Em: Assunto da Edição

COISAS QUE ESPETAM

 

Muitas vezes a gente pega algo que causa uma lesão punctória, cortante ou pérfuro-cortante em nossa pele. Trocando em miúdos: que nos espeta ou corta. Vamos dar uma olhada nas palavras que expressam essa capacidade de nos fazer gastar em band-aids.

 

agudo  –  do Latim acutus, “pontudo, aguçado”, de acuere, “fazer ponta em”.

O sentido médico de “moléstia que surge e desaparece repentinamente”, em oposição a “crônico”, começou ao redor de 1660.

Usa-se figurativamente em relação a uma inteligência que penetra uma situação como se atravessasse barreiras.

 

ACUIDADE  –  também de acutus; pode referir-se à inteligência, como citamos na última
frase, ou à capacidade de órgãos sensoriais ou mesmo aparelhos de medida.

 

PONTUDO  –  do Latim punctum, particípio passado de pungere, “fincar, espetar”. Este verbo originou nossa palavra pungente, “aquilo que desperta uma sensação física aguda, intensa”.

 

AFIADO  –  do Latim affilare, de ad-, “a”, mais filum, “fio”. Ou seja, fazer algo se assemelhar a um fio, estreitar a ponto de tornar cortante.

 

CORTANTE  –  do Latim curtare, “encurtar, reduzir, cortar”, de curtum, “curto”.

 

LÂMINA  –  do Latim lamina, “folha, camada, prato, peça achatada de metal”, de origem anterior desconhecida.

 

ARESTA  –  do Latim arista, “barba de espiga de trigo, aresta”, pela capacidade cortante daquela.

 

ESPINHO  –  do Latim spina, “espinho”. Passou a significar também em Latim, mais tarde, “coluna vertebral”, daí a nossa espinha dorsal.

 

ACÚLEO  –  é aquele das rosas, que nos espeta quando levamos essas flores para nossas namoradas. Veio do Latim aculeus, “aguilhão, ferrão”, provavelmente por relação
com acutus.

Favor não confundir “espinho” com “acúleo”; aquele é um órgão que vem do fundo do tronco ou galho e só pode ser arrancado lesionando a planta; o acúleo pode ser retirado sem dificuldade e sem maiores danos.

 

AGULHA  –  deriva do Latim acus, “agulha, alfinete”, e também se relaciona com acutum.

 

ALFINETE  –  veio do Árabe al-filed, “alfinete”, com provável mistura com a palavra “fino”.

 

PRESA  –  com o sentido de “dente canino de certos animais”, vem do Latim prehendere, “prender”, pois elas servem para prender o animal caçado na boca do predador.

 

FERRÃO  –  deriva do Latim ferrum, “ferro”, pois este metal se presta para fazer
instrumentos aguçados.

 

AGUILHÃO  –  veio do Latim aquileo, um derivado de aculeus.

 

FINCAR  –  do Latim figicare, “cravar, fincar”. O exército romano conjugava muito este verbo quando partia em campanha.

 

ESPETAR  –  atualmente um espeto serve basicamente para fazer churrasco. Mas espetar em outras épocas descrevia coisas desagradáveis que uma lança pode fazer com o corpo humano. Deriva do Gótico spitus, “espeto, pique”.

 

 

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Em: Consultório Etimológico

Humor

Estava eu lendo o artigo http://origemdapalavra.com.br/artigo/catedral/
E ao me deparar com o trecho abaixo rolei de rir.
“A intrigante figura segue por mais umas duas quadras. Pára, olha ao redor de maneira escandalosamente disfarçada. Abaixa-se para amarrar o sapato direito.

Levanta-se, olha ao redor e se abaixa para amarrar o outro sapato. Anota mentalmente que esta manobra é sempre mais convincente quando os sapatos são de amarrar.”

Costumo imaginar as cenas enquanto leio, e isto deixou o texto ainda mais engraçado. Parabéns pelo excelente e aguçado senso de humor.

Aproveito este post para mandar algumas palavras (nem todas relacionadas ao texto):

1 – aguçado
2 – paladino
3 – desejo
4 – província
5 – prosaico
6 – prosódia

Imagino que as 2 últimas derivem de “prosa” correto? Mas mesmo que seja este o caso, como se saiu de prosa e se chegou a respectiva palavra?

ps. não é birra minha não einh… mas antes de postar minha última consulta, eu tinha olhado a lista de palavras e “birra” não estava lá. Vocês a adicionaram depois (correlacionando-a com “embirrar”) ou eu que estou viajando na maionese (cansei da batatinha)?

Resposta:

X-8 manda agradecer o elogio e confessa que a ideia não era essa, que ele é meio desastrado mesmo.

1) Do Latim ACUTUS, “agudo, com ponta”.

2) Do Francês medieval PALADIN, “guerreiro”, do L. PALATINUS, “autoridade da corte, do palácio”. Vide “palácio” na Lista de Palavras.

3) Do L. DESIDERIUM, de DESIDERARE, “esperar por, desejar, ter expectativa, exigir”, cujo sentido original talvez tenha sido “esperar pelo que as estrelas trarão”, de DE SIDERE, “dos astros”.

4) Do L. PROVINCIA, “território sob o domínio romano”, dado como resultante de PRO-, “à frente”, mais VINCERE, “vencer”.

5) Derivado do L.  PROSA, da expressão PROSA ORATIO, “linguagem direta, sem os ornamentos da poesia”, de PRORSUS, “direto, simples”, de PROVORSUS, “mover-se em linha reta”, de PRO-, mais VORSUS, “voltado para”, de VERTERE, “virar-se”.

