Em: Conversas com meu Avô

Adivinhando

Eu andava pelos 15 anos e estava contestando tudo, menos o meu avô. O velho cavalheiro tinha dentro do meu coração um lugar do tamanho de sempre, e eu sabia que a recíproca era verdadeira.

Entrei no seu gabinete enquanto ele desempoeirava alguns objetos, já que ele não deixava ninguém mexer naquele lugar sagrado. Entre eles estava a pequena bola de cristal que eu conhecia há tantos anos.

– Era com isso que o senhor ganhava a vida no circo antigamente, Vô? – eu sabia que ele gostava de ser provocado.

– Não, naquele época eu era pago para livrar as cidades do interior dos adolescentes incômodos. De um dia para outro eles sumiam. E os leões e tigres do circo ficavam cada vez mais gordos.

Ele disse isso com sua habitual seriedade. Quem não o conhecesse poderia acreditar até que ele estivesse dizendo a verdade, confessando crimes que já tinham prescrito e dos quais ele podia se jactar agora.

– Ah, Vô, deixe disso! Dê uma olhada no meu futuro aí, conte-me uma coisa boa!

O velho não se apertava. Colocou a bola à sua frente, na escrivaninha, fez um ar de profunda concentração, colocou as mãos na testa; olhou-me com aqueles olhos claros que tanto podiam cortar ao meio uma pessoa como derramar mel numa alma necessitada e disse, voz cavernosa:

– Você… Você… O seu futuro é negro… Vejo a cadeia, privações, credores atrás de você… Vejo-o levar várias surras… Espere! Há uma luz ali! A salvação existe! Basta pegar o balde e um pano e lavar o meu carro e limpar o chão do meu gabinete que você receberá indulgência pelas suas próximas malfeitorias. É a única solução.

– Acho que vou enfrentar a cadeia mesmo, Vô.

– Problema seu. – encolheu os ombros e continuou a passar o pano na bola. – Já que você falou nisso…

– É isso aí, Vô! Fale algo sobre esse negócio de adivinhação!

– Certo. Adivinhar, por exemplo, vem do Latim divinare, “predizer o futuro”, de divinus, “divino, relativo a um deus”, que veio de divus, “deus”.

Mais antigamente ainda se presume como raiz para esta palavra o Indo-Europeu diw-, “brilhante”. Veja como a noção de um deus como um ser brilhante é antiga. Esta raiz gerou também Zeus, o Pai dos Deuses gregos. E a própria palavra “Deus”.

Adivinhar se formou porque a atividade de olhar para o futuro pertencia aos deuses.

Os que previam o futuro eram também chamados de vates em Latim, de vaticinium, “previsão”. Mais tarde essa palavra serviu para designar os poetas, pois dizem que um poeta também é um adivinho.

– E previsão, Vô, vem de “pré” mais “ver”?

– Isso mesmo, meu etimologista. Você tem futuro. Distante, mas tem!

Fiquei contente, pois era difícil arrancar um elogio do velho.

– Então quer dizer que o desejo de saber sobre o futuro é antigo, hein, Vô?

– Parece ser um dos desejos mais velhos da humanidade. Quem faz isso não percebe que o futuro não é feito só de boas notícias. Por isso é que sempre se recorreu aos oráculos.

Esta palavra foi cunhada no Latim; oraculus era apenas o diminutivo de os, “boca”. Assim os romanos pareciam dizer que a voz do destino é pequenina e por isso nem sempre podemos nos antecipar de modo a tirar o melhor da vida.

Entre as muitas palavras que vieram de os estão oral, oração, orador, adorável.

– E essas outras palavras, como se relacionam com os? Só têm em comum o “O” do começo!

Oral e as outras vêm de uma das formas de os, que era oris. Oral quer dizer “referente à boca”. Oração, orador, vêm de orare, “usar a boca”, seja para fazer uma prece, seja para fazer um discurso. Adorável é algo ou alguém para quem você reza. Na sua idade, “alguém”. adorar é o verbo que expressa essa ação.

Os gregos da era clássica dificilmente tomavam qualquer decisão de importância sem consultar um oráculo.

– Já se usava a bola de cristal naquela época, então?

– Nada disso. Havia um ritual complicado. Mas deixe-me contar desde o início: a mãe do poderoso deus Apolo, enquanto ainda grávida dele, fora perseguida por uma serpente monstruosa chamada Pýthon. Mais tarde, Apolo se vingou: matou o monstro a flechadas, arrancou a sua pele e com esta cobriu a trípode (um banco de três patas, como o nome diz) onde viria a se sentar a sua sacerdotisa.

