Em: Conversas com meu Avô

Abreviaturas

 

Eu tinha sido aprovado no Vestibular e estava cursando o primeiro semestre da Faculdade. Meu avô, naturalmente, estava muito orgulhoso. E com especial razão: a cultura em que eu me havia embebido, o amor pela leitura e o impulso para o estudo que ele me havia passado nos anos de nosso convívio tinham tornado tudo mais fácil para mim.

Agora ele me emprestava seus livros, o que deixou o resto da família espantado. Eu os levava para casa, tratava-os com todo o cuidado e os devolvia o mais cedo possível, para não desapontar o velho amante de livros. Sua fama de ferozes cuidados com esses objetos era proverbial.

Desta vez eu estava devolvendo um deles e perguntei:

– Vô, ando com um certo problema para consultar alguns livros seus, especialmente os mais antigos ou os mais complicados.

– E qual é ele? – perguntou o cavalheiro magro, recostado na sua poltrona macia de couro.

– A toda hora encontro umas abreviaturas e letrinhas e palavrinhas que são usadas como se todos devessem ter a obrigação de saber de que se trata. Escrevi algumas neste papel, olhe.

– Claro que todos deveriam saber o que elas são! Mas atualmente o pessoal cresce sem ter contato com os livros e é nisso que dá! – ele tinha orgulho de mim mas estava sempre me dando alguma chicotada “para que não se perca o rumo”, como ele dizia.

– Não é o meu caso, Vô! – eu tinha aprendido que o senso de justiça dele sempre me permitia enfrentá-lo.

– Tem razão. Digo isso só para incomodar. Vamos dar uma olhada no significado e origem dessas abreviaturas e letrinhas e palavrinhas e mais umas outras que você certamente ainda vai encontrar. Acho bom você anotar para consulta.

Inicialmente, você deve aprender que há um nome para isso: é biblionímia. Forma-se do Grego byblion, “livro”, mais onymos, “nome”. É o conjunto de abreviaturas e sinais usados para orientar e ajudar na compreensão de uma obra escrita.

A maioria é em Latim, e há duas razões para isso: uma, que foram instituídas quando o Latim era o idioma geral da cultura; outra, para não haver briga de abreviaturas entre países de idiomas diferentes. Vamos ver as que você tem na lista.

Aqui está et al., quevem do Latim et alii, “e outros”.

É usada em frases como “Fulano de Tal et alii“, ou seja, esse de cujo nome se falou “e outros”. Mostra que ele não foi o único autor do artigo mas é o principal.

Pode-se dizer também et col., também do Latim, querendo dizer et collegae, “e colegas”. O significado é o mesmo da anterior, mas sugere que o grupo seja formado por pessoas que pertencem a uma mesma instituição.

Também se pode usar et cat., et caterva, para dizer “e outros”. “Caterva” era “grupo, multidão, conjunto de soldados”. No entanto, costuma ser usado mais em tom de desprezo, como quem diz “Fulano e aquele seu bando”.

Observe bem que o et não é abreviado; a palavra está aí inteira. As outras palavras, como al., col., cat., é que levam ponto, para indicar que foram suprimidas algumas letras.

– E aquele oitinho mal feito, tem algo a ver com isso?

– O seu “oitinho mal feito” – desenhou “&” no papel – é isto aqui, né? Pois é um sinal que significa et, “e”, em Latim.

Ele se chama ‘E’ comercial e é o que restou de um sistema de cerca de 3000 sinais para estenografia inventado por um romano chamado Marcus Tirus, no ano de 63 AC. Tal sistema esteve em uso por mais de 600 anos, o que mostra que ele não devia ser dos piores.

Em certas fontes – tipos de imprensa – ainda dá para reconhecer perfeitamente as duas letras. É muito usado para designar nomes de empresas, à antiga: “José Silva & Companhia”.

– O que é estenografia?

– Vem do Grego stenos, “junto, estreito, compacto”, mais graphein, “escrever”. É uma maneira de escrever muito rapidamente, de modo a se poder acompanhar uma pessoa discursando.

– Eu gostaria de saber escrever assim, para poder anotar o que alguns professores dizem em aula.

– Há cursos para isso. Se quiser, posso financiar um. Vamos falar nisso depois.

