Em: Etimologia no Maternal

Um Memorando Da Tia Odete

De: Tia Odete, Professora do Maternal desta renomada Instituição de Ensino.

Para: Sra. Diretora da mesma renomada Instituição de Ensino.

Assunto: delicado.

Prezada Sra. Diretora, como acima dito, o assunto a ser tratado nesta minha correspondência oficial, em cuja cópia espero seja aposto o seu “Ciente” e, de preferência, “Concordo”, é dos mais delicados.

Já que falei nessa palavra, informo que ela vem do Latim delicatus, “delicioso, atraente”, passando a ter também a conotação de “constituição frágil” a partir do século 15. É com este sentido que uso a palavra no presente contexto.

Trata-se de matéria fundamental para a minha sobrevivência, considerando que tenho o mau hábito de me alimentar mais de uma vez por dia. Alimentar vem do Latim alere, “fazer crescer, alimentar”.

Mais de uma vez vi a expressão latina Alma Mater, referente à instituição de ensino que a gente cursou, traduzida como Alma Mãe, absurdo dos maiores, pois quer dizer na verdade Mãe Nutriz, Mãe que Alimenta – alimenta nosso espírito, claro.

Embora sabedora que essa história de se alimentar é um vício do qual os que pertencem à nossa categoria deveriam se livrar se pretendem se sustentar com o que ganham na profissão, ainda não consegui convencer o meu metabolismo a parar de insistir com a manutenção das taxas de glicose e outros parâmetros tolos.

Metabolismo não tem nada que ver com um atacante no futebol que mete a bola na rede, não; vem do Grego metaballein, “mudar, fazer alterações”, de meta, “sobre”, mais ballein, “lançar”.

Destarte, considerando que me foi confiada a sorte da pior turma que jamais foi vista no sistema educacional deste país e que me tenho esmerado para garantir a educação desses jovens que são o futuro de nossa Nação – coitada dela – a ponto de espargir cá e lá ilustrações etimológicas da mais profunda relevância para o espírito das crianças, venho por meio desta solicitar um aumento.

Solicitar vem do Latim solicitare, “movimentar, agitar, pedir”.

De que? De trabalho? Não, de uma coisa que a Sra. pode escolher da lista abaixo:

SALÁRIO – palavra esta que vem do Latim salarius, “pagamento, quantia que era dada aos soldados para a compra de sal”. Como curiosidade, temos que no Japão a palavra sarariman quer dizer “trabalhador masculino assalariado”, feita a partir do Inglês salary-man, de mesmo significado.

ESTIPÊNDIO – vem do Latim stipendium, “imposto, pagamento, presente”, formado por stips, “esmola, pequeno pagamento”, mais pendere, “pesar”. No caso dos meus vencimentos, essa palavra stips é tão adequada que, se pudesse sustentar um cãozinho, eu o chamaria de “Stips”.

Uma das razões para não me meter a criar um animalzinho desses é o temor de o transformar em churrasco em algum fim de semana de maior aperto.

HONORÁRIO – vem do Latim honos, “honra”. Nos últimos séculos, tem o significado de pagamento feito por serviços de especial merecimento, mas originalmente honorarium era “propina dada em troca da indicação a um posto honorário”.

Também como curiosidade, acrescento que, na Inglaterra, existiu uma moeda de ouro chamada guinéu. Ela era feita com ouro da Guiné e foi cunhada entre 1663 e 1813. Inicialmente valia os mesmos vinte shillings que a libra, mas em 1717 o seu valor foi fixado em 21 shillings.

Em tal país, mesmo não existindo mais essa moeda, costuma-se fixar em guinéus o pagamento de serviços de profissionais liberais e itens de luxo. Considerando-me enquadrada seja em “profissional muito liberal”, seja em “artigo de luxo”, não recuso a possibilidade de receber o que me é devido em guinéus.

VENCIMENTOS – do Latim vincere, “levar vantagem numa contenda, ganhar, vencer”. Vencimento é a data em que são cumpridas as obrigações.

Obrigação vem do Latim obligatio, originalmente “ligação, elo”, de ob-, “para”, mais ligare, “atar, unir, ligar”. Uma pessoa em obrigação com outra está atada a ela pelos laços da consciência, da ética e da moralidade, não lhe parece?