6) Do Grego PROSOIDÍA,  “canção com letra”, também “sotaque, modulação”, de PROS, “para”, mais OIDE, “canção, poema”.

E “birra” está ali naquele lugar desde outubro do ano passado. Mas não se preocupe, a idade chega para todos, isso acontece, tome bastante vitamina que não passa.

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Em: Assunto da Edição

Acentos, Etc.

Existe, na maioria dos idiomas, uma série de sinais que são usados para facilitar a escrita e a leitura. Eles têm o poder de modificar o valor de uma letra e são chamados de sinais diacríticos.

Em nosso idioma, eles compreendem os acentos e os sinais que conhecemos por cedilha, til e trema.

Como é hábito nesta seção, vamos explorar as origens dos seus nomes.

DIACRÍTICO – palavra estranha, essa. Vem do Grego diakritikós, “aquele que pode distinguir, que consegue separar”, do verbo diakrinein, “separar um de outro”, formado por dia-, “através, por meio de”, mais krino, “separar, discernir, distinguir”.

ACENTO – vem do Latim accentus, “tom, canção ajuntada à fala”, particípio passado do verbo accinere, formado por a-, “junto”, mais canere, cantar.

São sinais que servem para indicar a subida ou descida do tom de voz ou se a vogal a ser emitida é aguda ou grave.

CIRCUNFLEXO – vem do Latim circumflexus, “dobrado ao redor”, formado por circum, “ao redor”, que deriva de circus, “forma redonda, anel”, mais flexus, “dobrado, fletido”, particípio passado de flectere, “dobrar”. O nome se deve à forma deste sinal; neste caso, é como se a gente dobrasse uma barra de metal ao redor de algo para formar um ângulo reto.

Circunflexão é o que os fiéis fazem na frente do altar, dobrando os joelhos.

agudo – é o acento que indica um aumento de freqüência na voz; torna aguda a vogal por ele marcada, como em , , .

Seu nome vem do Latim acus, “agulha, objeto cortante, pontudo”.

Uma coisa feita acuradamente é algo que foi feito com precisão, como quando se toca algo pequeno com a ponta de uma agulha.

GRAVE – atualmente, serve para para mostrar que houve crase, isto é, união (do Grego krasis, “fusão, mistura”) de artigo feminino com preposição ou pronome demonstrativo, como à (preposição a + artigo a) ou àquela (a + aquela).

Seu nome vem do Latim gravis, “pesado, solene, som de baixa freqüência”.

TREMA – esse par de pontinhos é usado sobre o “U” depois do “Q” ou “G” para indicar que ele não é mudo, como em eloqüente, agüinha. Leva esse nome a patir do Grego trema, “pequeno furo; cada um dos buracos de um dado”.

Poucos sabem que esse sinal tem um sinônimo, diérese, do Latim diairesis, “separação das vogais de um ditongo”, do Grego diairein, “dividir, separar”.

CEDILHA – este sinal que, colocado sob a letra “C”, a faz soar como “SS”, teve uma origem interessante. Em geral se pensa que o seu nome vem dessa letra, pois só com ela é usado.

Mas não é nada disso, não. Ele deriva do Espanhol zetilla, “pequena Z”, de zeta, “Z”, que deriva do Grego zeta, “Z”.

Ocorre que os escribas da Espanha pegaram a moda de escrever, em letra cursiva,o “Z” com a parte de cima tão encurvada e aumentada que que o traço superior acabou parecendo um “C” e o resto da letra acabou apenas como um penduricalho, como se fosse um membro aleijado.

Por muito tempo se usou o “Ç” em Espanhol; agora essa letra não faz mais parte do seu alfabeto.

Com isso terminamos de ver os sinais diacríticos, mas aproveitaremos nosso espaço para examinar outros sinais de nossos teclados.

PARÊNTESES – receberam esse nome a partir do Grego parenthesis, “colocado ao lado”, do verbo parentithenai, “colocar ao lado de”, formado por para-, mais tithenai, “colocar, pôr”.

É exatamente para isso que esses sinais servem: para “colocar ao lado” de outra uma idéia ou informação.

RETICÊNCIAS – são do Latim reticentia, “silêncio”, do verbo reticere, “manter-se quieto, fazer silêncio”, que se forma por re-, intensificativo, mais tacere, “calar, não falar”.

É um sinal que se usa muito quando a gente quer dar a entender que há mais no assunto do que queremos falar…

EXCLAMAÇÃO – é um sinal cujo nome veio do Latim exclamare, “gritar alto”, de ex-, intensificativo, mais clamare, “gritar, chamar”.

INTERROGAÇÃO – do Latim interrogare, “perguntar”, formado por inter-, “entre”, mais rogare, “perguntar, pedir, questionar”.

VÍRGULA – do Latim virgula, diminutivo de virga, “verga, vara, trave, ramo”. O nome foi escolhido devido à forma do sinal.

HÍFEN – do Grego hyphén, “em conjunto com”, pois serve para unir palavras que assumem um sentido diferente de quando estavam separadas.

ASTERISCO – vem de uma das palavras que os romanos usavam para designar estrela, aster, por semelhança óbvia de forma.

PONTO – do Latim punctum, particípio passado de pungere, “espetar, furar”. No começo queria dizer “pequeno furo feito por algo aguçado”, depois passou a significar “pequeno sinal, partícula, mancha” e mais tarde tomou posse do sentido atual.

E é com ele que encerramos este artigo.

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