Em: Consultório Etimológico

Advogado

Qual a origem da palavra advogado??

Resposta:

Ela deriva do Latim ADVOCATUS, particípio passado de ADVOCARE, “chamar junto a si”, formado por AD, “a”, mais VOCARE, “chamar, apelar para”, já que este profissional é chamado para ajudar seu cliente quando necessário.

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Em: X-8 Detetive Etimológico

Emboscada!

 

Um edifício com cinco andares, paredes descascadas, numa esquina escura. O quarteirão se apresenta em estado deplorável de desleixo: o lixo nas ruas é tanto que dificultaria o trânsito.

Felizmente quase não passam veículos por ali, que ninguém tem tanta coragem assim. Nas calçadas é difícil caminhar pelo mesmo motivo, mas também não é comum ver gente andando por ali, ainda mais à noite.

As janelas do edifício estão todas fechadas. O prédio é tão mal-encarado que só de olhar se percebe que boa coisa é que não acontece por trás delas.

Epa! Um engano. Uma delas está aberta, deixando entrar a fuligem do ar num dos estranhos escritórios que existem no prédio. O vidro de guilhotina está levantado, a cortina está afastada e, vejam só, dá para enxergar o ocupante de peça olhando para a rua.

Ele aparece e desaparece, conforme o cartaz luminoso logo à sua frente acende e apaga. É um sujeito que usa uma gabardine cor de palha e um chapéu. Essa combinação é inusitada, ainda mais que faz calor. Mas ele sabe que precisa manter o mistério em torno de sua pessoa, de modo que se veste para que ninguém veja o seu rosto.

São as exigências de um ofício muito especializado e perigoso. Sim, pois o indivíduo à janela é nada menos que X-8, o Detetive Etimológico. Ele fez de sua vida uma cruzada para ajudar o idioma vernáculo, esforçando-se por iluminar as origens das palavras que o consultam.

Nesse meio tempo ele aproveita para ganhar uma bela grana. Mas as pesquisas dele valem cada centavo cobrado. Pelo menos é o que ele diz.

Ele observa o movimento dos ratos e morcegos lá fora. Parece distraído. De súbito, mete a mão no bolso interno da capa e a retira rapidamente com um objeto. Será um revólver Magnum .357? Uma Colt .45 customizada? Uma pistola Ruger .40?

Nada tão dramático. É apenas uma caixa de cigarros. Ele coloca um dedo pela abertura e retira o objeto alongado que lhe trará prazer oral por uns minutos.

É um chiclete de tutti-frutti, que ele desembrulha e coloca na boca.

Um detetive precisa corresponder à romântica sensação de perigo e incorreção que se espera dele. Como ele não suporta cigarro, leva balas e chicletes na caixa de cigarros, cuidando de jamais a abrir na frente dos outros.

Naturalmente que ele não masca chicletes de menta ou hortelã, que acha demasiado fortes. Só os doces.

Em plena atividade ruminatória, ele repara num trio que cruza a rua lá embaixo. São três figuras furtivas, olhando para todos os lados. Eles têm algo que desperta o fino faro do detetive.

– Será que vêm consultar comigo? – Pensa ele.

Senta atrás da escrivaninha e fica prestando atenção na porta.

Dito e feito: dali a pouco batem e entram três palavras.

Querem consultar com o famoso detetive e se apresentam: são Indentidade, Reinvindicar e Planfeto. Com olhares nervosos ao seu redor, diz a primeira:

– A gente tem tido muito uso, somos chamadas a toda hora e assim dá para faturar uma graninha no fim do mês. Soubemos por umas conhecidas que o senhor consegue descobrir de onde a gente veio e estamos interessadas em contratá-lo para isso.

Planfeto, que tinha ficado perto da porta de entrada, como se estivesse pronto para fugir a qualquer momento, acrescentou:

– Pois é, eu poupei bastante nas últimas eleições, quando tive bastante trabalho. Não agüento mais de ansiedade por saber minhas origens…

Reinvindicar, que espiava todos os cantos do escritório empoeirado, disse:

– Eu particularmente tenho entrado em tudo que é greve, de modo que dá para enfrentar um gasto desses. De qualquer modo, não deve custar muito, não é? – aparentemente essa idéia tinha surgido após uma avaliação do desleixo em que se apresentava o local.

Nem desconfiava a palavra que aquele desmazelo todo era cuidadosamente pesquisado e trabalhado para dar a sensação de um legítimo muquifo de detetive de segunda classe da década de 1950.