PAGAMENTO – do Latim pacare, “aplacar, satisfazer, apaziguar” (principalmente um credor), palavrinha essa que veio de pax, “paz”. Convém não esquecer que essa palavra teve origem no Indo-Europeu pak-, que formou tanto pecus, “ovelha”, de onde veio pecúnia, “posses, dinheiro”, como “paz”, “sentimento de tranqüilidade, de calma, ausência de rixas ou ameaças.”

Os antigos sabiam que, para estar tranqüilos em casa, precisamos não ter dívida com ninguém, especialmente com uma professora que tanto se esforça para manter os seus alunos quietos e não enlouquecer com as gracinhas que eles fazem a torto e a direito.

Gracinha se desenvolveu, não sei como, do Latim gratia, que significava “favor, beleza, perdão”.

O que eles fazem não é nenhum favor, não é bonito nem merece perdão, mas isso é outro assunto.

Assim fica claro que, caso a Sra. ainda tenha um resquício de consciência, da melhoria do meu pagamento resultará uma maravilhosa sensação de paz interior.

Muito bem. Escolhido o item pela senhora, viria muito bem um aumento dele, palavra que vem do Latim augmentare, “tornar maior, aumentar, enriquecer”, derivado de augere, “fazer subir, aumentar”, de uma raiz Indo-Européia aug-, “aumentar”.

Veja que até os povos que originaram nosso idiomas ocidentais usavam uma palavra com esse sentido. Provavelmente a usavam para pedir que os salários se ajustassem às suas necessidades, para que eles pudessem comprar machados de pedra de último modelo ou um bom filé de mamute.

Poderia também ser um acréscimo, do Latim accrescere, “aumentar, crescer”. Um acréscimo em meu salário, ao permitir que eu não morra de inanição, seria muito conveniente para a salvação de sua alma, caso a Sra. venha algum dia a falecer.

Inanição vem do Latim inanis, “pobre, esvaziado, faminto”.

Não se trata apenas de comida, porém, o meu problema. Como conseqüência do nervosismo constante em que aquelas crianças me mantêm, sou uma grande consumidora do conhecido tranqüilizante Nervocalm. Tranqüilizante vem do Latim tranquilitas, “tranqüilidade”, de tranquilus, “calmo, pacífico”, formado por trans-, aqui com o sentido de “muito além, sem par” mais quies, “descanso, calma”.

Os latinos adoravam dizer Parva domus magna quies, como quem diz: Casa pequena, calma grande. Meu apartamento é pequeno e nem por isso é calmo, eis que muitas vezes o tremor me assola quando estou lá e sou obrigada a estrangular um ou dois travesseiros para deixar correrem minhas energias retaliatórias que não posso soltar em aula.

Retaliar vem do Latim retaliare, “revidar na mesma moeda, usar a lei do Talião”. E Talião não era um legislador grego, não; deriva da palavra talis, “igual, tal como”.

Destarte, em minha modesta opinião, creio ter tornado suficientemente claros os motivos destas minhas mal traçadas linhas. Coloco-me à sua disposição para ulteriores esclarecimentos e assino-me,

Esperançosamente,

Tia Odete.

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Em: X-8 Detetive Etimológico

Horrível Criatura

X-8, o detetive particular que trata apenas de casos de palavras, está em seu escritório, na pior parte da cidade. O bairro é tão ruim que nem figura nos mapas.

Ele é um grande marqueteiro pessoal. Sabe que, além de competência, o público exige um algo mais de um produto. Por isso, ele começa a atender só à noite. Assim ele aproveita a luz do cartaz luminoso que fica logo por fora da sua janela.

Desta forma ele economiza na conta da energia elétrica e faz do seu escritório amplo e cuidadosamente desarrumado uma imagem perfeita de Roman Noir, com aquelas sombras se projetando fortes na parede e um falcão maltês de louça sobre a geladeira velha, barulhenta e descascada a um canto.

O grande investigador está sentado, preparado para tudo. Usa, como sempre, sua gabardine cor de palha e o chapéu de feltro marrom enfiado na cabeça. Mal aparecem a ponta do nariz e o brilho inquisitivo dos seus olhos.

