PACIÊNCIA

 

Chego na aulinha e vejo o caos primordial instalado, como sempre. Uma aluninha morde a orelha de outra, um menino pegou a mochila da mordedora e saiu correndo e espalhando material pela sala, uma dupla dança sobre a mesa, outros praticam kickbox, outros se descabelam…

Enfim, mais um dia de normalidade me aguarda.

Pssiu, aquietem-se, façam uma roda no chão e venham descobrir a origem da palavra paciência, uma característica de que toda professora de Etimologia na pré-escola precisa desesperadamente.

Ela vem do Latim patientia, “paciência, resistência, submissão”, além de “indulgência, leniência, humildade”, de pati, “sofrer, agüentar”, de uma raiz Indo-Europeia pei-, “ferir, causar dano”.

É impressionante a extensão da minha benevolência com certas pessoinhas que não a merecem. Esta vem do Latim benevolentia, “boa vontade, bondade”, de bene, “bem”, mais volere, “querer, desejar”.

Até parece.

Fale, Valesquinha. Sua mãe diz que é preciso muita calma para aguentar o seu pai quando vão à praia porque ele se assanha todo para as moças e…

Pode parar, são coisas que não nos interessam. Colho a ocasião para para explicar que calma vem do Latim tardio cauma,  “o calor do meio-dia (quando tudo fica quieto)”, do Grego kauma, “calor (principalmente o do sol)”, de kaiein, “queimar”. Não, Patty, isso não significa que quando faz frio a gente tem que estar agitada. Dá para ser calma também. O que você quer é uma desculpa para fazer baderna, que eu a conheço bem.

Muitas colegas me perguntam de onde tiro minha pachorra para lidar com vocês. Ela vem do Espanhol pachorra, de pacho, “sujeito lento e fleugmático”, que teria origem expressiva. O que é uma maneira de se dizer que não se sabe de onde vem.

complacência… Não ouvi direito, Zorzinho, fale mais alto. Não, meu caro, nada tem a ver com placas, sejam  tectônicas ou de automóvel. Vem do Latim complacentia,  de complacere, “ser muito agradável”, de com-, aqui como intensificativo, mais placere, “agradar”.

Há quem ache que, apesar de meus ataques, eu no fundo até me apresento com muita fleugma para lidar com vocês e as coisas que fazem.

Esta palavra vem do Grego phlegma, “inflamação”, de phlegein, “queimar”, relacionado a phlox, “chama, labareda”. Era considerado um dos quatro humores que definiam as personalidades humanas. O indivíduo fleugmático seria quieto, parado, reagindo pouco aos estímulos externos, com certa inclinação para a pouca inteligência. O que não é o meu caso, podem estar certos.

Atualmente essa palavra descreve um sujeito impassível; a figura típica é o londrino, com chapéu-coco e guarda-chuva bem enrolado, vendo ocorrerem à sua frente coisas as mais estranhas e, se tanto, apenas levantando uma sobrancelha. A esquerda, de preferência.

Eu trato, quando as energias furiosas de meus aluninhos estão plenamente desatadas, de demonstrar impassibilidade, que vem do Latim impassibilitas, “incapaz de sentir dor, sofrimento, emoção”, de in, negativo, mais pati, “sentimento”, do qual falamos há pouco.

Muitas religiões nos recomendam a mansidão, do Latim mansuetudo, originalmente significando “acostumado à mão”, de manus, “mão”. Reflete o fato de animais domesticados – “mansos” – estarem habituados ao contato humano.

Uma pessoa também pode ser pacata… não, Lary, isso não vem de um cavalo galopando e fazendo “pacatá, pacatá”. Vocês estão extremamente chutadores hoje. Ela vem do Latim pacatus, “tranquilo, sossegado, em paz”, de pax, “paz”, coisa inatingível nesta aulinha.

Pacífico tem a mesma origem. Mas está claro que vocês não conhecem essa palavra.

E plácido é do Latim placidus, “calmo, tranquilo”, palavra parente de placere, “agradar”.

Uma coisa que faz falta aqui é serenidade, do Latim serenitas, de serenus, “calmo, tranquilo, claro”. Originalmente se aplicava ao clima; depois começou a ser usado como qualidade de pessoas.

Também viria bem algum sossego, do Latim sessicare, “sentar-se, acomodar-se”. Seria maravilhoso eu poder sentar-me e desfrutar de alguma calma por aqui, mas certas figurinhas tornam isso  impossível.

Ou quem sabe alguma tranquilidade? Sua origem é o Latim  tranquilus, “calmo, pacífico”, formado por trans-, aqui com o sentido de “muito além, sem par” mais quies, “descanso, calma”.

Bem, enquanto isso não chega, resta-me a resignação, do Latim resignare , “cancelar, desistir”, de re-, “oposto”, mais signare, “fazer uma marca”, aqui significando “fazer um sinal num registro contábil”, de signum, “marca”. Isto vem da linguagem de atividades de contadoria. Referia-se originalmente  a fazer um registro no  lado do crédito, opondo-se assim a um registro anterior de dívida.

O sentido da palavra passou depois para “desistir de um cargo ou posição” e mais adiante para “aceitar uma determinada situação ou emoção”.

Mas isso é complicado demais para os seus selvagens neurônios, não se preocupem por ora.

Peguem seus materiaizinhos e sigam para casa agora, que a Tia Odete aqui espera ter uns momentos de paz antes da próxima aula.