O atento X-8 tinha diversas revistas de desdecoração e volta e meia alterava o aspecto do aposento com saquinhos de poeira em pó, rachaduras autoadesivas, teias de aranha feitas da mais fina seda e outras novidades que eram lançadas no mercado.

Ele respondeu:

– Engano seu. Devo avisar que minha hora de trabalho não é barata. Além do preço da mão de obra propriamente dita, o Ministério do Trabalho me obriga a recolher impostos, taxa de risco, taxa de perigo, taxa de insalubridade, taxa de Equipamentos de Proteção Individual. Preciso da verba de suborno para bibliotecários; tenho gastos com disfarces, táxi, alimentação, hospedagem; pago informantes em geral. Despendo em aluguel e taxas municipais. – o que era grossa mentira, pois a Prefeitura tinha desistido há muito daquela parte da cidade, que nem sequer era mencionada entre os cidadãos de bem, os quais fingiam que aquela excrescência não existia.

– O serviço que vocês querem, se não surgirem maiores problemas, vai custar… e disse uma soma que fez arregalar os olhos do trio num primeiro momento. Um segundo depois, eles disseram, em uníssono:

– Topamos!

– Muito bem. Deixem um modo de contato e eu os chamarei em poucas semanas.

Feito isso, os três saíram rapidamente. X-8 ainda os viu passarem compridos pela calçada lá embaixo, aparentemente muito alegres.

O detetive ficou pensativo por alguns minutos. Dirigiu-se ao telefone e fez uma ligação. Falou e escutou por um bom tempo, a expressão grave. Fez diversas combinações.

Depois, pegou sua caneta Parker 51 e seu papel especial, mas não se dirigiu à estante de livros. Sentou-se à escrivaninha e começou a escrever.

Mais tarde, passou a limpo o que tinha feito.

“Passar a limpo”, no caso, era apenas forma de expressão. Nada do que era escrito naquela máquina antiga podia ser chamado de “limpo”. Mas era isso o que a clientela esperava. Uma folha impecável feita em computador tiraria toda a graça e o romance de consultar com uma pessoa assim tão anacrônica.

Após bater as duras teclas redondas por algum tempo, ele revisou o produto da sua mente:

PLANFETO:

Esta palavra vem do Italiano plan fatto, ou seja, “plano feito”.

Na época do Renascimento, os revolucionários italianos que lutavam preventivamente contra uma eventual dominação japonesa faziam os seus esquemas de luta armada e os distribuíam nas esquinas das principais cidades por meio de moças e rapazes.

Quando as carruagens paravam por ordem dos guardas de trânsito, os papéis eram entregues como se fossem inocentes volantes de propaganda de prédios em construção, modelos de gôndola, etc.

A palavra plan tem, naturalmente, relação com o Latim planus, “chato, liso“. Os conspiradores que recebiam os papéis, para se certificarem de que aquilo não era uma armadilha dos serviços de Pré-Contra-Insurgência japoneses, verificavam se o papel estava bem lisinho e se o estilo de redação era chato, o que se avaliava pela sonolência que a leitura acarretava.

Acresce que a palavra fatto tem uma ligação com a palavra fetta, “fatia”. A forma de demonstrar que a pessoa que tinha recebido o papel pertencia à conjuração e iria seguir o que ali estava dito era ela se dirigir à pizzaria mais próxima e comer pelo menos uma fatia de pizza, o que ocasionou um notável surto de obesidade entre os revolucionários.

O resultado dessa situação histórica é controverso. Até alguns anos, não se discutia o heroísmo do movimento, que era apontado como um das mais bem sucedidas lutas de independência do mundo, já que o Japão nunca dominou a Península.

No entanto, há pesquisadores iconoclastas que dizem que o Japão nunca tinha pensado em atacar a Itália e que tudo isso não passou de uma grande esperteza dos pizzaiolos, das gráficas, da indústria de papel e das empresas de entrega de propaganda nas esquinas.

Uma definição final dependeria de exames de DNA e de Carbono-14 das folhas de papel e das fatias de pizza envolvidas, mas até agora não foram obtidas amostras adequadas.

REINVINDICAR:

Esta palavra tem uma origem mista. Começa por rei, do Latim rex, “rei”.

A segunda sílaba é o Francês vin, “vinho”.

E o final da palavra se prende ao Latim dicularius, o escravo que exercia as funções de “dedo-duro”, “aquele que dá a dica” para as forças policiais da época.

