PARÂMETROS GEOMÉTRICOS

 

O detetive das Palavras, X-8, está terminando com satisfação uma torrada no bar do Garcia, que fica em frente ao Edifício Éden, onde ele tem seu escritório.

Embora feita numa cozinha que dificilmente seria aceita em qualquer pequena vila do mais subdesenvolvido país do mundo, a torrada tem um sabor absolutamente delicioso. Quanto ao seu conteúdo nos omitiremos, pois pode haver pessoas sensíveis na platéia.

Seja como for, desde o começo da insalubre refeição X-8 havia notado que uma palavra estava numa mesa próxima, embebedando-se profundamente com refrigerantes. Misturava todos os tipos, engolia com desespero e demonstrava ser portadora de grande sofrimento.

Depois de recolher a última migalha do seu prato, o detetive pediu licença para sentar à mesa da palavra, que era Geometria.

– Com licença, prezada palavra. Não pude deixar de notar que há alguma coisa errada com você. Sendo eu, deixando de lado quaisquer sentimentos de modéstia, uma pessoa de fama mundial no trato de palavras e suas origens, gostaria de saber se posso fazer algo para ajudar. Minha dedicação às palavras é tão grande que aceito pagamento em diversas moedas e cartões de crédito.

A palavra se espantou. Não esperava encontrar tão ilustre profissional em pessoa. Tomou mais um gole de guaraná e contou, entrecortadamente, o seu problema:

– Bebo para esquecer. Aqui onde me vê, eu, uma palavra de tanta importância para a Ciência, estou morrendo de vergonha porque outro dia me perguntaram as origens de determinadas variáveis e eu percebi que não sabia. Considerei seriamente me enforcar num poste de luz, mas palavras não têm pescoço e os postes de nosso bairro foram todos roubados há muito tempo.

O detetive, compadecido, respondeu:

– Seu problema está por ser resolvido, cara palavra. Diga a quais origens se refere e trataremos de dirimir suas dúvidas.

Geometria, ainda tensa, começou, timidamente:

– Que tal área?

– Ela vem do Latim area, “espaço aberto nivelado, lugar sem construções numa cidade”, possivelmente de arere, “ser ou estar seco”. Provavelmente você vai perguntar por superfície também, não? Esta vem Latim superficies, de super, “acima, sobre”, mais facies, “forma, aspecto”, ligado a facere, “fazer”.

– Hum. E agora, o que o senhor me diz de volume?

– Que veio do Latim volumen, de volvere, “ato de fazer rodar”; acabou se aplicando aos livros antigos, aqueles que eram de papiro e a gente precisava fazer girar na mão para ler. Como, no caso de um livro ser grande, ele ocupava mais espaço, a palavra volume acabou sendo aplicada a objetos que ocupam muito espaço e depois a uma grandeza física.

Comprimento, largura e altura?

– Todas do Latim. Respectivamente, de complere, “encher, completar”; de largus, “abundante, rico, solto”; e de altus, “alto, elevado”.

– Hum. E profundidade?

– Já que a maioria vem do Latim, vou parar de citá-lo de agora em diante. Esta vem de profundus, “vasto, fundo”, de pro-, “à frente”, mais fundus, “a parte de baixo, alicerce, área de terra”.

– Puxa, Seu X-8, já estou bem mais animada. Pode falar sobre espaço e dimensão?

– A primeira é de spatium, “espaço, lugar, lapso de tempo”. A outra, de dimensio, “dimensão, medida”, do verbo dimetiri, “fazer uma medida”, formado por dis, “movimento para fora”, mais metiri, “medir”, do Grego metron, “medida” do Indo-Europeu me-, “medida”.

– Vamos para aresta?

– Esta é de arista, “barba de espiga de trigo, aresta”, pela capacidade cortante que ela tem.

– E raio e diâmetro?

Raio vem radius, “vareta de roda, bastão, raio de luz”.  E diâmetro, do Grego dia, “através”, mais o metron de que recém falamos.

– Que tal perpendicular?

– De perpendicularis, “vertical como a linha de chumbada do pedreiro”, de perpendiculum, “linha com peso na ponta”, de perpendere, “balançar com cuidado”, formado por per-, “completamente”, mais pendere, “pendurar, sopesar”. Mais complicadinha, não?

– Mas muito legal. Falando nisso, e normal, como “reta perpendicular a uma outra ou a um plano”?

Ela vem do Latim normalis, “de acordo com a regra”, originalmente “feito de acordo com o esquadro do carpinteiro”, que era chamado norma e se usava para marcar ângulos retos. Passou a designar tanto “o que está na perpendicular” como “o que segue o padrão”.

Mas este de que falamos é o substantivo; o adjetivo normal se usa para falar de algo que está de acordo com o que se espera.

– E parâmetro?

– Do Grego para-, “ao lado”, mais metron.

– Ponto?

– De punctus, “ponto, picada”, particípio passado de pungere, “fincar, espetar, picar”. Uma espetada com algo agudo faz uma marquinha muito pequena, que nem um ponto de escrita.

– Senhor detetive, estou outra agora! Mal posso esperar para voltar para casa e dizer que larguei a bebida e…

– Epa, um momento. Por lei, é proibido usar os serviços de um profissional de minha importância sem pagar. Isso dá cadeia das mais fétidas.

– M-mas eu estou quase sem dinheiro!

– Muito bem, eu me satisfaço parcialmente em saber que salvei uma palavra das vascas da depressão. Faremos o seguinte: esquecerei a sua dívida se você pagar a pequena refeição que acabei de fazer.

E saiu, com a barriga pesada mas muito satisfeito, deixando a conta de seu lanche na mesa da cliente.