Em: Conversas com meu Avô

MUITO E POUCO

Eu estava regando o jardim de meu avô, junto ao seu gabinate que ficava nos fundos da casa. Ele dizia que trabalhar fazia bem para um adolescente e que ele infelizmente não podia se esforçar por ordens médicas.

Ele estava mentindo, e nós dois sabíamos disso.

– As plantinhas estão com sede, Vô  –  disse eu, com a intenção de lhe dar um puxão de orelhas  –  você precisa cuidar mais delas, elas precisam de muita água.

– A culpa é sua, por não vir todos os dias fazer isso e deixar um pobre velho senil e doente a trabalhar feito um mouro  –  respondeu o descarado, que tinha uma saúde invejável.

Antes que ele provasse estar com a razão, como eu sabia que ia acontecer, aproveitei para fazer alguma pergunta que o distraísse:

– Falando em muita água, de onde veio essa palavra? E  pouca?

Muito veio do Latim multum, “muito, em grande quantidade”, derivada de uma fonte Indo-Europeia meg-, “grande”, a mesma que nos deu mega- em Grego.

– E vários, que não chega a ser muito?

– Essa veio do Latim também, de varius, “matizado, de distintas cores, diferente”. Note que você citou o pronome indefinido, que se usa só no plural: “Vários professores disseram para eu estudar mais”. Como adjetivo, essa palavra pode se flexionar: “Meu desempenho é vário, disseram os mestres”.

Muita gente não sabe essa diferença e usa variegado, que significa “de muitas cores, salpicado”, como sinônimo de variado.

– Você diz isso para me incomodar, Vô, eu estudo diretinho.

– Nesse assunto, nunca é demais ameaçar. Colho a ocasião de falar na origem de pouco, um antônimo de muito: vem do Latim paucus, “escasso, em pequena quantidade”. Em Latim arcaico queria dizer “ficar pequeno, diminuir”, do Indo-Europeu pau-, “pequeno”. Há um nome bem usado que veio daí, aliás: é Paulo. Ele se formou a
partir de paulus, “de baixa estatura”.

– Ah, vou me divertir com meu colega Paulinho amanhã!

– Não vai fazer nada. Se fizer, não venha de olho roxo depois.

– Pensando bem, ele é faixa preta de judô e de baixinho não tem nada… Melhor ficar quieto. E parco, de onde é? Sempre vejo queixas de “parcos recursos” para administrar a cidade.

– Essa vem do Latim parcus, de parcere, “economizar, poupar”. Temos a partir daí o
substantivo parcimônia, “poupança, economia”. O que me lembra a expressão muito conhecida “Mal e porcamente”. Quer me parecer que ela era originalmente “Mal e
parcamente”
, ou seja, descrevia alguma coisa escassa e mal feita e que acabou se modificando tanto por ignorância como por exotismo.

– Ideia sua, Vô?

– Sim. Não me candidato ao Prêmio Nobel por causa dela porque não tenho como comprovar. Além do mais, dá muito trabalho.

– O senhor falou em escasso. E essa…?

– Do Latim vulgar excarpsus, “em pouca quantidade”, de excarpere, “retirar, colher de uma planta”, de ex-, “fora”, mais carpere, “colher, retirar”.

– E se a colheita foi grande?

– Aí veio do Latim grandis, “de muito tamanho, abundante, sublime”. Ela acabou tomando o lugar de magnus, de significado semelhante.

– E se tiver sido enorme?

– Nesse caso se formou do Latim enormis, “muito grande, fora do esperado, irregular, extraordinário”, de ex-, “fora”, mais norma, “regra, lei”.

– E se ela foi abundante…?

– Então veio do Latim abundare, “recobrir, tapar, inundar”, de ab-“para fora”, mais undare, “erguer-se como uma onda”, de unda, “onda”.

Já que você está estranhamente agrícola hoje, falando tanto em colheitas, muitas vezes dizemos que uma vegetação é exuberante. Sua origem é o Latim exuberans,”superabundância, grande quantidade”, de ex-, “fora”, mais uberare,
“ser produtivo”, relacionado a úbere, a glândula mamária da Dona Vaca.

– Isso tudo me lembrou a tal cornucópia, como era mesmo a história?

– Esse foi o nome dado ao chifre da cabra Amalteia, que dava leite a Zeus, o futuro deus principal dos gregos, quando ele era pequeno e precisava se esconder de seu pai, que tinha sérias intenções de devorá-lo.

– Puxa!

– Como eu já disse, a vida naqueles dias era difícil. Você nasceu na moleza! Pois o pequeno deus naturalmente tinha certos poderes e um dia, brincando com a cabra, quebrou sem querer um dos seus chifres. Para se redimir, ele a curou instantaneamente e fez do chifre a cornu copiae, “o chifre da abundância”; copia quer dizer “abundância, grande quantidade”. Dele saía uma quantidade interminável de alimentos, proporcionando fartura a quem a portava.

– Legal, onde é que ele está agora?

– Guardado nos livros. Falando em muito  e pouco, já conversamos muito e estou com pouco tempo para fazer as escassas coisas que o mundo exige de um aposentado. Vamos completar a nossa conversa noutro dia.

 

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