LINHA

 

Entrei no gabinete do meu avô, no fundo do pátio. Para variar, ele estava lendo.

Cumprimentei-o e disse, muito encabulado:

– Sabe, Vô, aquela vez em que o senhor consertou minha mochila que estava descosturada? O senhor ainda aceita fazer trabalhos para fora?

– Talvez, meu rapaz. O que houve?

– O meu estojo para lápis está se desmontando e eu gosto muito dele. É aquele que o senhor e a Vó me deram quando entrei na escola, há poucos anos…

– Veja só que bela homenagem. Pensei que, após algum tempo de típica selvageria infantil, ele estaria já destruído. Sente-se aí que já vamos dar um jeito.

Ergueu-se e pegou uma lata com seu material de costura. Ele sabia fazer cada coisa inesperada! Sentei-me, vendo-o lidar com agulhas, tesoura, fio de linha e tive que começar a indagar:

– E de onde vem a palavra linha? É parente de minha?

– Começou a besteira já? Linha vem do Latim linea, “corda, linha, fio de linho”, de linum, “linho”, do Grego linon, de mesmo sentido.

Esta palavra deu origem a muitas outras em nosso idioma. Veja só: linear, “relativo a linha”. é uma, bastante óbvia.

– E linhagem?

– Espantoso! Acertou uma! Essa palavra, que significa “série de parentesco, estirpe” veio do Francês lignage, “linhagem”, de linea. De tanto falar comigo, você já tem uns laivos de cultura!

– Eu sou o máximo!

– Muito bem, Seu Máximo, agora me fale sobre colimar.

– É um tipo de colina perto do mar?…

– Tanta sabedoria não ia durar muito, já vi. Essa palavra quer dizer “alinhar, tornar paralelo, ajustar a mira de um telescópio ou de artilharia”. Vem do Latim collimatus, um erro de grafia cometido sobre collineare, “dirigir por uma linha reta”, formada por com-, “junto”, mais linea.

Alinhar então…  –  disse eu, já  mais cauteloso.

– Vem de ad-, “a, para”, mais linea. E temos uma palavra bem parecida com esta, que é alínea, “subdivisão de um artigo de lei”, que tem exatamente a mesma formação.

Há outra que você provavelmente não acharia que é parente: lençol. Deriva do Latim linteolum, “pano feito de linho”, de linum, “linho” ou o tecido feito dele.

E falando em tecidos, existe uma coisa que se chama lingerie em Francês, usada para “roupa íntima feminina”, especialmente quando é de qualidade especial. Como inicialmente era feita de linho, recebeu esse nome. O interessante é que essa palavra nunca passou para o nosso idioma; ela é escrita e pronunciada (“lan-gê-rrí”) como em Francês mesmo, mantém-se estrangeira.

– Outro dia meu pai andava atrás de um tal de tira-linhas para fazer um desenho e logo veio atrás de mim para saber se eu tinha pegado.

– Pegou ou não pegou?

– Bem, Vô, talvez seja melhor a gente continuar a conversa, o senhor ensina tão bem! Além do mais, já devolvi. – disse eu docemente.

– Seu pai sabe com quem trata. Tal como eu o conhecia quando ele era pequeno. Bem, é evidente que tira-linhas, aquela parte do compasso que serve para traçar com tinta, contém o elemento linha.

Mas, já que falamos em traços no papel, temos sublinhar, que vem de sub-, “abaixo”,  mais linea, já que é o ato de passar uma linha abaixo das letras em um texto.

E entrando em outro termo que provavelmente a sua geração não conhece, citarei crinolina.

– Essa eu sei Vô. É uma crina de cavalo desenhada em cartolina, não?

– É uma pena que agora seja proibido usar o cinto em meninos desaforados. Ai, meus bons tempos! O pior é que você não errou de todo. Ele designa um tecido resistente, usado para dar aparência mais volumosa às saias. Vem do Italiano crinolino, de crino, “pelo do cavalo” do Latim crinis, “cabelo”, mais linum. Inicialmente era feita de crina mesmo.

– A Vó usava isso quando era moça?

O velho riu muito:

– Tente perguntar a ela. Mas antes deixe-me viajar para bem longe.

– Tá bom, vou deixá-la em paz.

– Em troca, vou-lhe falar sobre a linotipo.

– “O” linotipo, Vô! Que vergonha, não saber falar direito!

– “A” linotipo, rapazinho enxerido. Trata-se de uma palavra feminina porque se subentende “a máquina de linotipo”. Vem do Inglês linotype, a marca da máquina, de lyne of type,  “linha de tipos”. Ela servia para impressão e entrou em uso na segunda metade do século XIX, sendo usada por muito tempo. Permitia fazer uma linha de texto numa única barra sólida de metal, o que foi um avanço que facilitou em muito a preparação de jornais.

– Imagino que não haja mais derivados de linea.

– Há vários ainda, meu jovem: um é o linóleo. Este é uma proteção para piso muito usada para recobri-lo todo ou em tapetes e passadeiras. É impermeável e bastante flexível, mas foi ultrapassada pelo surgimento de diversos tipos de piso.

Seu nome vem de lineum mais oleum, “óleo”. Isso porque ele é feito de um óleo extraído do linho, pó de madeira e cortiça, aplicados sobre tela.

Temos também a linhaça, que é como se chama a semente do linho ou a farinha extraída dela.

E o linifício, nome que se dá à arte de preparar o linho para uso, de lineum mais facere, “fazer”.

E também o linígero, “tecido que contém linho” ou “pessoa que se veste com linho”, de lineum mais gerere, “fazer, portar, produzir”.

E por enquanto ficamos por aqui; seu estojo está costuradinho e você vai para casa usá-lo para estudar.