Voltando à nossa biblionímia, quero mostrar que existem palavras completas, que não são abreviaturas. Por exemplo: idem, que quer dizer “o mesmo” e é a origem da palavra “idêntico”. Usa-se para não ter que repetir o nome de um autor que foi recém citado. Note que não se usa acento aqui, tal como em pajem, item ou viagem.

Também temos ibidem, que quer dizer “no mesmo lugar”, ou seja, na obra da qual falamos há pouco.

Já que falamos em “citar”, temos aqui op. cit., de opere citato, “obra citada”.

– E a gente tem que cantar uma ópera quando lê isso?

– Não; quando “a gente” começa a ter vontade de dizer besteira deve pegar um porrete e bater na própria cabeça até se curar, seu bobo. Não atrapalhe! – ralhou falsamente o velho.

Em vez do ibidem, podemos usar loc. cit., loco citato, “no lugar citado”. Acrescento que citar vem do Latim citare, “fazer mover, convocar”.

Outra palavra que não é abreviada é passim. Isto quer dizer “aqui e ali”, “em vários lugares”. Significa que o assunto de que estamos tratando aparece em diversos pontos da obra ou autor citado.

Usa-se também inter alia, “entre outros”, para dizer que o autor citado não é o único que afirma aquilo de que está falando.

Temos também a abreviatura i. e., id est, ou seja, “isto é”. Pode-se usá-la em Português: i. é, de “isto é”. Note que, neste caso, o verbo não leva ponto, já que não é abreviado.

Uma maneira de fazer o leitor completar o conhecimento do assunto que está lendo é colocar q. v. na frase. Isto significa quid vide, “o qual veja”, do verbo vedere, “ver”.

Num dicionário se pode escrever uma palavra usada para definir outra e dizer entre parênteses q. v., ou seja, “deixe de ser preguiçoso e olhe também este verbete que você vai aprender mais sobre o assunto”.

– Puxa, esse pessoal sabia abreviar mesmo!

– É verdade. Se você aprender a fazer como eles, pode dispensar o curso de estenografia. Aliás, se quiser mais abreviada ainda a expressão de que estamos falando, dá para escrever apenas v., para vide, que faz o mesmo efeito do anterior.

E para dizer de que obra tiramos algum trecho, podemos dizer in, “em”. Ou seja: “na obra tal”. Para dizer de que autor ou obra estamos citando, usamos apud, também com o sentido de “em”. Estas também são palavras inteiras, não abreviaturas; não levam ponto.

Mais uma deste tipo: sic, “assim”. Usa-se para dizer que estamos citando ipsis litteris, ou seja, palavra por palavra, tal como escreveu determinada pessoa.

Geralmente tem o seguinte significado: “eu copiei igualzinho ao que esta figura escreveu; os erros são por conta dela, não tenho culpa”. Muitas vezes é uma maneira sutil de se demonstrar que quem escreveu não domina o idioma.

– Mais uma prova da concisão do Latim, hein, Vô?

– Exatamente. É um idioma incomparável. O que me lembra o seguinte: ao falar em determinado assunto, pode-se colocar entre parênteses cf. antes da palavra, para remeter o leitor a um assunto correlato. Isto significa confer, “compare”.

– E essa abreviatura tem a ver com esta outra, c.?

– Não. Repare que esta aqui sempre se refere a um número, mais exatamente a uma data. Ela quer dizer circa, “cerca de, em torno de”. Por exemplo, “c. 1500 AC”…

– …Quer dizer “em torno de 1500 Antes de Cristo”.

– Muito bem. Você realmente não é tão burro como parece.

– Você está muito elogiador hoje, Vô. Assim vou me acostumar mal. Sabe que, no outro dia, uma colega minha estava atrapalhada com esse assunto de AC e DC?

– E o que foi que você fez?

– Ora, expliquei que AC é antes de Cristo, cujo nascimento se convencionou ser o Ano 1 para contagem de tempo na civilização européia; que o tempo antes desse ano é contado de trás para diante, ou seja, quem nasceu no ano 100 antes de Cristo e morreu aos 80 anos, faleceu no ano 20 AC. Falei também que DC é usado para os anos posteriores ao seu nascimento e que, quando não se cita nada numa data é porque se trata de DC mesmo.

– Humm. Nada mau. Idéia clara, exposição objetiva, exemplo compreensível… talvez saia um professor que preste desta cabeça oca, afinal. Mas diga-me uma coisa: e AD, o que é?

– Aí o senhor me apertou.