Isso não impede de um bom número de suas clientes se sentirem apaixonadas por ele. Mas ele sabe que não pode se dar a esse luxo. A ética e a decência não permitem que ele se envolva com clientes. Além disso, que tipo de vida ele poderia oferecer a uma pacata companheira? Correrias constantes em pesquisas, andar por aquela zona terrível todas as noites… E ainda por cima elas iam querer ter filhos e um cachorrinho “poodle” branco. Essa não. Além do mais, deixar de desfrutar de toda essa liberdade que ele tem…

Está divagando assim quando a porta rangente do escritório se abre e entram silenciosa e furtivamente duas figuras. Ele levanta os olhos e, apesar dos seus anos de experiência, se espanta: Horrível Criatura! Ou melhor, as palavras Horrível e Criatura.

– Detetive X-8? Fomos encaminhadas por uma outra cliente sua…

X-8 lhes indica duas cadeiras. As palavras se sentam nervosas, olhando fascinadas para o ambiente estranho ao seu redor. Quem fala mais é Horrível.  Criatura quase só se limita a assentir com a cabeça.

Contam a história triste que forma a maioria dos casos de um detetive desta especialidade: desconhecem a sua origem e agora criaram coragem para tentar saber mais, mesmo que as notícias sejam péssimas.

X-8 já notou que palavras em geral têm problemas de auto-estima: freqüentemente fantasiam que têm origem desconhecida, temem ser bastardas, apenas invenções recentes e que não durarão muito, como as gírias passageiras que não conseguem se fixar num idioma.

O único que as acalma – e que muitas vezes as torna até meio arrogantes – é descobrir uma origem atestadamente antiga. Com isso elas se sentem melhor: se elas vêm de uma linhagem de séculos ou até milênios, certamente vão durar bastante mais, vão ser bastante requeridas. E é disso que elas ganham o seu sustento. Senão…

Dias antes, ele tinha visto a palavra supimpa pedindo esmola na rua. Figura deprimente, uma palavra que antes tinha estado nas bocas e páginas de toda uma época, agora esquálida, acinzentada, já perdendo os contornos, sinal de que pouco falta para ficar irreconhecível e desaparecer do idioma… Apesar da sua propalada dureza, o detetive guardava atrás da gabardine um coração sensível. Olhou triste para palavra e cruzou a rua olhando com súbito interesse para o céu escuro, evitando assim ter que lhe dar uma esmola.

Falando em dinheiro, ele olha a vestimenta das clientes à sua frente. Percebe que são palavras que têm bastante serviço. Poderão pagar bem.

Felizmente; com a sua bondade, ele sofria muito quando uma cliente não tinha condições de lhe pagar os honorários e ele percebia que aquela entrevista não ia render nada.

Naqueles casos, ele encaminhava as coitadas à Assistência Etimológica Municipal, onde o trabalho era muito mal feito. Lá eles tinham uma dúzia de folhetos com algumas etimologias ao acaso, e geralmente tentavam empurrar um deles para a palavra, insistindo em que elas eram relacionadas. Havia rumores até de suicídio de palavras devido a isso.

Mas ele não podia fazer nada. Tinha que ganhar a sua vida, e o preço do caviar estava pelas alturas.

Horrível e Criatura terminam suas queixas. Após umas frases lacônicas dele, elas lhe dão um adiantamento para cobrir o táxi que ele vai usar, as entradas para as bibliotecas (as palavras se entreolham, estranhando), as refeições em lugares sórdidos que elas nem imaginam que existem (“Romântico!” – pensa uma delas), o xerox, papel, caneta e outros materiais necessários para um serviço sujo e perigoso daqueles.

Ele é o primeiro a reconhecer que cobra caro (e ainda por cima, como se diz em Português bem claro, “em cash”). Em compensação, garante às clientes que, se ele for apanhado, morrerá antes de contar quem foi que o contratou.

Elas se entreolham de novo: não sabiam que estavam lidando com uma atividade de tamanhos riscos! Assanhadas com a atmosfera de filme antigo, com o perigo e com a calma frieza do profissional, elas topam o preço absurdo sem pestanejar. Estão simplesmente encantadas.

Percebendo isso, ele acrescenta que a tarefa é especialmente espinhosa neste momento: setenta por cento dos livros estão em greve (segundo o Sindicato deles; segundo o Governo, são apenas quinze por cento). Elas não sabem nada disso porque o assunto está abafado, para não causar pânico à população.