É por isso que a sacerdotisa e intérprete dos desejos de Apolo se chamava Pitonisa.

Para ela profetizar, o consulente pagava uma taxa. Depois fazia um sacrifício animal. Aí a Pitonisa descia para um determinada parte do templo, bebia água de uma fonte sagrada e mascava folhas de louro. Dizem que também respirava gases que sairiam do fundo da terra, mas não há confirmação disso. Então ela balbuciava palavras que ninguém entendia, salvo os sacerdotes que ficavam na sala ao lado.

Eles escreviam o que tinham entendido e davam o papiro ao cliente. No começo era em verso, mas depois começaram a usar a prosa mesmo, que dava menos trabalho. Houve épocas em que havia três pitonisas trabalhando no mesmo templo.

As pessoas que se dedicavam a isso exerciam a mântica, “a arte da adivinhação” – manteia em Grego. Esta palavra vem do Grego maínesthai, “estar possuído por um deus”.

– Nunca ouvi falar nessa mântica, Vô.

– Ouviu sim, só que misturada com outras palavras. Você se lembra da sua tia Helena dizendo que ia procurar uma cigana para lhe ler a mão? Que ela queria uma boa quiromante?

– E eu que pensei que isso era uma espécie de cozinheira…

– E ficou com essa idéia porque não pesquisou, nem mesmo perguntou. Curiosidade, meu rapaz! Não fique com dúvidas! Mexa esse seu cerebrozinho de minhoca!

Mas está aí: quiromante é uma pessoa que lê a sorte nas mãos, do Grego kyros, “mão” mais manteia. Há quem acredite que o desenrolar da vida da pessoa está escrito nas linhas da mão. E há quem lucre com isso. Bem feito!

E onde mais se podia ler o futuro?

– Numa porção de lugares, a julgar pelas diversas especialidades que eram exercidas por esta gente. Por exemplo:

Na hepatoscopia se retirava o fígado de um animal sacrificado e era feito o estudo dele. Os Etruscos eram muito chegados a esta atividade.

Havia a eonomancia, que consistia em observar o vôo das aves para tentar prever a resposta a certas questões. Assim, após um ritual, conforme tal tipo de ave voasse alto ou baixo, afastando-se ou aproximando-se do local, assim ou assado, o sacerdote chegava a uma conclusão.

Podia-se usar da piromancia, de pyrós, “fogo”, fazendo a observação atenta das formas cambiantes das chamas de um fogo aceso em determinadas condições.

Também existia a oniromancia, de oneiros, “sonho”. Existia um sujeito, o onirokrites, que estudava o sonho alheio e o interpretava.

– Mas ou menos como o psiquiatra de hoje, Vô?

– Não. Bem diferente!

– E que mântica o pessoal da previsão do tempo faz?

– Esta tenta ser uma ciência, mas lida com parâmetros tão variáveis que por enquanto não consegue um número muito grande de acertos. Algum dia será mais precisa.

– E os profetas de que aquele pregador que andava atrás do senhor tanto falava?

– Arre, nada pior do que ter uma pessoa tentando converter a gente. Com aquilo aprendi a não tentar discutir cientificamente com eles nem dizer que pertenço à seita dos Velhinhos de Satanás, como eu fiz…

Mas profeta vem do Grego >prophetés, de pro-, “adiante” mais phetés, “o que fala”, de phanai, “falar”. Assim, era “o que falava antes do seu tempo”, isto é, dizia coisas sobre o futuro.

– E eles consguiam adivinhar mesmo?

– Conseguiam infalivelmente, pelo menos quando faziam o que se dizia em Latim Vaticinium ex eventu, “a profecia a partir do acontecimento”. Muitas vezes eles convenciam os outros que haviam previsto antes o que já tinha acontecido. Tinham lá as suas técnicas.

Outra frase dessas que me ocorre agora é a conhecida Nemo propheta in patria, “Ninguém é profeta na sua terra”. Ou seja, costumamos não acreditar nos talentos que estão próximos a nós.

Muito bem, meu rapaz, agora minha bola de cristal está dizendo que está na sua hora de ir para casa jantar, senão o futuro do seu estômago será muito vazio. Até outro dia.

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