Em: Etimologia no Maternal

OS PARÔNIMOS DE TIA ODETE

 

Para variar, entro na minha sala de aula e encontro uma confusão estabelecida. Metade da aula grita desaforos para a outra e esta responde.

Parem, antes que eu chame as Forças de Segurança. Quero ver vocês enfrentarem aviões de ataque, artilharia e submarinos quando eles vierem.

Hum, nada como apelar à razão para aquietar a barbárie quando ela se manifesta.

Agora me contem a causa desta desavença toda.

A ver… alguns queriam colocar tachinhas no meu assento e outros diziam que essa palavra designa uma marquinha que vai sobre as letras que vocês ainda não aprenderam e que assim eu não ia me espetar. Ah.

Apesar das más intenções, vejam só, aí temos, um belo assunto para nossa aulinha. Vamos nos sentar que eu vou contar algo sobre parônimos.

Esta palavrinha vem do Grego paronymos, “de nome semelhante”, formada por para-, “ao lado”, mais onymos, “nome”.  São palavras que se pronunciam ou se escrevem de maneira parecida.

Vejamos a origem de tanta briga,a palavra assento. Esta vem do Latim adsentare, “sentar-se em”, formado por ad, “a”, mais sentare, “sentar-se”.

E a outra de que vocês falavam era acento, que vem do Latim accentus, “tom, canção ajuntada à fala”, particípio passado do verbo accinere, formado por ad-, mais canere, cantar.

Já explico, Valzinha, acentos são sinais que servem para indicar a subida ou descida do tom de voz ou se a vogal a ser emitida é aguda ou grave.

Ah, não era isso que você ia dizer? Uhm, vocês no condomínio têm uma nova vizinha cujo assento chama a atenção dos homens… Provavelmente ela é professora de Português especializada em sinais diacríticos. E basta, o assunto não interessa à nossa aula e vamos rapidamente citar arrear e  arriar.

A primeira significa “adornar, colocar arreios, mobiliar” e vem do Latim arredare, “enfeitar, adornar”, do Germânico rêds, “meio, provisão”. A outra quer dizer “fazer descer, baixar”.

Essa origem é comum às duas; em algum momento de sua história elas se afastaram e adquiriram significados diferentes.

Agora, remissão e remição. Ambas vêm do Latim redimere, “redimir”, literalmente “comprar de volta”, de re-, “de novo, outra vez”,  mais emere, “comprar, ganhar, obter”.

Remissão se usa como “perdão” e remição, como “liberação, resgate de título oneroso, salvamento”.

E emigrar e imigrar? Ambas derivam do Latim migrare, “trocar de posição, mudar de residência”, de uma raiz Indo-Europeia –mei, “mudar, deslocar, trocar”.

Emigrar vem de ex-, “para fora”, mais migrare. E imigrar, de immigrare, “passar por”, de in-, “para dentro”, mais migrare.

Falando nisso, há uma história interessante sobre a migração das aves da Europa. Até à Idade Média ela era compreendida, mas depois esse conhecimento foi perdido. Aí surgiram as hipóteses mais loucas para explicar a chegada e desaparecimento delas. Um inglês dizia que as andorinhas passavam o inverno dormindo no leito dos rios. Um compatriota seu afirmava que elas iam para a Lua.

Pronto, para que fui falar nisso. Agora cada um dos meus aluninhos quer inventar um lugar mais absurdo para o repouso das avezinhas.

Quietos de novo e escutem: vendável e vendível. Ambas vêm do Latim vendere, da expressão venum dare, “dar ou colocar à venda”, onde venum quer dizer “objeto à venda” e dare é “dar”.

Mas há certa predominância de uso: vendável quer dizer “o que pode ser vendido com facilidade, o que é bem aceito no mercado”. Já vendível é o que pode ser vendido, que está à venda, mesmo que não haja multidões querendo comprar.

Prestem atenção para uma dupla que certamente vocês não conhecem: versudo e verçudo.

Nãão, seus graciosinhos, não se trata de nenhuma dupla sertaneja, não.

Versudo vem do Francês verse, que é qualquer fenômeno, como uma ventania,  que faz certas plantas, como o trigo, se deitarem, acamarem-se. Vem de verser, “fazer oscilar, bascular”.

E verçudo se usa para o que tem muitas folhas ou cabelos em grande quantidade, peludo. Veio do Português antigo verça, “couve”, que costuma se apresentar cheia de folhas.

Ocorre-me uma dupla de parônimos que atinge o Português e o Inglês: mister e mister. Notem que a pronúncia de uma é “míster”, uma paroxítona. E que a da outra é “mistér”, acentuada na sílaba final.

O mister, forma de tratamento inglesa, é uma forma de master, do Latim magister, “professor, diretor, chefe”, derivado de magis, “mais”, comparativo de magnus, “grande”.

Já o mister, com “é”, significa “profissão, atividade, ofício” e vem de ministerium, “profissão, ofício”, de minister, originalmente  “servo, criado, ajudante”, de minor, um superlativo de minus, “menos”.

Ou seja, elas se originam de palavras completamente opostas em termos de sentido.

Aproximando-nos do fim da aulinha, podemos falar em tráfego e tráfico. Ambas derivam do Italiano traffico, de trafficare, “comerciar, negociar”, de origem discutida.

Até algumas tempo elas se confundiam em nosso idioma. Em Inglês, por exemplo, ambas se aplicam ainda tanto ao comércio como ao movimento de veículos e pessoas, embora este significado seja mais recente.

