RESUMO

 

O Detetive das Palavras, X-8, está preparando seu escritório para a consulta coletiva desta noite. Um pouco mais de poeira pelos cantos, trocar as teias de aranha artificiais por umas novas, com aspecto de mais frescas…

O que está faltando? Ah, sim, pensa ele com get book report certo desgosto, a caneta Bic meio roída.

Ele pega uma de uma caixa onde se lê “Efeitos Especiais” por meio de uma pinça longa e a larga sobre sua escrivaninha, perto da borda. Ele detesta essas canetas, mas sabe que um escritório com um romântico jeito de baixaria ficaria pouco convincente sem uma delas.

E seu trabalho se apoia parcialmente nisso. Acima de tudo está seu juramento de sempre fazer o máximo por apresentar uma origem de palavra sem chutar ou aceitar etimologias populares. Mas também faz questão de apresentar um ambiente que faça pensar às palavras-clientes que estão vivendo uma aventura das mais emocionantes.

Na hora aprazada, batem à porta e entram as visitantes de hoje.

Sentam-se, expectantes: são palavras relacionadas a explicações abreviadas sobre um assunto ou um fato.

A voz fria do grande profissional sai, gélida, do espaço entre a aba caída do chapéu e a gola levantada do sobretudo:

– Saúdo a distinta clientela, e, para ser breve – espero que tenham notado a sutileza –  começarei lidando com a origem de resumo, que ou é a chefe do grupo ou a mais nervosa, pelos seus olhos arregalados.

Você, resumo, deriva do Latim resumere, “retomar, reassumir, somar”, de re-, “de novo”, mais sumere, “pegar, agarrar”.

E abreviação, ao lado ali de sua irmã abreviatura, vem do Latim brevis, “curto, raso, pequeno, baixo”.

condensar é do Latim condensare, “espessar, tornar grosso ou denso”, de com-, “junto”, mais densus, “agrupado, grosso, espesso”.

Agora falaremos de sintetizar, ghostwriter promotionsarbeit que nos olha com ansiedade. Você  vem do Grego synthesis, “composição, arranjo”, de syntithenai, “compor, combinar”, de syn-, “junto”, mais tithenai, “colocar”.

E aqui temos um verbo pouco usado, mas nem por isso sem importância: epitomar/epitomizar, que também vem do Grego, de epitomé, “resumo, corte na superfície”, de epitemnein, “encurtar fazendo um corte, resumir”, de epi-, “sobre”, mais tomos, “corte”.

Esta palavra começou seu uso com o sentido de “abreviar”, mas mais tarde passou também a significar “servir de modelo, personificar, resumir qualidades”.

Compendiar é outra meio rara de encontrar. Deriva do Latim compendium, “encurtamento”, literalmente “o que é pesado junto”, de com-, “junto”, mais pendere, “pesar”. A ideia deve ser a de pesar em conjunto diversos aspectos de um assunto e daí extrair um resumo.

E encurtar obviamente vem de curto, que veio do Latim curtus, “de pequena extensão”.

Agora podemos falar em reduzir. Esta vem do Latim reducere, formada por re-, “para trás, outra vez” e ducere, de dux, “chefe, líder”. Reducere tinha de início um sentido diferente: “trazer de volta, restaurar” e também “retirar”. Mas o sentido acabou virando “trazer de volta à ordem”, “sujeitar” e finalmente “diminuir, encurtar”.

Não podemos deixar para trás sumário, que nos encara fixamente ali no fundo. Sua origem é do Latim summarius, “relativo à soma”, de summa, “adição, soma”. Adquiriu também os sentidos de “feito sem delongas” e de “texto encurtado, resumo”.

Olhem ali para substanciar: esta palavra tem os significados de “nutrir”, isto é, dar alimento substancial; “fortalecer, dar reforço”; e o que interessa para a presente conversa, “expor em substância, apresentar os aspectos essenciais”.

Em qualquer sentido, ela vem do Latim substantia, “essência, ser, material”, de substans, particípio de substare, “estar presente, ficar firme, estar debaixo de”, formado por sub-, “abaixo”, mais stare, “estar de pé, ficar”, de uma raiz Indo-Europeu sta-, “ficar de pé, firmar”.

Com ar muito intelectual se encontra aqui à minha frente sinopse. Ela vem do Grego synopsis, “vista de um conjunto, sumário, resumo”, de syn-, “junto”, mais horan, “vista”.

E ali atrás, timidamente, temos uma palavra de muito escasso uso: sintomia. Sim, prezadas clientes, ela é assim mesmo, não está grafada com erro, não. Ela tem origem grega também, do syn- que acabamos de citar, mais tomos, “parte, pedaço, fragmento”, e se refere a uma exposição abreviada de um assunto, onde são apresentadas partes de um todo.

E apanhado, que além de significar “aquilo que foi agarrado” também quer dizer “resumo, síntese”, vem do Espanhol apañar, “pegar, recolher”, de paño, do Latim pannum, “pano”, já que os frutos colhidos das árvores eram juntados num pano.

Os frutos assim ficam reunidos e as partes de um assunto, juntas, trazem à lembrança essa metáfora.

Quando algo se apresenta encurtado, resumido, podemos dizer que é conciso. Vem do Latim concidere, “cortar, cortar através, cortar em pedaços”, de com, aqui como intensificativo, mais caedere, “cortar”. Uma pessoa concisa corta fora as partes desnecessárias do que tem a dizer.

E em sucinto temos uma origem interessante: vem do Latim succinctus, “preparado, pronto, encurtado”. Succingere era formado por sub, aqui como “de baixo para cima” mais cingere, “prender com uma faixa, cingir, aprestar-se”.

É uma referência às épocas em que as roupagens masculinas podiam ter sua barra erguida e presa ao cinto, no ato de se aprestar para um combate.

Finalmente, temos conosco breviário, do Latim breviarius, o nome dado ao livro de ofícios da Igreja Católica, de brevis, “resumido, encurtado, breve”.

Resta-me dar a boa noite às prezadas palavras-clientes e colocar-me à disposição para outras dúvidas existenciais sobre etimologia.

Na saída, prestem atenção para não escorregar no lixo dos corredores.