Mas ele conhece alguns livros que talvez possam ser subornados e convencidos a furar a greve. Aliás, se ele conseguir, a taxa de suborno ele cobra depois.

Serão necessárias várias semanas para dar a resposta, se é que ele vai conseguir. Se não for possível, ele não vai cobrar os honorários. Apenas vai ficar com o dinheiro das despesas, naturalmente.

– Eu ligo para vocês. Aguardem, mas fica claro mais uma vez: Não prometo nada.

A dupla sai, fascinada com a aventura que acaba de viver. Por vários dias, andarão de óculos escuros, olhando para trás, para ver se não estão sendo seguidas. Não dirão nada sério ao telefone, por medo de estarem grampeadas.

Após ver pela janela que as palavras se afastaram do prédio, X-8 apanha alguns livros na estante. Desta vez ele se superou com essa da greve dos livros! Bárbara!

Faz umas anotações abreviadas com uma caneta Parker 51, que ninguém suspeitaria que ele tivesse.

Sobre a sua escrivaninha há umas canetas Bic com carga pela metade, sem tampa, que ele usa na frente da clientela. Sabe que se espera dele uma cor local completa. Se ocorre de ele ter que usar um desses objetos para escrever algo, ele lava as mãos assim que pode, resmungando: -“Baixaria”.

O corajoso investigador puxa a sua máquina de escrever, manual e barulhenta, coloca um papel de jornal e começa a batucar:

HORRÍVEL –

Vem do Latim horrere, que quer dizer “ficar de cabelo em pé, arrepiar”. Como o medo é uma causa tão freqüente deste fenômeno, horrere acabou significando “assustar, encher de medo, fazer tremer”. Daí veio horror, claro.

Existe um grande número de palavras derivadas que têm o sentido de “aquilo que causa horror”: horrendo, horribilidade, horridez, hórrido, horrífero, horrífico, horrível, horrorífico, horrorizante, horroroso. Parece que há tanta causa de horror no mundo que tiveram que inventar várias palavras para dar conta da situação.

Mas todos se devem lembrar que horripilar, que vem do Latim horror mais pillum, “pelo, cabelo”, significa “ficar de cabelo em pé”, mesmo que a causa não seja o medo.

O Inglês usou por algum tempo a palavra horrid significando “cabeludo, hirsuto, arrepiado”, mas já a abandonou.

Aplicando esta palavra existe uma frase muito sonora: Horresco referens, “Arrepio-me só de contar”. Faz parte do Livro II da Eneida, onde Enéas descreve
as serpentes que saíram do mar para matar Laocoonte, o adivinho que se opunha à entrada do Cavalo de Tróia na cidade. É uma frase de muito efeito em meios cultos ao se descrever alguma coisa desagradável.

CRIATURA –

Do Latim creare, “produzir, criar”. E esta deve ter vindo de crescere, “crescer”.

Do particípio passado desse verbo, creatus, foram feitas as palavras criador, criatura, criado (esta última no sentido de “serviçal”).

Em Espanhol, criado tinha o sentido de “afilhado”. Seu diminutivo, criollo, começou a ser usado nas Índias Ocidentais para os filhos dos senhores brancos com negras ou nativas. Logo, a palavra crioulo designa um mestiço, e não uma pessoa de raça negra, como muitos pensam.

Já que falamos em crescere, é bom lembrar que crescente vem daí, como qualquer um vê. O que talvez nem todos saibam é que o croissant, o pãozinho tão apreciado, tem a mesma origem. Esta palavra é francesa e faz alusão, diz a História, à criação deste pão na forma do crescente, símbolo muçulmano, para comemorar a derrota dos turcos que cercavam Budapest em 1686.

acréscimo e incremento são outros derivados.

X-8 guardou o papel numa gaveta, de onde só seria tirado dali a mais ou menos um mês, para ser entregue às clientes.

Semanas depois, após as palavras saírem, assanhadas, com o papel na mão, X-8 ficou olhando para a rua mal iluminada, pensando que valia a pena passar por todo aquele trabalhão para ver uma palavra se sentir feliz.

Puxou o maço de notas do bolso e o conferiu mais uma vez. O que seria do mundo das palavras sem ele?

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