– Significa anno domini, “no ano do Senhor”, quer dizer, depois do nascimento de Cristo. Pode substituir o DC. Em Inglês se usa BC, before Christ, “antes de Cristo” e AD.

Falando em algo mais palpável, usa-se fl. ou fls. para dizer folia/foliae, uma forma de dizer p. ou pág., “página/páginas”; escreve-se vol. quando se quer dizer volumen, “volume”.

Podemos ver agora, por exemplo, v. g., verbi gratia, “por amor à palavra”, que quer dizer exatamente “por exemplo”.

Um sinônimo é e. g., exempli gratia, “por amor ao exemplo”. Os ingleses por vezes entendem que esta é uma abreviatura de example given, “exemplo dado”. Dá no mesmo.

Em Português, naturalmente, usamos o p. ex., “por exemplo”.

– Estamos falando a toda hora em exemplo. E esta palavra, de onde vem?

– Do Latim eximere, que vem do verbo emere. Inicialmente, este queria dizer “tomar, pegar”. Algo “tomado” para ser seguido por outros era exemplaris.

Com uso semelhante temos sc., scilicet, encurtamento de scirelicet. Esta palavra se forma de scire, “saber” e licet, “poder, ser permitido”, e quer dizer “a saber, convém saber”.

Pode-se usar o viz., videlicet, onde o vide é de vedere, “ver”. Ficamos com algo como “pode-se ver”, com uso igual ao da anterior, “a saber, convém saber”.

– E, Vô, esta abreviatura aa. não tem nada a ver com Alcoólicos Anônimos, imagino?

– Nada mesmo. aa. é “autores”, o plural de A. Falando nisso, temos também N. A., ou N. do A., “nota do autor”. Quer dizer que uma nota de pé de página foi feita por ele mesmo.

– Mas quem mais poderia se meter na obra alheia e fazer uma nota assim?

– Há outros que podem. O tradutor pode querer chamar a atenção para algum ponto e nesse caso assina sua nota com N. T. ou N. do T. O editor pode fazer o mesmo e colocar N. E. ou N. do E.

E já que estamos falando em “notas”, existe o N. B., nota bene, ou “note bem”, para realçar um ponto especialmente importante.

No fim de uma carta, se esquecemos de falar durante o texto em determinado assunto, a gente escreve P. S. post scriptum, “escrito depois” e trata do assunto. Agora, com as possibilidades de editar que o computador traz, isso não é mais necessário.

Em obras que se refiram a escritos antigos poderemos encontrar Ms., manuscriptus, “manuscrito”, ou seja, “escritos à mão”, de manu, “mão” e scriptus, particípio passado de scribere, “escrever”.

Atualmente, com as pessoas escrevendo ao computador, não vai mais ser possível guardar os esboços de grandes obras com a letra do autor.

– Vô, quando eu morrer depois de ser um grande intelectual e escritor, vão colocar o teclado e o disco rígido do meu computador no museu, como um exemplo da minha contribuição à Humanidade. Que tal?

– Esse dia vai custar muito a chegar, mas as homenagens a você vão ter que ser por aí, meu filho. Tem razão. Os pentimentos vão acabar.

– Os quê, Vô?

Pen-ti-men-tos. Pentire, em Italiano, quer dizer “arrepender-se”. Os pentimentos são “os arrependimentos”, as alterações feitas durante a preparação da obra, que obviamente têm um valor enorme depois que ela foi lançada – se ela teve sucesso.

– Por via das dúvidas, Vô, acho que vou deixar pelo menos algum bilhetinho antes de morrer.

– Pode ser. Mas falta tanto para isso que é melhor você primeiro estudar e se transformar em alguém que mereça ser homenageado.

Uma abreviatura das mais comuns é etc., et coetera. Isto quer dizer “e outros, e outras coisas, principalmente da mesma espécie”, “e assim por diante”.

– Essa eu já conhecia!

– Se não conhecesse, seria o caso de se enforcar. Mas muito bem, meu acadêmico, acho que está na hora de abreviar este nosso encontro, que eu já estudei tudo o que devia e um pouco mais, e posso me dar ao luxo de sestear. Você ainda não pode, e vai custar muito para ter esse luxo. De maneira que pegue os livros que você precisa e vá para casa ler. Outra hora conversaremos mais.

Mas acrescento um P. S.: estou contente com o seu rumo.

Saí dali levezinho, contente. Não sabia que era tão bom dar orgulho a quem a gente gosta.

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