Em: Etimologia no Maternal

Casa

Crianças, muito bem. O materialzinho de aula está guardado, todas as tarefas estão terminadas, mas falta ainda um tempinho para podermos voltar para casa. Para nos distrairmos um pouco, a Tia Odete vai contar umas coisas sobre a origem da palavra casa.

Em Latim, o que nós hoje dizemos casa era chamado domus. Era tão importante ser a pessoa principal num domus, – o dominus, o “Senhor” – que daí derivaram palavras como dominador e domínio, que dão a idéia de alguém com poderes para ser obedecido pelos outros habitantes da morada, como parentes e servos.

O próprio título Dom, usado para os reis da Península Ibérica e os imperadores do Brasil, bem como para certas categorias eclesiásticas, vem de domus. Em Espanhol e Italiano, Don é uma manifestação de respeito.

Sim, Miguelito, já explico por que usamos casa e não um derivado de domus em Português. Em Latim se usava a palavra casa para designar uma choça, uma cabana, uma habitação miserável. Por algum motivo, foi essa a palavra que ficou em uso para designar nossas habitações atuais, já sem a conotação de baixa qualidade.

Daí vem também a palavra cassino, um diminutivo que designava “casa de campo”. Parece que as pessoas preferiam jogar em lugares mais afastados da cidade, donde o nome acabou pegando.

Muito bem, Leonorzinha, esta palavra não se usa apenas para um lugar de jogos de azar. Indica locais de reunião mais respeitáveis, como o “cassino dos oficiais”, a sala das refeições, num quartel. Você está bem informada. Será porque o seu pai é militar?

Outra derivada de domus é doméstico, “referente ao lar”.

Hein? Não, Ledinha, um trabalho doméstico não é feito por uma pessoa domesticada. Há relação, mas é outra.

Domesticar, “tornar caseiro”, também vem de domus, e se refere ao animal que, como espécie ou, às vezes, como indivíduo, teria uma vida selvagem mas que se adaptou à vida junto às pessoas, às vezes na casa delas.

O cão e o gato, por exemplo, eram selvagens e foram domesticados como espécies. Algumas aves podem ser criadas em cativeiro e acabar se habituando a viver em casa. Há pessoas que acham bonitinho o jacarezinho ou o leãozinho quando pequenos e resolvem criá-los na sua propriedade. Quando os bichos ficam adultos, no entanto, a sua condição selvagem se manifesta inescapavelmente, o que traz muito trabalho para os donos e maus resultados para os pobres bichos.

Outro derivado é domicílio, “local onde se reside, habitação”.

Muitos derivados de domus pertencem à linguagem culta, como domo, “cúpula, estrutura arredondada sobre uma edificação”. Aqui cabe também domificar, “dividir a cúpula celeste em doze partes” – coisa de astrólogos.

Ai, ai. Quando o Robertinho levanta a mão para perguntar, já sei que vai sair algo muito esquisito. Fale, meu filho. Ah, descobriu um nome de pessoa que vem de domus? Qual é?

Bem como eu esperava. Você é um amor de menino, mas eu já disse que seu futuro como etimologista é dos mais duvidosos. Não, Demóstenes não tem essa origem. É Grego e quer dizer “a força do povo”. Agora desligue o seu bicho carpinteiro e fique quietinho um pouco. Pense em estudar Medicina no futuro, é mais simples.

Uma palavra que poucos desconfiarão que descenda de domus é domingo. Este era “o dia do Senhor”, ou dominicus dies, onde obrigatoriamente não se trabalhava. Mas crianças que querem ser boazinhas de verdade deixam de brincar nesse dia e estudam, sim, senhores!

Antigamente, quando uma pessoa espirrava, alguém por perto dizia Dominus tecum!, ou seja, “O Senhor esteja contigo”, pois se pensava que a alma da pessoa corria o risco de sair pelo nariz com o espirro.

Estudos aprofundados demonstraram que isso não pode acontecer. As pessoas educadas tapam o nariz nesse momento para não espalhar eventuais microrganismos por aí, não para segurar a alma.

Bem. Quando saímos daqui do coleginho onde algumas professoras sacrificadas penam devido à desatenção de certas pessoinhas, voltamos para casa pelas ruas.

Esta palavrinha tão curta para coisas tão compridas vem do Latim ruga, “sulco, ruga”. E tem uma relação maior com a realidade do que parece modernamente, quando as ruas são mantidas tão lisas quanto possível.

Na época em que os leões faziam seus lanches nos Circos romanos, as ruas que não tivessem uma pavimentação especialmente sólida eram profundamente sulcadas pelas rodas das carroças. Isto inclusive determinou um padrão de largura para os eixos, pois senão os veiculos teriam que andar com as rodas de um lado num sulco e as do outro lado fora do outro sulco, forçando-os a andarem inclinados. As estradas romanas tinham todas a mesma largura, em qualquer dos países que eles dominavam, por causa disso.

Quando estamos a caminho de casa, não imaginamos que essa palavra, que passou pelo Latim Vulgar como camminus, tenha vindo do Celta kamm, “andar, ir”.

E a estrada? Vem do Latim via strata, “caminho em camadas”. Sternere queria dizer “estender, dispor em camadas”. Daí vêm “estratificar” e “estrado”, que é uma estrutura em geral feita com mais de um nível de material onde uma professora nos dias de hoje tem que ficar para poder controlar seus aluninhos, e tire já a mão da Helozinha, Sidneizinho!

Quando chegamos em casa, se não desmaiarmos de exaustão antes, no caso de certas professoras mais sacrificadas, entramos pela porta. Em Latim, portus significava o local de passagem de um lugar para outro, como entre aposentos.

Se olharmos para fora pela janela, estaremos lidando com algo cujo nome veio do Latim januellam, diminutivo de janua, “pequena porta”. Parece que as janelas foram uma invenção meio tardia nas habitações européias, pois em Inglês são chamadas windows, em Francês fenêtres, em Espanhol ventanas, tudo com origens diferentes.

Já imaginaram, viver num lugar escuro, cuja única abertura nas paredes fosse uma porta? Até certa época, nem chaminé havia para a saída da fumaça gerada pelo fogo para cozinhar. Como? Não senhores, eles não podiam usar fogões elétricos, não, e não era só por serem pobres!

Aliás, já que falamos em parede, ela vem do Latim paries, que também é usado no nome dos parietais, ossos do crânio que formam, por assim dizer, as suas laterais, junto às orelhas. Parietal, como adjetivo, significa “relativo às paredes”, e tem uso culto.

Olhem só, tocou o sinal. Podem sair em fila, bonitinhos, como sempre. Se eu estiver viva amanhã vou contar mais fatos interessantes para vocês.

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