Acho eu que, por influência jornalística, tráfico tem-se imposto como “comércio ilícito”, mas isso é apenas questão de uso.

Agora que a aulinha terminou sem que nenhum objeto mal-intencionado tenha sido posto em minha cadeira, arrumem suas coisas e saiam.

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Em: Assunto da Edição

Acentos, Etc.

Existe, na maioria dos idiomas, uma série de sinais que são usados para facilitar a escrita e a leitura. Eles têm o poder de modificar o valor de uma letra e são chamados de sinais diacríticos.

Em nosso idioma, eles compreendem os acentos e os sinais que conhecemos por cedilha, til e trema.

Como é hábito nesta seção, vamos explorar as origens dos seus nomes.

DIACRÍTICO – palavra estranha, essa. Vem do Grego diakritikós, “aquele que pode distinguir, que consegue separar”, do verbo diakrinein, “separar um de outro”, formado por dia-, “através, por meio de”, mais krino, “separar, discernir, distinguir”.

acento – vem do Latim accentus, “tom, canção ajuntada à fala”, particípio passado do verbo accinere, formado por a-, “junto”, mais canere, cantar.

São sinais que servem para indicar a subida ou descida do tom de voz ou se a vogal a ser emitida é aguda ou grave.

CIRCUNFLEXO – vem do Latim circumflexus, “dobrado ao redor”, formado por circum, “ao redor”, que deriva de circus, “forma redonda, anel”, mais flexus, “dobrado, fletido”, particípio passado de flectere, “dobrar”. O nome se deve à forma deste sinal; neste caso, é como se a gente dobrasse uma barra de metal ao redor de algo para formar um ângulo reto.

Circunflexão é o que os fiéis fazem na frente do altar, dobrando os joelhos.

AGUDO – é o acento que indica um aumento de freqüência na voz; torna aguda a vogal por ele marcada, como em , , .

Seu nome vem do Latim acus, “agulha, objeto cortante, pontudo”.

Uma coisa feita acuradamente é algo que foi feito com precisão, como quando se toca algo pequeno com a ponta de uma agulha.

GRAVE – atualmente, serve para para mostrar que houve crase, isto é, união (do Grego krasis, “fusão, mistura”) de artigo feminino com preposição ou pronome demonstrativo, como à (preposição a + artigo a) ou àquela (a + aquela).

Seu nome vem do Latim gravis, “pesado, solene, som de baixa freqüência”.

TREMA – esse par de pontinhos é usado sobre o “U” depois do “Q” ou “G” para indicar que ele não é mudo, como em eloqüente, agüinha. Leva esse nome a patir do Grego trema, “pequeno furo; cada um dos buracos de um dado”.

Poucos sabem que esse sinal tem um sinônimo, diérese, do Latim diairesis, “separação das vogais de um ditongo”, do Grego diairein, “dividir, separar”.

CEDILHA – este sinal que, colocado sob a letra “C”, a faz soar como “SS”, teve uma origem interessante. Em geral se pensa que o seu nome vem dessa letra, pois só com ela é usado.

Mas não é nada disso, não. Ele deriva do Espanhol zetilla, “pequena Z”, de zeta, “Z”, que deriva do Grego zeta, “Z”.

Ocorre que os escribas da Espanha pegaram a moda de escrever, em letra cursiva,o “Z” com a parte de cima tão encurvada e aumentada que que o traço superior acabou parecendo um “C” e o resto da letra acabou apenas como um penduricalho, como se fosse um membro aleijado.

Por muito tempo se usou o “Ç” em Espanhol; agora essa letra não faz mais parte do seu alfabeto.

Com isso terminamos de ver os sinais diacríticos, mas aproveitaremos nosso espaço para examinar outros sinais de nossos teclados.

PARÊNTESES – receberam esse nome a partir do Grego parenthesis, “colocado ao lado”, do verbo parentithenai, “colocar ao lado de”, formado por para-, mais tithenai, “colocar, pôr”.

É exatamente para isso que esses sinais servem: para “colocar ao lado” de outra uma idéia ou informação.

RETICÊNCIAS – são do Latim reticentia, “silêncio”, do verbo reticere, “manter-se quieto, fazer silêncio”, que se forma por re-, intensificativo, mais tacere, “calar, não falar”.

É um sinal que se usa muito quando a gente quer dar a entender que há mais no assunto do que queremos falar…

EXCLAMAÇÃO – é um sinal cujo nome veio do Latim exclamare, “gritar alto”, de ex-, intensificativo, mais clamare, “gritar, chamar”.

INTERROGAÇÃO – do Latim interrogare, “perguntar”, formado por inter-, “entre”, mais rogare, “perguntar, pedir, questionar”.

VÍRGULA – do Latim virgula, diminutivo de virga, “verga, vara, trave, ramo”. O nome foi escolhido devido à forma do sinal.

HÍFEN – do Grego hyphén, “em conjunto com”, pois serve para unir palavras que assumem um sentido diferente de quando estavam separadas.

ASTERISCO – vem de uma das palavras que os romanos usavam para designar estrela, aster, por semelhança óbvia de forma.

PONTO – do Latim punctum, particípio passado de pungere, “espetar, furar”. No começo queria dizer “pequeno furo feito por algo aguçado”, depois passou a significar “pequeno sinal, partícula, mancha” e mais tarde tomou posse do sentido atual.

E é com ele que encerramos este artigo.

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