assunto, o que já é muito.

Olhe aqui: bazófia não é nome de doença alguma nem precisa de tratamento médico. Mas reconheço que gostaria de poder aplicar umas palmadas nos seus portadores.

Pensando bem, bazófia parece nome de doença mesmo, mas seu significado é o de “presunção, arrogância, vaidade”. Sua origem apresenta dúvidas: sugere-se o Alemão antigo sufan, “beber”, relacionado com sauf, “sopa”. Passou pelo Italiano bazzoffia, “espécie de sopa”; ainda hoje um dos significados de bazófia em nosso idioma é “ensopado de restos de comida”.

E já que estamos no assunto, vou falar em algo detestável que é a arrogância. Esta quer dizer “mostra de superioridade, de importância, excessiva valorização própria”, e vem do Latim arrogantia, de ad, “a, para”, mais rogare, “pedir, propor” formando a noção de “exigir para si mesmo”.

– Ih, acho que tenho uns colegas assim na aula…

– Você verá muita gente assim ao longo da vida. Não vale a pena andar com eles. Outra palavra que tem o mesmo sentido é empáfia.

– Deve ter origem interessante, Vô.

– Lamento, mas ela é desconhecida… Nem sempre temos todas as respostas.

– Ora, então conte uma conhecida.

– Nesse caso, vamos de sobranceria.

– Essa eu sei! São as pessoas que andam de sobrancelhas erguidas, com cara de desdém para os outros.

– Vou pedir licença para os seus pais para colocá-lo numa exposição itinerante mostrando o cérebro infantil mais tortuoso do mundo. Vamos ganhar um dinheirão! Não se preocupe, vamos colocar bastante comida em sua jaula.

– Pare com isso, Vô, e explique essa origem.

– Pois ela vem do Latim superantia, de superare, “passar por cima de, superar”, de super, “acima”.

– Ah, o Super-Homem se chama assim porque voa bem alto?

– Não, é porque teria capacidades acima de todos os outros, se existisse.

Agora aquiete-se senão não lhe conto de onde veio desdém. Sua origem é do Provençal desdenh, formado pelo prefixo negativo des-, mais um derivado do Latim dignari, “considerar de valor ou adequado”, de dignus, “valioso”.

Muitas pessoas agem com jactância, outro sinônimo de arrogância. Esta tem um origem interessante: veio do Francês jacter, “fanfarrice, bravata, exibição de qualidades exageradas ou falsas”, uma contração de jacqueter, que por sua vez é uma alteração do nome próprio Jacques.

– Os moços com esse nome eram muito vaidosos, todos eles?

– Não, o que ocorre é que esse nome era muito difundido e as altas classes diziam que os pobres se comportavam de maneira inconveniente.

Antes que você abra a boca para dizer besteira, vou trazer a palavra filáucia.

– Ah, essa aí tem cara de nome de planta, Vô.

Ele me olhou demoradamente:

– Você está absolutamente impossível hoje. Se continuar assim, seu futuro será negro. Mas, como sou uma pessoa extremamente caridosa, vou continuar falando como se não tivesse ouvido nada. E contarei que a origem desta é o Latim philautia, “amor próprio”do Grego phylos, “apreço, amor”, mais autos, “a si mesmo”. Inicialmente era uma virtude filosófica que implicava em gostar de si mesmo na medida certa, mas depois passou a designar um amor desmedido, presunção.

E a soberba, que não poderia faltar em nossa lista, veio do Latim superbia, “distinto, orgulhoso, soberbo”, do super de que falamos há pouco.

– Uma vez a Mãe falou que um conhecido gostava de se vangloriar.

– Essa deriva do Latim vanus, “vazio”, mais gloria, “fama, renome, grande honra”. Quem tem renome de verdade não apela para isso.

Recém falei em fanfarrice; ela veio do Espanhol fanfarrón, “vaidoso, jactancioso”, do Francês fanfare, “conjunto de clarins ou outros instrumentos de sopro em metal” de origem onomatopaica.

Agora é a vez de prosápia, do Latim prosapia, “nobreza familiar, linhagem, série de antepassados”.

E quanto à presunção

– Já sei! Veio de presunto, que antigamente era muito caro, daí que só as pessoas de muito poder conseguiam fazer sanduíches com ele e…

Mau avô se levantou, foi até à parede e pegou a espada que a decorava, voltou à poltrona e ficou empunhando-a com um olhar assassino. Achei melhor ficar bem quietinho. Mas dava para ver o riso nas rugas ao redor dos seus olhos.

– … como eu ia dizendo antes de ser interrompido, ela vem do Latim praesumere, “tomar adiantadamente”, de prae, “antes”, mais sumere, “pegar, tomar”.  Ela expressa uma opinião exagerada de si mesmo, imodéstia, e se baseia num significado de “presumir, antecipar”, depois passando a “ter uma boa opinião de sua pessoa”.

E agora, mocinho, que você muito incomodou este pobre velho, vamos para o pátio para eu poder oxigenar meus pulmões um pouco.