Em: Etimologia no Maternal

Alfabeto I

– Ajudai-me, Santo Antônio que aqui baixou o demônio! Santa Bondade, trazei de volta a normalidade! Santo Antão, desfazei esta confusão! Santo Olívio, trazei-me alívio!

Que é isto, cri-an-ças? Uma batalha em plena sala de aula, mais terrível do que a das Termópilas? Como foi que… Ah, a Patty – tinha que ser! – queria ensinar uma letra que ela aprendeu para os outros, uns não acreditaram e outros sim e então a Aninha atirou um caderno na Lúcia, que puxou o cabelo da Val, que não parou de falar mas jogou sua merenda no Arturzinho, que a comeu mas aproveitou para morder o traseiro da Angélica, que deu um pontapé no Soneca, que dormia…

Impressionante. Vocês são um exemplo vivo do que é uma reação termonuclear em cadeia. Nem estudaram Física Atômica ainda e já sabem fazer isso em sala de aula.

Juntem o que esparramaram, que enquanto isso a Tia Odete, depois de tomar mais um comprimido de Nervocalm, vai aproveitar para contar sobre a origem das letrinhas que vocês um dia vão aprender, se sobreviverem à próxima briga.

O conjunto de das letras que usamos em nosso idioma se chama alfabeto. Não, Valzinha, não tem nada que ver com o Beto que é entregador de gás da sua vizinha e que vai todos os dias lá quando o marido dela sai e leva uma hora para ver se o botijão não precisa ser trocado.

Esse nome vem das duas primeiras letras que os gregos usavam, o alfa e o beta.

A primeira resultou no nosso “A” atual. No início, a letra era uma cabeça de boi estilizada entre os egípcios, que passou para os fenícios, que foram os que realmente começaram a usar uma escrita em que havia um símbolo para cada som, com o nome de alef, “boi”.

A outra nos deu o “B”. Os fenícios a chamaram beth, “casa”, pois era a representação de uma casa simples. Ela teve certas mudanças, pois antes suas barriguinhas eram escritas para o outro lado.

O curioso é que ela passou pelo Grego e depois se perdeu lá o som dela; atualmente, ela tem som de “V” na Grécia e – calma, Robertinho, já vou contar – para se descrever o som “B” lá precisa-se usar “MP”, assim juntos.

Já o “C” tem uma história meio conturbada. Os etruscos, que vieram antes dos latinos, entraram em contato com o alfabeto grego e passaram a usar o “C” normalmente, com o som de “K”. Mas, quando os romanos começaram a ficar mais salientinhos, perceberam que faltava uma letra para o som do “G”, que os Etruscos não tinham. Então começaram a usar o “C” tanto para o som de “K” como para o de “G”.

Espere, Zorzinho, daqui a pouco eu conto como foi que desfez a confusão. Em breve você vai poder parar de rabiscar minhoquinhas em seus cadernos e usar letras de verdade, já pensou?

E o “D” tinha, em Fenício, o lindo nome de “porta”, querendo dizer “porta da vida”. Passou para o Grego como “delta”. Originalmente era um símbolo sexual feminino, mas não vou falar mais senão o Joãozinho ali vai ficar por demais inquieto.

Note-se que esta, como outras letras com uma parte arredondada, só triunfou de verdade depois de se começar a usar o papiro como meio de escrita. Fazer traços curvos na argila e na pedra é bastante difícil.

Para entenderem a história do “E” vocês vão precisar de atenção.

Acontece que os Fenícios só tinham consoantes em suas letras. Não, Ledinha, não é barbaridade nenhuma nem nada impossível; os árabes e judeus se comunicam muito bem assim hoje em dia, e escreveram muitas obras-primas desse jeito.

Mas o que conta para nós é que os Gregos viram aquela letra, o he, que representava uma grade, e que era pronunciada com um som semelhante ao atual da letra “J” usada em Espanhol. Ora, os Gregos não podiam entender um alfabeto sem vogais, que existiam em abundância em sua doce língua; eles chegavam a ter palavras feitas só de vogais.

Então resolveram pegar esta letra e atribuir-lhe um som que eles usavam e que não tinha nada que ver com o original, que foi o de “E”.

E lhe deram o nome de épsilon, querendo dizer “E desguarnecido, nu”, ou seja, sem o som aspirado que tinha entre os fenícios.

E acho que por hoje chega, que o sinal do fim da aula já soou, graças a Santa Teresa, que me livre desta empresa.

Amanhã vamos ter mais aulinhas de letrinhas, certo?

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