Como havia poucos escravos que se prestassem a esse papel (ao serem convidados para a função, diziam, orgulhosamente: Sclavus sum, non traditor! – “Sou escravo, não traidor!”), aqueles que assumiam a função acabavam desenvolvendo uma artrose entre as falanges do indicador destro de tanto andarem com ele esticado, de modo que a expressão “dedo-duro” era literal.

Tentaram disfarçar colocando a mão numa luva, mas de alguma maneira as pessoas acabavam descobrindo. Nesse processo inventaram a luva de box, o que tampouco lhes adiantou para se disfarçarem porque, como esse esporte não existia na época, portar uma luva daquelas já dizia como é que aquela pessoa ganhava a vida.

Enfim, a palavra toda quer dizer “vinho indicado pelo rei”. Como os reis são considerados conhecedores das melhores coisas dos seus reinos, se Sua Graciosa Majestade indicava um vinho, este era com certeza muito bom.

Quando os camponeses na Idade Média faziam greve, uma das coisas que eles pediam era a melhora dos vinhos zurrapas que eles bebiam; queriam sempre as escolhas reais, “os vinhos apontados pelo rei”.

Daí o grande interesse nas reinvindicações das greves de hoje em dia.

INDENTIDADE:

Nas eras em que os Fenícios estavam comerciando pelo Mediterrâneo, eles perceberam que era necessário inventar um modo que permitisse ter certeza de que uma pessoa era quem ela dizia ser ou se estava se passando por outra, para fazer algum roubo ou malfeitoria.

Foi inventado então um método que consistia em fazer a pessoa morder um pedaço de argila, deixá-lo secar e guardá-lo para posteriores comparações.

Assim, se surgia dúvida sobre uma pessoa em, digamos, Cartago, era feito um novo molde da sua mordida e enviado a Tiro, onde eram centralizados os arquivos. Ali, escribas peritos comparavam os dois pedaços de argila e enviavam as respostas, num laudo escrito em papiro.

Como o processo se baseava em fincar o dente (dens, em Latim) “em” (in, em Latim) argila, ele acabou conhecido por indentificatio, de onde vem a nossa Indentificação.

Menos de duas semanas depois, as três palavras sobem, em hora rigorosamente predeterminada, até o escritório de X-8.

Entram e são recebidas por aquela figura, que faz o que mais gosta de fazer: estende a mão para receber seu pagamento. As palavras pagam sem chiar e são convidadas a ler os resultados da pesquisa. Cada uma lê em voz alta o que lhe diz respeito, com estranha pressa, enquanto as outras não param de relancear os olhos ao redor. Terminada a leitura, X-8 pergunta:

– Certo?

– Certo. – respondem em uníssono as palavras.

– Errado! – grita o detetive.

A este sinal, a porta do escritório se abre e dá entrada a vários policiais armados, que algemam as três assustadas palavras antes que elas possam reagir.

Passado o estupor do primeiro momento, elas se debatem, gritam, fazem o maior escândalo, completamente histéricas, enquanto o Chefe de Polícia lhes dá voz de prisão por ignorância, formação de quadrilha, má pronúncia, indução ao erro e falsidade intelectual.

A vizinhança do andar, acostumada com gritarias estranhas, fica muito quieta, à exceção do adevogado novo que se tinha instalado havia um mês no mesmo andar e ainda não tinha atendido ninguém.

Sentado tristemente no escritório, ao ouvir aquele barulho todo farejou clientes e se dirigiu ao escritório do detetive.

Chegou e prestou atenção ao que o Chefe dizia às palavras que perguntavam, aos berros, por que estavam sendo presas:

– Vocês três são falsificações. As verdadeiras palavras são Identidade, Reivindicar e Panfleto, que já investigamos e que são palavras honestas e cumpridoras dos seus deveres. Seja por má fé, seja por ignorância, vocês cometeram um crime contra o vernáculo e serão presas.

– Mas que mal a gente fez? – Diz Planfeto.

X-8 não consegue se conter:

– Muito mal, seu Planfeto, muito mal. Palavras como vocês, mal escritas e mal pronunciadas, levam muita gente a se acostumar com incorreções, a achar que uma alteraçãozinha aqui e ali não faz mal e a perpetuar erros. Nosso idioma já está tão mal cuidado que não podemos nos dar ao luxo de ter esse tipo de conduta entre nossas palavras.

Para que vocês saibam, Panfleto tem origem controversa: vem ou de Pamphilus, personagem de uma pequena obra anônima do Século 12, ou da expressão francesa par un filet, “por um fio”, já que se tratava de pequenas brochuras costuradas apenas com um fio.

