ESPADA ÀS COSTAS

 

– Como vai, Vô? – disse eu, ao entrar no gabinete de meu avô, forrado de livros, madeira e couro. Eu estava com quinze anos então e desde sempre havia curtido aquele senhor refinado com quem aprendia tanto.

– Ora, se não é meu descendente aquele com meio cérebro!

– Devo ter herdado essa condição do senhor, mas deixe essa questão de genética para lá. Hoje vim falar sobre uma coisa que não entendo.

– Uma só? Parabéns. Com toda a minha extensão de vida e elevada sabedoria, há muitas que não entendo. Mas faça a sua pergunta.

– Outro dia eu estava olhando aqueles livros sobre a Idade Média que o senhor me emprestou e reparei que aquelas ilustrações antigas foram mal feitas.

– Ah é, é? E por que, jovem sábio?

– Ali os cavaleiros são mostrados só com a espada à cintura, nunca nas costas. E os filmes e jogos mostram que eles as levavam numa bainha presa às costas.

– E você os vê tirando a espada?

– Claro! Os filmes mostram bem direitinho!

 

O velho se ergueu e foi até a parede de onde pendia a espada que tinha usado quando fora oficial do Exército. Eu a apreciava muito; ele já havia declarado que ela seria minha quando de sua morte.

Dentro de mim, esse dia nunca ia chegar.

– Venha cá. Segure a espada dentro da bainha encostada nas costas, assim… Agora vamos prendê-la bem em seu corpo com estas cordas, passando por baixo dos braços… agora pela cintura. Fique quieto, deixe-me dar mais um nó. Pronto. Ficou firme?

– Sim, Vô. Não estou assustador?

– Não, está mais para inofensivo, como vou provar. Agora tire-a para atacar o inimigo que vem galopando para o seu lado, querendo fazer guisadinho de você.

Fui tirá-la. Ela deslizou alguns centímetros e parou de sair porque formava ângulo com a bainha.

– Ah… – eu disse, decepcionado.

– Viu agora por que elas eram usadas à cinta? Há várias razões para isso. Uma, porque você teria que ter braços de gorila para puxá-la. Outra, porque levar a mão atrás o deixa exposto ao ataque. Outra, porque você poderia cortar a pele do pescoço ou nuca ao puxar a arma, e essa não é uma boa maneira de começar uma luta.

Atrapalhado, ainda tentando puxar a espada, balbuciei:

– Mas eu vejo nos filmes…

– E desde quando um filme é documento histórico? Eles não têm nada a ver com a verdade, apenas com o espetáculo. E tem mais, você não vê as espadas saindo da bainha às costas. O que eles mostram é o guerreiro pegando o punho e depois a imagem muda para o resto da ação; a saída nunca é mostrada, repare bem.

– Ah, Vô, veja que desilusão…

– Nada disso, veja como é bom aprender. Ser manipulado pelos outros não é nada bom. O cinema há muito que faz dessas, por isso insisto: não acredite que ele mostra sempre a verdade.

Por exemplo, uma submetralhadora, conhecida também por “metralhadora de mão” porque pode ser levada por uma pessoa e disparar sem auxílio de um apoio, como as mais pesadas. Não é a arma ideal para acabar com pilhas de inimigos?

– Isso! É como regar um jardim, nada escapa.

– Santa ignorância. Mais uma ação em que você acredita porque viu no cinema. Lá o pessoal passa longo tempo atirando sem parar para remuniciar, o que dá sequências muito dramáticas, mas falsas que nem polvo no deserto.

– E por que?

– Os carregadores da maioria dessas armas têm 30 balas. Elas disparam numa cadência entre 700 e 900 tiros por minuto. Ou seja, elas disparam, em modo automático, apenas por uns dois ou três segundos antes de acabarem as balas. Você já viu uma descarga durar tão pouco nos seus filmes?

– Então por que elas são feitas com capacidade de disparar em rajada? Peguei você, Vô!

– Pobre rapaz, esse dia ainda está muito longe. O disparo em rajada serve mais para manter o inimigo de cabeça baixa do que para acertá-lo. E tem mais: disparando em sequência, a cada tiro o cano da arma altera incontrolavelmente a sua posição, o que significa que o lugar mais seguro para se estar nessa ocasião é para onde a metralhadora está apontando.

– Ah… Mas pelo menos aquelas grandonas, com fitas de balas, que ficam no topo dos tanques, têm um monte de munição e podem atirar um bocado de tempo mais.

– Nem tanto. Pelo que sei, mesmo agora com os materiais mais modernos, nenhuma dessas armas pode atirar por mais de um minuto sem que seja necessário trocar o seu cano.

– Trocar o cano no meio de um combate?

– Exatamente. O soldado precisa parar de atirar, retirar o cano, trocá-lo por outro, engatar a fita de munição e voltar a atirar. Naturalmente o inimigo vai se mostrar pouco compreensivo enquanto ele faz isso. Tudo porque os canos esquentam tremendamente com a pressão das explosões repetidas e perde o alinhamento.

– E esta agora? Imagino que nem os canhões escapem da sua língua maléfica, Vô!

– Quando os filmes os mostram nas guerras napoleônicas e épocas posteriores também, já reparou que eles fazem barulho, largam um pouco de fumaça e não recuam? Uma das características de um canhão de verdade é sempre o recuo. Mesmo um pequeno, daqueles levados numa carreta com duas rodas de carroça, tinha um recuo apreciável, tanto que os operadores não ficavam diretamente atrás para não serem machucados.

– Vejam só…

– Vá aprendendo, meu caro, para não sair confiando em tudo que vê. Houve ditaduras inteiras que usaram essa confiança humana para fazerem horrores. Olhe os filmes, mas não acredite, apenas divirta-se.