Reivindicar vem do Latim jurídico rei vindicare, de rei, “coisas”, e vindicare, “reclamar”. E Identidade vem do Latim idem, “o mesmo”.

– C-como foi que nos descobriram? – quis saber Reinvindicar.

– Assim que vocês entraram aqui na outra vez eu vi que vocês estavam erradas. Eu só não sabia se vocês sabiam disso. Fiz umas combinações com o Chefe de Polícia aqui e, quando apresentei a vocês aquela quantidade de bobagens etimológicas, nenhuma de vocês estranhou nada, apesar dos absurdos. Deu para ver que vocês queriam era poder apresentar um documento de uma pessoa credenciada como eu para irem entrar em uso pela boca de pessoas incautas. Mas, se depender de mim, jamais! Tudo o que foi dito aqui dentro foi gravado e servirá no juízo contra vocês.

Ouviu-se uma voz melosa vinda da porta de entrada:

Data venia, sou adevogado e vejo que aqui está sendo feita uma prisão indevida. Pois não podem estas palavras, pobres bodes expiatórios dos altos poderes, estar sendo vítimas de uma síndrome tão comum quanto a epêntese, fenômeno linguístico em que se intercala um som inexistente no meio de uma palavra e… – voltou-se para as figuras presas:

– Para continuar preciso que vocês três assinem esta procuração e adiantem algum dinheiro para custos iniciais.

As três palavras estenderam suas mãos algemadas para a Bic de tampa roída que ele puxara do bolso. Os policiais estavam sem saber o que fazer, quando a voz cortante do intrépido detetive saiu do espaço entre a aba do chapéu e a gola da gabardine:

– PRENDAM ESSE SUJEITO!

Os policiais, agora aliviados, colocam as algemas com todo o cuidado nele, que berra contra a brutalidade policial. O Chefe olha para X-8 com ar interrogativo:

– Olhe bem, Chefe! Ele é Adevogado! Está exatamente no mesmo caso desse pessoal que o senhor acaba de prender. Ele também é uma palavra errada e ainda se mete a tentar defender as outras! Todos sabem que o correto é advogado, do Latim ad, “junto”, mais vocare, “chamar”, pois quando uma pessoa precisa de defesa chama alguém para a representar.

Adevogado reclama, veemente:

– Não tive culpa ou dolo, o que importa é que nenhum dano ocorreu a ninguém e que a idéia do legislador não era essa, e sim fazer com que o princípio da razoabilidade permita levar avante a tarefa de construir esta nossa grande nação sem que o rigor excessivo da aplicação da fria letra da lei a desprezíveis imperfeições leve a condutas despropositadas por parte das autoridades, configurando o cerceamento da defesa a que qualquer um, dentro do nosso modus jurídico, tem direito! Aqui falta o fumus boni juris! – olhou para a cara feroz do Chefe e o seu enorme punho fechado e sua voz se transformou num fio:

– As faculdades hoje em dia… Eu não sabia… Tive uma infância sem livros… Sou um caso de suarabácti, meus pais não tinham dinheiro para me tratar…

O Chefe olhou para X-8, impressionado com o nome da doença. O detetive fez um gesto de desprezo:

– Esta é uma doença de palavras de origem sânscrita e quer dizer “intercalação de uma vogal”. Desculpa de rábula para admitir erros de Ortografia.

– Muito bem, pessoal! – falou o Chefe. Levem os quatro para o camburão e vamos sair logo deste bairro infecto – olhou de relance para X-8 – ou melhor, perigoso.

Os policiais se despediram do detetive e desceram com a sua presa.

X-8 olhou da janela as quatro palavras falsas serem colocadas na camionete negra. Sabia que elas iriam passar a noite na Delegacia, que seriam julgadas com urgência na manhã seguinte e que seriam condenadas ao Reformatório de Palavras.

Neste, elas teriam que assistir a aulas de Ortografia, Gramática, Etimologia, Sintaxe e outras matérias. As que fossem aprovadas seriam reintegradas na sociedade, podendo ser usadas novamente, acompanhadas por funcionários designados.

As outras… Melhor não pensar nisso. X-8 sentiu arrepios ao se lembrar da borracha gigante guardada na Sala de Execuções.

– Enfim, – pensou ele – mais uma vez nosso idioma foi protegido, com uma certa ajuda de minha parte.

E foi contar o dinheiro que tinha cobrado das palavras e que elas não tinham reclamado.

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